domingo, 18 de outubro de 2009

A Ameaça do Contínuo: conto de Luiz Felipe Vasques

Este é Edelberto Francisco Pires, 42 anos, casado e pai de dois filhos. Vocês decerto podem ver como ele é. Um homem simples, satisfeito com seu pequeno papel na burocracia de uma firma de fachada da Intempol.
E como tal, seu Edelberto - como é chamado por todos na firma - não tem a menor idéia do que seja um cartão cronal, ou uma Linha Temporal, nem nada no gênero. Seu Edelberto, assim como milhões de brasileiros, preocupa-se mais com o dia de hoje. Preocupa-se com as contas a pagar, com os filhos na escola, com a comida na mesa. Todo dia sai de casa para ir para o trabalho e todo dia volta pra casa ao sair do trabalho. Dele, não há muito o que contar. Esse é seu Edelberto.

E este é Edelberto Francisco Pires. Também conhecido como Ismael da Silva, Gustavo Herreras, Americo Indio de la Cruz, etc. etc. Idade presumível: em torno dos 40. Solteiro, até onde se sabe. Um homem extremamente perigoso, conectado com vários grupos terroristas ao redor do mundo, especialmente na América Latina, tais como os anarco-informatas conhecidos como a Coluna v5.0. Graças à coordenação Edel "El Rojo", como a mídia latina o popularizou; governos corruptos, bancos e megacorporações tiveram contas ilegais arrombadas, e seus mais íntimos - às vezes no sentido literal da palavra - segredos popularizados na Internet. Com eles, nada estava seguro.
Esse também é seu Edelberto - ao menos, em outra LT, onde as coisas foram suficientemente diferentes para que um pacato cidadão se transformasse no mais temido terrorista do início do Terceiro Milênio.
Deste seu Edelberto, há muito o que contar A Coluna v5.0 é um agrupamento de hackers que pregam a liberdade plena de informações, para que possam ser por todos compartilhados.
Laboratório 'tal' segura a fórmula para a cura definitiva da doença X, preferindo lucrar com meia dúzia de remédios que curam parcialmente? A fórmula virou shareware. Provas de desvio de verbas carecem para o impeachment de El Presidente del país? Registros suficientes aparecem na mailbox da promotoria. E qualquer um pode adaptar seu um motor pra funcionar à base de água, agora - é só downloadear os planos da Grande Rede.
Como foi dito antes, nada estava seguro.
Nem mesmo a Intempol.
Edel "El Rojo" tomara conhecimento da agência, assim como de seus métodos, através de seus amaradas hackers. Logo, pela "libertación de los oprimidos" em qualquer época que fosse, resolveu que precisava de um cartão cronal e uma caixa registradora. Ou ao menos alguns.

Momentos extremos, onde violência e os "grandes ideais" se sobrepunham aos pequenos dramas da necessidade humana sempre foram via de regra através da História. Bombas e atentados libertadores matavam e feriam simples passantes, que na maior parte se contentavam com o grande desafio de viver sua rotina. Guerras de independência envolviam, em geral, gente que sequer sentiria a diferença entre antes e depois dessa dita independência. A rotina de simplesmente ser muitas vezes era interrompida, de modo até irremediável, graças aos "grandes esquemas das coisas".
Como ao que tudo indicava, assim seria naquele dia.

***

De: Departamento de Pessoal da C&H Consultoria
Para: Supervisoria Interna
Assunto: Re: Corte de despesas.
Ref: 008756-A204C

Prezados senhores,
Sob recomendação ao pedido feito sobre a contenção de despesas para garantir o balanço do corrente trimestre, tomamos resoluções referentes baseados em técnicas modernas de administração, o que nos permitiu fazer uma reengenharia corporativa, assim minimizando parte de nossos gastos com pessoal excedente, em nome de uma economia de despesas e maior agilidade nas funções internas. ()

Segue abaixo a lista do pessoal dispensado de suas obrigações na C&H Consultoria, assim como a função absorvida.

° Mariano, Luis Anísio...Sub-Gerente do Almoxarifado.
° Barroso, Alberto Rubens.....2o. Vice-Diretor para Contatos.
° Fagundes, Hélio Terceiro....Auxiliar da Contabilidade.
° Wilton, Norberto..Supervisor de estágios.

Os funcionários abaixo citados estão em caráter avaliativo, assim como suas funções, devido à experiência dos mesmos e tempo de casa. Em uma segunda avaliação, uma das seguintes funções será absorvida, e seu funcionário devidamente dispensado de suas obrigações.

° Kelmann, Ana Maria Brandt.Sub-Secretária da Gerência.
° Pires, Edelberto Francisco...Auxiliar da Contabilidade.

***

Já não era tão jovem. E nunca fora muito inteligente. Mas na juventude fora muito bonita, no padrão que os homens chamam de gostosa.
Diferente da irmã, nunca usou óculos nem procurou esconder as formas quando a adolescência chegou - muito pelo contrário. Ao contrário da irmã, sempre foi a mais popular com os homens em quase qualquer círculo que estivessem. Claro que, ao contrário da irmã, os maridos vieram e se foram, assim como os amantes, a juventude e as oportunidades - como as de, por exemplo, ter filhos. Mas quem disse que ela quis ter filhos?
E, de repente, o dinheiro.
Ana Maria Brandt Kelmann não se orgulhava do que fizera para conseguir qualquer coisa que quisesse muito, mas também não se arrependia.
Chegara onde chegara, afinal - e não tinha disposição ou tempo para arranjar emprego, e nem mais paciência para pedir dinheiro emprestado à irmã.
Então, armada do seu melhor decote, foi rebolando ter uma conversa com algumas sugestões de como melhorar a eficiência do secretariado com o importante doutor Aristides da Costa.
Alguns gemidos podiam ser ouvidos de fora da sala.

***

- Xi, eu passo! - disse o rapaz, um mulato franzino de evidente sorriso branco - Essa mão tá demais pra mim
- Teus vinte mais quarenta aí, ô Mendes - declarou o homem no uniforme de zelador, jogando uma nota de cinqüenta na mesa e tirando uma de dez
- Fica quietinho mesmo, ô Nélio, que isso aqui é jogo de homem - respondeu para o outro.
- Eu passo - declarou um terceiro jogador, descontente com a sorte daquele dia
- escuta, cadê seu Edelberto, hein? Nunca se atrasou
- Ih, seu Edelberto tava meio na pior - respondeu o primeiro jogador - Parece que vai ser cortado. Que nem o seu Hélio no outro dia.
Sacanagem com o velho Era a roda clandestina do pôquer. Haviam descoberto um lugar há algum tempo no próprio prédio da C&H Consultoria, no depósito do almoxarifado. Cinco ou seis funcionários que se reuniam no intervalo do cafezinho e do almoço para perderem dinheiro em uma roda de jogo. Mendes do próprio almoxarifado, o boy Nélio, Matias da portaria, o secretário Antunes e seu Edelberto, da contabilidade. Em tempos de corte como aqueles, podiam-se dizer temerários por conservarem o hábito - mas não folgavam mais além do tempo que dispunham. Não por enquanto
- Mas essa demissão dele não tá certo ainda, né? - perguntou Mendes, avaliando a situação - Ô, Matias, me empresta algum?
- Eu? - perguntou o jogador que acabara de sair da rodada.
-Tá brincando.
- Não. É sério. Que eu tô sem grana pra dobrar.
- Sinto muito.
- Tá confiante assim, é, Mendes? - perguntou Antunes - Aí, sabem quem também tá pela bola da vez?
- Quem? - perguntaram em uníssono.
- Ana Maria Brandt - respondeu, como quem tinha um trunfo a revelar. Puxou mais um trago do cigarro - E aí, Mendes? Vai dobrar, pagar, pular fora.
- Péra um pouco.
- "A" Ana Maria? Xi, seu Edelberto tá ferrado - exclamou Nélio.
- Aquela que trabalha contigo? - perguntou Matias - Ih, comi muito.
- Você e a torcida do Flamengo - respondeu Antunes, desdenhando do outro - Até o nosso Nélio aqui andou pegando!
- Sei de nada não! - respondeu o rapaz, sorrindo, bem mais novo do que os demais.
- Não brinca? O Nelzim aí? - Matias pôs pilha, em meio às risadas gerais - Ainda outro dia era um menino, que pus aqui para trabalhar!
A porta do almoxarife se abriu em uma pancada, assustando os jogadores. Hesitante e cambaleando, seu Edelberto entrou, com a cara inchada.
- Porra, Edelberto! Que susto, seu Mendes cortou a bronca de Antunes com um aceno veemente, sem tirar os olhos de Edelberto.
- Ô seu Edelberto tudo bem?
- Ih, seu Edelberto tá no maior pifão - comentou em voz baixa Nélio o óbvio para todos.
Os jogadores largaram a mesa para acudir o contador, que quase caiu da pequena escada de três degraus, que descia da porta do almoxarifado.
- Opa! Segura o homem!
- Nélio, pega uma cadeira!
- Pô, seu Edelberto! Leva a mal não, mas que água, hein?!
Edelberto, entretanto, estava além de qualquer censura.
- ...dignidade! 'tendeu? Diguinidaaade!
- Do que é que ele tá falando?
- Psiu!
- Podem me botar no olho da ruua mazeu não perco uma coisa!
- e virou-se para Nélio, com o indicador levantado, demandando atenção - Sabe o que é?
- Dignidade? - arriscou o boy, incerto.
Seu Edelberto, já sentado, olhou para Nélio como se ele tivesse errado a resposta, em silêncio. O álcool atrasou seus processos mentais por alguns instantes - o outro havia respondido correto. Izzo! Dignidade!
- Gente, deixa ele um pouco, que...
- Nã-não, o Mendz xcuta, Mendz, xcuta! Eu tô bêbado!
- Tá sim, seu Edelberto.
- Psiu!!! Eu tô bêbado! mazeu sei ainda o que é dignidade! - e pontuou a última palavra como só os bêbados o fazem - Eu não vico poraí - e apontava com o mesmo indicador ao acaso - daaaaanndo pra continuar no 'mprego! Endendeu? Todo mundo entendeu?
Os demais se entreolharam. Sim, haviam entendido, e bem. Se o seu Edelberto podia ser tido como isento de alguma coisa, era de fofocas e maledicências durante todos os anos que esteve na firma. Jamais participara. Jamais dissera um A sobre quem quer que fosse, mesmo figurinhas marcadas como, por exemplo, dona Ana Maria Brandt Kelmann.
- Que é isso, seu Edelberto!?
- Psiu!! Ôô ô, vozê aí o filhote de jupa-cabra! - referia-se ao Antunes do secretariado. Nélio deu uma risada. Os demais o censuraram com o olhar - Tu mermo! O teu chefinho lá, o As, Arx...
- Aristides?
- Arischides! Isso! A-ri-chidis!
- Que é que tem o Arischi, o Aristides, seu Edelberto?
- Passou o rôudo naquela vagabunda! - e fez uma mímica enfática e nada educada com os braços para ilustrar o ocorrido. Os demais se entreolharam constrangidos, penalizados e ainda um pouco surpresos, pela coincidência dos eventos.

