sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Contatos no Mundo: entrevista com Felipe Sobreiro


Dono de traço personalíssimo, esse brasileiro de então 22 anos, criado em Bogotá e residente em Brasília está ganhando o mundo, tendo publicado em países tão díspares quanto México, EUA, Espanha e Inglaterra. Agora, enquanto prepara a conquista do planeta, começa a descobrir as possibilidades dos quadrinhos brasileiros com parceiros talentosos como Abs Moraes e Hector Lima.

Usando a internet como meio de divulgação – tanto individualmente quanto em grupo, no multinacional URBAN DREAMS, Felipe Sobreiro já conseguiu o que muitos quadrinistas com mais estrada sonham: reconhecimento e um plano de carreira internacional.


***

OCTAVIO ARAGÃO – Você é o único brasileiro envolvido no grupo que desenvolve o projeto latino americano de quadrinhos divulgado pela rede, URBAN DREAMS. Como foi esse contato? Afinal, sabemos que não há uma interação muito azeitada entre o Brasil e seus vizinhos hispânicos no que diz respeito à arte seqüencial...

FELIPE SOBREIRO – Desde aproximadamente uns quatro anos atrás tenho estado em contato direto a través da Internet com muitos criadores de quadrinhos do mundo todo. O fórum que me pareceu mais interessante e onde comecei a discutir sobre o ofício foi Monos & Moneros, de desenhistas, escritores e leitores mexicanos. Os pesos pesados das HQs mexicanas, gente como Bachan, Edgar Clément, Oscar Gonzalez, Carlos García Campillo e Edgar Delgado são membros freqüentes. Alguns escritores se interessaram pelo meu material e desenvolvi com eles meus primeiros quadrinhos. Por ter vivido toda minha infância e adolescência na Colômbia, minha cultura é muito mais próxima da dos mexicanos do que da dos brasileiros, a pesar de eu e toda minha família sermos daqui, por isso a comunicação na hora de desenvolver os projetos fluiu naturalmente. Só muito tempo depois foi que comecei a expandir os meus horizontes e a conhecer em fórums similares outros autores do resto do mundo - e do Brasil.


OA – Sua cultura literária parece muito mais vasta e ampla que a da maioria de seus contemporâneos, com quadrinhos baseados em Julio Cortázar, por exemplo. Como resolve seus roteiros? São escritos por você mesmo ou lança mão de roteiristas?

FS – Eu não diria "muito mais vasta". Seria um exagero... O que acontece é que desde pequeno fui bastante introvertido e lia muito mais do que as crianças da minha idade. A minha família é de leitores e nesse ambiente fui desenvolvendo o meu 'vício'. Com o tempo, o gosto evoluiu e me interessei especialmente pelos autores do "boom" latino-americano da segunda metade do século XX, e tinha à minha disposição livros de Mario Benedetti, Julio Cortázar, García Márquez, Álvaro Mutis, Mario Vargas Llosa. Depois passei a me interessar pela filosofia, inclusive fiz um ano e meio na Universidad Nacional de Bogotá, mas finalmente a veia artística falou mais alto.

Até agora tenho feito quadrinhos sempre com roteiros alheios, tenho algumas idéias próprias, mas passei muito tempo sem escrever ficção e fiquei atrofiado. Lentamente estou elaborando uma história da série de Poe & Philips, que quero eventualmente escrever e ilustrar. Outro projeto futuro que tenho em mente é uma adaptação da peça PEDRO Y EL CAPITAN, de Mario Benedetti, mas isso por agora é apenas um sonho.



OA – Sabemos que você vem desenvolvendo HQs para o México, EUA, Espanha e Inglaterra. Esse retorno e contatos lucrativos são oriundos da exposição de seu trabalho no URBAN DREAMS?

FS - Na verdade, não. Os contatos, como mencionei acima, vieram da interação com outros criadores em fórums e como resultado da exposição dos trabalhos nos diversos sites onde eles estão disponíveis e do meu próprio site. A URBAN DREAMS foi feita em 80% por autores que são freqüentes do fórum de Monos & Moneros, e só entrou no mercado há aproximadamente um mês, na APE de São Francisco. Está à venda por agora no México somente, mas o editor, Santiago Casares, quer disponibilizar para outros países através do site.


