quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Saída de Emergência: conto de Hidemberg Frota

O elevador chegou ao destino a um palmo abaixo do piso. Enquanto erguia a perna para subir o degrau deixado pela displicência mecânica, ouviu a voz fina mas estridente chamando-o por professor. Professor, professor, professor, a insistência lhe soava familiar, acompanhada do sotaque catarinense, reverberando o contínuo assombramento da forasteira.

- Bom dia, Léia.
- Professor, preciso falar com o senhor - Léia era a única aluna estagiária na Procuradoria-Geral da República que esquecia de trocar o “professor” pelo “doutor”.
-As provas, só na próxima segunda.
- Pois é, eu estive na aula de sábado. Na verdade é assunto particular.
- Ainda não conseguimos pagar o atrasado dos estagiários. Só depois do décimo-terceiro dos servidores.
- Mestre, é assunto particular, mas de interesse alheio.
- Cliente do Escritório Jurídico da Faculdade?
- Meu vizinho. Ele foi preso.
- Bebeu?
- Está sendo investigado por terrorismo.
- No mínimo, trinta anos.
- A sentença não foi prolatada. É prisão administrativa.
- Dois meses na certa.
- Eu estou ajudando a escrever o habeas-corpus dele.
- Por quê?
- Fizeram uma busca e apreensão domiciliar na madrugada. Não havia mandado judicial.
- Eu já te disse, Léia, esquece a Constituição do Brasil.
- A prisão não foi arbitrária?
- A prisão foi administrativa. Não precisa de ordem judicial.
- Mesmo à noite?
- Em caso de terrorismo, sim.
- Não há como recorrer?
- Depois de um mês, o preso pode pedir liberdade provisória ao Ministro da Justiça. Não crie expectativa.

***

Suspirou como se expirasse o tédio de perguntas inócuas. Afrouxou o cinto. Afivelava-o como se ainda tivesse pudor em conter a gula. O urubu no outro lado da janela retomava a sessão matutina de contemplação paisagística, rotina diária que recordou Montoro de seu próprio itinerário.

- Zaira, já deixaram a garrafa de café - gritou para o outro lado do gabinete, separado pela porta semi-aberta.
- Já, Dr. Montoro.
- Pega lá pra mim, por favor - pediu, enquanto ligava o navegador da internet.
- Vem cá, a conexão continua daquele jeito? - indagou Montoro, observando a chegada da xícara.
- O técnico disse que é por causa da pirataria.
- Só que eu preciso entregar o parecer sobre aquela questão de quotas para homens em cursos de Direito. Em Portugal o Tribunal Constitucional enfrentou a mesma discussão. Eu preciso fazer o download dos acórdãos.
- Qual o posicionamento deles, doutor?
- De que a quota é constitucional, porque a neurociência já comprovou que as mulheres são mais inteligentes que os homens. Sendo elas a maioria nos cursos de Direito, prevalece a igualdade material: tratar os desiguais na medida da sua desigualdade. Desigualar agora para igualar lá na frente.

O Palácio Cilíndrico balançou no compasso da ventania que afastara o urubu para abrigo mais seguro, fizera o café transbordar para a mesa e silenciar o murmurar do ar-condicionado central.

- Outro terremoto na Venezuela?
- Com esse estrondo, doutor?
- Não foi o transformador que pifou? Ficou sobrecarregado.
- Parece uma explosão - asseriu Zaira, abrindo a porta do corredor, onde esbarrou no militar, que lhe alertou:
- O míssil atingiu o quarto andar. O Tenente Haddad disse pra evacuar.
- Depois desse susto, evacua-se até com hemorróida - completou a secretária, olhando para o chefe.

***

- Vamos por aqui, Dr. Montoro. As escadas estão entupidas de gente - sublinhou o militar, apontando para a Sala de Audiências, que se viu iluminada por três ofegantes lanternas.
- Sargento, vamos abrir essa portona aí. Ela é pesada. A porta do corredor vai ficar aberta e esta também.
Assim, quem se lembrar da saída de emergência, não se atrapalha.
- E agora? - perguntou Zaira, fitando o vazio sombrio recém-desvelado.
- Mergulhemos - empurrou o Sargento Messias e a Dona Zaira, cujo grito de desespero se viu amortecido pelos colchões empoeirados.
- Estamos no subsolo - informou Montoro, contendo-se para não denunciar a agilidade física de sedentário.
- Doutor, como a gente sai daqui?
- Pelo corredor, Zaira - indicou o caminho das luzes rubras.