***

De: Chefe Louzada, Setor de Segurança Interna - Estação Central da Intempol
Para: Supervisoria Interna - Intempol América do Sul.
Assunto: Falha na Segurança.
Ref: KZR022 - Prioridade Máxima

Todas as instalações da Intempol devem assumir status de emergência máxima.
Alerta vermelho assumido em todas as instalações. O terrorista Edelberto F. Pires (ref. 2121005), conhecido como "El Rojo", conseguiu ontem invadir a subestação da Intempol de Cuzco, Peru, à LT 10029, e apossar-se de um número indeterminado ainda de cartões cronais e caixas registradoras.
Devido à intrusão por uma força externa nos computadores da Intempol, o número do registro de cada um desses equipamentos foi adulterado, impossibilitando a Central de desativá-los.
Os terroristas com "El Rojo" são estimados em uma dúzia, de acordo com relatos dos sobreviventes da subestação Cuzco e os registros da segurança interna. Todos armados e de altíssima periculosidade. As ordens são atirar para matar assim que qualquer um deles for avistado. Informações sobre os indivíduos seguem em anexo ()

Mais essa, agora - rosnou a Supervisora Mariete, com ambos os memorandos na mesa. Não suportava quando tinha que fazer o papel de administrador, ou de burocrata para as fachadas da Intempol. Como se já não tivesse trabalho suficiente para coordenar os agentes da Intempol, ler relatórios, recrutar novatos, coordenar e distribuir missões, pensar em corrigir as burradas alheias, levar broncas e advertências dos superiores, etc. Etc. Etc.
Olhava agora para dois dos seus subordinados, Jansen e Aguiar. Todo mundo já havia voado atrás de suas funções, correndo pelo Tempo afora, tentando, por exemplo, impedir que a intrusão sequer houvesse. Aqueles dois - de bem de longe dos mais brilhantes de que dispunham a agência - recebiam as ordens dela para o patrulhamento em agências secundárias, as ditas de fachada.
– Como a - quem adivinhar leva um doce - C&H Consultoria.
- Na Consultoria? Que zorra é essa? - perguntou Aguiar, na habitual finesse.
- É aqui do lado, mané! - respondeu Jansen - A firma de fachada!
- Ah, tá.
- Prestem atenção - exigiu a supervisora, reunindo o que faltava de suas forças - Vocês vão até a Consultoria, falem com o Ferreira do RH e digam que você são a segurança enviada pelo Gérson. Entenderam?
- Só?
- Só. Nada será tido por escrito, nem assinado. Em tese, essa papelada já foi resolvida. Ninguém lá sabe quem nós somos de fato. Entendidos? - e, ante a confirmação da dupla, emendou - Ótimo. Agora peguem os crachás da C&H e sumam daqui. Onde estão um momento - nervosa, Mariete começou a abrir e fechar gavetas, sem sucesso. E por mera curiosidade, o agente Aguiar lançou um olhar sobre os papéis espalhados sobre a mesa.
Conseguiu distinguir dois nomes virados pra ele, em um contexto inindentificável.

° Kelmann, Ana Maria Brandt
° Pires, Edelberto Francisco

Retornou à cadeira, quando Mariete surgiu de trás da mesa, aliviada com o par de crachás na mão.
- Pronto. Escutem não estraguem tudo! Por favor. Dessa vez é sério! Esse terrorista pode arruinar o próprio Contínuo Espaço-Temporal. Entenderam? - e, ante o mutismo característico da dupla, ela os despachou - Fora daqui!
Ambos pegaram os crachás e saíram da sala. Do lado de fora, no corredor, Aguiar perguntou:
- Ô, Jansen qual é mesmo o nome do raio do terrorista? Adalberto?
- Edelberto. Edelberto Pires. Por que? Dormiu no slide, é?
- Quase não sei pra que tanta merda. A gente não vai sair atrás deles nem nada! Só vai vigiar a porra do prédio ao lado...
- Pois é - limitou-se a comentar Jansen - mas saber a foto, o nome do cara, essas coisas ajuda, né?
Aguiar grunhiu alguma coisa para si. Ambos tomaram o elevador, desceram e foram até a rua. Dobraram no prédio ao lado e entraram.

***

- E agora? Deixa ele aí? - perguntou Nélio, sem saber o que fazer.
- É o jeito - respondeu Mendes, insatisfeito com a situação.
Em tempos de cortes como aqueles, se alguém visse aquilo ali poderia não gostar muito, independente da explicação ou justificativa que fosse. Mas não podia proceder de outra maneira - Deixa ele aí um pouco. Depois ele acorda. Se não, quando encerrar o expediente, eu mesmo acordo ele.
Todos olhavam para seu Edelberto, que ressonava em um canto atrás de uma estante, escorado contra a parede, ainda na cadeira que lhe haviam arranjado. Retirara-se para aquele canto para chorar suas mágoas e ferrara no sono.
- Coitado não queria estar na pele dele, definitivamente - penalizou-se Matias, externando o óbvio.
- Muito bem, gente - resolveu Antunes - vamos nessa, que o horário acabou. Tem ainda a tarde toda pra trabalhar.
Os demais concordaram, e ajudaram Mendes a arrumar as cadeiras e a sumir com as provas do crime. Em seguida, despediram-se com a promessa de voltar no fim do expediente para ver o futuro desempregado, e saíram do almoxarifado. Mendes varreu o chão um pouco, verificou seu Edelberto e saiu do depósito, indo sentar-se em balcão e continuar a ler seu jornal. Deixou a porta do depósito entreaberta para o caso de ouvir seu Edelberto precisar qualquer coisa. Entreteu-se com alguma notícia e deixou o tempo passar.

***

- Porra, isso aqui tá um saco. Tomara que essa crise passe logo.
- Fica calmo, Aguiar
- Calmo o quê! - respondeu de má vontade.
Checavam andar por andar, sala por sala, vestidos como se fossem da segurança. Em geral não trocavam palavra com quem quer passasse por eles, nem outros seguranças. E até agora nada.
Aguiar e Jansen eram mais uma dupla de agentes da Intempol que, por assim dizer, haviam tidos desvios e percalços em sua carreira dentro da agência por seus, hum, métodos e atitudes um tanto ou quanto heterodoxos e enérgicos. Estavam desautorizados a fazer viagens temporais, tendo sido rebaixados a agentes do nível 1.
- Aí, isso aqui tá um saco! - repetiu Aguiar, com ênfase - Vou ver se arranjo um café!
Jansen deu de ombros, fazer o quê? E seguiu o outro agente, atrás de quem pudesse lhes servir um cafezinho.
Nos fundos do primeiro andar, havia uma copa, e lá arranjaram café.
- Ô, Jansen sabe, esse tal do Edelberto tem alguma Ana Maria com ele?
- Hã? Sei lá!
- Pô, não foi tu que viu o slide?
- É, mas não tinha mais nome não, o cara tá com um grupo aí que não tem nenhuma ficha, registro por que?
- Esquisito na mesa da Mariete tinha uma tal de Ana Maria qualquer coisa em cima do nome do cara.
- Jura?
- Juro
- Será que tão escondendo da gente alguma coisa?
- E quando que não? - rosnou Aguiar.
Silenciaram, quando aproximou-se uma mulher da máquina de café. Ela passou pelos dois com um 'com licença' em tom baixo em serviu-se. Depois, agradeceu por nada, lançando um sorriso fácil. Afastou-se.
- Ih, tu viu? Olhou pra mim.
- É sempre pra você que elas olham, né Aguiar?
- Tá duvidando? - e começou a ir atrás dela.
Jansen o segurou pelo braço
- Não vai meter a gente em mais roubada! A gente tem que - Iiih, relaxa, calma, só vou lançar uma idéia, ver qual é já volto, já volto

***

No depósito do almoxarifado, apenas o ressonar de seu Edelberto e a fresta de luz vinda da porta destoavam do ambiente escuro e calmo. Então, sem aviso algum, no canto mais afastado, vindos do nada, cinco homens fortemente armados surgiram e se encolheram instintivamente, atrás de estantes e de qualquer coisa que lhes pudessem providenciar cobertura. Após alguns instantes de silêncio, e acostumando a vista no escuro, um dos homens ordenou a dois dos demais que fossem checar a porta entreaberta, e aos demais que reconhecessem melhor o aposento em que estavam. Não podiam arriscar nada àquela altura.
Os homens obedeceram prontamente, e foram até a porta entreaberta.
Pela fresta viram o zelador de costas para eles, lendo seu jornal. Mais fácil, impossível.
Arrastaram o corpo inconsciente de Mendes pra dentro, e enconstaram a porta. Outros dois membros do bando, entretanto, fizeram uma descoberta, para eles, assombrosa.
Seu Edelberto grunhiu com o facho de luz sobre o rosto, e acabou acordando, ainda de porre. Não pode reagir quando o dominaram e o amordaçaram, arracando-o da cadeira com força. "Minha nossa, é assalto!" - pensou, com o coração saltando. Foi arrastado até o que devia ser o líder do bando, que o iluminou com sua própria lanterna. Ouviu sussurros ao redor, nervosos, no que acreditava que fosse espanhol.
- Chefe! Olha! Olha a cara dele!
Por alguns instantes, apenas o silêncio, enquanto forçavam Edelberto a olhar pra frente. Ouviu então uma risada e o foco da lanterna virou-se para seu portador.
Edelberto Francisco Pires, 42 anos, casado, pai de dois filhos, auxiliar de contabilidade, emudeceu de susto - ao deparar-se com seu próprio rosto.

