sexta-feira, 15 de maio de 2009

Conto: Do Lado de Cá do Tempo, de Roberval Barcellos

1 - CRIME COMUM

Por que diabos insistem em passar para a Polícia Federal algo que é da competência da Polícia Civil? Pensava Antonio Queiroz enquanto caminhava até a sala do Delegado Serpa - o "Delegado estressante". Pelo que ele leu no Boletim de Ocorrência, trata-se de um homicídio simples, envolvendo um Zé Ninguém que se aventurou em alguma atividade ilícita e tornou-se mais um nas estatísticas criminais de 2000.
Ao menos era essa a conclusão preliminar: suspeita de envolvimento com o tráfico de drogas, visto que foi morto com várias perfurações à bala, todas saídas de uma mesma arma - um rifle de assalto modelo 15 de fabricação americana, ou melhor, um famigerado AR-15.
O morto não trazia consigo nenhuma identificação, mas tiraram as impressões digitais e levaram-no para o Instituto Médico Legal. Até agora só se sabe que era um homem negro, cerca de quarenta anos, medindo 1,76m e estava bem vestido.
Queiroz bateu três vezes na porta da sala do Delegado e entrou. Ele mantinha-se inexpressivo e seu "boa tarde" soou tão formal que Queiroz nem estendeu a mão para cumprimentá-lo.
- A Polícia Civil passou para nós um caso que deve ser mantido em sigilo absoluto, pois envolve Segurança Nacional e Tratados Internacionais assinados pelo Brasil. O Papiloscopista responsável está a caminho - ele deu uma rápida conferida no relógio de pulso - mas já deveria estar aqui.
Aí vem bomba! Pensou Queiroz.
De repente alguém adentrou na sala sem mesmo bater. Era um rapaz alto, magro e moreno, de cabelo preto cortado rente, todo suado e carregando uma pasta tipo 007. Ele foi logo estendendo a mão para o Delegado Serpa - que com sua tradicional antipatia levou cerca de cinco segundos para apertar a mão do rapaz, que teimava em mante-la estendida.
- Meu nome é Bastos e sou o perito encarregado do caso...
- O Papiloscopista! - Interrompeu o Delegado. - Está atrasado!
Sem graça, o rapaz calou-se e sentou-se numa cadeira ao lado de Queiroz, abraçado à sua pasta.
- É que eu deveria encontrar o Agente de Polícia Federal Antonio Queiroz, mas não sei como ele é.
Queiroz sorriu, virou-se para o rapaz e disse:
- Fácil. Ele é mulato, tem um metro e oitenta, calvo, usa bigode e cavanhaque e tem cinqüenta anos.
O rapaz logo reconheceu-o pela descrição e sorriu. Depois de uma bronca é bom saber que está ao lado de alguém com senso de humor.
- Agora que já se conhecem, peço que explique ao agente Queiroz o que você descobriu sobre o defunto vivo.
"Defunto Vivo"? que tipo de caso é esse?
O rapaz tirou alguns papéis de dentro de sua pasta e começou a explicar enquanto colocava-os em ordem:
- Há vinte dias a Polícia do Rio foi acionada por causa de um "presunto" encontrado nas proximidades do metrô do Estácio, com vinte e três perfurações produzidas por fuzil AR-15 e sem identificação. O corpo foi encaminhado para o IML e tiraram as impressões digitais.
Ele fez uma pausa, mostrou um papel com diversas impressões digitais e prosseguiu:
- Pelo exame papiloscópico, descobrimos a identidade do "morto", um homem chamado Emanuel Assis, de quarenta e dois anos, casado, dois filhos, funcionário dos Correios, residente aqui mesmo no Rio de Janeiro, no bairro Rio Comprido.
Queiroz abriu os braços e disse:
- Bom trabalho! Mas cadê o extraordinário que envolve a Polícia Federal, a Segurança Nacional - ele olhou de soslaio para o Delegado - e Tratados Internacionais?
O Papiloscopista entregou outro papel a Queiroz e respondeu:
- Acontece que esta pessoa que eu acabei de descrever está viva!
Queiroz olhou para ambos e sugeriu:
- Trocaram os dados do morto! Só pode ser.
- Não trocaram. Foram feitas novas perícias, inclusive DNA. Aquele sujeito que está morto e o vivo são a mesma pessoa. Não há enganos.
Queiroz coçou o cavanhaque e especulou:
- Seriam gêmeos univitelinos?
O Papiloscopista sorriu. Gostava de estar diante de pessoas inteligentes e astutas.
- Tivemos essa suspeita. É raríssimo encontrarmos duas pessoas com as mesmas impressões digitais, esses casos são raros mesmo entre univitelinos. Mas a mãe do "vivo" ainda está viva e localizamos os registros médicos de seu nascimento. Descobrimos que ele nasceu de parto cesariana e que sua mãe pariu apenas ele e não gêmeos.
- Então o que sugerem? - Perguntou Queiroz olhando para ambos.
O Delegado virou-se para o papiloscopista e disse sem cerimônias:
- Muito obrigado, perito Bastos. Se precisarmos novamente do senhor mandaremos te chamar. Tenha uma boa tarde.
Novamente sem graça, o perito engoliu o palavrão que jurou um dia dizer ao Delegado. Queiroz viu no rapaz um possível futuro problema para aquele Delegado prepotente.
Quando o rapaz já havia saído, o Delegado se debruçou sobre a mesa e disse a Queiroz:
- O "vivo" é de Governador Valadares.
- Aquela cidade mineira que manda gente aos montes para os EUA.
O Delegado fez um muxoxo e desdenhou:
- Presume-se que um Agente de Polícia Federal saiba ao menos disso. O que quero dizer é que como todo bom valadarense, o "vivo" passou uma temporada de três anos nos EUA, onde fez um pé-de-meia. Nós suspeitamos que ele tenha sido "clonado" nos EUA.
Queiroz quase saltou da cadeira.
- O senhor quer que eu vá para os EUA a fim de investigar isso? É impossível! Além do mais não teria apoio das autoridades americanas nem provas de experimentos genéticos anteriores a Dolly.
O Delegado sacudiu de leve a cabeça. Detestava quando seus subordinados viam dificuldades antes mesmo delas aparecerem.
- Agente - ele disse com rispidez - posso assegura-lo de que foram feitos experimentos genéticos muito antes de Dolly. Você está cansado de saber que quando anunciam uma "descoberta" científica é porque já está "descoberto" há muito tempo.
- Mas essa associação entre um cadáver misterioso, seu "gêmeo genético" e clonagem clandestina é tarefa para Tom Cruise filmar em Missão Impossível. Além do mais implicando os EUA. Presume-se que um Delegado de Polícia Federal ao menos saiba que investigações envolvendo outros países são feitas no âmbito internacional.
O Delegado franziu a testa. Queiroz podia ser o melhor Agente em atividade, mas dificilmente ele engoliria tamanha insolência. Não é à toa que todos os dias rezava para que surgisse um jovem e submisso Agente que fosse melhor do que Queiroz.
- Agente, não precisa ir aos EUA nem mesmo sair do Rio de Janeiro. O que eu quero e o governo federal também quer é uma investigação que conclua, de modo tecnicamente perfeito, que houve clonagem e que esta só poderia ter sido feita num país que dominasse vários ciclos dessa tecnologia, como os EUA. De posse do seu relatório e da conclusão do inquérito, deixaremos o Itamaraty cuidar do resto.
Agora foi Queiroz quem franziu a testa e indagou:
- O Itamaraty vai ser envolvido antes do Ministério Público?
- Deixaremos o Ministério Público de fora disso. Queremos provar que os EUA violaram normas internacionais de conduta em pesquisas científicas e guardar como trunfo para uma futura negociação na Organização Mundial do Comércio. Os EUA não vão querer ser expostos à condenação mundial e poderemos pressiona-los a recuarem quanto às barreiras levantadas aos nossos produtos.
Queiroz sorriu. Se tivesse alguma intimidade - ou simpatia - pelo Delegado, certamente acenderia um de seus charutos baianos e ofereceria um ao interlocutor. Mas aquele não era o homem, o lugar e o momento.
- Delegado, o senhor quer me dizer que o governo quer ir fundo numa investigação apenas para ter certeza de que ela não servirá para Justiça?
- Ela servirá ao país. Agora vá e faça o que tiver que ser feito. Tem carta branca para agir, mas devo ser participado de tudo o tempo todo, ouviu bem? Não tente passar por cima de mim e ir direto aos altos escalões, pois eles não confiam em subalternos, mesmo quando se trata do melhor subalterno. Boa investigação.
Queiroz se levantou, ajeitou o paletó e indagou:
- E se as investigações concluírem que não se trata de clonagem nem os EUA têm algo a ver com isso tudo?
O Delegado, que digitava um número em seu celular, disse:
- Contamos com essa hipótese, Agente. Por isso o escalamos: para termos certeza de que não haverá erros. Tenha uma boa tarde!
Queiroz nem respondeu. Saiu dali a passos largos pelo corredor e pensando seriamente na aposentadoria. Estava com tanta pressa que nem reparou numa mulher loira, vestida com um sobretudo preto, de óculos escuros que estava encostada na parede acompanhando seus passos. Assim que ele entrou no elevador, ela sorriu, ajeitou os óculos escuros e desapareceu como se fosse um fantasma - ou coisa pior.

2 - VETERANO DO KOSSOVO

Da janela do quarto daquele hotel barato, um homem olhava para o burburinho na Praça Tiradentes naquela tarde quente de março. Só mesmo os cariocas para manterem um rotina de trabalho e alegria debaixo daquele calor abrasador - o termômetro digital da rua marcava 38º.
Ônibus iam e vinham apinhados de gente apressada enquanto baleiros e pedintes assediavam os que se encontravam nos pontos de parada, a espera de transporte neste país sempre a espera do futuro.
Mas não era pelo futuro que ele estava ali. Nem por aquela gente.
Ele passou a mão sobre seus cabelos loiros e lisos que caíam sobre a testa e foi para cama, onde abriu seu laptop e fez contatos com seus novos amigos. Agora eles sabem que ele já está no Rio de Janeiro e pronto para ação, aguardando apenas o momento certo para agir. Pouco após o contato, surgiram as seguintes palavras na tela:

BRAZILIAN FEDERAL POLICE AT WORK
MISSION: INTERCEPTATION OF INFORMATIONS
OBJECT: LOCATION

Aparentemente indecifrável, mas para ele era claro demais. Ele esteve nas forças da OTAN que foram proteger os albaneses da limpeza étnica planejada pelos sérvios. Foi no Kossovo que ele viu homens surgidos do nada que foram buscar um homem que nunca deveria ter existido. Horas antes o jovem tenente inglês Patrick Morton ouviu a conversa entre o "inexistente" e seus oficiais superiores. Uma conversa tão surreal quanto os homens que apareceriam para busca-lo. Lembrava-se claramente de tudo:
O homem gesticulava e falava sem parar, enquanto os oficiais olhavam um exemplar do "Times" que ele lhes entregou:
- Isso tudo está errado! A Sérvia declarou guerra à OTAN e bombardeou cidades da Croácia, Eslovênia, Bósnia e Macedônia com armas químicas. Depois a OTAN invadiu a Sérvia, mas a Rússia entrou no conflito para apoiar os sérvios. O resultado está estampado na primeira página do "Times". Leiam!
Ele, curioso, aproximou-se e leu sobre o ombro do oficial:

FORÇAS RUSSAS DESTRUÍRAM BASE DA OTAN NA TURQUIA
ESTADO DE ALERTA EM TODA EUROPA
EUA ENVIAM UM MILHÃO DE HOMENS PARA EUROPA
ONU TENTA NEGOCIAR UM CESSAR-FOGO

