terça-feira, 22 de julho de 2014

The Long Yesterday: o passado condena, mas o futuro redime

O criador da Intempol, retratado por Osmarco Valladão



Bem-vindo, novato, eis seu crachá de visitante. Mantenha-o à mostra durante a visita. 

Não toque em nada. Segurança é tudo.

Sabe como é, a história não é fixa e qualquer modificação, por menor que seja, muda tudo. Você não gostaria de exterminar a si próprio inadvetidamente. Deixe-me guiá-lo por estes corredores brancos.

A partir de 1998, o porvir será interessante, com alguns de nossos conceitos sobre fluidez cronal e realidades alternativas caindo no senso comum. No cinema, haverá a revelação da Matrix, dos Homens de Preto e de uma coisa chamada Avatar, mudando nossa maneira de ver o mundo e revelando alguns segredos ao público. Observaremos o amadurecimento de um evento na Internet chamado “redes sociais”, que reunirá pessoas em tempo real, o tempo todo. 

Tempo, tempo, tempo.... sempre ele. No Brasil haverá a ascenção de uma presidenta e nos Estados Unidos, um líder chamado Obama. Curiosamente – e você vai pensar que estou de brincadeira, mas a história é irônica – também aparecerá um líder terrorista chamado Osama, que, munido de dois aviões e alguns avoados, derrubará duas torres. Tudo isso, recruta, acontecerá num piscar de olhos, enquanto seus dedos digitam as Caixas Registradoras e passam os Cartões Cronais, equipamento padrão da Intempol. 

Em 1998 suge – sim, acostume-se com as mudanças abruptas dos tempos verbais em uma conversa – o primeiro sinal da Intempol, num conto chamado “Eu Matei Paolo Rossi”, que conta subversivamente a verdade por trás de todas as Copas do Mundo. Pois é, sabe aquelas teorias conspiratórias que enxameam as fofocas diárias? São todas verdadeiras. Todas, até as que você sabe que são impossíveis. 

Cada um dos contos da série Intempol, escritos por autores diversos, revelam realidades tão palpáveis quanto críveis que chamamos de “Mitoverso”. Dentre esses contadores de histórias, está Osmarco Valladão, pai de Lace O’Malley, um detetive chandleriano em uma Hollywood de sonhos e sandices, de clones temporais e planos megalômanos. O conto The Long Yesterday, que conta a aventura de um homem de ação recrutado por uma empresa dedicada à adequação da história aos seus propósitos, foi  publicado no mítico ano 2000, dentro da antologia Intempol, e virou um álbum em quadrinhos em 2005.

A narrativa roteirizada por Valladão e desenhada pelo prolífico e legendário Manoel Magalhães recebeu indicações para prêmios, mas desapareceu rapidamente das livrarias, talvez devido à ação de forças externas (cof... cof...), deixando um gosto de irrealidade, de lembrança de um sonho à beira do despertar. A Intempol continua a aparecer eventualmente – serão publicados, até 2014, quase 50 contos, dois romances, dois albuns em quadrinhos e uma webcomic – mas O’Malley e sua gangue sumiram por tempo demais. É hora do retorno. 

Seja bem-vindo, calouro, e participe do ressurgimento do detetive mais durão de todos os tempos, no Catarse.

Sim, isso é uma convocação. E uma celebração.

Alguns brindes para os colaboradores. Sim, isso é com você!




quarta-feira, 9 de julho de 2014

Bolão – Conto de Luiz Felipe Vasques

Julho de 2014. Mais uma Copa do Mundo. Ou talvez seja sempre a mesma.

É muito bom saber que, mesmo depois de 14 anos desde a publicação da primeira história nesse multiverso maluco, Intempol ainda inspira contos divertidos e antenados. E, como não podia deixar de ser, este aqui, recém-produzido por Luiz Felipe Vasques, assim como o primeiro publicado no agora diáfano 1998, fala sobre as dores de um jogo perdido. O tipo de ferida que jamais se fecha.


***

- 7 a 1, pode por aí. 

Osmar olhou para a estagiária:

- Brasil? Otimista, hein, garota?