***

Para Ana Maria Brandt Kelmann, era uma espécie de dia de vitória.
Garantira seu emprego, ao menos até a próxima. Não se orgulhara de como fizera, mas àquela altura não havia muito do que se orgulhar em sua vida, e pra falar a verdade nem pensava nesses termos. No que pensava agora era que aquele tipo rústico que acabara de ver próximo cafezinho e que lhe lançara olhares, e que parecia determinado a algo mais do que informações sobre tais e tais salas. Pensou também no Aristides do secretariado, e que o rústico desconhecido era um exemplar de macho mais atraente, jovem e muito provavelmente mais capaz. E concluiu que, afinal, se era seu dia de vitória, ela também merecia um pouco de diversão. Disse ao rústico desconhecido que o levaria lá pessoalmente.

***

Coisas estranhas se desenrolavam no almoxarifado da C&H Consultoria.
Seu Edelberto, na luz da lanterna, pouco pôde ver de seu gêmeo desconhecido. Achou-o com as bochechas mais magras. Encontrou rugas nele, porém, que tinha certeza não as tinha. E os olhos, apesar de semelhantes, diferiam no olhar.
E falava. E falava muito mais. Olhou para os homens e mulheres ao redor, como se portavam ao lado dele. Resolveu que deveria ouvir. Ouviu por dez minutos, senão até mais, sobre liberdade, luta, sacrifícios, ideais, os verdadeiros tiranos do mundo, e toda uma cantilena política e subversiva que seu Edelberto não ouvia desde sua infância, de um tio que acabara sumindo nos anos 60. O que mais lhe desagradava era que ela era feita com sua própria voz e que começava a fazer, no fundo no fundo, algum sentido.
Foi quando a coisa começou a soar como ficção-científica, porém, que seu Edelberto resolveu que seu irmão gêmeo era completamente insano.
Mas fazia que concordava com ele, por via das dúvidas. Era insano, mas estava armado, ele e os seus amiguinhos.
Juntou coragem para falar.
- mas se é tudo verdade, o que vocês vieram fazer aqui?
Seu gêmeo sorriu, novamente.
- Bem, mi hermano - ponderou se lhe contava ou não. Se lhe cortava ou não a garganta também estava em suas ponderações - ...essa firma que aqui estamos é uma fachada para a grande corporação que lhe falei. A grande corporação que se estende através das eras, através dos universos alternativos.
- A Intertempol?
- Intempol!
- Intempol. Intempol.
- Guarde esse nome. Agora você faz parte do segredo. E a Intempol está atrás desta parede - e indicou, com gestos amplos, a parede dos fundos do almoxarifado. E nós vamos invadí-la.
Como se fosse uma deixa, uma moça do grupo, magra como todos ali, tirou de uma mochila objetos que, à luz das lanternas, pareceram-se com explosivos para seu Edelberto, que no momento suava todo o álcool que havia ingerido.
Juntou coragem para fazer uma pergunta:
- Mas como vocês fazem para viajar no tempo?
Edel "el Rojo", tomando isso como parte de que estava convencendo seu irmão gêmeo, mostrou um objeto de forma estranha e um cartão plástico, do tipo que se usa em banco. O gêmeo lhe disse que se chamavam caixa registradora e cartão cronal. Explicou-lhe como funcionava, e não se perdeu em detalhes teóricos ou acadêmicos sobre o princípio das viagens do tempo.
Teclava-se a data no terminal numérico da caixa e passava-se o cartão.
Qualquer data, qualquer época estava a seu alcance.
Não prestara atenção na hora - mas algo dentro de seu Edelberto lhe disse que ele queria que aquilo fosse mesmo verdade.

***

A sala estava na penumbra, apenas a luz da tarde que entrava pela cortina de lâminas fechadas possibilitava a visão. Não haveria mais reuniões ali aquele dia, disso Ana Brandt sabia bem. Ensaiou uma conversa mole em tom de desculpa para o rústico desconhecido e ele apenas sorriu, mas não passou conversa. Ana achou-o um pouco apressado demais, mas sabia que fazia parte do que viera atrás. Foi deitada na mesa e as roupas começaram a ser separadas. Rústico Estranho mordeu o crachá de Ana Maria e jogou-o na mesa, não tão longe que ele não pudesse ler, mesmo na penumbra.
Avançou sobre ela e deu com o nariz sobre o pequeno pedaço de plástico com a foto dela e as informações:


Kelmann, Ana Maria B.
Sub-Secretária da Gerência


- O que houve? - ela perguntou, depois que ele estacou.
- Hum nada. Espera um pouco!
- Espera? Mas ei, aonde você vai?
- Já volto! Juro! - prometeu da porta, já sumindo.

***

O tempo, para os guerrilheiros no porão, ficava apertado. "El Rojo" dera uma chance de confiança ao seu irmão temporal. Se ao fim da missão houvesse alguma dúvida da pureza de propósitos de sua parte, não sobreviveria, já decidira o guerrilheiro. Pena, mas é a vida.
A preleção sobre a libertação das eras chegara ao fim, havia um cronograma a seguir. "El Rojo" disse aos homens que tinha que entrar em contato com o simpatizante da causa, e que ficassem de olho nesse Edelberto - que, aliás, a despeito da barriga, tinha o mesmo número do que ele, não era mesmo uma feliz coincidência?
Seu Edelberto agora vestia roupas fedorentas, e estava muito pouco à vontade com aquele look camuflagem. "El Rojo", entretanto, estava feliz em por uma gravata, por incrível que pareça. Os homens do guerrilheiro pediram que fossem juntos, mas não, aquilo só aumentaria os riscos.
Prometeu aos homens com um sorriso que teria cuidado - e que voltaria em breve.
Dando uma olhada antes de sair, "El Rojo" saiu pela porta do almoxarifado.

***

Aguiar não demorou muito para encontrar Jansen, aliás à sua procura.
- Cara! Aonde você se meteu?
- 'Tava com a tal! A tal da Ana Maria!
- Que Ana Maria?!
- A que 'tava na mesa da Mariete! A da pasta, que eu te falei!
- É coincidência.
- Coincidência o cacete! Duas Ana Marias? Duas Ana Maria Brandt Kelmann? - e ressaltava com dois dedos da mão. Jansen titubeou.
- Tu tem certeza?
- Tenho!
- Tá, mas e daí? É o tal Edelberto "El Rojo" que a gente tem que se preocupar, não essa Ana Maria aí.
- Então por que ela 'tava listada debaixo do nome dele, na mesa da Mariete?
Jansen mordeu o lábio, procurando uma resposta. E se ele não tivesse ouvido direito a explicação?
- Olha - disse - eu ouvi bem a explicação e não tinha Ana Maria nenhuma.
- Mas e se tiver?
- E se for agente infiltrada? - veio a Jansen uma idéia - Do tipo que a gente não pode saber que tá lá?
- É, brilhante, e no primeiro tiroteio a gente pode pegar um dos nossos; é claro que não é infiltrada!
Aguiar era um alucinado às vezes, mas sabia ser bem convincente.
- Tá, vamos averiguar
- Avisa pra central?
- Nem pensar. Ainda acho que é tudo mal-entendido. Onde ela tá?
Aguiar olhou ao redor, para os corredores. Por onde viera mesmo?