Pela data, isso teria acontecido há seis dias. Todavia, nada disso aconteceu e - graças a Deus - o mundo não está à beira de uma Terceira Guerra Mundial por causa dos confusos Bálcãs. Mas havia o exemplar nas mãos do oficial e o homem tinha uma identificação: era um sargento chamado Edward Grey, do 3º Regimento Pára-quedista inglês. O oficial nem se apressou em verificar.
- O Regimento ao qual o senhor alega pertencer não está nos Bálcãs!
- Preste atenção, Coronel - o homem estava desesperado - é aí que fatos e loucura se misturam! Umas pessoas esquisitas apareceram e procuraram a minha unidade. Meu comandante deu-nos a missão de saltarmos em território sérvio e matarmos um grupo de militares e civis russos. Nós embarcamos num B-52 e sobrevoamos território inimigo, mas - não me perguntem como - voltamos no tempo e saltamos nos arredores de Belgrado, onde fomos recepcionados por outros homens estranhos que nos levaram até um prédio onde os russos deveriam se encontrar com os sérvios para, segundo eles, tramarem a queda de Yeltisin e envolverem a Rússia no conflito.
O Oficial que o inquiria, sacudiu a cabeça e questionou:
- Como você pode estar tão certo de que voltou no tempo?
- Por que Belgrado ainda estava lá quando deveria ser só ruínas devido à retaliação da OTAN, que não deixou um só prédio de pé.
Os oficiais se entreolharam. O que segurava o exemplar do "Times" disse categoricamente:
- Não é difícil falsificar exemplares de jornal. Não entendo o que você quer com isso, mas não será por nossa causa que outro maluco fará aparições na mídia.
O homem se exaltou:
- Por que não mandam a Inteligência verificar essa droga? Eles também podem afirmar que destruímos um prédio inteiro em Belgrado e matamos russos e sérvios! Basta que confrontem as informações!
O oficial jogou o exemplar sobre a mesa e perguntou:
- Neste caso, onde estão os outros? Cadê o seu Regimento?
- Só eu consegui escapar! Sou o único sobrevivente! Já fiz uma lista com os nomes dos meus companheiros que tombaram para salvar a humanidade da Terceira Guerra Mundial.
Ele abaixou os olhos e falou em voz baixa:
- Todos mortos!
Minutos depois outro oficial entrou na barraca e foi logo dizendo:
- Falei com Londres! O 3º Regimento Pára-quedista e as pessoas que ele listou estão sãs e salvas na Inglaterra. Nunca estiveram aqui!
O Coronel alisou seu bigode e virou-se para o Sargento:
- Algo mais a dizer? Mais alguma mentira?
Quando o Sargento parecia prestes a gritar, o oficial que acabou de chegar interrompeu o Coronel e disse:
- Tem mais uma coisa, senhor: O Sargento Edward Grey está na Inglaterra. Requisitei sua ficha e quando ela chegou fiz uma ligação para a sede do 3º Regimento Pára-quedista e falei diretamente com o Sargento Grey, que escaneou sua identidade e outras fotografias dele. Achei melhor confirmar a informação do que nos expor a um constrangimento.
O Coronel abriu os braços. Não estava entendendo nada. Foi então que o oficial entregou-lhe algumas folhas de papel e disse:
- Este que aparece nas fotos é o Sargento Edward Grey.
O Coronel olhou para as fotos impressas nos papéis e olhava a todo instante para o Sargento que ali estava. Ele arregalou os olhos e empalideceu. Que jogo seria aquele?
- Isso não pode ser! - Por fim disse o Coronel.
- Essa foi a minha reação, senhor. - Disse o oficial. - Por isso fiz contato direto com o Sargento Edward Grey e solicitei cópias de seus documentos de identidade. Também obtive dados acerca de seu tipo sangüíneo e até seu prontuário médico para o caso de uma investigação, digamos, mais científica. Está tudo aí, senhor.
O Coronel engoliu seco e largou os papéis sobre a mesa. Morton, que a tudo observava, aproximou-se do Coronel com a desculpa de levar-lhe um copo d'água e viu a razão do espanto: o rosto que aparecia na fotografia era o do Sargento que ali estava.
Antes que pudesse atribuir créditos às palavras daquele Sargento, um General entrou na barraca acompanhado por dois civis trajando ternos pretos - um de meia idade e cabelos grisalhos e outro com quase dois metros de altura e de aparência hostil. Os militares ficaram em posição de sentido até o General manda-los ficar à vontade, depois ele apontou para os civis e ordenou:
- Coronel, entregue tudo que aqui houver acerca do... - o General virou-se para o civil de cabelos grisalhos: - Qual é mesmo o nome dele, Agente Anderson?
O grisalho respondeu prontamente:
- Sargento Edward Grey, General. - Em seguida apontou para o homem. - É aquele ali mesmo!
Morton sentiu um frio na barriga. Apesar do bom inglês do tal de Anderson, ele reconheceu o sotaque. Como não poderia tê-lo reconhecido se ouvia tal sotaque em sua própria casa todos os dias?
O Coronel segurou a mão do gigante quando este preparava-se para pegar os papéis sobre a mesa e perguntou ao General:
- Senhor, me desculpe pela insolência, mas quem são esses senhores que acham que podem levar um cidadão inglês de um acampamento militar do Reino Unido?
Morton sorriu ao ver que o Coronel também notou que aqueles dois não eram ingleses, mas duvidava que soubesse a procedência.
Anderson adiantou-se e respondeu ao Coronel com aquele jeito meio malandro e meio debochado que ele conhecia tão bem:
- Se faz tanta questão da resposta, Coronel, vou logo adiantar-lhe que só o deixarei ainda mais confuso. Eu sou o Agente Anderson da Intempol e esse sujeito não é o Sargento Edward Grey, que está numa boa lá na Inglaterra, mas sim um Edward Grey que nunca existiu.
O Coronel olhou para o General e soltou a mão do gigante, que apressou-se em recolher o exemplar do jornal e os papéis. Em seguida ele retirou um estranho par de algemas do bolso e prendeu o pobre Sargento pelos pulsos. Ao ver-se algemado, o homem debateu-se e tentou resistir, mas o gigante torceu-lhe o braço com tamanha violência que o Coronel sacou sua pistola e apontou-a para o grandalhão, dizendo:
- Sem violência! Faça isso de novo e teremos dois enterros em vez de uma prisão!
O General se adiantou e deu uma bronca:
- Abaixe já essa arma, Coronel! Esses homens estão cumprindo com as normas de um Tratado Internacional do qual o Reino Unido também é signatário! Portanto, se não quiser provocar um grave incidente internacional, guarde sua pistola e deixe esse homem terminar o serviço.
A contragosto, o Coronel obedeceu. Guardou a arma e ficou apenas vendo o Sargento ser arrastado para fora. Morton não se surpreendeu com a maneira deles agir, pois era assim que os policiais faziam naquele país de onde provinham pessoas com aquele sotaque. Ele aproveitou-se da distração deles e apanhou o papel que caiu no chão. Em seguida saiu da barraca e seguiu os dois agentes arrastando o suposto Sargento para dentro de outra barraca. O homem debatia-se e gritava que era o verdadeiro Grey.
De repente a gritaria acabou. Morton arrepiou-se em imaginar aqueles dois usando drogas ou um murro no queixo para calarem o homem. Ignorando as ordens do General, ele sacou sua pistola e entrou na barraca apenas para constatar que não havia mais ninguém ali. Só o silêncio.
Teletransporte? Magia? Imaginação? Loucura? Viagem no tempo?
Depois do que viu e ouviu ele ficou com a última. O papel ele guardaria consigo até precisar dele.
De volta ao presente, Patrick Morton não é mais um tenente britânico, mas sim um homem amargurado e solitário pela segunda vez que busca no improvável uma solução impossível. A resposta está no Rio de Janeiro, a cidade que lhe mostrou a felicidade, ainda que breve, mas que ele está disposto a tudo para recupera-la.
Afinal, quem não quer ser feliz?


3 - BOLA DA VEZ


Nem Nível Cinco, nem Nível Quatro. Sequer Nível Três. Ivan Rangel era um burocrata menor, recrutado para uma função tão importante quanto singela: comunicar verbalmente as instruções via computador para Agentes poucos ou nada acostumados com a informatização. Como gênio das oportunidades, Rangel viu nisso uma grande oportunidade.
Os burocratas menores eram em geral recrutados entre adultos oriundos dos anos entre 1990 e 2020, pois viveram entre o fim da Era Industrial e o início da Era da Internet, adaptam-se com igual facilidade aos tempos com ou sem computadores. Com essa habilidade sui generis, podiam se comunicar e despachar ordens para Agentes Especiais, daqueles que montam guarda em seu próprio tempo.
Para Rangel essa foi a melhor oportunidade de sua vida, pois ele sabia da importância do Repasse de Informações para as missões. Assim, sua pequena seção ganhou status de departamento e ele nunca foi visto como um burocrata menor, pelo menos até hoje.
O Repasse de Informações era a mola-mestra para os Agentes Especiais, pois como "decodificar" a linguagem digital para um agente oriundo do século dezoito? Só através de alguém que saiba usar um computador e falar com quem não sabe. Sem ele, como um agente da Intempol no Império Bizantino, que nunca viu nem mesmo uma caneta esferográfica, poderia entender uma ordem vinda do sofisticadíssimo Nível Cinco? Não dá para funcionar. No passado, a Intempol gastava tempo, energia e dinheiro para ensinar um Agente Especial a usar um computador apenas para obter informações, mesmo sabendo que ele jamais sairia de seu próprio tempo. Um dia eles compreenderam que seriam mais eficientes se adequassem seu sistema aos tempos que deveriam proteger, ao invés de tentarem adequarem os tempos ao seu sistema.
Isso funcionou bem até Rangel ser corrompido pelo próprio sucesso.
Como todo burocrata que se esforça em ser mais do que realmente é, Rangel tornou-se arrogante, prepotente, intratável. Exigiu e obteve duas secretárias e instituiu uma agenda a ser cumprida rigidamente por todos que dependessem dele. Certa vez ele atrasou a promoção de um Agente que atuou brilhantemente evitando que Portugal e Espanha entrassem na Segunda Guerra Mundial ao lado da Alemanha Nazista só porque não marcou hora com uma das secretárias para receber o comunicado. Noutra, ele não comunicou aos Agentes do século dezoito a mudança do número da conta bancária por onde receberiam seus salários só porque eles o tratavam por "você" e não "senhor". Tudo isso repercutiu nos corredores da empresa.
Dessa vez ele se deu mal. Em vez de repassar pessoalmente uma importante informação a um Agente Especial do século quatro, enviou uma carta explicando-lhe todo ritual para falar com ele. O Agente, um legionário romano, julgou aquilo tudo uma frescura típica de um eunuco da corte imperial em Constantinopla e ficou aguardando que o comunicado fosse até ele. Como Rangel não o fizesse, a ordem nunca chegou e o Agente acabou morto e uma série de eventos estranhos tiveram lugar em vários séculos, tendo o século quatro como foco.
De quem era a culpa?
Todos na Empresa o apontaram como culpado - único culpado. Ninguém teve bom senso ou coragem de acusar os níveis superiores por jamais questionarem os desmandos de um burocrata menor, nem de tentarem um meio mais eficaz para facilitar a vida dos Agentes Especiais. Mais fácil e muito mais divertido acusar um arrogante e assistir de camarote sua queda e desmoralização final.
Foi assim que Rangel caminhou até os Comissários, conformado com a hipótese de se tornar um Homem Que Nunca Existiu. Corriam boatos de que até o Nível Seis foi pego de surpresa pela sucessão de eventos que sacudiram aquela Linha Temporal, coisa inédita na história da Empresa.
Lá dentro estavam Fraga, Valladão e Guimarães, inquietos e irritados, olhando quadros e fotos. Rangel ficou em posição de sentido, chamando a atenção dos Comissários, até que Guimarães disse:
- Pare de cena! Desde quando se fica em posição de sentido aqui?
- Sossega, Guimarães - interveio Valladão. - Ele já está enrascado com a merda que fez, ou melhor, não fez.
Rangel resignou-se e ficou à vontade, aguardando a punição. Ao menos acabaria logo com aquilo e descansaria numa prisão confortável.
- Os focos de mudança são os anos 376, 853, 1099, 1494 e 2000. Cinco divergências que não criaram novas LTs. Isso é muito estranho.
- Põe estranho nisso, Guimarães - disse Fraga. - Seja quem for que se infiltrou nessa Linha Temporal, fez sem provocar alterações. Isso requer um cálculo minucioso, onde algo pode dar errado. Daí aplica-se a Lei de Murphy que diz que se algo pode dar errado é porque algo vai dar errado.
- É - Guimarães fingiu concordar. - Mas alguém revogou a Lei de Murphy e aplicou outras mais eficazes: as Leis da Física.
- Mas qual? - Irritou-se Fraga, já exibindo gotas de suor na testa.
Valladão apontou com o polegar para Rangel e interveio:
- Vamos deixar a Física para os físicos. Somos Comissários da Intempol e a razão de estarmos aqui é esse paspalho que resolveu brincar de "rei".
Todos se viraram para Rangel, que apesar de conformado não deixou de sentir um frio na barriga.
- Fala, desgraçado!
- Falar o quê, Comissário Guimarães?
- Qualquer coisa que nos ajude a sair dessa merda, seu escroto! Ficou de viadagem em vez de trabalhar direito. O Agente Septímio Verus está morto e o Agente Emanuel de Assis, que designamos para 2000, está desaparecido. Perdemos totalmente o contato e não conseguimos localizar sua Caixa Registradora.
Rangel sentiu um lampejo. Quase tão intenso quando notou a importância de sua seção na Empresa e disse:
- Senhores Comissários, o Agente Assis não pertencia àquela LT.
Todos olharam-no com um "E daí?" na ponta dos lábios. Rangel cruzou os braços nas costas para que não vissem suas mãos tremendo.
- Eu repassei uma informação ao Agente Assis a pedido do mesmo...
- Peraí! - Esbravejou Guimarães. - Ele estava fazendo investigações por conta própria?
Rangel passou a língua nos lábios e pensou: "Tô ferrado mesmo e Assis está sumido. Que se dane!"
- Senhores, nas palavras do Agente Assis, o Comissariado da Empresa precisava de alguém astuto como ele. Por força dessa crença, ele estava investigando mapas temporais e notou que em 2000 uma LT, muito parecida com a da qual ele era oriundo, estava sofrendo flutuações características das fases que antecedem a criação de uma nova LT.
- Quer fazer o favor de ir direto ao assunto! - Guimarães estava sem paciência e não via a hora de manda-lo para a Prisão dos Homens que Nunca Existiram.
Rangel recobrou a calma e prosseguiu:
- Ele foi fazer um reconhecimento no Rio de Janeiro de 2000 daquela LT a fim de constatar a existência de viajantes temporais em trânsito.
Valladão deu um soco na mesa e disse para Guimarães:
- Além de viado é mal informado! Sempre houve e sempre haverá viajantes temporais de todas as Linhas Temporais. A todo instante tem um louco inventando moda para viajar no tempo em vez de correr atrás de mulher! Nosso problema é quando algum desses turistas temporais resolve reescrever a História e corre o risco de criar uma nova LT.
- Deixem o cara falar! - Intercedeu Fraga. - Ele pode ter alguma informação que nós não temos por culpa do Agente Assis.
Novamente os Comissários fizeram silêncio e fitaram Rangel como se estivessem num tribunal da Santa Inquisição. Ele respirou fundo e disse:
- Eu sei o que o Agente Assis procurava e aonde: ele procurava por viajantes temporais que estariam infiltrando "Novas Pessoas" naquela LT.
Agora foram os Comissários que sentiram calafrios. Para um cronoterrorista disposto a tudo para alterar o futuro, melhor do que extirpar alguém da existência era colocar uma "Nova Pessoa" num determinado tempo e aguardar por todos os eventos seguintes que ela provocará. A maneira mais eficaz de fazer isso era engravidar uma mulher de determinado tempo com sêmen de um homem de outro, causando uma confusão enorme após o nascimento do rebento. Todavia, a Intempol sempre foi eficaz e nunca permitiu que surgisse uma "Nova Pessoa".
- Dessa vez é para valer! - Disse Rangel. - Assis tinha certeza disso e estava fazendo um levantamento antes de participar suas suspeitas ao Nível Seis - isso mesmo, Nível Seis. Ele só queria tratar com os deuses.
- Babaca! - Valladão xingou. - Agora ele está desaparecido, talvez morto!
Fez-se silêncio na sala. Após alguns segundos, como se trocassem mensagens telepáticas, Fraga falou por todos:
- Vamos te dar uma chance e vê se não estraga de vez! Você vai para 2000 e ficará à disposição até obtermos mais informações. Até lá faça um roteiro de tudo que o Assis disse, resmungou, vociferou, sussurrou ou mesmo especulou. Tudo!
Rangel sorriu. Ao menos teria uma chance. Depois Fraga ordenou:
- Suma da minha frente!
Ele saiu às carreiras.
Assim que ele saiu, Guimarães debruçou sobre a mesa e encarou Fraga, dizendo quase num rosnado:
- Vamos deixar aquele imbecil de merda fazer outra lambança?
Fraga sorriu maliciosamente, apanhou um CD room e respondeu:
- Tenho um relatório completo aqui, preparado pelas nossas equipes de sociólogos, psico-historiadores e observadores peritos. A situação é grave. Saibam que uma equipe de arqueólogos franceses desenterrou os restos de um povoado arrasado pelos vikings por volta do ano 853 e sabem o que encontraram? Eu respondo: uma cova coletiva com guerreiros vikings mortos à bala, mais precisamente de fuzil AR-15.
- Droga! - Berrou Guimarães. - Outra LT?
Fraga balançou a cabeça e replicou:
- Pior: nenhuma mudança. Alguém vai ao passado com uma arma fabricada por volta do ano 2000, mata vikings e nada acontece. Nada!
De repente soou o comunicador e Valladão atendeu. Depois de alguns segundos ele de a notícia:
- Acharam o corpo do Assis. Ele foi encontrado morto no Rio de Janeiro de 2000 perfurado por dezenas de tiros de AR-15.
Outra vez soou o comunicador. Ao atender, Valladão pareceu inseguro e depois de dez minutos de comunicação, gaguejou para dizer:
- Essa veio do Nível Seis. Eles querem uma reunião geral com todos os Comissários e estão convocando todo pessoal, inclusive os que já se aposentaram. Acreditem se quiser, entramos em Alerta Máximo.
Fraga acendeu um de seus "Continental sem filtros" e murmurou:
- Lá vem merda!