- Não, não: Alemanha.

Osmar balançou a cabeça, mas não estava convicto. Despacharam Portugal por 4x0. Mas uma vitória assim…

- Por que? – Insistiu em saber.

- Ah, a camisa deles é do time do meu namorado. – Revelou. Osmar ainda assim deu um sorriso simpático, apesar do que realmente achava. 

- Mas por que a 1?

- Ah, Brasil, sabe como é, tem que acreditar.

Balançou a cabeça novamente. Cabecinha de vento. Mas foda-se, o dinheiro era dela, ela era maior de idade. Anotou a aposta.

7x1. O 1 havia entrado quase como se o oponente se desesperara nos últimos 15 minutos em ao menos dar ao anfitrião as chances de um gol de honra. Honra de quem tem a mãe na zona, é claro. O fantasma de 50 era substituído pelo de 14. 14 reverberava nos corações e mentes incrédulos de gerações, a partir daquele momento. O país ainda haveria de encontrar o segundo fantasma de 50, mas isso era outra história. Até lá, 14 era o novo ano terrível.

– Que cara é essa, Osmar? – Como se o outro não soubesse.

– Porra, perdi a maior grana no bolão… 

– Ainda bem que eu não aposto nessas merdas… – Algo estava errado. – Peraí, perdeu? O bolão não foi desfeito? Alguém acertou o placar?

– E pra uma garota. A Renatinha, estagiária lá da Marinete. 7x1 cravado. Ainda disse que apostou na Alemanha porque a camisa lembra – 

– A camisa do time do namorado. – Ecoou o outro, que atendia por Fraga. 7x1, e agora ainda essa. Puxou o celular. Osmar revirou os olhos, um “putamerda” mal murmurado. O celular atendeu: – Ô, Deodato, como é mesmo a história da Adriana tua filha que ganhou uma aposta no trabalho…?

Eventos como Copas do Mundo sempre são mais tensos. Facilmente alvo de quem quer fazer muito dinheiro, mexer em política, fazer o diabo. A Empresa estava lá para que elas fossem e permanecessem como são, dentro dos acordos anteriormente estabelecidos. Ainda que não se compre ou se venda uma Copa para sempre: mas isso era decisão das mais altas hierarquias, e dificilmente o resultado muda.

Davi era um ratinho. Não queria forçar a queda de governos, entrar na bolada do superfaturamento de estádios, nem grandes esquemas complicados e fáceis de serem vistos. Bolões entre funcionários podiam render uma boa grana. Nem precisava procurar emprego, bastava namorar a garota certa em cada oportunidade. Ser um Agente da Intempol facilitava muito este esquema. Nem precisava sair cometendo LTAs. Mas Davi também era burro. Comer a estagiária da Marinete e achar que podia dar desfalque nos colegas de trabalho era forçar a sorte. Forçar a sorte em um momento sensível, ainda por cima.

Por isso, a coronhada do rifle de assalto que recebeu nos dentes foi bem merecida, pensava Osmar com um sorriso de hiena, enquanto arrastava o desfalecido desdentado para a prisão. A maleta na outra mão pesava, com o dinheiro. Pensou se haveria tempo em substituir Davi no golpe com a corporação que a filha do amigo de Fraga trabalhava. Fora um bom dinheiro. Ainda de quebra comeria uma gostosinha. Riu-se, negando com a cabeça. Não era tão burro assim.

Ou era?

Rio de Janeiro – 9/07/14

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Três esboços de Até Que Enfim é Sexta-Feira, por Manel Fogo


 
Guido numa situação... desconfortável.


É, o guri é mesmo fogo.

Ao menos é o que julgo ao ver os esboços de páginas de nossa nova HQ, Até Que Enfim é Sexta-feira, continuação do lançamento de 2011, Para Tudo Se Acabar na Quarta-Feira

Pois é, as aventuras de Guido continuam, dessa vez na tumultuada década de 1970, entre ditaduras, discotecas e copacabanas.  É, nosso anti-herói resolveu construir um futuro no passado.

E mais não digo.