***

Frustrada e zangada, Ana Maria Brandt Kelmann recolhia as peças de roupa que já haviam sido espalhadas. Rústico ou não, nenhum estranho fazia isto com ela, ele que aparecesse novamente na sua frente, para ouvir umas poucas e boas.
Temendo ser pega, levou suas roupas para o pequeno toalete que existia, dentro da sala de reuniões. E mesmo deixando a porta semi-aberta, não notou que alguém entrava, preocupado em encontrá-la ainda ali.
- Droga, ela se mandou - resmungou Aguiar.
- Não deve estar longe - respondeu Jansen, sem muita convicção - O problema é, aonde?
Os dois homens saíram dali, e em menos de um minuto, um terceiro homem surgiu pela porta, mais cauteloso do que os outros dois. Estava incerto, pela descrição que tivera, de que ali devia ser o ponto de encontro com o contato. Puxou a 9 mm. que sempre trazia consigo, enquanto se acostumava com a sala na meia escuridão. Ouviu ao fundo um barulho, e resolveu averiguar. Um pouco de luz amarela saía por trás de uma porta encostada. A dois passos da porta, Ana Maria Brandt Kelmann saiu do toalete e deu de cara com o guerrilheiro. Tomou um susto.
- Ai! Que coisa! S-seu Edelberto? O que o senhor veio fazer aqui? E que arma é essa?
A mulher o confundira, mas vira a arma. Hora do profissionalismo entrar em ação.
El Rojo sorriu e pôs a arma atrás da cintura. A mulher tagarelava.
- OlhaseuEdelbertosintomuitomaseuprecisobastantedoempregoeosenhorsabecomoé, eu...
- Não, não - disse ele, interrompendo-a gentilmente com o mesmo sorriso, quase paternal. O tom de voz era baixo, lento - Eu apenas ouvi um barulho, e achei que pudesse ser algo errado. Segurança nunca é de menos a senhorita bem pode imaginar - Puxa, mas é mesmo! - Ana Maria não era boa para raciocinar nesse tipo de tensão - Mas o senhor tome cuidado com essa arma, ela pode machucar alguém.
- Jamais tão bela senhorita - veio a resposta, e algo mais pelo olhar.
Ana Maria estranhou algo. Se havia um homem na firma para a qual ela olhara apenas para desdenhar, era seu Edelberto.
- Han certo o senhor está bem, seu Edelberto?
A resposta veio em versos em espanhol, algo que soou estranho porém muito agradável para a mulher, que achou ter entendido. Seu Edelberto sorria, e na sombra da sala, podia ver um brilho estranho em seus olhos. O que estava acontecendo ali, ela não tinha a menor idéia. Mas sorriu de volta.

***

Em uma sala não muito longe dali, um homem checava sua pasta. Seu celular tocou, e ele atendeu. Trocou algumas palavras curtas, mas a última linha foi ouvida por dois outros homens do outro lado da porta da sala em que ele estava.
- sim, sim. O material está aqui, os detonadores chegaram bem. "Nuestro hermano" terá o que pediu. Deixa eu ir para encontrar ele agora. Até mais.
A palavra "detonadores" incendiou os ouvidos desses dois outros homens, que se afastaram da porta para adotar uma postura "casual". O terceiro homem saiu da sala, para encontrá-la desguarnecida de sua secretária. Reparou em Jansen e Aguiar com cara de sonsos, mas não desconfiou de nada. Pelo colete e crachá, eram dois da segurança.
- Vocês viram a moça que devia estar aqui?
- Jansen e Aguiar olharam para o homem, e depois para a mesa vazia. Uma plaquinha dizia,

Ana Maria B. Kelmann
Secretária

- Não, não vimos não senhor disse Aguiar. Jansen ficou mudo.
O homem trancou a porta atrás de si e saiu com um ar severo, pensando "piranha folgada, corto-lhe o emprego!". Afastou-se. Jansen murmurou:
- Detonadores, nuestro hermano se não tivesse visto a foto do sujeito, diria que é esse o nosso homem, senhor - e olhou para a porta - Aristides da Costa.
E o seguiram.

***

Juntou coragem, por fim.
- Vocês o conhecem há muito tempo?
Os guerrilheiros ao seu redor pararam por um momento. Havia uma tensão no ar, ele sabia, aumentada por sua presença ali. Ninguém respondeu a princípio.
Uma garota, de menos de 25 anos chegou para frente dele com uma grande faca em punho. O ar faminto estava lá, e o olhar furioso também.
- Ele me salvou, em meu mundo, de ser uma escrava para uma megacorporação que comprou o meu país. A cada um aqui, ele ajudou, de alguma forma. Libertou os grilhões do corpo ou da mente. Nós iríamos com ele, por ele, até o inferno - e avançou com a faca para trás do pobre homem, cortando-lhe as amarras - Você só está vivo por que ele quis - e apontou a faca novamente para ele, bem próxima aos olhos - Se por causa disso ele morrer ou for pego, eu pessoalmente mato você!
Nada original, mas sempre eficiente.
- Não, não, de jeito nenhum é que eu nem sabia que tinha um irmão assim, digo, não é todo dia que a gente encontra um
- Cala a boca!
- Claro, claro - seu Edelberto foi pra perto de Mendes, ainda desacordado, para ver se o amigo ao menos estava vivo. Foi quando reparou que ele estava consciente, apesar de todo amarrado e amordaçado.
Abriu um olho rápido para Edelberto, um olho assustado. O contínuo percebeu que ele havia ouvido tudo, apenas fingia estar desmaiado. Fez gestos mínimos para Edelberto, para evitar que descobrissem que ele estava acordado, com os olhos. Seu Edelberto ficou preocupado que os guerrilheiros o vissem, e olhou ao redor. Ninguém prestava muita atenção nele, embora isso não significasse que ele tinha os movimentos livres. Olhou na direção que ele estava querendo indicar, e viu uma mesinha que Mendes às vezes usava - e lembrou de um revólver que ele havia lhe dito certa vez, guardado em uma gaveta. Se os guerrilheiros não tivessem revistado ali.

***

Os dois herois improváveis finalmente viram onde o tal Aristides devia ir, a sala onde Aguiar deixara uma confusa Ana Maria. Sacaram as armas.
- Tá todo mundo no complô! Tá todo mundo nessa merda dessa firma!
- Aguiar, segura a onda.
- A tal da Ana Maria, porra, eu quase comi ela!
- Ué? Você não disse que comeu?

***

Dentro da movimentada sala vazia, Aristides estacou surpreso e preocupado, ao ver dois de seus funcionários abotoando as roupas. Deu um carão nos dois e a secretária saiu rapidamente de lá, envergonhada.
Aristides agora dizia que iria ter uma conversa seríssima com seu Edelberto.
- Corta a onda - interrompeu o guerrilheiro, tirando os óculos, sem a menor cerimônia, e com um jeito longe do modo servil e manso que o caracterizara por anos - e me dá logo o que vim pegar.
Aristides arregalou os olhos e escancarou a boca.
- Seu Edelberto!? É o senhor?!?
El Rojo percebeu que seu contato não sabia, de fato, quem era.
Confundiu-o com seu pobre gêmeo lá embaixo, no almoxarifado.
Melhor do que a encomenda.

***

Fora breve, mas fora muito melhor do que jamais pudera sonhar. Seu Edelberto, logo ele, quem poderia dizer!? Revelara-se um amante e um poeta, e de uma vez só abotoava-se, com uma cara lampeira, quando a porta se abriu e seu Aristides entrou. Não havia muito como esconder o que ocorrera, e ele rugiu uma bronca como poucas. Ela agarrou a bolsa e rapidamente saiu da sala, deixando o auxiliar da contabilidade a sós, envergonhada e preocupada.
Saiu e deu de cara com Rústico Estranho e um amigo, ambos empunhando armas *grandes*.

***

A pequena pausa constrangedora entre os dois agentes serviu para que eles se aproximassem ainda mais, em silêncio. Viram de repente Ana Maria sair, com um jeito constrangido, apressado, na direção deles. Saíram de trás de uma planta ornamental junto à parede de repente, o que a assustou.
- V-você? O que vocês querem? Pra que essas armas?
Quanto mais faziam gestos para que ela se calasse, mais ela tagarelava.
- Está havendo algum problema!? O que houve? - e olhou para a sala de reuniões, de onde havia saído. Notou que eles olhavam para lá, embora avançassem sobre ela - Ah, meu pai!
- Quem tá lá dentro?
- Apenas s-seu Aristides e seu Edelberto!
Aguiar agarrou-a pela nuca, furioso.