4 - ARQUIVAMENTO


Antonio Queiroz fora chamado para uma reunião secreta no Palácio Rio Branco, sede do antigo Itamaraty no Rio de Janeiro. Era por causa do caso Emanuel de Assis, o morto que está vivo.
Ele vestiu um terno de linho e tentou parecer elegante e despojado ao mesmo tempo, afinal ia falar com figurões do Governo Federal. Isso para ele não era nenhuma novidade, pois numa época em que policiais menos destacados possuem toda uma rede de contatos na imprensa, Queiroz chamava a atenção pelo seu jeito reservado e sua experiência de vinte anos na Polícia Federal, sempre designado para os casos mais difíceis. Também não se fazia valer do fato de ser mulato nestes tempos de "politicamente correto" e confiasse exclusivamente em sua competência.
Queiroz era conhecido por seu bom gosto e refinação, quase um James Bond, embora detestasse rótulos. Ele ingressou na PF numa época em que não se exigia nível superior para Agente, mas aos quarenta anos decidiu cursar uma faculdade para não ficar para trás. Escolheu Filosofia só porque precisava de menos pontos para passar no vestibular.
Mas o destino nos prega peças. Queiroz sempre gostou de raciocinar e discutir idéias, acabou se identificando com o curso e se formou entre os primeiros da turma. Aquilo que lhe parecia grego por ser difícil de entender, passou a soar como grego por ser bom de aprender. Ele devorou Platão e Aristóteles, Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino. Em comparação, o século vinte foi pobre de idéias, mas rico em realizações. Ele costumava dizer, ao definir o vigésimo século, que o Homem passou cinco mil anos pensando para pôr tudo em prática nos últimos cem.
Novamente ele se surpreendeu divagando enquanto caminhava entre os corredores e jardins do Palácio Rio Branco. Os figurões queriam um relatório feito por um de seus melhores agentes que sugerisse clonagem de um ser humano a fim de encurralar o Tio Sam na OMC. O problema é que em cinco dias de exaustivas investigações, Queiroz lamentava que não fosse feito nenhum esforço sério para saber quem seria o assassino. Clone ou não, um ser humano foi assassinado e ninguém se importa com isso, só com o jogo duro do comércio internacional. A grande ironia era que tudo levava a crer que houve mesmo clonagem. Nunca duas pessoas foram tão idênticas, conforme atestaram médicos, peritos e cientistas. A diferença entre ambos era que o "morto" exibia melhor forma física.
Foram feitas todas as perícias e exames possíveis, tudo com a dócil colaboração do "vivo" Emanuel Assis, que além do tratamento VIP dispensado pelas autoridades, foi "indicado" para uma promoção nos Correios, onde ganharia mais e trabalharia menos.
Queiroz subiu as escadarias e chegou à uma sala onde três homens esperavam-no: O Delegado Estressante, um político e um alto funcionário do Corpo Diplomático. Assim que entrou o Delegado apresentou-o aos demais, que disseram o lisonjeiro "Já ouvimos falar muito do senhor". Em seguida foi convidado a sentar-se e serviram-lhe um café.
Como compete aos pedantes, o Delegado foi direto ao assunto:
- Alguma novidade sobre o caso?
Queiroz olhou ao redor. Estavam todos muito interessados.
- Pouca coisa, Delegado - começou Queiroz, largando a xícara sobre uma mesinha de centro. - Nenhuma pista sobre o assassino - ele disse isso de propósito e parece que o Delegado entendeu - mas os peritos estão tão confusos que apontam para clonagem.
O Político e o Diplomata se entreolharam, dizendo o primeiro:
- Pelo volume do seu relatório houve muita busca, Agente, e você só tem para nos contar uma mera especulação?
Queiroz encarou o Político e reparou o quanto eles se esforçam em parecerem simpáticos num ano eleitoral.
- Deputado, o volume do relatório não quer dizer que há uma conclusão. Ninguém conhece um meio eficaz de comprovar se houve ou não clonagem e somente podemos tecer especulações. Nada mais.
O Delegado apanhou o relatório, repassou-o rapidamente e disse:
- De qualquer maneira seus esforços foram louváveis, Agente - Queiroz surpreendeu-se com a polidez, - mas em nada nos serviram - não se pode elogiar. - O caso vai mudar de mãos de qualquer maneira.
Por essa Queiroz não esperava. Nunca lhe tiraram um caso e por isso franziu a testa, talvez por notar isso, o Deputado ordenou ao Delegado:
- Conte para ele, Delegado.
O "Estressante" se surpreendeu e questionou:
- Será que devemos?
- Eu sou o representante do Presidente da República aqui e estou mandando, afinal foi o senhor mesmo quem nos disse que ele é o melhor Agente de toda Polícia Federal...
Queiroz não disfarçou o sorriso.
- ...apesar de considera-lo prepotente e ultrapassado.
O Delegado permaneceu inexpressivo quando começou a falar:
- Devido a um Tratado Internacional do qual o Brasil é signatário, o caso vai passar para a Intempol.
Queiroz abriu os braços e perguntou:
- A Interpol está tão interessada assim?
O Delegado fez um muxoxo e replicou:
- Eu não disse Interpol, Agente Queiroz. Eu disse Intempol, Polícia Internacional do Tempo.
Queiroz sacudiu a cabeça e disse, franzindo a testa:
- Eu não entendi direito ou o senhor disse "Polícia Internacional do Tempo"?
O Diplomata cruzou os braços e recostou-se na poltrona, dizendo:
- O senhor entendeu direito, Agente Queiroz. Daqui há muitos anos as viagens pelo tempo serão comuns e a toda hora surgirá um louco querendo mudar a História. Para isso foi criada a Intempol, uma organização supranacional encarregada de manter a harmonia no tempo.
Queiroz fez um rápido exercício de respiração para conter a gargalhada. Piraram. De tanto assistirem Arquivo X e outras loucuras do tipo "Teoria da Conspiração", acabaram acreditando.
- Pela sua cara o senhor está incrédulo, Agente Queiroz - afirmou o Diplomata com sua sutileza de praxe. - Pois saiba que é a mais pura verdade, com direito a escapadas pelo tempo e criação de universos paralelos surgidos a partir de fatos históricos alterados.
- Paradoxos - disse Queiroz tentando simplificar.
- Muito bom - disse o Diplomata. - Nada surpreendente vindo de um bacharel em Filosofia. - De repente ele consultou seu relógio de pulso e avisou a todos: - Eles já estão chegando.
No instante seguinte bateram à porta e entraram dois homens vestindo ternos pretos: um grisalho que identificou-se como Anderson e um rapaz magro, de cabelos castanhos ralos e nariz aquilino que foi apresentado como "ajudante Rangel". O desprezo na voz de Anderson ao apresentar o outro foi tão evidente que Queiroz concluiu que não eram exatamente amigos.
- Esses são os enviados da Intempol que deverão receber todos os documentos relativos às investigações feitas pelo Agente Queiroz e daremos o caso como encerrado, devendo o mesmo ser arquivado.
Anderson estendeu-lhe a mão num caloroso aperto, já o tal Rangel cumprimentou-o como se fizesse um favor.
Policiais do tempo? Em nada lembravam aqueles superpoliciais que ele vira em filmes sobre viagens no tempo. De quem teria sido essa idéia?
- O Agente Queiroz irá acompanha-los. Tenham uma boa tarde!
Assim o Deputado dispensou-o quando ele ainda tinha tantas perguntas para fazer. Saiu com os dois até o carro estacionado ali perto. Sem saber o que falar, Queiroz começou a dizer:
- De onde vocês vieram ainda existe o automóvel?
Anderson sorriu e respondeu:
- Não somos tão futuristas assim. Muitos de nós vieram do passado.
- Vocês estão por todo o tempo?
- Sinto muito mas não temos autorização para contar muito sobre a Intempol. Você entende, não é?
Entraram no carro de Queiroz, um opala da PF. Anderson foi com ele na frente e Rangel atrás em silêncio.
Assim que Queiroz deu a partida, Anderson virou-se para o banco de trás e falou rispidamente com o rapaz:
- E aí, ô lerdo? Para onde vamos?
O rapaz tirou um pequeno e estranho aparelho do bolso e respondeu após rápida conferida:
- Seguindo o roteiro deixado pelo Agente Assis, temos que chegar em uma hora ao Aeroporto Internacional do Galeão.
- Isso é mole - disse Anderson. - Não é, companheiro? - Deu uma leve cotovelada em Queiroz, que rebateu:
- Nada disso! Não vou ficar aqui bancando o motorista de vocês.
Anderson riu e disse:
- Neste caso, pegue o seu celular e ligue para o Delegado Serpa.
Queiroz parou o carro, tirou o celular de dentro do bolso e ligou para o número do celular do Delegado Serpa. Assim que ele atendeu, Queiroz perguntou se devia seguir instruções do tal de Anderson - ele frisou na palavra "tal" - e leva-los ao Aeroporto Internacional. A resposta foi um cortante: "Confie neles mesmo que sua intuição diga o contrário".
Ele guardou de volta o celular no bolso e dirigiu até o aeroporto, chegando bem antes de uma hora.
Entraram graças as carteiradas de Queiroz. Eles andaram pelo saguão e Rangel não parava de consultar aquele estranho aparelho.
- E aí? Achou o que viemos procurar? - Perguntou Anderson.
Rangel guardou o aparelho de volta no bolso e disse:
- Agente Anderson, eu nem mesmo sei o que estamos procurando, apenas sei que será aqui e daqui a doze minutos.
Essa era boa, pensava Queiroz, dois personagens saídos de alguma ficção-científica, parados num aeroporto de alta rotatividade sem fazerem a menor idéia do que procurar. Pior: armados com estranhas pistolas que o detector de metais do aeroporto acusou mas a sacrossanta carteirada, mandou deixar passar. Ele sentia que se arrependeria em breve.


5 - O VIAJANTE ACIDENTAL


Patrick Morton estava parado sobre a areia da praia da Barra da Tijuca olhando o mar. Os banhistas que ali estavam olhavam-no com curiosidade pois só um louco estaria ali vestido de preto e com um sobretudo, que agitava-se ao vento, parecendo uma capa.
Morton mantinha o olhar fixo no mar e a mente em outra época.
Em sua mente sofrida, ele via quando uma jovem morena, com seu corpo curvilíneo e sorriso caloroso saiu da água exatamente naquele ponto da praia, há sete anos. Ela saiu do mar como uma Vênus tropical, com seus cabelos negros molhados e andar sensual. Quando olhos azuis e olhos negros se encontraram foi amor à primeira vista.
Para quem foi criado num orfanato, família era um sonho remoto e uma realidade de terceiros. Ele passou muitos natais em mansões de ricos piedosos que davam festas para as pobres crianças abandonadas e todos os dias ficou aguardando pelas pessoas estranhas que haveriam de entrar naquele orfanato e dizer: "Olá, Patrick, somos teus pais e viemos te buscar!" Mas isso nunca aconteceu.
E a criança virou homem, que ingressou na Academia Militar, formou-se oficial do Exército Britânico e seguiu solitário.
De repente, há sete anos, foi aquele olhar, uma rápida conversa, uma água de coco e a promessa de um novo encontro. Depois os encontros se tornaram freqüentes, quase uma necessidade. Daí vieram casamento, casa, filhos, natais e Patrick Morton tinha a sua família. Uma mulher apaixonada, dois filhos adoráveis, uma carreira promissora e uma felicidade que parecia infinita. Mas não era.
Assim que retornou do Kossovo, levou sua família para visitar os pais de sua esposa no Rio de Janeiro. Ele comprou um carro usado e certa tarde resolveu atender aos pedidos dos filhos e leva-los à praia. Sua esposa foi junto. O sujeito que vendeu o carro disse que os freios precisavam ser revisados, mas ele não levou a sério. Deveria ter levado.
Morton levou as mãos ao rosto. Todos os dias aquele "se" o atormentava. Se ele tivesse revisado os freios, sua família estaria viva.
Depois disso, Patrick Morton, um promissor oficial, estava sozinho no mundo novamente. Ele sobreviveu apenas para constatar que a solidão o acompanhava como as bolas de ferro que prendiam os condenados às sua penas. Eis sua punição: a dor da solidão.
Certo dia, depois de tentar o suicídio pela segunda vez ingerindo grande doses de calmantes, seus novos amigos apareceram no hospital. Eles lhe fizeram um proposta irrecusável. No início ele riu, mas se lembrou do homem que vira no Kossovo e eles lhe deram provas de que o tempo também pode ser um lugar ou recomeçar indefinidamente. Ele foi treinado durante meses por homens de outras épocas e seu aproveitamento foi considerado excelente. Implantaram-lhe um chip de DNA no cérebro e lhe deram toda parafernália tecnológica, tudo o mais avançado.
Ele tinha uma missão das mais importantes para aqueles homens e eles podiam devolver-lhe o que Deus, em sua onipotência insensível, tirou-lhe, ou melhor: negou-lhe. Homens que podem desafiar o inexorável certamente podem ser mais do que o Onipotente e devolver-lhe a felicidade.
De repente ele recebeu um comunicado telepático graças ao chip mnemônico. Era hora de ação. Ele sorriu, vestiu luvas negras, pôs óculos escuros e ficou esperando enquanto sussurrava sorrindo:
- Morra de inveja, Capitão Kirk.
E desapareceu aos olhos de três assustados banhistas que riam de sua indumentária "dark". Eles se benzeram e saíram dali correndo. Quando aquele trecho da praia ficou deserto, uma mulher de preto surgiu exatamente no lugar onde antes estava Morton e ficou olhando para o mar como se quisesse adivinhar os pensamentos dele. Ela cruzou os braços sobre o peito, apoiando suas mãos nos ombros e respirou fundo, como se sentisse algo especial naquele momento. Em seguida, desapareceu.