Caminhavam a passos curtos, sincrônicos e ritmados como se corressem em esteiras, condicionados à batida eletrônica de música de fundo de academia de ginástica.

- Que barulho é esse? - Igarapé? - perguntou o Sargento Messias.
- Não é zoada de água, não - observou Zaira.
- Som de buzina — comentou Montoro.
- A passagem de nível da Djalma Batista - dilucidou Messias.
- Já?
- É a pressa, Zaira – explicou Montoro. - A gente anda como se o Palácio Cilíndrico fosse se arrebentar no chão.
Premidos pelo calor, desaceleraram à medida que se aproximavam dos filetes de luz emoldurando o portão de saída.
- Onde estamos, doutor?
- No porão do Ministério da Educação, Zaira. De costas para o Amazonas Shopping - afirmou Montoro, ao empurrar
a barra de ferro, junto com o Sargento Messias.

***

Subiram o lance de escadas e chegaram ao térreo. Estilhaços de vidro ao chão, permeando o corredor a contornar o quadrilátero.

- Abaixa, Sargento! - gritou Montoro, ao ver a mira laser.

Agachados, Zaira, amparando o corpo caído de Messias e fitando a pistola no coldre do militar, perguntou:
- O senhor sabe atirar?
- Só bola de gude.

Zaira tirou do bolso o terço.
- Passa pra mim, que eu vou precisar, Zaira. Volte ao túnel. O corredor esquerdo vai bater na Cidade Nova.
- O senhor é mais novo.
- A senhora tem cinco bocas para amamentar. Eu tenho seguro de vida.

***

Enquanto a saraivada de tiros riscava o ar entorpecido de fumaça, Montoro enroscava sua tosse rouca embaixo da mesa. Percebeu a porta sendo escancarada. Viu as botas se aproximando, enquanto congelava a respiração. Puxou as pernas da sombra, que se estatelaram, levando ao piso frio a cabeça coberta, que se espatifou no vaso de cerâmica.

Correu antes que criasse coragem para olhar a poça de sangue. Correu sem olhar para os lados em vôo kamikaze no silêncio do lobby vazio de vítimas sobreviventes, testemunha esviscerada de uma guerra anunciada. Encontrou o sol do meio-dia e suspirou. A direita desapertava o que sobrara do nó da gravata e a esquerda descansava, suando vermelho.

***

A sóror se mantinha silente. O semblante de quem já viu essa história antes contrastava com a tez de juventude insofismável. A beleza de seu rosto pálido se curvara à sobriedade de seus trajes monásticos, cujo branco-e-azul dizia a Montoro que tudo estava bem, o tiro-ao-alvo em montanha-russa se encerrara. A firmeza de seu olhar transformara a consolação em esclarecimento. Com a cabeça desnuda deve ser mais bonita ainda, pensou Mntoro, enquanto ela sorria de leve, espargindo-lhe serenidade. Montoro sentia o corpo dilatado, balão sem pressa para aterrissar, esvaziando os pensamentos em nuvens diáfanas.

Ai!, o braço enfaixado fisgava-lhe de volta à vigília, ao encontro da janela retratando a paisagem alaranjada de final de tarde. Tirou o cobertor do peito.

- Calma, você já vai ter alta - Montoro viu a enfermeira sem saber se era metade índia ou metade oriental.

Sentada na ponta da cama viu a filha ruborizada de lágrimas.

- Helena, o que houve? - procurou seus olhos de quatorze anos atrás de maturidade pós-balzaquiana.
- Pai, dessa vez os ataques da Resistência Baré foram mesclados. Tiroteio, míssil, incêndio, seqüestro. O
senhor teve sorte.
- Tanta pirotecnia para reanexar a Amazônia ao Brasil. Deixa estar, diria o José Lins do Rêgo.
- Melhor que ser pombo-correio dos americanos.
- Ninguém forçou o Brasil a trocar a Amazônia pelo perdão da dívida externa.
- O primeiro-ministro declarou feriado por dois dias.
- Pra ver se a poeira senta mais rápido, Helena.
- É o final dos tempos. Catástrofes ambientais, crescimento do crime organizado, banalização do sexo e da
violência, esgarçamento do tecido social, desregramento moral.
- Fale como alguém da sua idade. Assim você me faz me sentir o adolescente da família.
- É a chegada do Astro Intruso, pai. Ramatís já dizia isso há meio século. Está lá na psicografia do Hercílio Maes, “Mensagens do Astral”.
- Às vezes o espírito de sua mãe incorpora em você.
- Mas a mamãe não era espírita, nem ramatisiana.
- Ela era consciencióloga. Achava que vivemos a era da aceleração histórica, em que um monte de trogloditas psicopatas estariam voltando à carne depois de séculos sem “ressomarem”, como ela gostava de dizer.
- É o homo sapiens reurbanisatus, pai.
- Deixa essa tralha misticóide pra lá. Vá namorar, sair com as tuas amigas. Depois é só chapotelada da vida.
- Eu quero acelerar a minha evolução.
- Agora realmente baixou a tua mãe.
- O senhor é adepto do carpe diem.
- Às vezes eu me pergunto se não seria o caso de aproveitar o momento antes que um carro-bomba nos leve pelos ares.
- O importante é cumprir o dharma.
- Você é nova demais para saber qual sua missão de vida.
- Chico Xavier desde jovem exercia seu mediunato.
- Helena, quem acabou de enfrentar a morte fui eu.