Dentro da sala, uma pasta trocava de mãos, após duas senhas terem sido pronunciadas. El Rojo ficou feliz de ter encontrado seu gêmeo, agora não teria que apagar o sujeito que lhe trouxera a maleta. Tinha em quem deixar uma culpa. Não lhe agradava a idéia; mas, é a vida.
- Espero que o pagamento lhe seja bem entregue - desejou El Rojo ao homem, ainda bastante surpreso.
- Claro que sim, seu Edelberto! Bem, boa sorte!
Um grito ecoou do lado de fora, seu Aristides virou-se para ver o que estava acontecendo. Foi até a porta, seguido pelo guerrilheiro que já havia sacado a 9 mm. Quando saiu, viu os dois seguranças agarrando a secretária, com as armas apontadas. Munindo-se apenas de sua autoridade de *chefe*, exigiu saber o que estava acontecendo. El Rojo saiu logo atrás dele, já com a arma à vista, e disparou contra o primeiro que avistou.
Errou por um triz. Os dois agentes reagiram ao fogo. El Rojo, menor do que Aristides, calculou bem sua sorte, e foi Aristides quem recebeu as balas fatais. Ana desvencilhou-se dos agentes, e correu para outro lado. El Rojo despejou várias balas, obrigando os agentes a procurarem alguma cobertura, e saiu correndo pelo corredor mais próximo. Jansen e Aguiar correram atrás, e informaram pelo walkie-talkie que El Rojo estava logo ali, na C&H Consultoria.
O corredor que cada um deles, Ana Maria e El Rojo, resolveu pegar iria contornar todo um bloco de salas e se juntar logo na porta da escada de incêndio. Descendo a escadaria, a primeira porta que havia era a do almoxarifado, onde os cronoterroristas haviam se escondido. El Rojo seguiu para lá por razões óbvias, enquanto que Ana Maria correu atrás do primeiro homem armado que pudesse confiar - no caso, o Mendes do almoxarifado, que certa vez lhe mostrara as armas - em mais de um sentido, óbvio.
A porta para a escada de incêndio, entretanto, estava bem mais próxima pelo corredor que secretária escolhera, enquanto que El Rojo teria que fazer duas curvas até chegar lá. Como os agentes não sabiam ainda se mover por ali dentro, não pensaram em cercá-lo.
Ana Maria chegou às escadas antes de todo mundo.
Chegando na sua ponta do corredor, Edelberto num gesto brusco bateu em um alarme de incêndio de parede. Pessoas começaram a sair das salas, enquanto o guerrilheiro corria. Os agentes da Intempol corriam atrás, com a mira agora obstruída, pelas pessoas confusas e assustadas com tanto barulho. Ordenavam para que fossem para dentro das salas, mas não adiantava muito quanto à mira.
Na escadaria, Ana Maria quase rolou pelos degraus, mas conseguiu chegar à porta de incêndio do térreo. Abriu-a e correu para o almoxarife, e não viu Mendes atrás de seu balcão. Contornou-o e abriu a porta, bruscamente.
Foi recebida por diversas armas que não dispararam apenas por provável intervenção divina.
Rapidamente imobilizada, foi posta ao lado de Mendes e Seu Edelberto. Uma coronhada no rosto a deixara com um hematoma e grogue por alguns momentos. A porta se abriu novamente. Desta vez era El Rojo, que teve o bom senso de não entrar de imediato. Gritou ordens para que pegassem as armas e as caixas registradoras, e se preparassem para partir. Na confusão que se seguiu, seu Edelberto aproveitou para se esgueirar para o canto da parede, junto à mesa de Mendes e puxou a primeira gaveta. Em um tatear rápido e nervoso, conseguiu encontrar o revólver. Nesse momento, pela terceira vez, a porta se escancarou, com Jansen e Aguiar apontando as armas para o que desse e viesse. Não esperavam, claro, tanto fogo respondendo em contrário. Seu Edelberto jogou-se para perto dos outros dois cativos, enquanto as balas voavam por cima dele.
Resmas de papel, pilhas de lápis, caixas de clips - tudo o que havia no almoxarifado também passara a ser alvo, com lascas de vários materiais voando a esmo. Seu Edelberto arrastou Ana Maria para longe da porta, com ambos engatinhando, sob a fúria que se seguia. A matraca das armas de repetição dos guerrilheiros rugiu mais alto, e os dois agentes da Intempol novamente tiveram que procurar proteção. Aguiar recuou para trás do vão da porta, porém Jansen não teve tanta sorte. Uma salva o atingiu em cheio, e ele caiu, sem reação. Aguiar, enfurecido, urrou algo que as armas não deixaram ouvir.
Tentar usar a caixa registradora, tendo que digitar coordenadas em seus botões e ainda passar um cartão, não era algo prático enquanto se estava envolvido num combate armado. Quem sabia disso em geral sobrevivia.
Quem não sabia, a história era outra. Por isso seu Edelberto percebeu que tinha a sorte grande nas mãos, uma maneira de sair daquela loucura, quando deparou-se com um dos guerrilheiros com a mão ainda no cartão, a caixa registradora com uma série de números brilhando em outra, e a testa cheia de cabelos desalinhados com um buraco de bala. Olhou para Ana Maria Brandt, que naquele instante olhava para ele com um aspecto completamente estranho - com um sorriso embevecido, admirado e mesmo terno, diferente do escarninho de anos de trabalho. "Coitada, deve ter sido atingida", pensou.
- Você me salvou! Meu meu herói! - disse ela.
O restante dos guerrilheiros se abrigara corretamente, e apesar das tentativas de Aguiar, ele tinha que esperar reforços. Sabia El Rojo, havia uma hora para lutar, e havia outra hora para recuar. Não separou pensamentos para seu gêmeo. Cartões deslizaram pelas fendas, e homens e mulheres sumiram de repente, um a um, sem deixar mais nenhum traço de que estiveram ali. Ana Maria Brandt se levantou.
- Você salvou minha vida! - repetia - meu herói, meu homem, meu - Abaixa, mulher! - gritou Edelberto.
- Sua vagabunda! - gritou Aguiar mais ainda, entrando com uma arma apontando para ela - Vai morrer!
Um tiro disparou, e Aguiar olhou para seu alvo uma última vez.
Depois, tombou morto, no chão.
Sem entender, a sub-secretária olhou ao redor e viu seu Edelberto se levantando lentamente, com o cano da arma que empunhava fumegante. Sem saber ao certo como viera a tirar a vida de um homem, permaneceu ali por um instante, apontando para a porta, enquanto que Ana Maria Brandt deslizava ao chão, escorando-se em sua perna direita.
- Meu herói - disse ela, completa e perdidamente apaixonada.
Ouvindo uma agitação do lado de fora, seu Edelberto voltou a si.
Olhou para baixo, e pegou a caixa registradora.
- O que você vai fazer? - perguntou ela.
O contador olhou de volta para a secretária, olhou mais uma vez para a entrada do almoxarifado, e disse a ela:
- Mulher, escuta! pega essa coisa aqui! Pega esse cartão - e correu para pegar outra caixa e outro cartão, perto da outra única baixa dos cronoterroristas. Nervoso, Digitou alguns números na caixa, ao acaso.
Depois, digitou os mesmos na caixa que ela segurava. Ana Maria não entendia ainda o que acontecia, e resolveu que não era a hora de fazer as perguntas.
Afinal, seu homem devia saber o que estava fazendo.
- Quando eu disser já, passa o cartão Um, dois, três, já!
Houve, simultaneamente, um outro já do lado de fora do almoxarifado. Um "já" de um comandante de uma equipe de segurança da Intempol, que se materializara poucos segundos antes. Os homens armadurados invadiram o local disposto a pô-lo abaixo se fosse o caso, mas tudo o que viram foi uma mulher - provável simpatizante - e "o" homem sumindo no Tempo.

***

De: Chefe Louzada, Setor de Segurança Interna - Estação Central da Intempol
Para: Supervisoria Interna - Intempol América do Sul.
Assunto: Falha na Segurança.
Ref: KZR022 - Prioridade Máxima

O assalto à C&H Consultoria teve origem confirmada como sendo de autoria do grupo terrorista de Edelberto "El Rojo" F. Pires (ref. 2121005).
O grupo planejava atentar contra as instalações da Intempol situadas no prédio ao lado da C&H Consultoria, tendo sido frustrado por dois agentes que morreram heroicamente no cumprimento do dever, José Carlos Aguiar e Wílson da Cunha Jansen.
O grupo de assalto que respondeu ao chamado de reforço dos agentes presenciou a partida do próprio "El Rojo" e de uma mulher reconhecida como Ana Maria Brandt Kelmann. A mulher está sendo incluída na lista de procurados do grupo conhecido como Coluna v5.0, embora suas funções pareçam ser de linha auxiliar ()

***

De: Departamento de Pessoal da C&H Consultoria
Para: circulação interna.
Assunto: Abandono de emprego

Decorridos os trinta dias previstos por lei, a C&H Consultoria abdica dos serviços prestados por Ana Maria Brandt Kelmann e Edelberto Francisco Pires como Sub-secretária da Gerência e Auxiliar da Contabilidade, respectivamente. Face à total ausência de contato por parte destes, a empresa não tem opção senão dispensá-los em caráter definitivo de seus cargos. Face aos últimos cortes de despesa, não é certo de que as vagas sejam disponibilizadas novamente.

***

Levara um mês para voltarem a se reunir no almoxarifado para opôquer, e mesmo assim o faziam de vez em quando. Havia alguma coisa de proibição no ar, por estarem ali. Agora nem sempre estavam todos. Uma ou outra história de fantasma do almoxarifado começava a surgir, nas conversas dos vigias da noite e nos horários de cafezinho. O tiroteio todo através dos andares, o velho auxiliar da contabilidade dando tiro a rodo, e por aí vai.

Nélio, o boy, se arriscou.
- Seu Mendes, me dá duas cartas aí Mendes não respondia, o olhar parado e vago. Nélio insistiu.
- Hum?
- Duas cartas, seu Mendes.
- Ah. Desculpa, tá aqui.
Antunes puxou um trago do cigarro. Eram apenas os três, ali.
- Pensando ainda naquilo tudo, Mendes?
Mendes coçou a cabeça, nervoso. Pôs as cartas na mesa.
- Eu ainda não entendi lhufas do que aconteceu! Penso, penso e penso nada foi tiro pra todo lado, achei que ia morrer, amarrado e de repente, nada! Sumiu. Aí seu Edelberto deu tiro num segurança que eu nunca tinha visto antes aí ele e a Ana Maria mexeram nuns troços e puf, sumiram! entrou aquele bando de policiais tudo armado, com colete pesado em seguida, ficaram putos da vida que não tinha ninguém, me acharam e me fizeram um monte de perguntas, me encheram o saco durante sei lá quanto tempo e falaram pra eu ficar de bico calado!
- Foi estranho, sim pô, seu Edelberto matou o dr. Aristides! tá certo que ele queria o emprego, mas - Como que matou, ô Antunes, se ele tava aqui o tempo inteiro? É o que eu digo não entendo!
Silenciaram. Voltaram a se concentrar no jogo. Havia coisas que era melhor não entender, mesmo.
O pôquer continuou, porém silencioso. Muito silencioso.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Crisis on Infinite Comics: Interview with Marv Wolfman


Marv Wolfman is one of the living legends of American comics, with remarkable works such as TOMB OF DRACULA, NEW TEEN TITANS and the astounding CRISIS ON INFINITE EARTHS, which was a revolution in the field.

Here with us he will talk a little about his works and his partners, the process of character development in TOMB OF DRACULA and his favorite books these days.