* * *

Queiroz estava irritado com aqueles dois "timecops". Após uma sucessão de broncas do tal Anderson, o antipático do Rangel gritou um sonoro "Vá à merda!" e começaram uma discussão no meio do saguão, chamando a atenção de todos que ali passavam.
- Querem parar de discutir! - Queiroz berrou, já sem paciência.
Eles se calaram. Queiroz tirou um lenço do bolso da calça e enxugou o suor da testa e da cabeça calva. Depois falou:
- Que tipo de crime vocês cobrem?
- Qualquer um que ponha em risco a harmonia da Linha Temporal em que estivermos agindo.
Queiroz sentiu que começava a fazer progressos.
- Certo, Agente Anderson. E que tipo de crime poria em risco esta Linha Temporal à partir de um aeroporto?
- Geralmente colocam bombas em aviões que, normalmente, chegariam a salvo em seu destino.
Queiroz sentiu um frio na barriga. Por que diabos esse idiota não disse isso antes? Ele, sem perder tempo, chamou por dois agentes da PF em serviço no aeroporto e mandou-lhes suspenderem todos os vôos por suspeita de bomba. Apesar de hesitantes, transmitiram o comunicado para Torre de Comando que em menos de um minuto suspendeu todos os vôos e chamou pelo Batalhão Anti-bombas da Aeronáutica. O minuto seguinte foi um pandemônio no aeroporto.
- Quanto tempo falta, Rangel?
- Cinco minutos, Agente Anderson.
- Será que é mesmo uma bomba?
- Pode ser. Faz sentido.
Um grupo de passageiros que deveria embarcar logo para os EUA ficou retido sob protestos no saguão. Todos falavam ao mesmo tempo e não aparecia ninguém para dar explicações.
Queiroz retornou e viu Anderson e Rangel olhando ao redor. Seja lá o que for (ou o que fosse) está perto de acontecer.
Aqueles passageiros que iam embarcar eram quase todos americanos e despediam-se do verão carioca de maneira pouco agradável. Somente pararam de reclamar quando informados de que o vôo foi suspenso por suspeita de bomba. Esse tipo de incidente eles queriam evitar.
- Um minuto - avisou Rangel.
Como celulares não podem ser utilizados no aeroporto, os americanos correram para os telefones públicos instalados ali mesmo no saguão. Eram homens e mulheres com satisfações a dar e tempo escasso.
Anderson e Rangel colocaram as mãos dentro dos paletós e ficaram aguardando. Queiroz sabia que estavam atentos, segurando suas estranhas armas - ele ouviu Anderson dizer que era uma "Terminator".
- Tá na hora! - Avisou Rangel.
Enquanto os americanos faziam fila diante dos telefones públicos, três homens que estavam entre eles começaram a gritar. Um deles abriu uma mala e em segundos montou um fuzil e os outros dois fizeram o mesmo. Os passageiros começaram a entrar em pânico. Como conseguiram passar pela segurança mesmo com armas desmontadas?
- Deve ser o problema que vocês estão esperando! - Gritou Queiroz, mas eles olhavam a confusão com indiferença enquanto Rangel, conferindo no aparelho, dizia:
- Ainda não. O CET está estável.
- Pro inferno com vocês! - Esbravejou Queiroz, sacando sua arma e tentando chegar até os americanos. Ele reconheceu que os fuzis nas mãos dos atacantes era modelo AK-47 e não AR-15.
O tumulto instalou-se em todo aeroporto. Pessoas corriam e gritavam enquanto seguranças e policiais tentavam controlar a situação. O atacante que segurava o fuzil apontou-o para um grupo de americanos que se esconderam atrás de uma mureta e gritou:
- Allauh acbar! - Alá é grande!
E atirou. Seis pessoas foram alvejadas. A segurança do aeroporto estava totalmente despreparada para um ataque terrorista e foi apanhada de surpresa. Queiroz corria na direção contrária das pessoas em fuga. Ele reparou numa mulher loira, vestida de branco que ficou agachada atrás de uns bancos. Ela olhava assustada para todos os lados e viu quando um dos terroristas apareceu diante dela fazendo mira com o fuzil.
- É agora! - Rangel gritou assim que o aparelho soltou um zumbido.
Anderson sacou sua Terminator 25mm e olhava ao redor.
Queiroz tentava mirar no terrorista diante da mulher loira, mas a multidão em fuga atrapalhava-o. De repente, um homem todo de preto, surgido do nada, materializou-se em frente do terrorista, que tentou desviar a mira para ele, mas não conseguiu.
O homem tirou um fuzil AR-15 debaixo do sobretudo e fuzilou o terrorista, que foi arremessado para trás. A mulher ficou de pé, olhou para o homem com os olhos arregalados e gritou: "You?"
Anderson surgiu em meio a multidão com a arma em punho e gritando: - É ele! Pega! Pega!
O homem percebeu mas ignorou e fez disparos contra os outros dois terroristas. Um deles chegou a revidar os disparos mas foi morto e o terceiro, vendo-se encurralado, destravou o fuzil e mirou em Anderson, acertando-o no ombro esquerdo.
O homem virou e pareceu reconhecer Anderson, depois se jogou para o lado, deu uma cambalhota sem largar o AR-15 e se agachou atrás de um banco e fez mira. Com disparos certeiros matou os terroristas restantes.
A mulher continuou ali, parada, trêmula, olhando fixamente para o homem de preto que a salvara. Queiroz conseguiu desvencilhar da multidão e correu até lá, fazendo mira e ordenando:
- Largue a arma! Você está preso!
O homem largou o fuzil e levantou as mãos. Queiroz se aproximou devagar, sem abaixar a arma. Quando chegou bem perto, o homem e a arma simplesmente desapareceram. O susto foi tão grande que Queiroz, um experiente policial federal, fez um disparo acidental que por sorte não atingiu ninguém.
Rangel chegou segurando sua Terminator e o aparelho. Queiroz pediu a dois policiais que estavam ali que levassem a mulher até a delegacia da Polícia Federal e foi amparar Anderson, que sangrava.
- Incrível você não ter perdido o braço com o tiro de AK-47!
- Mais incrível ainda foi a bala ter perfurado o colete à prova de balas que estou vestindo debaixo da roupa.
Queiroz pediu ajuda. Chegaram os paramédicos e Anderson foi acomodado numa maca, recebendo os primeiros-socorros. Antes de ser levado, surgiram três homens de terno preto que disseram:
- Podem deixar! Nós o levaremos.
Queiroz olhou-os com curiosidade e eles ficaram aguardando, até que Anderson balançou de leve a cabeça. Então um deles se identificou:
- Somos da Intempol. Está tudo bem.
Queiroz desejou melhoras a Anderson e mandou que abrissem caminho para eles.
A Rangel um deles disse:
- Agente Temporário Ivan Rangel, fique aqui até novo contato.
E levaram Anderson para fora, certamente desapareceriam tão logo estivessem longe dos olhares dos populares.
Queiroz ainda tinha em mente o homem de preto que sumiu diante de seus olhos. Quem seria? Por que apareceu ali?
A resposta estava a caminho, ele achava.

* * *

Na delegacia da PF, serviram água para a loira, que a todo instante reclamava, exigindo ser levada de volta para o aeroporto. Em seguida, Queiroz e o Delegado Serpa entraram.
- Fique tranqüila, senhora. Só queremos ajudar - disse Serpa.
- Então me levem de volta para o aeroporto imediatamente! - Ela falou em português mas arrastando um forte sotaque e a todo instante lançava um olhar para Queiroz, que trouxe-a ali.
- A senhora irá embora tão logo nos ajude a esclarecer o que aconteceu no aeroporto hoje. - Queiroz avisou, franzindo a testa.
Serpa deu uma ordem e todos saíram da sala, deixando-os a sós com a estrangeira. O Delegado apanhou uma folha de papel e leu em voz alta:
- Aqui diz que seu nome é Claire Von Bauer, nascida em 1968 em Johanesburgo, África do Sul. É solteira, mudou-se para os EUA em 1990 e viaja com freqüência ao Brasil como representante de uma grande empresa americana do setor de informática. Confere?
Ela virou os olhos para o alto e confirmou balançando a cabeça.
- Acho que isso foi um "sim". - Serpa falou, passando o papel para Queiroz, que insistiu:
- Queremos saber o que houve ali.
- Eu não tenho nada a ver com terroristas!
- Não perguntei sobre os terroristas, senhora. Queremos saber sobre o homem de preto que surgiu bem na sua frente.
- Como vou saber? Nunca o vi.
Queiroz apanhou uma fita de vídeo, colocou-a num videocassete e ligou a TV. A imagem mostrava o homem, aparecendo do nada e depois a expressão dela de espanto e a pronúncia da palavra.
- Sabemos que "You" quer dizer "você". Seja lá quem fosse aquele sujeito, a senhora o reconheceu e queremos saber quem é ele.
A mulher encarou Queiroz, mas logo desviou seus belos olhos azuis e respondeu:
- Acho que eu diria qualquer coisa naquela hora, mas certamente não o conheço. Quando descobrirem quem ele é, façam o favor de agradecer por ter salvo a minha vida.
Queiroz e Serpa se entreolharam. Este ofereceu-lhe um cigarro e ela repeliu de forma surpreendente:
- Obrigada, mas só fumo charutos.
- Charutos? Pena que não os tenho nem nunca conheci uma mulher que confessasse a preferência.
Ela sorriu: - Isso eu confesso.
Eles concordaram em dispensa-la. A loira apanhou seus documentos, resmungou algo numa língua incompreensível (seria africânder?) e saiu dali a passos largos, na pressa em voltar ao aeroporto.
- Essa mulher não me convenceu. - Queiroz disse.
- Isso é coisa de alguém que a Intempol está seguindo.
- Com certeza, Delegado. Mas não consigo confiar naqueles sujeitos.
- Por quê?
- Não sei. Talvez porque eles não se parecem com os timecops do cinema, ou porque não estou preparado para lidar com uma organização que pode mudar a História. Nunca vi o tempo como uma variável, mas sempre como algo constante, linear e inexorável.
- Trate de se acostumar! Eles são uma realidade.
- Esta realidade contabiliza mortos e feridos, Delegado.
Uma das coisas que Queiroz mais irritava no Delegado Serpa era o fato de ser muito mais cauteloso do que ele.

* * *

A loira saiu da Delegacia e tomou um táxi para o aeroporto. Do outro lado da calçada, uma loira vestida de preto, inclusive com luvas pretas e óculos escuros, acendeu um charuto e deu uma baforada enquanto olhava o táxi até este fazer a curva no final da rua e sumir da sua vista. Depois disso ela sorriu e desapareceu.


6 - COLABORAÇÃO


Queiroz estava fazendo pesquisa na Internet quando o Delegado Serpa o chamou. Era o tal do Rangel que dizia ter recebido autorização de um certo Nível Cinco para operar com um "nativo".
- Como está passando o agente Anderson? - Queiroz perguntou.
Rangel não sabia o que responder, mas sentiu que se dissesse a verdade cairia na antipatia do seu novo "parceiro". Em verdade, ele nem se interessou pelo estado de saúde de Anderson.
- Ele está bem. - Respondeu secamente. - Meus superiores me autorizaram a requerer um ajudante para minha missão e ninguém melhor do que um prestigiado policial de 2000.
Queiroz olhou para Serpa, que manteve-se inexpressivo. O rapaz lhe soava arrogante, mas decidiu acompanha-lo para saber ao certo o que essa tal de Intempol quer.
- Eu aceito. Será uma missão muito interessante.
O Delegado formalizou a "cooperação" e os dois desceram. Queiroz reparou que Rangel havia conseguido um Ômega.
No caminho, Rangel começou a falar:
- Gostei de você, agente Queiroz. Li o seu currículo e descobri que formou-se em Filosofia e já trabalhou em casos complicados.
Queiroz estudou lentamente o rosto de Rangel enquanto este dirigia. Ao dizer "Gostei de você" ele agia como se estivesse sentenciando que ele era merecedor de sua atenção, como se aquilo fosse uma honraria.
- Acho que também vou gostar de você, Agente Rangel.
- Por favor, Queiroz - ele tentava ser informal para ganhar sua confiança - sem sarcasmos.
- Vou tentar, Rangel. - Fez a mesma coisa com o mesmo objetivo.
- Eu quero que você me veja como seu novo parceiro, como naqueles filmes policiais americanos.
- Eu sou um policial brasileiro.
- Certo, certo - ele se controlava para manter-se simpático. - então faremos um acordo de cavaleiros: eu não minto para você e você não mente para mim. Feito?
Queiroz apertou os olhos e concordou: - Feito!
- O que a PF está escondendo da Intempol?
- E é possível esconder algo da poderosa Intempol?
Rangel olhou para Queiroz e sorriu.
- Sim. Basta que tal fato não implique em mudanças no CET nem arrisque criar um nova LT.
Queiroz estalou os dedos da mão direita e indagou:
- Aí é que está! Como vou ajudar se não sei como trabalham? O que são CET e LT?
Rangel explicou detalhadamente o significado de CET (Continuum espaço-tempo) e LT (Linha Temporal). Para um bacharel em Filosofia, não foi difícil assimilar o conceito de paradoxos temporais, mas foi muito difícil aceitar que poderiam existir universos paralelos, criados a partir de fatos históricos alterados.
- Então aquilo que aconteceu no aeroporto foi obra de alguém que está se deslocando no tempo?
- Exato, Queiroz! Até o sujeito de preto aparecer o CET estava livre de contaminações de outras épocas e nada havia que justificasse uma intervenção da Intempol. Bastou o sujeito aparecer que o alarme soou. O problema é que mesmo com a morte de tantas pessoas e a suspensão de vários vôos, a sua LT continua intacta.
Queiroz riu. Riu tanto que irritou Rangel.
- Me conta a piada também para ver se acho graça.
- Tá, eu conto: vocês se sofisticaram tanto que não enxergam o óbvio.
- E o que foi que não vimos?
- Que se tudo aquilo, inclusive o tal "Assis morto" não provocaram alterações no meu tempo, é porque tudo isso realmente aconteceu.
- Como assim?
- Eu estou aqui, certo?
- É claro!
- Por acaso eu sou alguma anomalia temporal?
- Não.
- Vamos supor que meus pais se conheceram por obra e graça de algum viajante do tempo que, involuntariamente, teria provocado uma situação que levasse meu pai de encontro à minha mãe. Eu nasceria à partir desse encontro casual. Portanto faz parte do tal CET a presença do viajante do tempo que provocou o encontro de meus pais que me fizeram nascer.
Rangel parou o carro. Tirou um cartão de dentro do bolso e inseriu-o numa fenda próxima ao volante. Queiroz olhou ao redor e viu-se numa estrada, sem a cidade.
- Onde estamos?
- Na Route 66 em 1950. Esse carro foi adaptado pela Intempol para essas...
Não conseguiu terminar. Queiroz saltou do carro e ficou olhando ao redor, respirando o ar de outra época.
- No ano em que nasci! - Em volta o vento arrastando poeira e agitando os arbustos. Ninguém à vista.
Rangel desceu do carro e acendeu um cigarro. Queiroz continuava deslumbrado:
- Isso é simplesmente demais! Vocês podem ir a qualquer época?
Rangel sacudiu a cabeça e respondeu:
- Nem todas. Só podemos recuar cem mil anos para não comprometermos muita energia e avançar até o século 25, pois daí em diante são os Anos Interditos.
- Anos Interditos? - Queiroz indagou. - Interditados para quem?
- Para nós. Simplesmente não conseguimos entrar e vou logo dizendo que não faço a menor idéia de como fazem isso.
Rangel já estava impaciente e Queiroz ficou meditando. Pelo menos alguém impunha limites aos "timecops". Aí tem coisa!
- Fale da mulher que vocês levaram para Delegacia. Quer um cigarro?
Queiroz tirou o paletó e encostou no carro. Recusou o cigarro - Não fumo! - e disse:
- O que você realmente quer, Rangel? Não seria mais fácil convocar outro agente da Intempol para te ajudar? Por que está nessa?
Rangel deu uma baforada e explicou:
- Vou me abrir contigo. Estou enrascado. Um Agente Especial do século quatro me comparou a um eunuco e eu não gostei. Tire esse sorriso da cara que tenho certeza de que você também não gostaria. Fiquei tão possesso com a petulância do idiota que não lhe enviei uma ordem direta do Nível Cinco para verificar uma estranha flutuação temporal que parecia surgir ali. Acontece que alguém matou nosso agente e iniciou uma série de estranhos eventos no CET mas não criaram uma nova LT. Como precisavam culpar alguém culparam a mim, por isso estou enrascado e essa missão é a minha última chance.
Queiroz cruzou os braços e disse:
- Eles te culparam com toda razão. Que merda de profissional é você que deixa de cumprir com o seu dever só porque sentiu seus brios feridos?
Rangel atirou o cigarro no chão e apagou-o com o pé. Pôs as mãos nas ancas e voltou a perguntar:
- Tá! E a loira? O que tem ela?
Queiroz pensou rápido. Não conseguia confiar em Rangel, mas tinha o trunfo de estar lidando com um homem desesperado.
- Pensamos que havia alguma correlação entre ela e o homem de preto porque ele apareceu perto dela, mas não havia nada e a liberamos.
Rangel não parecia convencido, mas não tinha escolha senão confiar em Queiroz, que ainda perguntou:
- Por que não vamos direto para o século quatro e descobrimos o que houve por lá?
Rangel riu e respondeu:
- A Intempol já enviou muitos Agentes para lá, mas ainda não descobriram nada. Por outro lado, o Agente Assis, aquele panaca cuja morte você estava investigando, detectou algo parecido e estava investigando por conta própria. Mas tem uma coisa que eu não contei aos meus superiores - ele tirou aquele estranho aparelho de dentro do bolso do paletó e mostrou a Queiroz - eu sei a ordem dos eventos. Só eu sei.
Queiroz rebateu:
- Então entregue essa informação aos seus superiores ou vai acabar fazendo outra besteira.
- Acho que você não entendeu. Eu estou frito e minha última chance é resolver isso sozinho para não virar um "Inexistente".
- "Inexistente"?
- É o que acontece com quem a Intempol prende. São riscados da existência, transformados em Homens Que Nunca Existiram e vão para uma prisão perdida em algum lugar do tempo de onde nunca mais saem.
Não é à toa que ele estava desesperado. Prisão perpétua é algo assustador até para quem lida com o tempo.
- Você é quem sabe.
- Eu sei. E aí? Vamos nessa?
- Para onde?
- Voltar para 2000, meu chapa! E rápido, porque daqui a pouco Jack Kerouack e Neil Cassidy passarão por aqui.
E entraram no carro que desapareceu.
Segundos depois surgiu, vinda do nada, uma loira vestida de preto, de óculos escuros e com um charuto aceso na boca. Ela deu uma baforada, olhou para o lugar onde antes estava o Ômega e sorriu maravilhosamente antes de desaparecer.