Nah, digo sim. Essa história é uma baita experiência, pois pela primeira vez estamos criando a trama a quatro mãos, não apenas com palpites meus nos desenhos, mas com muitas sacadas do Manel no texto, sugerindo ideias e conceitos que eu jamais pensaria.

Quem gostou do álbum anterior vai mergulhar de cabeça. O problema será, depois que der uma olhada na arte finalizada, não querer voltar à surperfície para respirar.

O sono tranquilo de Lovecraft.
Bierce versus Crowley. Que vença o pior.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

As aventuras intemporais de Clandestina Candente de Cosa

Pelas mãos de Gérson Lodi-Ribeiro, um dos autores presentes na antologia original de 2000, um história da Intempol foi recém-publicada na coletânea Histórias de FC de Carla Cristina Pereira, pela Editora Draco.

A criatura e o criador, em capa sugestiva de Erick Sama

Trata-se da noveleta Clandestina Candente de Cosa, que, além de mostrar as desventuras da protagonista, presta uma homenagem a diversos autores que ousaram viajar pelo(s) tempo(s) em seus textos literários.

Essa jornada de Lodi-Ribeiro pelos interstícios da agência temporal mais brasileira de todos os mundos possíveis já havia sido publicada no falecido site da Intempol, mas está de volta revisada e atualizada.

Quem não leu, corra antes que os últimos exemplares desapareçam num limbo espaço-temporal.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

O projeto da capa de Intempol: Para tudo se acabar na quarta-feira


A criação e confecção da capa de Quarta-feira form processos a parte e demorados. A HQ já estava nos finalmentes quando decidimos pensar a ilustração, as cores e a tipografia.

A primeira ideia que nos ocorreu foi fazer um cartaz de blockbuster dos anos 70, ou nos moldes dos trabalhos do mestre Benício.

Manoel fez alguns estudos:



Infelizmente, apesar de mostrar todos os elementos principais da trama em composições arrojadas, não era bem isso que esperávamos como “efeito”. Então comecei a pensar se o “Carnaval”, tão presente na trama, não deveria ser evidenciado.

Desenvolvi o rough abaixo:


Ali estavam o carro alegórico, a passista, o efeito especial e os protagonistas, mas não claramente, em silhueta apenas.

Também não funcionou. O lettering, por outro lado, estava começando a tomar forma e resolvi mantê-lo no rascunho seguinte, mas com um swing “anos 70”.


O caminho, afinal, parecia estar mais claro - ou escuro, se levarmos em consideração a paleta de cores escolhida. No final, depois de muita discussão sobre anatomia e de como se arremessa uma granada (?!?!?), chegamos à uma proposta colorida.

Então, depois de uma verdadeira faxina, decidimos retirar todos os elementos que causavam ruído, voltamos com o conceito de cartaz de filme de ação para a quarta-capa (com o carro e os outros personagens, sendo que os soldadinhos migraram para as “orelhas” da capa) e fechamos no que seria a capa definitiva, já com desenhos de Manoel.

O logotipo de Osmarco Valladão ganhou uma tarja preta e “raios elétricos” substituíram os brilhos indefinidos de antes. O letreiramento também ganhou um update, ficou mais condizente com o clima de agressividade da história, e o alfabeto de apoio buscou aliar personalidade e discreção. O logo da Draco foi posicionado à direita inferior, ponto nobre da capa e consideramos o trabalho pronto.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

A noite dos tempos: lançamento de Dieselpunk e Intempol: para tudo se acabar na quarta-feira

Os autores e o fim do estoque. Foto de Cláudia Quevedo Lodi
No dia 1º de dezembro de 2011, a Blooks Livraria, em Botafogo, foi palco de mais um evento ligado à literatura de gênero brasileira. Desta vez, num lançamento duplo da Editora Draco: a antologia Dieselpunk, organizada por Gerson Lodi-Ribeiro, e o álbum de HQ Intempol: para tudo se acabar na quarta-feira, da dupla Octavio Aragão (que sou eu!) e Manoel Ricardo. À mesa, apenas Gerson Lodi-Ribeiro e eu assinávamos os livros, já que o ilustrador capixaba Manoel não pôde comparecer.