***


CLÁUDIO FIGUEIREDO & OCTAVIO ARAGÃO: Could you tell us some background about CRISIS ON INFINITE EARTHS? How the idea started? Any influence by some literary Science Fiction?

MARV WOLFMAN: Pretty much everything has been said on Crisis. There were several problems at DC at the time. Sales were bad (they're bad now but the entire industry sales are bad) and Marvel readers wouldn't be caught dead reading DC comics. I felt, as did many, that although DC fans understood the multiple Earths perfectly and without trouble, it was a problem to attract new readers and possibly a sign of DC problem for the Marvel zombies. By simplifying the DC universe I believed we could attract new readers, which we did. Crisis was one of the first DC Comics (Titans being the other) that Marvel readers check out.


CARLOS MARTINHO: The DC Universe seem to be going through a sort of New Silver-Ageing, with concepts that the CRISIS helped to erase coming back under new guises. How do you see it?

MW: I think there's a schizophrenic feel at DC. Some of the books are very 2003 and some read like they were done in 1970. I have no problem with bringing back old stuff, but it needs to be made new as opposed to referencing it as something old. We should not be looking back that much.


CM: What is the secret plot device hidden inside CRISIS that could bring Barry Allen, The Flash, back to life?

MW: For the answer check out my website under Q&A.


OA: What's you literary influences and what's your favorite work outside the comics industry?

MW: I like reading history books. Non fiction. In fiction I prefer mysteries and such to adventure books.


OA: You have worked with some of the finest artists in America, such as George Perez and Gene Colan, among others. Who was your favorite partner and why?

MW: Impossible to answer. George could not have done Dracula half as well as Gene and Gene could not have done Titans half as well as George. Every artist is unique. But as far as partnerships go, Gene generally followed my stories and did tremendous, brilliant work with my plots, whereas after the first two years or so,George and I tended to work out the stories together. I'd come in with a rough concept then we'd plot it out together which made for great stuff.


OA: Your TOMB OF DRACULA is a masterpiece in the history of American horror comics. What's the secret to recreate the classic characters and make them appealing for the contemporary audience?

MW: All I ever read was the original Dracula novel. I had never seen any of the movies, so I was not influenced by anyone other than Stoker. I think that helped. Plus, I was given the freedom to do the kinds of stories I wanted to write. Also, my thought was the book took place in the 1970s when I wrote it. To write it like it took place in the 1870s would have been wrong. Lastly, I thought of the book as a series of character studies, and if you are true to your characters, everything else will work out, assuming, of course, a basic level of talent.


Thank you very much, Mr Wolfman!


More info about Marv Wolfman.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Ficción Argentina: Entrevista con Eduardo J. Carletti


A ficção-científica produzida na América Latina é profícua desde o fim do século XIX. Infelizmente, em plena era de Mercosul e Internet, os autores de países como Brasil, Argentina, Cuba, Peru e Uruguai ainda se encontram presos dentro de suas próprias fronteiras.

As paredes, porém, podem começar a cair e eis aqui um primeiro esforço nesse sentido. Eduardo J. Carletti é, além de conhecedor da ficção produzida na América hispânica, editor do excelente site AXXÓN, que procura mostrar um panorama bastante detalhado da produção de FC latina sem deixar de lado a vertente anglo-saxã.

***

OCTAVIO ARAGÃO - El especialista John Clute, en la ENCYCLOPEDIA OF SCIENCE FICTION, indica una tradición rica de la CF de Argentina que se remonta a los trabajos de Macedonio Fernandez (1874-1952), Horacio Quiroga (1878-1937), Roberto Arlt (1900-1942) y Leopoldo Lugones (1874-1938). ¿Cómo es la situación de la CF en Argentina por estos días y qué escritores se destacan?

EDUARDO J. CARLETTI - La CF en Argentina sufre los mismos problemas que en otros países de Latinoamérica: es una temática despreciada por los editores. Además, las revistas que se publicaron, aunque incluían principalmente autores anglosajones, no tuvieron continuidad, aparentemente por razones comerciales (no fueron negocio para las empresas sus volúmenes de venta). En Argentina no hay ninguna revista comercial y en papel en este momento.

Esto es así desde hace varios años atrás. No hay colecciones de libros; todos llegan desde España y al precios demasiado altos. Las editoriales rechazan todo texto de CF, fantasía o terror que se presenta, incluso ignoran los que son de literatura en general.



Existen bastantes autores de CF, de diversos niveles. Tres veces autores argentinos ganaron el premio de novela de la UPC (Universitat Politécnica de Catalunya), que se considera el más importante en la temática de CF y Fantasía en habla hispana. Dos veces el ganador fue Carlos Gardini, que es, sin duda, el autor más importante de Argentina en la temática de CF. La siguiente vez fue Alejandro Alonso, un autor joven que comenzó publicando en Axxón (y aún aparece ahí) y que ha progresado enormemente en los últimos tiempos. Tenemos una autora muy importante, Angélica Gorodischer, que en la actualidad no sigue escribiendo CF, aunque de vez en cuando aparece algún elemento fantástico en sus trabajos. Otros autores de buen nivel y continuidad en la producción son José Altamirano y Sergio Gaut vel Hatman.



OA - Los libros de Jorge Luis Borges y Bioy Casares son muy conocidos en Brasil. ¿Ellos son influentes en la CF Argentina de la actualidad? ¿O los británicos son más que ellos?

EJC - La influencia es diferente. Los anglosajones nos influencian en las ideas y temáticas, mientras que los autores argentinos como Borges o Bioy Casares son un ejemplo de estilo y buena escritura. Sin duda, todo escritor que los haya leído desea lograr la sofisticación, pureza, simplicidad y calidad de texto de Borges o Bioy Casares.


OA - ¿La publicacción AXXON es la única opción de CF Argentina en la Web? ¿Y hay alguna otra publicacción fuera de la red?

EJC - Hay otros sitios de Argentina dedicados a la CF y Fantasía, aunque especializados más en el cine y los cómics (Quintadimension) y a la crítica literaria (Cuasar). Se pueden encontrar otros sitios más pequeños, menos visitados. No hay publicaciones en el mercado de impresión en papel, ni revistas ni libros, ni hay espacios dedicados a la CF dentro de publicaciones o colecciones de otra temática o periódicos, ni hay programas de TV que dediquen espacio a estos temas. A veces se hacen películas (cine) de CF en Argentina, con resultados bastante buenos.


OA - ¿Hay una pulp fiction Argentina? ¿O sus historias son más influenciadas por una CF más erudita?

EJC - Hubo una revista llamada Más Allá que se publicó mensualmente durante cuatro años en Argentina que tenía todas las características de los pulps, más que nada en lo físico, en su estética externa. Pero publicaba una selección de relatos, es decir, que se publicaba lo mejor de lo que había aparecido en los Estados Unidos en una decena o más de revistas. Por esta razón tenía muy buen nivel de calidad en los textos. Luego de eso la influencia fue la colección de libros Minotauro, a través de la cual se conocieron en Argentina las mejores novelas y colecciones de cuentos del mercado anglosajón.

A continuación se contó con Nueva Dimensión, una revista lujosa de origen español, que duró varios años y llegó irregularmente a Argentina. También contenía selecciones de cuentos y novelas cortas de Estados Unidos, Inglaterra y de algunos países más, incluyendo de autores argentinos. Luego se publicaron aquí la revista El Péndulo --de extraordinaria calidad gráfica y literaria-- y la revista Minotauro, muy similar (eran dirigidas por la misma persona).

Estas influencias son las que generaron la producción literaria local, que en general tiende a un lenguaje pulido, situaciones más sofisticadas e historias complejas en lo humano. Pocas veces se ve CF puramente de entretenimiento o acción. De hecho, ningún editor se dedicaría a este tipo de material, y desconozco si sería bien recibido por el público.


OA - ¿Y en relación a la CF de otros países de América Latina, cuáles tienen una tradicción digna de relevancia?

EJC - No puedo opinar sobre Brasil, que pertenece obviamente a América Latina, no por falta de interés sino por la barrera del idioma. Otros países de buen nivel de calidad y cantidad de producción son Cuba y México. Incluso diría que Cuba más que México. En los demás países se produce material, pero en menor cantidad y con textos menos mencionables.

Un abrazo,
Edu =:-))

Eduardo J. Carletti
ecarletti@axxon.com.ar

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Science at Heart: Interview with Robert J. Sawyer


The science-fiction writer Robert J. Sawyer was not published in Portuguese yet. Also, Clute & Nicholls Encyclopedia of Science Fiction is of no avail to learn more about this fine author. His entry is fairly small. For the bible was published in 1993, while Sawyer’s first novel and his only mention in it, Golden Fleece (told from the standpoint of a AI named JASON, who run a giant starship) was published in 1990. From 1992 on, this 43-year old Canadian author published fourteen novels and one collection of sf stories, Iterations.

The QUINTAGLIO ASCENSION trilogy was Sawyer’s first great success. Its first novel, Far-Seer (1992) was followed by Fossil Hunter (1993) and Foreigner (1994). The Quintaglio are intelligent biped dinosauroids who live in the habitable moon of a gas giant and have reached humanlike levels of civilization. Those three absorbing novels show the crucial scientific discoveries of the Quintaglio and of how those discoveries change their worldview, from a religious culture to a more science-oriented one. The author display considerable knowledge on the scientific method and history of science in those novels.

Sawyer insisted on dinosaurs (albeit not intelligent ones) in his next book, End of an Era (1994), an innovative time travel dinosaur novel cum aliens, cum alternative timelines and an Earth’s second moon.