7 - A MEGGIDO ATACA


Valladão detestava a Meggido. Mesmo assim mandaram-no negociar com eles. Dois homens de feições mongólicas e trajando ternos azuis-marinhos com o emblema da Meggido preso à lapela chegaram com ares de quem vieram para decidir.
- O problema está em 2000, Comissário Valladão e seus agentes foram incapazes de resolver.
Valladão queria dizer "vá à merda" mas o protocolo não o permitia, ao menos não com representantes de um dos mais importantes acionistas da Empresa. O outro oriental parecia cumprir a função do puxa-saco oficial, sempre balançando a cabeça em concordância com o primeiro.
- E a Meggido tem alguma sugestão?
- Não, Comissário. A Meggido Incorporated tem solução. Buscamos cooperação entre nativos de 2000, afinal os terroristas mortos no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro eram usuários de explosivos comprados em um dos nossos revendedores, que os trocaram pelos nossos produtos. Apesar do uso da droga ser proibido em 2000, o negócio foi celebrado em 2015, quando o consumo já estava liberado.
Valladão ficava se perguntando se eles realmente acreditavam que alguém fosse cair naquela conversa fiada. De que interessa um contrato assinado numa época se o resultado final da operação se faz em outra? O problema era outro, ainda mais complexo, que envolvia os primórdios da Meggido em sua expansão, quando atuavam na clandestinidade, negociando com terroristas, traficantes e toda sorte de bandidos até chegar aos pobres drogados.
- A Meggido não pode nem deve correr riscos, Comissário - continuou o oriental - vamos intervir com a eficiência de sempre.
- Claro, afinal vocês são os canalhas mais eficientes do mundo.
O "executivo" fechou a cara e o puxa-saco descruzou os braços numa atitude hostil, mas Valladão estava pouco se lixando e quem o designou sabe disso, portanto agüente as conseqüências.
- Não podemos tolerar tais intervenções em nossos negócios. O mapa temporal elaborado pela própria Intempol garantia que não haveria mudanças no CET se eles explodissem aquele avião portanto, tecnicamente, a operação foi legal. Todavia, a intromissão extra-temporal ali efetivada foi considerada ilegal.
- Mas o foco das anomalias está em 376 e não em 2000.
- Sabemos disso também, Comissário. O local do foco é o Bálcãs, no tempo do Império Romano, portanto o cretino que fez aquela confusão no Rio de Janeiro de 2000 só pode ser um romano.
- Um romano? Como? Nunca estudou História? Eles não tinham tecnologia para tanto!
O "executivo" deu uma risadinha de triunfo e retrucou:
- De qual História o senhor está falando, Comissário? De uma LT onde os romanos conquistaram o mundo ou de outra onde eles inventaram a máquina à vapor no reinado de Tibério?
Valladão sacudiu de leve a cabeça. De onde eles tiraram essa idéia tão imbecil? Um romano em 2000, portando um AR-15 e matando terroristas árabes!
Soou a campainha do celular do puxa-saco, que logo atendeu. Depois ele guardou o aparelho e disse ao outro:
- Doutor, nossos colaboradores localizaram o romano.
Valladão sentiu um frio na barriga. Se aquilo era algo do tipo "Pegadinha" ele não estava com o menor senso de humor.
- Vamos esperar por eles. - O "executivo" estava exultante.
Valladão ficou ali cerca de meia hora, até que chegaram dois PMs trazendo um rapaz mulato, de bermudas, chinelo e vestindo uma camisa com listras pretas e vermelhas. Ele também exibia um anel roxo ao redor do olho esquerdo. O PM barrigudo foi logo falando:
- Taquí o elemento! - Apontou para o rapaz.
Os executivos da Meggido se entreolharam e o primeiro indagou:
- Os senhores têm certeza de que este é o... suspeito?
- Positivo - respondeu o barrigudo. - Pergunte a ele. - E deu um tapa na nuca do rapaz, que apressou-se em dizer:
- É verdade! Eu sou um romanu! Eu sou um romanu!
- E tem mais - continuou o barrigudo. - Se duvida é só dar uma olhada na confissão dele - exibiu uma folha de papel datilografada. - Tá tudo aqui, por escrito. Ele confessou e assinou. Agora queremos a recompensa que vocês prometeram.
Valladão não conteve o riso. Pediu aos PMs para soltarem o rapaz e aconselhou os executivos da Meggido a pagarem a recompensa pelo serviço que não houve. Antes de sair, o rapaz perguntou aos PMs:
- Posso voltar para o Chapéu Mangueira? - Diante do consentimento, ele gritou "Fui!" e saiu correndo.
Valladão ainda gargalhava. Que colaboração! Os dois panacas da Meggido olhavam-no em silêncio e sem nenhuma expressão. Quando o Comissário parou de rir, o falador disse:
- Isso é grave! Somos obrigados a designar nosso melhor homem.
Seria o tal "Homem da Meggido"? Sem remorso, culpa ou compaixão. Assassino eficiente e doente. Certa vez ele se viu diante do Homem da Meggido e aquilo foi uma experiência traumática.
- Muito cuidado com o que forem fazer - advertiu, - a Intempol está de olho.
O executivo sorriu e disse sarcasticamente:
- Não se preocupe, Comissário. Somos cuidadosos.
Valladão foi embora sem ao menos se despedir. A coisa estava ficando cada vez mais perigosa.

* * *

O Ômega reapareceu no Aterro do Flamengo, onde estacionou. Rangel e Queiroz saltaram e ficaram se encarando.
- E aí, Queiroz?
- O que é dessa vez?
- Tamos juntos ou não?
- Já não falei que sim?
- Então prepare-se - ele consultou seu relógio de pulso - que nós dois vamos fazer uma viajem no tempo.
- Outra? Para quê ano?
- Ano 1099, em Jerusalém.
- Mas não é o ano da tomada dessa cidade pelos cruzados?
Rangel assentiu, depois sopesou uma caixa e com a outra mão apanhou um cartão magnético - ao menos parecia um.
- Temos que entrar na cidade?
- Precisamos fazer isso.
- Sabe o que os cruzados fizeram lá?
- Claro que sei. - Ele prendeu uma algema no pulso esquerdo de Queiroz e passou o cartão pela fenda.
Queiroz sentiu um pouco de náusea, mas logo recobrou-se. Quando abriu os olhos mal pode acreditar no que via: Jerusalém estava cercada por um exército cruzado e sendo bombardeada por catapultas e balistas, enquanto algumas torres de assalto eram construídas ali perto por hábeis carpinteiros. O céu estava alaranjado e riscos luminosos provocados pelas flechas incendiárias e projéteis incandescentes cruzavam de um lado a outro das muralhas. Mesmo daquela distância o barulho das armas e homens gritando era ensurdecedor.
- Como pode ver - disse Rangel - não é de hoje que a Terra Santa é palco de guerras.
- Eu sei disso.
Rangel tirou do bolso um objeto parecido com um aparelho de surdez e o entregou a Queiroz.
- Ponha no ouvido. Serve como tradutor instantâneo, o que permitirá entender qualquer um.
- Tá! Ouviremos tradução, mas como falaremos? Como faremos eles nos entenderem?
- Deixa comigo. Na Intempol recebemos alguns implantes que servem para isso.
Queiroz colocou o aparelho no ouvido e logo começou a identificar algumas palavras em meio àquela gritaria: "Volte!", "Aqui!", "Disparem!"
Lá embaixo era o caos e certamente seriam trucidados se tentassem se misturar com eles, pois aquelas roupas diferentes fariam ambos os lados verem-nos como inimigos.
- E agora, Rangel? Vamos esperar os cruzados tomarem a cidade e entrar depois que a batalha tiver acabado?
Rangel conferia aquele aparelho. Depois guardou-o novamente e apontou para a cidade sitiada.
- Lamento, parceiro, mas teremos que entrar no exato instante em que os cruzados estiverem entrando na cidade.
- Durante o massacre? Ficou louco? Mesmo se descarregássemos nossas armas, eles ainda seriam muitos para nos trucidarem! E como passaríamos pelas muralhas sem ninguém nos notar?
Rangel fez um muxoxo e respondeu:
- Não esquenta! Estou no comando! A caixa vai nos levar para daqui a duas horas e nos colocará dentro dos muros da cidade.
- E o que vamos procurar lá?
- Não sei ao certo, mas deve ser o tal homem de preto com a AR-15.
Queiroz olhou novamente para o cerco e engoliu seco. Nos livros de História a descrição de uma batalha não é sequer próxima do holocausto que se vê lá embaixo.

* * *

Dentro da cidade havia desespero. Os cruzados romperam as defesas muçulmanas pela muralha norte e estavam penetrando na cidade, matando a todos que encontravam pelo caminho.
Uma mulher vestida da cabeça aos pés, com o rosto coberto por um véu, corria desesperada pelas ruelas da cidade condenada, arrependendo-se por não ter-se juntado aos outros cristãos quando os mamelucos os expulsaram de Jerusalém. Desde que chegou ali, buscava refúgio nesta época de intolerância e medo, fugindo do caos da Europa. Ela pensou que deveria ter ido para Constantinopla ou Al-Andalus, mas acreditou que estaria mais perto de Deus e mais longe de homens na Terra Santa.
Ela estava errada. Seus olhos aterrorizados viram dor, sofrimento, ódio, covardia e toda sorte de violência que outros olhos jamais viram. Do fim sempre perto, ela se resignou. Se tivesse que morrer, morreria ali, onde Cristo morreu e foi sepultado antes de subir aos céus.
De repente uma multidão aterrorizada surgiu na direção contrária da rua por onde ela tentava fugir. Um grupo de muçulmanos que vestiam restos de uniforme militar, agarraram-na e arrastaram-na para uma casa ali perto. Ela era forte e quase conseguiu se desvencilhar de dois homens, mas juntaram mais dois e jogaram-na num canto da sala com violência. Ela ergueu a cabeça e viu que mais cinco mulheres ali estavam, olhando com temor para os homens que deviam defendê-las.
O véu dela caiu e revelou cabelos loiros longos e a pele alva. Um dos soldados puxou uma faca, ao mesmo tempo que os outros riam sem parar. Então começou a orgia de violência covarde e brutal.
Eles agarraram uma das mulheres e arrancaram suas roupas. Ela se debateu, chorou, implorou, mas eles trataram de imobiliza-la e submeteram-na aos seus caprichos lascivos. Assim que se saciaram, o que puxou a faca cortou-lhe o ventre, expondo as tripas. Com uma segunda mulher eles empalaram e a terceira era ela, a loira.
Arrastaram-na, mas ela era muito forte. Eles se surpreenderam com sua força e determinação e ficaram ainda mais irritados. Tentaram intimida-la com socos e pontapés, mas ela continuava a se debater, ao mesmo tempo que pedia ajuda ao seu Deus. As outras mulheres, impotentes, choravam e aguardavam seu cruel destino.
De repente surgiu um homem de preto no recinto. Vindo do nada e segurando uma estranha arma, apoiada em seu braço, ele tinha um objeto escuro cobrindo os olhos e parecia usar uma capa negra, mas não trajava armadura.
- Santus Domini! - Ela gritou, olhando para aquele ser.
Morton olhou para o chão e viu duas mulheres nuas e mortas e contou dez homens, alguns despidos, que apressaram-se em pegar suas armas.
- Escrotos! - Ele destravou o AR-15 e fuzilou todos os homens. As mulheres taparam os ouvidos e gritaram em pânico. Quando olharam e viram os homens mortos no chão, pensaram se aquele homem de preto que matou seus algozes sem precisar sair do lugar e em tão pouco tempo seria um enviado de Deus.
Ele se aproximou da mulher loira e estendeu-lhe a mão, dizendo:
- Venha comigo se quiser sobreviver. - Não importava o idioma, pois seus novos amigos garantiram que compreenderia e seria compreendido em qualquer língua. Viva a tecnologia!
Ela se sentiu segura e lhe deu a mão. Em seguida, saíram correndo pelas ruas de Jerusalém, se esquivando da multidão em fuga. Do outro lado da rua, cavaleiros cruzados a galope, ceifavam os que encontravam pelo caminho, cobrindo a rua de cadáveres. Um dos cavaleiros avistou-os e fez um sinal para os outros, disparando na direção deles. A mulher ficou parada, em choque, vendo os cruzados se aproximando com as espadas erguidas. Sem largar a mão dela, Morton apontou o AR-15 e atirou, matando homens e cavalos. Depois voltaram a correr na direção sul da cidade.