OA – Fale um pouco de suas parcerias com Alex de Campi e Craig Gilmore.

FS – Alex de Campi me escreveu após ter visto meu site. Ela estava interessada em desenvolver um projeto para publicar na Europa. No início mantive o sigilo, mas ela mesma falou pro Rich Johnston, que falou pro mundo na sua coluna Lying in the Gutters, qual era o projeto: uma adaptação e modernização de Fausto, de Goethe. Estamos apenas nas fases iniciais, esboços, layouts, etc.

Craig Gilmore é um jovem escritor britânico, gostou muito de NIGHTMARE 17, que fiz com Adam White, e pediu pra desenvolver um quadrinho de 8 páginas, que estou desenhando muito devagar por causa do trabalho em FAUSTO. Vai ser o meu último quadrinho on-line - pelo menos até que eu me estabeleça no mercado profissional. Trata-se de uma série sobre um antigo assassino, agora velho e decadente. Puro humor negro.



OA – E o Brasil? Você ainda está radicado em Brasília, apesar de ter passado um certo tempo em Bogotá. Nenhum projeto eminentemente nacional em vista? Percebo que sua temática e referências estilísticas são mais universais que regionais. Onde entra o Brasil na sua alquimia profissional?

FS – Bom, em Brasília a 'cena de quadrinhos', até onde eu sei, não existe. Só há uma loja de HQs, onde os leitores encontram um pequeno oásis no meio do cerrado, mas ninguém parece estar produzindo nada. Eu morei 14 anos em Bogotá, como mencionei antes, e lá, apesar de pobre, se fazia alguma coisa de vez em quando. Aqui em Brasília simplesmente não conheço ninguém que faça quadrinhos. Então foi na internet que conheci os brasileiros com que trabalhei e estou trabalhando, Abs Moraes e Hector Lima.

Abs Moraes é um excelente escritor que, entre outras coisas, colabora freqüentemente no NonaArte. Já trabalhei com ele antes em REM, uma historia em prosa cujo prólogo em quadrinhos eu desenhei. Nos próximos meses vou fazer o primeiro capítulo de uma série do personagem curitibano O Gralha, para quem Abs já escreveu antes.

Conheci Hector Lima no extinto fórum do Warren Ellis, e, a pesar de nunca termos feito nada juntos, sempre conversamos bastante no seu próprio fórum, onde até o Abs participa de vez em quando. O projeto com ele, DESPERTAR VERDE, é uma HQ sobre seres alienígenas, e já há uma pequena amostra na internet .

2 comentários:

Denis Moura disse...

Grande Octa,

Muito obrigado. Fiquei lisonjeado com seu convite de amizade no netlog.

O blog da Intempol continua à mil, hein?
Cara, muito boa a sua entrevista com o J.J. Veiga. Excelente a percepção do fantástico/real no universo Brasileiro do velho escritor que deixou saudades.
Os conto do Jorge Nunes e do Luiz Vasques estão "pancada", e a entrevista com o Felipe Sobreiro descortina o mundo dos quadrinhos aos neófilos do nanquin.

E o Big Bang Microcósmico, está fazendo sentido pra você? Os amigos do Samizdat/Oficina E-TL estão dando uma força. Melhoras à vista.

Abraços fraternais!

Dênis Moura

Octavio Aragão disse...

Oi, Denis!

É sempre um prazer conversar contigo, rapaz. Olha, tem muito mais entrevistas de onde vieram essas. E ainda nem comecei a disponibilizar as matérias e resenhas... temos material para entrar por 2009 e chegar até, talvez, 2010. Isso sem falar nas novidades que estou preparando. Fique de olho.

Estou com o Big Bang (e também com o pessoal do sensacional Conselho Steampunk) na minha lista de prioridades, não se preocupe. São empreitadas assim que fazem do ambiente contemporâneo da FCB um local - melhor dizendo, um Hall, parecido com o da Liga da Justiça - dinâmico e divertido de acompanhar.

Apareça sempre.

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