In order to prove to himself he was not just a “dinosaur guy” kind of sf author, he wrote The Terminal Experiment (1995), a novel about the scientific proof of the existence of the human soul; but also a novel about marriage and relationships. This was the first of several novels where Sawyer proposes very serious metaphysical questions in witty and enjoying ways. The Terminal Experiment was included in the prestigious Easton Press series MASTERPIECES OF SCIENCE FICTION.

In Starplex (1996), a hard science fiction novel full of mind-bending ideas, Sawyer proposes artificial wormholes that open the Milky-Way to humanity. Then he wrote Illegal Alien (1997), his own crime-procedural-cum-alien-suspect novel.

Speaking of metaphysical questions, in his novel Flashforward (1999), the author uses a science experiment that accidentally launches the conscience of everyone on Earth to the future — people are "flashed forward" 21 years, experiencing several minutes of the future — to discuss the existence of free will. Also, in his excellent and controversial Calculating God (2000), an alien being arrives in Earth and says “Take me to your paleontologist!” In this novel, Sawyer discusses the very existence of God by contraposing the points of view of believing alien Hollus and atheistic human paleontologist Thomas Jericho. These two characters spend most of the novel debating whether God exists or not, in a very perceptive way, and were always trying to convince each other.

Sawyer’s most recent success is THE NEANDERTHAL PARALLAX trilogy [Hominids (2002); Humans (2003) and Hybrids (2003)]. In spite of being hard science fiction proper, these novels can be read also as alternative history (or, more correctly, alternative natural history), as they propose a point of divergence circa 40,000 BCE: the debatable quantum event that ignited self-consciousness inside Neanderthal brain, instead of in the human one. Thus these three novels can be found in Uchronia (www.uchronia.net), the alternative history world site. Hominids deservedly won the 2003 Hugo for best novel. Barast (civilized alternative Neanderthal) physicist Ponder Bobbit suffers an accident in a quantum computer and “falls” inside our timeline. In this first novel, Bobbit had to prove he is a bona fide Neanderthal, while in his own alternative timeline his partner Adikor Huld is accused of having murdered Bobbit. Sawyer created a Neanderthal world and timeline from scratch. He was extremely successful in proposing a very alien, albeit humanlike advanced society which is entirely atheistic (until the first contact with humans, Neanderthals lacked the very concept of God); ecologically correct, almost crime-free, and sexually unorthodox, to say the least. Sawyer proposes a very clever and original kind of marriage in the Neanderthal’s world society, implying both heterosexual and homoerotic unions in different times of the month. In Humans, Bobbit and human geneticist Mary Vaughan consumate their passion and love. Also, the Neanderthal physicist and ambassador begins to question his beloved’s religious beliefs. Hybrids shows the official sanction of Bobbit & Vaughan relationship and the problems of conjugal adaptation of a human female in a Neanderthal world, where a woman is supposed to be with his male partner only four days a month.


—oOo—


GERSON LODI-RIBEIRO – First you wrote QUINTAGLIO ASCENSION, a trilogy about intelligent saurians making scientific discoveries in their alien world. Then, you wrote End of an Era, a very original time travel dinosaur novel, and meanwhile you also wrote the short story "Just Like Old Times", about a serial killer who is sentenced to live his last hours inside the skull of a tyrannosaur. As you said in your Locus interview, there was a time, circa 1994, when you were in danger of becoming a sf writer specialized in dinosaurs. Even so, being a dinosaur lover myself, I must ask: is there any chance of another novel or short story on dinosaurs? Or, do you feel you had already exhausted this sf theme?

ROBERT J. SAWYERI still dearly love dinosaurs, and I'm sure I'll go back to writing more about them. My US publisher, Tor, is about to reissue the Quintaglio Ascension novels -- Far-Seer, Fossil Hunter, and Foreigner. If these do well in their new editions, I'll probably right more Quintaglio books; if not, I'll find some other way to explore dinosaurs through science fiction.

I'm very fortunate to have a couple of friends who are among the world's leading dinosaur experts: Phil Currie of Canada's Royal Tyrrell Museum of Paleontology and Mike Brett-Surman of the Smithsonian Institution in Washington. They both help keep me up-to-date on the latest discoveries, and I'm sure I'll find new stories to tell about dinosaurs as time goes by.



GERSON LODI-RIBEIRO & OCTAVIO ARAGÃO – Flashforward is about the existence of free will, while in other novels you discuss the existence of the human soul (The Terminal Experiment) and of God Himself (Calculating God). Even in your recent story published in the January/February 2004 issue of ANALOG, SCIENCE FICTION AND FACT, “Shed Skin”, you deal with the possibility of the existence of the soul inside an AI built over the mental pattern of a living human being. It seems that, as an author, you are deeply concerned with the existence of metaphysical entities that were always crucial to humankind, albeit invisible and only disputably real. What new metaphysical topics do you intend to grapple with in your next novels?

RJSAs a matter of fact, my next novel, ACTION POTENTIAL, is essentially an expansion to novel-length of the short story "Shed Skin." You're right that I am indeed truly fascinated by the metaphysical, by what constitutes reality, and what, if any, meaning there is to life. But I'm a scientist at heart: I want to answer these questions empirically, through experiment, and with replicable results. I'm firmly convinced that there's no question that can't be best answered by the scientific method.

These days, I'm particularly fascinated by consciousness. During much of the last century, "consciousness" was a dirty word in brain studies – we didn't know how to account for it, or even what it was, so we just ignored it and hoped it would go away. But attempts to explain it away – ranging from Daniel Dennett in CONSCIOUSNESS EXPLAINED to Francis Crick in THE ASTONISHING HYPOTHESIS – simply are not satisfying. They'd don't account for the subjective reality we all experience. Much more interesting to me are the theories of people like Susan Pockett (THE NATURE OF CONSCIOUSNESS: A HYPOTHESIS) and Roger Penrose (SHADOWS OF THE MIND). I'm trying to come up with my own synthesis of what consciousness really is. I don't say I'll succeed – but I'm having a great time trying!

My novel after ACTION POTENTIAL is WEBMIND, about the world wide web itself gaining consciousness; it'll be a first-contact novel, but between us and an emergent intelligence that we never planned to create as such.

Other SF writers are interested in consciousness, too: Greg Egan of Australia is fascinating. But the difference between Greg and me is simple: he writes for those who already know the latest cutting edge notions, and I write for those who don't, but want to learn about them in an entertaining way.



GLR – Speaking of Calculating God, this novel echoes a concern Carl Sagan displayed at the end of his novel Contact (1985), in proposing the scientific proof of the existence of God. However, like your main human character, Jericho, Sagan was himself an agnostic who died of bone marrow disease. On the other hand, preeminent paleontologist Stephen J. Gould was suffering from cancer at the time you wrote Calculating God, just like Jericho. Presuming Sagan and Gould were your sources of inspiration to build Jericho, should we consider this character a homage to these two scientists?

RJSYou're absolutely right that Gould and Sagan were my inspirations for the character of Tom Jericho, and yet "homage" may be the wrong word. Both Gould and Sagan were extraordinarily arrogant men. Sagan's TV series COSMOS has nothing but him in it -- instead of bringing on Frank Drake to explain the Drake equation, Sagan explains it. It's almost unbelievably hubristic. And Gould had a habit of using cheap rhetoric to push arguments, rather than thoughtful reflection. I was lucky enough to get to see them both lecture in person -- Sagan once, Gould several times. There's no doubt that they're fascinating people, and, of course, their arrogance probably provided much of the strength that helped them to face their terminal diseases. But would a lesser mortal -- someone like you or me -- remain so devoutly agnostic, if that's not an oxymoron, in the face of one's own impending death? I don't know -- but that's what I wanted to explore. So Tom Jericho isn't an amalgam of Sagan and Gould; rather, he's a more humble, less arrogant -- and, I think, more typically human -- person struggling with the same tragic fate that Gould and Sagan faced.


GLR – By the way, in his review to Skeptical Inquirer, Barry Seidman rose a controversy, when he claimed that Calculating God's intelligent design theme would be making an apology of Creationism. He even alleged you would support pseudoscientific ideas. As a skeptic and evolutionist yourself, how do you feel about that accusation and what's your viewpoint on the intelligent design thesis in the real life?

RJSBarry Seidman did the skeptical movement an enormous disservice with that review, but it was typical of so much of what passes for skeptical thinking these days. Rather than report honestly, Seidman deliberately misrepresented me and my work -- solely so that he could demonize me and make himself look clever. The skeptics have become as bad as the religious fundamentalists, and they are using the same techniques. We need a protestantism of skepticism, a reborn movement that goes back to what skepticism is supposed to be: looking with a critical eye, not a closed mind, at astonishing results.

My own take is simple. Do I believe that eventually we will be able to simulate reality so exactly that the simulation will be indistinguishable from the original? Of course; there's no scientific reason that we won't be able to do that. Do I believe that someday we might be able to create baby universes is the laboratory? Sure -- again, I believe in the great power of science. Given those two assumptions, can I categorically state that we don't live in a simulation created by some more advanced being than ourselves? Can I categorically state that we don't live in a baby universe created by some experimenter in a parent universe? No, I can't deny either of those possibilities. Do I think that we might be able to find proof that either of these is in fact the case? Yes, indeed, such proof might be uncovered via the tools of science. Intelligent design is the school of thought that most closely coincides with the above views: we might live in a designed universe, there are some scientific hints that this might be true, and they are worth exploring. What astonishes me is the vehemence -- the almost religious fervor -- with which the Barry Siedmans of the world feel compelled to assert that this cannot possibly be true.