* * *

Queiroz e Rangel apareceram em meio a matança, com as ruas cobertas de cadáveres. Ninguém notou a presença deles. Havia homens correndo carregando pequenas caixas com moedas ou jóias e mulheres, sempre corajosas, tentavam fugir levando seus filhos.
Rangel olhava para o aparelho e virava-o como se fosse uma bússola, até fixar num ponto. Ele apontou para uma rua que levava ao sul da cidade e gritou: - É para lá!
Sacaram suas armas e correram. Queiroz ainda tropeçou num cadáver e sujou-se de sangue, depois levantou e seguiu Rangel. Quando alcançaram uma rua mais larga, depararam com uma multidão em pânico, vindo na direção contrária, fugindo e gritando, pedindo por piedade. Atrás deles, cruzados à pé matavam a todos que se lhes caíam nas mãos.
- E agora? - Indagou Queiroz. Rangel apanhou a caixa e digitou alguns números, enquanto dizia:
- Vou programar a caixa para nos levar ao local indicado cinco minutos no futuro.
Do outro lado da rua, encurralando a multidão, cruzados a cavalo formaram uma linha de ataque e eriçaram suas lanças. Os pobres civis jogaram-se de joelhos e pediram clemência e mães abraçavam-se aos seus filhos e pediam por eles. Ninguém foi ouvido, os cruzados deram uma carga e seguiram matando a todos, cada vez mais perto de Queiroz e Rangel.
Todavia, Queiroz notou um bebê que chorava, sentado próximo de uma mulher morta. Os cruzados não o viram, mas a julgar pelo número de cadáveres de crianças estirados nas ruas, se o vissem com certeza o matariam. Queiroz correu até ele, tomou o bebê em seus braços e chegou perto de Rangel, que ao ver a cena gritou:
- Ficou maluco? Larga esse menino aí!
- Nem pensar! Os cruzados o matarão!
- E o que você pretende? Salva-lo? Fique sabendo que se esse menino tiver que morrer e for salvo por nós, ele poderá crescer, ter filhos e mudar o curso da história e muitas pessoas simplesmente deixarão de nascer. Para salva-lo você sacrificará milhões de vidas.
Queiroz era solteiro e sem filhos, mas não tinha um coração de pedra. Ele tentava acalmar o menino que continuava a chorar, assustado com a barulheira da batalha.
- Que é isso, Rangel? É só um bebê!
- Um bebê que pode mudar o curso da história!
Queiroz pensou seriamente em arrancar a caixa das mãos de Rangel, mas não tinha tempo, pois os cruzados estavam chegando e iam cobrindo a rua com cadáveres. O sangue corria como a água da chuva e o céu ficou negro com a fumaça e poeira levantada pela batalha. E o bebê chorava.
- Não vou abandonar um bebê! - Queiroz decidiu. Rangel fez um muxoxo e passou o cartão pela fenda.

* * *

Morton chegou com a moça loira num armazém próximo da muralha. Eles entraram no estabelecimento vazio e saqueado, onde uma parede falsa dava num túnel. Ele parou, apanhou uma tocha, acendeu-a com seu isqueiro (que ela achou milagroso) e entregou-a para mulher.
- Siga em frente! Não pare até chegar ao outro lado.
A mulher fitou-o com seus olhos azuis que pareciam de vidro e ficou tentando adivinhar como seriam os olhos dele por de trás daquele estranho objeto escuro. Ele repetiu:
- Siga em frente!
Ela se manteve parada. Devia-lhe a vida. Morton compreendeu que ela o esperava para fugir, que não queria abandona-lo. Ele disse:
- Eu vou depois! Nos encontraremos mais tarde!
- Prometes? - Foi o que ele entendeu pelo tradutor, embora tivesse certeza de que ela pronunciou duas e não uma palavra.
- Prometo que nos veremos de novo, mas vá!
Ela mordeu o lábio inferior e seus olhos encheram-se de lágrimas. Então ela seguiu pelo túnel sozinha, com a tocha para iluminar-lhe o caminho. Missão cumprida. Ele deixou o armazém, mas de repente uma voz vinda de trás:
- Parado! Solte a arma e vire devagar! Nada de truques!
Morton gostava desse jogo. Ele largou o fuzil, virou-se lentamente e viu dois homens: um era moreno de bigode vestindo um terno preto que apontava-lhe uma Terminator 25mm e o outro era loiro, alto e segurava uma minimetralhadora com uma das mãos. O moreno continuou a falar:
- Eu sou o Agente Geraldo da Intempol e não pretendo te ferir.
- Eu acho que devemos - disse o loiro, - mas primeiro pergunte sobre a mulher que estava com ele.
Morton sentiu seu sangue gelar. Eles viram a mulher e com certeza iriam atrás dela, pondo tudo a perder e isso ele não poderia permitir, pois sua felicidade dependia do sucesso da missão.
Ele avaliou cada um: o moreno parecia ser um tipo pacífico, que só atiraria em último caso, mas o loiro era a imagem a loucura, com seu olhar gélido e a boca retorcida num sorriso cínico. O que fazer?
Morton mentalizou seus amigos e uma pistola materializou-se em sua mão. Rapidamente ele acertou Geraldo no antebraço direito, fazendo-o soltar a arma, depois virou-se para o loiro e atirou para matar, mas ele se jogou para o lado e respondeu fogo. Iniciaram um tiroteio.
Geraldo olhava incrédulo para o seu braço. Nesta profissão há muitos riscos e levar um tiro era um deles, mas sempre achou que nunca levaria um. Ele tremeu de pavor ao ver seu sangue se esvair e sua mão paralisada pelo trauma.
O loiro atirou tanto que ficou sem munição. Vendo-se encurralado e disposto a tudo para cumprir suas ordens, ele saltou sobre Morton com tanta agilidade que o surpreendeu. Eles trocaram socos e pontapés até que o loiro sacou uma faca. Morton recuou e mentalizou uma defesa, sem especificar o pedido. O loiro tentou esfaquea-lo uma, duas, três vezes mas errou todas. Morton apanhou uma tocha apagada e tentou golpea-lo na cabeça, mas o loiro se abaixou e, manejando a faca com incrível destreza, fez um corte horizontal na barriga de Morton, que sentiu o aço cortar-lhe a carne.
Quando o loiro se preparava para o segundo golpe, Morton lhe acertou um forte chute na canela, o que o fez cair para frente. A seguir, com as mãos no corte, Morton chutou o rosto dele duas vezes e cambaleou.
Geraldo levantou-se e apanhou a caixa e o cartão. O homem de preto estava ferido na barriga, mas estava de pé. Geraldo foi até o loiro, segurou-o e passou o cartão na caixa, voltando alguns minutos no tempo.
O loiro recobrou a consciência e lembrava-se perfeitamente dos dois chutes fortes que levou na cara. Ele ardia de ódio e queria se vingar. Geraldo sacou sua Terminator e disse:
- Se liga, Mané! Voltamos alguns minutos no tempo a fim de evitarmos sermos pegos de surpresa. - Eles correram em meio a multidão e viraram próximos de uma mureta, onde viram eles mesmos apontando suas armas para o homem aparentemente rendido.
- Lembre-se: temos que captura-lo vivo! - Geraldo completou.
O loiro soltou um muxoxo de descontentamento, apontou a minimetralhadora e atirou na cabeça de Geraldo, que caiu no chão de pedra e morreu, sem qualquer chance de reação.
Quando o loiro se preparava para entrar em ação, ouviu uma voz que vinha de trás dele:
- Ei, babaca!
Ele se virou e viu Morton apontando-lhe o AR-15.
- Eu também voltei no tempo! - E disparou uma rajada, acertando-o em cheio.
Todavia, Morton ainda estava ferido. Sangrava muito e estava prestes a perder os sentidos quando desapareceu.

* * *

Morton abriu os olhos e viu-se numa cama de hospital. Homens e mulheres com roupas brancas limpavam o ferimento e passavam um gel no local. Ele sentiu um formigamento na área machucada. Ao olhar novamente para a barriga, percebeu que estava curado do ferimento. Não ficou nem a cicatriz.
Depois eles começaram a se comunicar num idioma estranho, que parecia uma mistura de várias línguas. Ele olhou para o lado e viu uma bandeira de fundo azul-celeste com um desenho em branco, parecida com a atual bandeira da ONU, mas com algo escrito que ele não conseguiu ler. Um dos médicos percebendo que ele estava consciente, disse:
- Descanse. Amanhã você estará novo em folha.
Ele fechou os olhos e adormeceu. Desde que se envolveu neste negócio que "amanhã" e "ontem" perderam qualquer significado.

* * *

Queiroz e Rangel se materializaram próximo do armazém onde Morton havia estado com a mulher. Eles olharam ao redor e nada viram. Queiroz se deu conta que o bebê que queria salvar não veio com eles. Possesso, agarrou Rangel pelo braço e perguntou: - Cadê o menino?
Rangel pensou seriamente em atirar em Queiroz, mas no momento precisava demais dele.
- Eu mandei a caixa julgar. Se salvar aquele menino não tivesse conseqüências graves para o CET que ele poderia vir, caso contrário deveria ficar ali para morrer.
- Ao inferno com esse papo de CET! Poderíamos ter salvo aquele menino!
Rangel sentiu Queiroz afrouxar o aperto e se desvencilhou dele. Ajeitando o paletó, ele explicou:
- Esse é o principal teste para os agentes da Intempol. Enquanto os canalhas pensam em usar a tecnologia temporal para interesses próprios, os bonzinhos querem salvar o mundo até de uma unha encravada. Certa vez um Agente nosso foi enviado num teste para Cartago e tentou salvar a cidade. Se conseguisse teríamos uma nova LT.
Queiroz teve que se conformar. Ele que já salvou tantas vidas teve que ver aquele massacre sem nada poder fazer.
Rangel pegou o aparelho e procurou pela anomalia. O zumbido era alto e apontava para o sul, onde avistou o homem de preto, atrás de uma mureta, segurando o AR-15 com uma mão e a outra sobre a barriga.
- Queiroz! - Rangel gritou enquanto sacava a Terminator. - É o cara do aeroporto!
Queiroz acorreu, sacando sua magnum, mas o homem de preto não deve tê-los visto, pois desapareceu segundo depois, ou então os viu e fugiu.
- Sem dúvida era ele! - Queiroz concordou enquanto Rangel parecia frustrado com a sumiço do estranho.
Foram andando até a mureta e se depararam com dois corpos estendidos no chão. Pelas roupas nunca poderiam ser daquela época e reconheceu nos ferimentos como perfurações feitas à bala e também havia marcas de tiros na mureta.
Rangel revistou os bolsos do que estava com a cabeça estraçalhada e encontrou o cartão cronal. Mais um agente da Intempol morto. Queiroz revistou o loiro e achou um cartão de visitas onde lia-se: "MEGGIDO MARS - DIVISÃO DE COBRANÇA".
Rangel fez um muxoxo ao ver o cartão e Queiroz notou.
- Este não era da Intempol?
- Não. Era da Meggido, uma empresa de... depois eu explico!
Queiroz colocou a mão sobre o pescoço do loiro e disse:
- Temos que sair logo! Este aqui está vivo!
Ao ver os ferimentos, Rangel concluiu que aquele sujeito que conseguiu sobreviver onde outros teriam morrido só poderia ser ele - o Homem da Meggido.
Rangel passou o cartão na fenda e sumiram, levando consigo o loiro e o cadáver de Geraldo.

* * *

A loira de preto surgiu em meio ao caos em Jerusalém, onde estava o bebê que Queiroz tentou salvar, caído no chão, com a cavalaria cruzada a poucos metros.
Calmamente ela se abaixou, pegou o bebê e parecia niná-lo. Quando estavam ao alcance das lanças besuntadas de sangue dos cruzados, ela e o bebê desapareceram.


8 - RELEMBRANDO O FUTURO


Voltaram a 2000. Um agente morto, um aliado gravemente ferido, um agente aparvalhado e um policial brasileiro indignado. Eis o saldo de 1099: mais um fracasso.
- Podíamos ter salvo o menino! - Queiroz se repetia, arrependido por não ter tomado a caixa de Rangel.
Fraga estava tenso. Andava de um lado para o outro e tentava ler os relatórios que lhe chegavam às mãos. Mais uma interferência no CET mas sem uma nova LT. Que tipo de inimigo é esse?
Ele se virou para Rangel e indagou, impaciente:
- Quando é a próxima transição?
Rangel respondeu:
- Em 1494, segundo as pistas deixadas por Assis.
- Dessa vez não quero rolo! Vou mandar uma equipe inteira se unir aos agentes especiais desse ano e então pegaremos o tal sujeito de preto.
Queiroz reparou na gravata larga de Fraga, quase um babador.
- Ei, Comissário! Que gravata é essa?
Surpreso com a pergunta de Queiroz, Fraga limitou-se a responder, ainda que irritado:
- É um modelo moderno que acabei de comprar nas Lojas Ducal. Por quê? Quer uma também? Vá comprar!
Queiroz sorriu. Quase morreu, não salvou um bebê, levou esporro mas pelo menos sacaneou aquele Comissário.
- Qual é o local? - Perguntou Fraga a Rangel.
- Itália.
- A Itália não é tão pequena, porra! - Esbravejou Fraga.
Rangel engoliria essa. Mais uma. Respirou fundo e completou:
- Em Florença.
Queiroz que a tudo ouvia, interessou-se. 1494 ainda era o Renascimento e essa era uma época ótima para se conhecer.

* * *

No dia seguinte Queiroz recebeu um comunicado do Delegado Serpa para se apresentar às pressas na Delegacia. Lá chegando deparou-se um homem de meia-idade, de cabelos brancos e pele rosada tomando café com o Delegado, que o apresentou:
- Agente Queiroz, esse é o Adido Militar do Reino Unido no Brasil Sir Wiston Smith e que tem uma importante revelação para nos fazer.
O inglês estendeu-lhe a mão, deu um sorriso diplomático e explicou:
- Estou aqui porque a Scotland Yard identificou o homem de preto que aparece na fita do aeroporto - ele entregou uma pasta com capa de cartolina crepe para Queiroz e prosseguiu, num ótimo português: - É o Tenente Patrick Morton, do Exército Britânico.
Queiroz abriu a pasta e viu uma fotografia grande, em cores, de um jovem loiro bem-apessoado, com olhos azuis penetrantes.
- Ele está desaparecido há um ano, desde que perdeu a família num desastre automobilístico aqui no Brasil. Pensávamos que estivesse morto, mas a fita mudou tudo e queremos sua colaboração para encontra-lo.
Queiroz leu a ficha dele: nascido em 1966, passou por dois orfanatos, nunca conheceu os pais e a única família que teve formou no Brasil - mulher e dois filhos - mortos num acidente. Esteve no Golfo Pérsico, na Bósnia e no Kossovo até desaparecer sem deixar vestígios.
- Sabe quem está interessado nele também, Sir Smith? - Queiroz perguntou sem ligar para o Delegado - A Intempol.
O Adido quase deu um pulo na cadeira. Pela expressão dele, sabia muito bem do que Queiroz estava falando.
- O que a Intempol quer com ele?
Queiroz colocou a pasta com os dados de Morton sobre a mesa e começou a dar a sua versão:
- Ainda não sei ao certo, até porque ainda não consegui identificar os bandidos e os mocinhos dessa história. Pelo que entendi, a Intempol detectou mudanças no tal do CET - o Adido e o Delegado se entreolharam - e acham que esse sujeito aí é o responsável. O que sei é que ele surgiu do nada no Aeroporto do Galeão e salvou uma mulher. E tem mais: estive em Jerusalém com o Agente Rangel - olhou para o Delegado - e lá também vi esse sujeito. Detalhe: eu o vi em 1099 - e apontou para o retrato de Patrick.
Eles estavam até suando. Parece que as coisas saíram do controle se é que um dia controlaram alguma coisa. O Delegado Serpa apanhou o celular, digitou alguns números e disse:
- A Intempol está indo longe demais. Pela força do tratado de cooperação eles são obrigados a nos informar de mudanças no CET e...
- Calma Delegado - Queiroz interveio - eles ainda não sabem sobre Patrick.
- Tem certeza disso?
- Absoluta, Delegado. Estou trabalhando com um deles e pelo que entendi, lá dentro tem mais política e intriga do que no Palácio do Planalto. Acho que temos que guardar essa informação como um trunfo para descobrirmos antes daqueles burocratas temporais qual o vínculo entre Patrick Morton e aquela mulher do aeroporto.
O Delegado ficou pensativo e acabou concordando. Queiroz pode observar que a Intempol era mais temida do que respeitada e ninguém confia em quem teme.
- Continue seu trabalho, Agente Queiroz. Farei contato com o FBI, a Scotland Yard e a Interpol - Interpol mesmo - depois decidiremos o que fazer com essas informações.