4 comentários:

Denis Moura disse...

Tensão e suspense do começo ao (meio do) fim, além de um desfecho bem humorado. Enredo verossímel de um Brasil que salda suas dívidas c/ a cobiçada Amazônia e tenta reavê-la depois.

Parabéns, Hidemberg. O conto é muito bom de ler.

Se você me permite, eu sugeriria apenas alguns ajustes:
Num preciosismo jurídico, recomendo trocar a expressão
"(...)prevalece a igualdade material(...)" por "(...)prevalece o princípio da eqüidade(...)".

E para evitar o eco "igualar lá", ajustaria a seguinte frase trocando:

"Desigualar agora para igualar lá na frente". por "Desigualar agora para igualar mais a frente".

Outra coisa é sobre o crime de terrorismo: para a maioria das pessoas superespostas à criminalização dos homens-bombas, o Brasil tem leis para isto. Mas para quem conhece sabe que aqui não há tipificação para o crime de terrorismo. E mesmo que houvesse, a imutável clausula Pétrea do fundamental direito a inviolabilidade de domicílio não seria quebrada. Assim, o suspeito nunca seria preso durante a noite e muito menos sem mandado judicial. A não ser, é claro, se falarmos em outra linha temporal onde as leis são diferentes das atuais, o que deve ser o caso.

Ademais, o conto é excelente. Congratulações!!!

Abraços Intemporais!!!

Denis Moura
http://denismoura.blogspot.com

Fernando S. Trevisan disse...

Octa, ué, republicação? O conto do Hidemberg já foi publicado aqui em abril. Não saquei, inclusive não saquei pq o do Fábio (que eu devidamente copiei a partir do RSS feed) foi excluído...

Octavio Aragão disse...

O conto do Fábio, Trevisa, foi excluído a pedido dele mesmo. Fiquei triste, pois adoro a história, mas atendi ao pedido do amigo.

Temáticas Jurídicas disse...

Companheiros intempolianos, boa tarde!

Mestre e amigo Octavio, obrigado pela divulgação do conto!

Aproveito para republicar aqui réplica minha aos comentários fraternos do Denis (resposta que eu, originalmente, postei no blog dele -na época não sabia direito como se
manifestar na blogosfera - e, na verdade, era para eu ter postado aqui também):

"Prezado Dennis:

Só hoje (08/11/2009) li seus comentários ao meu conto ´Saída de Emergência´.

http://intemblog.blogspot.com/2008/10/sada-de-emrgncia-conto-de-hidemberg.html

Agradeço-lhe as generosas palavras de incentivo, bem como as sensatas ponderações.

Você pontuou:

´Outra coisa é sobre o crime de terrorismo: para a maioria das pessoas superespostas à criminalização dos homens-bombas, o Brasil tem leis para isto. Mas para quem conhece sabe que aqui não há tipificação para o crime de terrorismo. E mesmo que houvesse, a imutável clausula Pétrea do fundamental direito a inviolabilidade de domicílio não seria quebrada. Assim, o suspeito nunca seria preso durante a noite e muito menos sem mandado judicial. A não ser, é claro, se falarmos em outra linha temporal onde as leis são diferentes das atuais, o que deve ser o caso.´

Observação correta. Todavia, na linha temporal do conto, a Amazônia Ocidental é um território independente do resto do Brasil, com ordenamento jurídico próprio.

Forte abraço!

Antecipo meus votos de feliz Natal e próspero Ano Novo, extensivo aos seus familiares.

Atenciosamente,



Hidemberg Alves da Frota"

P.S.: Resposta originalmente veiculada em:
http://denismoura.blogspot.com/2009/09/de-tudo-ao-meu-amor-serei-atento-antes.html

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