GLR – North American editors use to state that nowadays is easier to sell a sf trilogy than a standalone novel. THE NEANDERTHAL PARALLAX you just concluded was your second trilogy (and the first one you wrote as a trilogy from the beginning). Any plans to write a new trilogy in the next few years? By the way, considering the huge success of this second trilogy, are you intending to write new fiction in that same fictional universe (that is, besides your short story "Black Reflection", already published in thematic anthology In the Shadow of the Wall, organized by Byron R. Tetrick)?

RJSThere's no doubt that I'll revisit the Neanderthals. With HOMINIDS winning the Hugo Award, it's clear there's an audience for these books. Just as Orson Scott Card finds himself drawn back to the universe of his Hugo-wining ENDER'S GAME, I'll be drawn back to the Neanderthal universe repeatedly over the rest of my career.

That said, I do want to take a break from the Neanderthals. I do think that, artistically, standalone novels are much more satisfying than series books, and I want to right several more before I go back to the world of Ponter Boddit and the rest of the Neanderthals. My publisher, Tor, has already asked me if I'd like to do more Neanderthal books, and my answer has been,
"Not right now."

Also, I'm sure I will develop another series or trilogy at some point. Although I take the art in what I do very seriously, I recognize that I am writing in a commercial-fiction category. Readers like series; I'd be a fool not to give my customers what they want.


GLR – In THE NEANDERTHAL PARALLAX, you propose a Barast technological civilization more sophisticated than ours, in spite of Barasts had never developed agriculture and lacked the very concept of God and they don't have any formal religious practices (lucky guys, indeed!). Of course, in your fine speculation Neanderthals are not exactly humans. According to your fictional hypothesis, Barast brains lack the very biological hardware that would allow us humans to feel religious experiences. However, considering that religion seems to be an universal in early human societies and that agriculture was already developed independently several times by humans, would you think that a real-life human technological civilization could rise to our level without any knowledge of religion or agriculture?

RJSActually, there's no good evidence for any Neanderthal religion. We started practicing religion 40,000 years ago; the Neanderthals went another 10,000 years at least, aware of us and our practices, without ever adopting religion of their own -- so I was simply extrapolating forward that archeological reality. That said, the job of science fiction isn't to write about the most likely thing; rather, it's to write about the most interesting thing that can't be disproved by contemporary science. Postulating a race without religion lets me comment on the effects religion has had on us; it's a thought experiment, and it lets us see ourselves in ways that would otherwise elude our perception. That's worth doing.

On agriculture, it's true that it may have been invented at least twice -- in the Fertile Crescent 10,500 years ago, and possibly in Meso-America, as well. But those are warm climates; Neanderthals were cold-adapted, Northern people. Today's northerners, including Canada's Inuit, have no agriculture, because it's impossible in their climate. But again, my goal is not to argue that agriculture wasn't likely to emerge; rather, it is to isolate and remove it from the thought experiment so that we can recognize what a decidedly mixed blessing it has been, giving rise to disease, class structures, slavery, the drug trade, and more. Again, it's an exercise worth doing -- and that's why I love being a science-fiction writer.




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ROBERT J. SAWYER, Science Fiction Writer

Best Novel HUGO AWARD winner for HOMINIDS
Best Novel NEBULA AWARD winner for THE TERMINAL EXPERIMENT

http://www.sfwriter.com

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Correio Devolvido: Utilizador Desconhecido - Poema intempoliano de Jorge Candeias

E eis que Jorge Candeias nos apresenta um tipo de produção inédita - até onde eu saiba saiba - a respeito da Intempol. Um pequeno poema, que, ao menos para mim, sugere uma estrofe com refrão poderoso para uma possível canção da Intempol.

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"Correio devolvido
utilizador desconhecido"
assim fui impedido
de fazer um pedido
e assim fui coagido
a tornar-me bandido
Hoje estou escondido
num lugar subtraído
do universo expandido
num mundo perdido

Mas não faz mal
tenho comigo
um cartão cronal

domingo, 28 de junho de 2009

Cosmic horror and some other tips - Interview with F. Paul Wilson


He writes books, games and comics. He also had his first commissioned work bought by John Campbell, the Godfather of American Science Fiction, and a movie was based on his first novel, The Keep.

Today, alongside well-succeded writers like Dean Koontz and Stephen King, he is considered a master of SF, horror and fantasy, but in the begining things weren´t so easy at all.

Dear Intempol readers, here is F. Paul Wilson (the "F" is for Francis) in his first Interview for a Brazilian audience.


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OCTAVIO ARAGÃO - You sold your first short story back in the 60's to no one other than the legendary John W. Campbell. How was this experience and how (if that happened) the greatest Golden Age SF editor contributed to your work?

F. PAUL WILSON - I'd been submitting SF stories through the late 60s, but made my first sale in 1970. For years I received those preprinted slips: "Thank you for your submission but unfortunately it does not suit our editorial needs at this time." I could paper a wall with them. I submitted a story called The Cleaning Machine to Analog; Campbell rejected it as he had all others before it, but this time he told me why. I was ecstatic. Not only had I heard from the Father of Modern Science Fiction, but he'd commented on my work (for which I will forever revere his memory.)

For the next year he continued to reject my stories, but always told me why. I'd never had a writing course - I was going by touch and instinct - and Campbell's letters gave me an education in storytelling.

Finally in the spring of 1970 he accepted "Ratman" and sent me a check for $365 - a nickel a word. I was a first-year medical student at the time. My wife Mary was pregnant. We had next to no money coming in. The check was a windfall. We danced around the apartment.

Oddly enough, the check arrived with no comment. That was typical of Campbell - if he agreed with you, he had little or nothing to say.


OA - Your very first novel, The Keep, was originally a stand alone. Later you decided that - alongside with three other novels - it was part of a bigger literary series that you named as The Adversary Cycle. Just like comics writer Marv Wolfman, when he wrote DC's New Teen Titans and Crisis On Infinite Earths, you claim that it was unintentional and that "maybe you'd been working on a link-up subconsciously all along". When was the point that you saw the possibility and decided to link all novels? Did this decision helped commercially all the books involved in the Cycle?

FPW - The connection point came when I was outlining Reborn.

Let me say that I like doing connected stories - future histories or separate stories sharing the same milieu, like the Village of Monroe on the Long Island Gold Coast - but I had no intention of doing a series. The first three novels of the cycle were intended as stand alones. Completely unrelated. Wm. Morrow rejected The Tomb because it was too unlike The Keep. And The Touch was like neither.

I then went to work on a novel called The Chadham Clone. It too was meant to be a stand-alone, with no relation to The Keep. I'd started it years before, right after The Keep, but it didn't gel. (That's why there's such a gap between The Keep and The Tomb.) I wanted it to look like a Rosemary's Baby or an Omen but actually be something different (just as The Keep looks like a vampire novel for a while, but it's not). I wanted to use an evil entity other than the tired old Antichrist, but who?

Then I realized I already had that entity in Rasalom from The Keep. I needed a suburban setting convenient to Manhattan, and realized I already had one in Monroe where The Touch took place. I became intrigued by the challenge of tying those two novels, and The Tomb as well, into Rasalom's reincarnation, bringing the books full circle.

It worked so well that I must have had something going on in my subconscious while I was writing the first three.

Things grew from there. The result was an outline for a 1,000-plus-page novel. Nobody was going to publish that, so I broke it down into a trilogy ( Reborn, Reprisal, and Nightworld) and sold it that way. I'm still amazed at how well everything fit in.

Commercially it wasn't a big deal. Four of the six novels are out of print (although Borderlands Press is bringing them back as a matched set of signed hardcovers).


OA - We can see your hands in every possible media, since novels to comic books, passing through TV scripts and even PC games. Do you believe that literary SF & Fantasy is doomed and, in time, will migrate to the new media? If not, how can the written version of the genre conquer a younger audience?

FPW - Other media have certainly stolen parts of the reading audience, but I think there will always be a place for the printed word, even if it's on an e-book screen.

Younger audience? Damned if I know. But I believe there'll always be a certain percentage of the population who'll prefer to do their own imagining rather that allowing a director or game designer to do it for them.


OA - The 1983's movie version of The Keep had little or nothing to do with your original novel. How would you do it (who would you choose to direct it, who would star it and who should write the script - if not yourself), if you had the opportunity to produce a new version?

FPW - Of course I would like to write the script myself, but in all honesty I doubt I'd do the best job. Craig Spector did an excellent script for The Tomb (still in development hell) and a fellow named Chris Morgan has done some excellent rewrites. I'd also like to see what David Schow could come up with.

Director? I think Ridley Scott could do a killer version. And I was impressed with Doug Liman's Bourne Identity.

As for stars, I haven't the faintest. How about a nightmare cast instead: Adam Sandler as Glaeken, Will Ferrell as Woermann, Queen Latifa as Magda, Ben Stiller as Kaempfer, and Danny Devito as Rasalom. (Someone call 9-1-1! I need CPR!)


OA - From Lovecraft to Carl Barks, your list of influences is a cast of superstars, but outside the SF&F genre, who do you like? Which mainstream authors are *quintessential* and why?

FPW - James Ellroy (American Tabloid is indescribably good). I will buy anything by Jeffrey Deaver because he never fails to surprise me. Steven Hunter because I like his guns and stoic characters. And Carl Hiaasen because he's always fun.


OA - Last question: Peter Straub, Dean Koontz, Stephen King, and obviously, yourself. Which one could match the masters of old like Poe, Hawthorne, Bierce or Lovecraft, and why?

FPW - Although my style is nothing like his, the cosmic horror of my fictional universe is much like Lovecraft's. Straub's and Hawthorne's styles would seem a good fit. King and Poe share many qualities, especially in their short fiction. That leaves Koontz and Bierce, who aren't such a bad match when you take into account their senses of humor.


OA - Thank you very much, Mr Wilson, for this fantastic chat!

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