* * *

Em 2000, Morton, já recuperado do ferimento, andava pela Avenida Rio Branco, vestindo um terno de linho branco e levando o paletó nas costas, com a gravata frouxa e o rosto vermelho e suado por conta do calor escaldante na metrópole tropical. Se procuram um homem de preto, certamente olhariam em outra direção.
Ele parou diante de um prédio, cujo funcionamento desafiava a física. Lá estava uma das "entradas" para a sede da Intempol, escondida dos olhos de todos, ignorada pelas autoridades e protegida pelo governo. Em quantos outros lugares a Intempol teria suas "sedes"?
Morton tirou um lenço do bolso da calça e enxugou o suor do rosto, passando direto pelo seu futuro alvo sem levantar suspeitas. Ele caminhou em meio a multidão e fechou seus olhos azuis. Quando abriu estava na mesma Avenida Rio Branco, mas era tudo diferente.
Pessoas trajavam roupas mais leves, mais adequadas ao clima tropical e policiais simpáticos guardavam a entrada do metrô da Praça Mauá, onde antes não havia metrô algum. Ele soube que não estava no futuro, mas no passado, precisamente em 1994 quando dirigiu-se a uma banca de jornal viu estampada na primeira página: O PRESIDENTE DARCY RIBEIRO SANCIONA A LEI DA ANISTIA.
Novamente desapareceu e reapareceu numa Avenida Rio Branco que não tinha esse nome. Os edifícios eram todos em estilo neoclássico que pareciam retratar uma grandeza perdida ou uma vitória que não houve. Num telão instalado numa calçada, o telejornal falava de colônias alemães e paraguaias em Marte. Marte!
Em outra Avenida Rio Branco, jovens marchavam em uniformes verdes com braçadeiras onde via-se a letra grega sigma, que também estava estampada nos edifícios e postes, tudo impecavelmente limpo e as pessoas não pareciam ter qualquer expressão.
Nova mudança. Pessoas reunidas comemoravam e saudavam heróis que desfilavam pela Avenida Rio Branco num caminhão do Corpo de Bombeiros, debaixo de uma chuva de papel picado. Era uma festa com os alto-falantes anunciando os nomes dos jogadores da Seleção Brasileira Tetracampeã de 1982.
Por fim acabou. Ao menos pareceu acabar. Ele estava num deserto arenoso, com dunas amarelas e muito vento. O céu azul não tinha nuvens e não via nada que não fosse areia. Achou melhor ficar parado do que explorar o lugar, pois certamente havia algum motivo para estar ali.
De repente, surgiu bem na sua frente um homem de sobretudo e camisa de gola alta pretos. Ele tirou os óculos escuros e sorriu, exibindo olhos claros que contrastavam com a tez morena. Seus dentes eram brancos como mármore e seus cabelos negros eram cortados bem curtos.
- É com você que eu me comunico?
O homem manteve o sorriso e respondeu:
- Muitos de nós falam contigo - seu sotaque era estranho - e estamos muito satisfeitos com o seu desempenho.
- E eu quero saber se cumprirão com a palavra.
O homem apontou por cima do ombro de Morton. Ele virou-se e viu centenas de homens de preto parados, olhando para ele. Quando voltou-se para o interlocutor, viu outras centenas de homens de preto a encara-lo, como se esperassem por algo. Talvez uma pergunta.
- E então? Cumprirão com a palavra?
- Cumpriremos - respondeu.
- Quem era ela? - Morton perguntou.
- Isso importa? Quer mesmo saber ou ainda não sabe o que quer perguntar?
- Quero mesmo saber.
O homem pendurou seus óculos escuros no bolso do paletó e disse:
- Ela é alguém muito especial.
- Especial para quem?
- Para todos nós.
- E quem são vocês?
O homem abriu os braços. Em seguida o deserto desapareceu e em seu lugar surgiu uma floresta de pinheiros. Somente Morton e o homem estavam ali. Mais ao longe ele avistou uma cadeia montanhosa e acima dela havia uma cidade flutuante.
Uma cidade!
Numa imensa plataforma repleta de torres, flutuando sobre as montanhas, ele avistou um intenso tráfego de aeronaves que iam e vinham de todas as direções e para toda parte. Aquelas torres só podiam ser edifícios que deviam abrigar centenas de milhares de pessoas.
- Há muitas cidades como aquela. - O homem disse. - A maioria prefere ficar em órbita de algum planeta ou no Cinturão de Asteróides, mas às vezes vêm para Terra.
Morton ficou ali admirando algo que só julgava possível em filmes de ficção-científica. Aquilo era futurista demais para ele.
- Vocês são desta época?
- Sim, somos.
- Que ano é esse?
- É o futuro, ano 3143.
- E as cidades? Digo, as cidades do meu tempo, entende? Rio de Janeiro, Paris, Nova York, Londres...
O homem sacudiu a cabeça.
- Elas não existem mais?
- Infelizmente não.
- O que aconteceu?
- Foram destruídas durante a guerra.
- Que guerra?
O homem tinha boa vontade, mas parecia cansado de tantas perguntas. Mesmo assim respondeu:
- A Terceira Guerra Mundial no século 25 - a última guerra aqui na Terra. Agora travamos outras guerras, mas contra aqueles que se opõem à nossa expansão pela galáxia. Raças mais antigas que não querem dividir o infinito, arrogando-se donos da eternidade.
Morton não entendeu bem, mas o pouco que compreendeu é que o futuro da Humanidade tem todos os ingredientes da ficção-científica tradicional.
- E estamos ganhando?
- Eu diria que dá para sobreviver - respondeu o homem, enquanto apontava para o alto - têm coisas muito perigosas lá em cima.
De repente a floresta de pinheiros sumiu e Morton estava só, dentro do seu quarto de hotel barato na Praça Tiradentes, no Rio de Janeiro. Seu laptop estava aberto em cima da cama, mas não se lembrava de tê-lo deixado assim. Ao se aproximar, notou uma mensagem na tela que dizia:

O QUE É QUE VENCE O TEMPO?

Enigmas! Coisa que Morton detestava, mas de repente veio uma luz a iluminar-lhe a mente. A mensagem no computador dizia tudo. Como não percebeu isso antes?
Ele se jogou na cama e desligou o aparelho. Estava começando a gostar daquilo.

* * *

Queiroz e Rangel estavam numa sala na Delegacia de Polícia Federal assistindo a um vídeo. O vídeo do atentado no aeroporto. Pelo que o Delegado Serpa determinou, ele deveria fingir cooperação total com a Intempol e, se possível, infiltrar-se entre eles para descobrir se estão acobertando alguma mudança no CET que afete a História. Ele decidiu ir contra suas próprias convicções e falar sobre a loira do aeroporto - a tal da Claire - para saber até que ponto Rangel era "confiável".
- Observe bem! - Queiroz mostrava a cena em que o homem aparecia e a loira dizia: "You?"
- Tá na cara que ela o reconheceu - disse Rangel. - E disse que não sabia quem era ele?
- Isso mesmo - a todo instante Queiroz repassava aquele trecho de fita onde a mulher dizia "You?"
- Acho que devemos comunicar isso a Intempol.
- Esqueça! Seja quem for essa mulher, o homem de preto está disposto a defende-la contra tudo e todos.
- Esse encontro não foi casual - Rangel objetou - há um elo entre eles e a Intempol poderá descobrir isso facilmente.
Queiroz desligou o vídeo e questionou:
- Você trabalha com tempo, paradoxos e linhas temporais mas parece um amador. Deve ser por isso que o pessoal de lá te odeia, pois você deve ser aquele arrogante que não sabe nada e quer mandar muito.
Rangel franziu a testa. Detestava que lhe dissessem coisas desagradáveis, mesmo que fossem verdadeiras. Por enquanto ele devia contar com Queiroz para seu pleno restabelecimento na Intempol, portanto engoliria aquela ofensa até estar em condições de manda-lo para o inferno.
- Que tal compartilhar suas suspeitas comigo. Afinal, somos parceiros.
- Lá vem você com esse linguajar "cop" novamente.
- É só força de expressão. E então?
Queiroz caminhou até uma garrafa térmica e pegou café para os dois, mesmo assim Rangel cheirou antes de beber. Sem rodeios, ele começou a explicar:
- Raciocina comigo: se os terroristas embarcassem matariam a todos no avião, inclusive aquela mulher, mesmo assim ela poderia ter sido morta no aeroporto durante o ataque, mas ele atirou no terrorista que estava próximo dela. Se eu estiver certo e a Intempol fizer qualquer coisa no sentido de ameaça-la, ele surgirá e temo que não o fará sozinho.
- Quem estaria com ele?
- Não sei, mas é certo que não está sozinho. Ele usa tecnologia de ponta, armas modernas, roupas sofisticadas e parece muito bem informado, ou seja: coisas que ninguém consegue sozinho.
Rangel observou a Queiroz com uma ponta de admiração. A experiência fez dele um bom detetive, capaz de boas deduções, dotadas de uma simplicidade que parecia perdida em meio aos avanços da tecnologia.
Mas ele ainda era um empregado da Intempol e devia lealdade para com seus pares. Se a informação sobre a mulher fosse inédita na Empresa, ele certamente seria revalorizado e reencaminhado à sua função, ou algo mais. Quem sabe no comando numa seção importante?
- Tem razão, Queiroz. - Ele mentia. - Melhor que a Intempol não saiba de nada até podermos agir.
- Que bom ouvir isso de você! Vamos nos preparar para agir. Seja lá o que for que estamos enfrentando, estamos perto de descobrir - mentiu com a mesma dignidade.
Eles se despediram com um caloroso aperto de mãos.