A noite foi concorrida, com mais de sessenta pessoas percorrendo os corredores da livraria sob o olhar de Elisa Ventura, mix de empresária e agitadora cultural, que sempre abriu as portas da Blooks para eventos do porte da SpaceBlooks e diversos lançamentos.

Dentre os presentes, designers, acadêmicos, jornalistas e, claro, quadrinistas decidiram dar uma chance às aventuras movidas a diesel presentes nas noveletas da antologia literária e aos tiroteios intemporais da polícia cronal, em sua segunda investida em formato Graphic Novel.

Com texto de Octavio Aragão e desenhos de Manoel Ricardo, essa é a quarta história em quadrinhos baseada nas aventuras dos agentes intemporais surgidos na antologia de contos Intempol, lançada em dezembro de 2000, pela editora Ano Luz [as anteriores foram a webcomic A Mortífera Maldição da Múmia, de Carlos Orsi e Kalango Produktado, o álbum colorido The Long Yesterday (Comic Store, 2005) e Belvedere Blues (uma história curta publicada na revista Wizard, em 2006), ambas de Osmarco Valladão e Manoel Magalhães]. O que, porém, diferencia esse álbum das demais aventuras quadrinísticas da série é que, pela primeira vez, o cenário é brasileiro.

Estiveram presentes, entre diversos outros, convidados do naipe de Athos Eichler Cardoso, o maior conhecedor da obra de Angelo Agostini, pioneiro quadrinista ítalo-brasileiro, a doutora e pesquisadora Profª Rosza VelZoladz, o quadrinista Mig, parceiro de Ziraldo nas diversas séries do Menino Maluquinho, o colunista de O Globo Henrique Koifman, Carlos Hollanda, pesquisador, músico e professor, o designer e professor da EBA-UFRJ, Celso Guimarães (inspiração para um dos personagens da série Intempol e que foi devidamente apresentado à sua contraparte ficcional), Marcelo Serpa, publicitário, cientista político e professor da ECO-UFRJ, e o casal Glória e Amaury Fernandes, designer e coordenador de graduação da ECO-UFRJ. O pesquisador e quadrinista Carlos Eugênio Patati levou a filha, que compôs com meus filhos e os de outros convidados um inusitado e energético elenco infantil.

Mãos à obra! Foto de Cláudia Quevedo Lodi
Manoel Magalhães, quadrinista ganhador do prêmio Harvey 2010, ilustrador e co-autor das Graphic Novels Intempol: The Long Yesterday e O Instituto, ambas em parceria com Osmarco Valladão, também compareceu, acompanhado pelos designers José Antônio, programador visual do Fórum de Ciência e Cultura e professor da PUC-RJ, Ana Carreiro, Marisa Araújo e Paula Wienskoski, designers da Editora UFRJ, Lila Montezuma, designer do Fórum de Ciência e Cultura e a artista plástica Christina Barretto.

Do âmbito da ficção científica brasileira, o mais novo antologista da praça, Luiz Felipe Vasques, o multiartista Alexandre César, a volta de um dos decanos do CLFC, Rubenildo Pithon de Barros, a historiadora, escritora e publisher Ana Cristina Rodrigues, o colega hyperfanático Rafael Luppi, o amigo Professor Bruno, o jornalista Daniel Ribas, Pedro Barros, e o Homem Renascentista da FC brasileira, músico, poeta, escritor e antologista Braulio Tavares.


Também compareceram amigos dos autores de diversas áreas, desde o núcleo familiar, passando por alunos de hoje e ontem, até alguns do tipo “long time no see” de infância e adolescência que deram o ar da graça. Infelizmente, nem todos saíram com seus exemplares nas mãos, pois em pouco mais de sessenta minutos tanto Dieselpunk quanto Quarta-feira se esgotaram, mas isso não impediu a confraternização e boas horas de risadas, conversas e até uma gravação impagável para o podcast Quadrimcast, com as participações dos amigos Leandro Laurentino e esposa, Leo Spy e Nikita.

Resumindo, uma noite para não esquecer! Bom vinho, bons amigos e bom humor.

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