9 - RENASCER NO RENASCIMENTO


Queiroz passou dois dias em 2000 fazendo contatos com o FBI. Ele queria mais informações sobre o mulher e tinha suspeitas de que ela sumiria em breve. Rastreou seu nome pela Internet e mandou e-mails para investigadores particulares com os quais já trocara informações.
Nada. Talvez estivesse fazendo buscas no lugar errado ou estava lidando com algo mais do que a Intempol estaria disposta a admitir. De qualquer maneira seria impossível confronta-los, pois eles detém o controle do tempo mas não são controlados por ninguém. Há quem especule que a derrota nazista ou a queda da União Soviética foram arquitetadas pela Intempol e que muitas pessoas "desaparecidas" não foram seqüestradas por ETs, mas sim por crononautas renegados.
Fatos ou fantasias, a verdade é que isso tudo soava assustador para Queiroz. Uma organização supranacional que policia o tempo e não é policiada por ninguém, talvez encontrando algum obstáculo sério nos chamados Anos Interditos.
Temores à parte, Queiroz parecia se divertir ao tecer especulações sobre si mesmo. Como seria um Queiroz alternativo? Talvez um professor de segundo grau, talvez um gari, talvez um bandido, talvez um monte de coisas ou até mesmo jamais ter existido. A alteração de eventos poderia afetar milhões de pessoas que simplesmente nunca existirão, obliteradas da existência - um verdadeiro genocídio.
Do outro lado, um homem desesperado que nada mais tem a perder, talvez por isso mesmo aceitou trabalhar para os inimigos da Intempol. Só pode ser essa a verdade, ao menos é o que se pode concluir pelo pouco que sabe. Caso esteja certo (e há grandes chances de que esteja) um confronto direto poderá resultar numa tragédia.
E ele tentaria a todo custo evitar essa tragédia.
Findo o prazo, Rangel foi busca-lo. Prepararam a transição para 1494 e fizeram os preparativos finais: vestiram roupas de época, mas no caso de Queiroz, teve que vestir-se como um árabe, com direito a turbante.
- Uma orientação do Departamento de Sociologia. Como você é mulato, poderá passar por egípcio ou árabe sem levantar suspeitas.
Queiroz sacudiu a cabeça e replicou:
- Que suspeitas? Por acaso algum florentino do século 15 poderá supor que somos viajantes do futuro? Tenha santa paciência!
- Não é isso, Queiroz! Quando vamos para outra época fazer uma investigação, devemos nos misturar aos nativos e seguir as instruções dos Agentes Especiais.
- Que "Agentes Especiais" são esses?
Rangel já ia passar o cartão cronal pela fenda, mas deteve-se para explicar:
- São agentes da Intempol que não saem de seu tempo nativo. Eles são imprescindíveis quando se demanda alguma investigação e servem tanto como guias como fonte viva de informações de seu tempo. Em verdade, eles não são tão especiais assim, mas fazemos se sentirem como tais.
- Por que fazem isso?
- Porque precisamos deles tanto quanto dos computadores, das caixas cronais, da física quântica e de todo resto. Por se sentirem "especiais", eles colaboram mais.
- Interessante. Pelo que entendi vocês possuem agentes que não viajam pelo tempo!
- Não é bem assim. Às vezes viajam, mas só em último caso e para alguma época bem próxima da sua. A Intempol determinou a criação do Corpo de Agentes Especiais depois que muitos sucumbiram.
- Sucumbiram?
- Isso mesmo! Quando tiramos alguém do século 21 e enviamos para o século 11, o impacto é menor do que ao contrário, pois um homem do século 11 simplesmente enlouquece quando posto em contato com a tecnologia e a dinâmica do século 21 até porque a noção de tempo que eles têm é outra.
- Por que não os recrutam ainda na infância ou na adolescência?
- Porque foi tentado e não deu certo. Se tirarmos alguém de seu tempo ainda jovem e treina-lo no século 21, por exemplo, ele perderá seus vínculos com seu tempo natal. Também precisamos considerar que é fácil ensinar um assírio, por exemplo, a manusear uma Terminator, mas eles nunca compreenderão como uma mensagem pode chegar de um ponto ao outro instantaneamente, com um simples aperto de botão.
Rangel deu por encerrada a conversa e passou o cartão cronal na fenda. Queiroz sentiu um leve mal-estar e viu-se no interior de uma casa, com móveis de madeira e o chão coberto de tapetes. À sua frente dois homens vestiam roupas coloridas, tinham o cabelo cortado à escovinha e nariz típico dos italianos.
- Bem-vindos! - Disse o mais velho. Queiroz estava com o tradutor aclopado à orelha, coberto pelo turbante mas certamente Rangel usava algum tipo mais sofisticado, pois não só entendia como se fazia entender.
Rangel olhou no aparelho e disse a Queiroz:
- Ainda não temos nada de errado por aqui.
De repente um barulho de explosão!
Foi ali perto!
Queiroz correu para a pequena janela próxima dali e percebeu que estava na torre da casa de algum abastado comerciante da Florença renascentista. Na rua, homens e mulheres corriam de um lado para o outro e havia muito gado espremido em currais improvisados, enquanto homens trajando armaduras e portando mosquetes e bestas passavam em passo de marcha acelerada.
- Droga! - Murmurou Queiroz. Só agora ele se lembrou das aulas de História. Florença está cercada pelo exército francês, num ciclo de invasões que porá fim ao Renascimento italiano. Franceses, espanhóis e alemães lutarão em solo italiano usando as cidades-estados rivais como joguetes de suas políticas expansionistas. Durante um século a Itália cresceu, desenvolveu-se e enriqueceu, agora suportava invasores cobiçosos de suas riquezas.
Rangel puxou Queiroz pelo braço e apresentou-o aos florentinos:
- Estes são os agentes especiais Enrico Anizzi e Caio Lorenzo.
Queiroz acenou-lhes com um sorriso e foi correspondido. Eles nada entendiam do que ele dizia e pelo olhar não estavam acostumados a ver gente de cor.
- Eles sabem o que viemos procurar?
- Sabem - respondeu Rangel. - Foram devidamente informados sobre o homem de preto.
Queiroz olhou para os lados e indagou:
- Tem certeza de que eles não podem me entender?
- Claro! Eles não foram equipados com tradutores e só eu tenho o tradutor vocal que me permite ser compreendido em qualquer língua.
- Neste caso, fale com eles sobre a loira.
Queiroz tirou uma fotografia de dentro do bolso e deu a Rangel. Foi adaptada da fita de vídeo do aeroporto.
- Será que eles já viram uma fotografia?
- Com certeza já - Rangel disse. - Coisas mais simples de se ver são exibidas e explicadas aos Agentes Especiais.
- Então mostre a eles e pergunte se a viram.
Rangel pôs as mãos no quadris e confessou, sem constrangimento:
- Parceiro, você precisa me desculpar, mas foi necessário.
Queiroz levou um segundo para entender:
- O que foi que você fez?
Rangeu soltou um muxoxo e respondeu:
- Eu falei da loira para os meus superiores.
Queiroz arregalou os olhos. Se ele estivesse certo, o resultado poderia ser um previsível confronto com mortes.
- Desgraçado! - Queiroz investiu contra Rangel, segurando-o pela gola. Os dois homens sacaram suas armas e encostaram na cabeça de Queiroz, que foi obrigado a soltar Rangel.
- Ficou louco, negão? - Ele disse, ajeitando a camisa. - Eu não podia esconder tal informação dos meus superiores, pois se eles descobrissem mais tarde que eu sabia e nada contei, acabariam comigo.
- Babaca! - Queiroz rosnou. - Vocês terão um problema enorme!
- Talvez não. Eles sabem o que fazem. - Em seguida Rangel consultou o aparelho e disse: - A força-tarefa da Intempol já está aqui.
Queiroz balançou a cabeça nervosamente e insistiu:
- Torça para que eu esteja errado, caso contrário não poderemos fazer nada para evitar uma guerra.
- Guerra?
- Não é só força de expressão, mas quem está por trás do homem de preto reagirá.
Rangel meneou a cabeça e tentou explicar:
- Sinto muito mesmo, parceiro, mas são as normas da Empresa.
Queiroz não esperava por essa.
- Que "empresa"? Pensei que estivéssemos falando da Intempol.
- Nós chamamos a Intempol de Empresa, pois para nós ela é "a Empresa". Raramente nos referimos como Intempol.
- Seu cretino! - Queiroz só foi contido porque havia duas armas apontadas para ele - Eu aqui que nem um otário pensando estar trabalhando com policiais e só agora você me diz que são uma empresa?
- Que diferença isso faz? Ainda somos a Intempol!
- Se falam "empresa" é porque são uma entidade privada e não pública. Aposto que vocês são geridos por executivos e se bobear têm ações negociadas nas bolsas de valores de algum futuro escroto!
- Não é bem isso, parceiro.
- Quer parar de me chamar de "parceiro"! Vocês devem ter sócios, acionistas e outras formas de associação. Não é, Rangel?
Rangel cruzou os braços e ficou pensando se deveria contar toda história da Intempol a um homem que, por bem ou por mal, estava ali, trabalhando com ele e correndo os mesmos riscos. Ele respirou fundo e se decidiu por um resumo:
- Um dia houve uma empresa de alta tecnologia que provou ser capaz de deslocar matéria e energia pelo tempo, mas algo deu errado - eu juro que não sei o quê - e seus criadores passaram a se dedicar a evitar que novos erros se repetissem. A Caixa de Pandora do CET foi inadvertidamente aberta e a empresa responsável viu-se na obrigação de se transformar na Intempol para manter a ordem no caos. É tudo o que sei.
Queiroz confiava ainda menos em Rangel, mesmo quando ele parecia estar sendo sincero. A verdade revelava-se cada vez mais chocante e ele cada vez mais inseguro por lidar com forças que escapavam ao controle e compreensão das instituições que sempre conheceu, por isso tudo queria aprender o máximo que soubesse sobre eles para o caso de um dia precisar confronta-los - e essa perspectiva o deixava assombrado.
- Se acha-se confiável, mande esses dois babacas tirarem suas armas da minha cabeça.
Rangel fez um sinal e os homens afastaram suas armas de Queiroz. Ele consultou mais uma vez seu aparelho. Estava tenso, mas se o palpite de Queiroz estiver certo, ele será readmitido com honras e talvez realize seu maior sonho que é ter poder de verdade.
O tempo urgia.

* * *

Florença cercada por tropas francesas não era um espetáculo digno de nota. Apesar de toda divisão, de toda rivalidade e até instabilidade, a Itália conseguiu feitos notáveis em meio ao caos que mergulhou a Europa Ocidental desde a queda do já mítico Império Romano. Partiu da Itália a nova luz que deixaria o Ocidente novamente à frente de todas as outras civilizações e moldaria para sempre o mundo. Era o renascer da grandeza.
Uma mulher loira olhava pela janela da torre da casa de um rico comerciante florentino a confusão reinante na cidade sitiada. Há muitos anos ela conheceu um promissor comerciante, que prosperou com seu trabalho árduo e usura declarada. Ele se casou com uma moça de família abastada e ela teve que se contentar em ser sua amante oficial, coisa comum todos os tempos. Com o casamento, a fortuna do comerciante aumentou ainda mais com o dote, mas a 'boa moça' morreu durante o parto do quinto filho e a ligação entre os amantes intensificou-se e não mais escondiam o que sentiam um pelo outro.
Ela ouviu passos vagarosos subindo as escadas e por fim um homem ainda forte, de cabelos brancos e olhar vívido entrou no aposento. Ela tentou sorrir, mas estava solidária a toda aquela desolação que acometia a cidade e seus muitos anos de vida lhe faziam antever o destino de Florença.
- Você não vai comer nada? - Ele perguntou.
- Estou sem fome.
- Mas você já não come há dias. Vai acabar morrendo.
Ela sorriu. A preocupação dele era sincera. Todavia, depois de tantos anos desde o primeiro encontro, ele lembrou que havia uma pergunta da qual ela sempre se esquivava, mas dessa vez insistiria até saber a verdade:
- De onde você veio?
Ela abaixou os olhos e respondeu:
- De muitos lugares.
- Isso não é resposta.
- É a única que posso dar.
- Por que você não envelheceu depois de tantos anos?
Ela gaguejou e respondeu:
- Quem te disse que eu não envelheci? Você que não quer ver.
- Mas teu corpo ainda é o mesmo, teus cabelos não embranqueceram, teus dentes não caíram nem nunca te vi doente. Diga-me a verdade!
Ela cruzou os braços. Os anos ensinaram-na a gostar dele, mas não o bastante para que lhe desse um filho, muito menos seus segredos.
- A que verdade você se refere?
O homem caminhou até uma cadeira e sentou. Passou a mão sobre os cabelos brancos e disse em voz baixa:
- Dizem que só as bruxas conhecem ungüentos capazes de manter a beleza eterna.
A mulher, incrédula, abriu um sorriso que terminou em gargalhada.
- Depois de tantos anos você acha que sou uma bruxa? Pensei que tivesse uma imaginação melhor do que daqueles artistas dos quais você encomendou tantos trabalhos.
Ele sorriu ao lembrar-se das pinturas e esculturas que ornamentavam sua casa, sua cidade e o seu ego.
- Tem uma coisa...
A frase foi cortada por um estrondo e logo depois o teto caiu sobre eles, levantando uma nuvem de poeira.
Uma bala de canhão atingiu em cheio a torre.

* * *

Queiroz ainda tentava dissuadir Rangel:
- Se quiser evitar mesmo uma tragédia, diga aos seus malditos superiores o que pode acontecer se ela for capturada.
- Eles estão cientes de tudo. Aliás, dizem que são oniscientes.
De repente um menino entrou no recinto, ignorando os dois visitantes e as armas que carregavam. Ele se dirigiu a um dos florentinos e anunciou:
- Os franceses entraram na cidade! Estamos perdidos!
Queiroz se lembrou de Jerusalém e sacudiu a cabeça, dizendo:
- De novo, não!

* * *

A mulher sentiu mãos fortes puxando seus braços e retirando-a debaixo dos escombros. Ela se recuperou, não reconheceu os uniformes amarelos com um símbolo estranho no lado esquerdo, com alguns traços posicionando-se de modo a formar um círculo. Um deles tentou amarrar seus pulsos com uma estranha corrente, mas ela resistiu. Era forte e não se deixaria dominar com facilidade. O homem que trazia a estranha corrente, foi derrubado e o segundo não conseguiu domina-la.
Foi quando outra explosão fez-se ouvir, jogando a todos sobre os escombros. Ela aproveitou para tentar fugir, mas a passagem para escadaria estava bloqueada. Só restava saltar - e seria uma longa queda, talvez dez metros até o chão.
Ela saltou. Caiu na rua e sentiu fortes dores nas pernas e no quadril. Sem poder correr, caminhou se apoiando nas paredes dos prédios, esforçando-se para ficar o mais longe possível do lugar que durante tantos anos foi o seu lar. Ao redor, pessoas esbaforidas gritavam que os franceses estavam vindo e ela ouviu um soldado comentar que os governantes da cidade e os franceses fizeram um acordo e os portões foram abertos.
Apesar das promessas de paz, o exército francês que entraria na cidade ainda era um exército conquistador, ávido por saque.
Ela se encostou na parede do mercado onde comerciantes corriam para esconder suas mercadorias dos invasores. Aquilo foi loucura. Ela poderia ter morrido com a queda, mas o pânico do cativeiro era maior.
Diante de seus olhos surgiram homens estranhos metidos em roupas estranhas que olhavam para ela. Um deles aproximou-se e disse:
- Nada te acontecerá. Venha conosco.
Seriam enviados do inferno?
De repente uma pequena explosão e uma fumaça branca cobriu tudo. Ela tentou ver, mas seus olhos ardiam e suas narinas queimavam.
Só pode ser coisa do capeta!
Mas não era.
Os homens estranhos estavam caídos no chão e a fumaça ia se dissipando aos poucos. Então, uma mão segurou-a pelo pulso e ela virou para ver quem era. Deparou-se com um homem alto, vestido de preto, de cabelos loiros como os dela e com um objeto que lhe cobria os olhos.
- Você?
Ele sorriu e, sem solta-la, indagou:
- Confia em mim?
Ela fez que sim com a cabeça e eles desapareceram.

* * *

Rangel andava de um lado para o outro do recinto. Queiroz estava sentado próximo da janela e lamentando não poder sair dali para conhecer um jovem Maquiavel nem o Renascimento in loco.
Foi então que um homem de terno preto surgiu no recinto e ordenou a Rangel, dando a notícia:
- Retorne com ele para 2000. Deu tudo errado!
Eles tinham que voltar.

* * *

A loira e Morton reapareceram fora dos muros da cidade. Em meio à confusão reinante, alguns florentinos a reconheceram e chamaram-lhe pelo nome que ela dizia ser seu. Só então se deu conta de que não deveria voltar a Florença nem para dizer adeus.
- Você tem para onde ir? - Perguntou Morton, contrariando as ordens de só falar com ela o essencial. O problema era que ele achava aquilo essencial.
- Sim. Eu comprei terras em Espanha. Dizem que será a nação mais poderosa do mundo. - Ela fitou o homem no que ela achava que fossem os seus olhos - Você vem comigo?
- Infelizmente não - ele olhou para o grupo de florentinos que seguia com uma forte escolta de mercenários e completou:
- Vá com eles para Espanha e siga seus instintos. No fim você saberá que sempre esteve certa.
Ao findar a frase ele desapareceu diante dos olhos dela, que ainda tentou gritar:
- Espere! Quem é você?
Tarde demais. Ele partiu mais uma vez, mas ficava a certeza de que se reencontrariam.


10 - DETENÇÃO


Queiroz e Rangel estavam novamente às turras. O experiente policial tinha certeza de que a Intempol estaria prestes a iniciar uma guerra.
O Comissário Fraga cumprimentou Queiroz pela sagacidade e atribuiu a ele e não a Rangel os méritos da operação que está sendo preparada.
- Prefiro ficar aqui - pediu Queiroz. - Gostaria de ver alguma coisa sobre as tais Linhas Temporais Alternativas que Rangel me contou. Tem alguma onde Palmares tornou-se uma nação independente?
Fraga assentiu. Uma recepcionista levou Queiroz a uma sala com vídeos e livros das diversas possibilidades da História onde ficou deliciando-se com os ocasos e acasos que geraram novas LTs.
Algumas alternativas eram interessantes, tais como a de Palmares independente ou do Estado Romano mundial, mas havia outras de darem arrepios, tais como uma onde Hitler discursava triunfante numa Londres arrasada pelos bombardeios ou de uma guerra nuclear em 1962. A Intempol deveria evitar que LTs novas surgissem, mas seu trabalho parecia ineficaz.
- Enquanto ele estiver se divertindo vendo as outras LTs não incomodará. - Rangel disse, resgatando sua arrogância.
- Você ainda não está reabilitado, Ivan Rangel - avisou Fraga, - de nada nos adiantará se a detenção daquela mulher não consertar os danos provocados à partir de 376.
- Mas estamos certos!
- "Estamos"? - Fraga ironizou, estranhando a momentânea humildade de Rangel ao compartilhar uma certeza. Usar verbos na primeira pessoa do plural nunca foi característica dele.
- Prenda a mulher e o homem de preto virá busca-la.
- Tomara que sim! - Fraga consultou o aparelho semelhante a um relógio de pulso. - A equipe que enviei já está fazendo seu trabalho.

* * *

Claire Von Bauer chegou ao seu apartamento naquela tarde fria de dezembro em Nova York. Ela largou a bolsa sobre o sofá e tirou o casaco, indo direto a cozinha para descongelar seu jantar no microondas.
Nenhum mês é pior para os solitários do que dezembro. Famílias reunidas, amigos confraternizando-se, presentes sendo trocados e a farta ceia de natal, com direito à gostosa fraude infantil chamada Papai Noel.
Em outras épocas, remotas e sombrias, meninos tornavam-se homens na guerra, partindo para morte como num ritual de passagem. Nestes tempos brandos, meninos abandonam a inocência quando algum adulto chato lhe conta que "Papai Noel não existe". Será que os homens sabem a grandeza da civilização que construíram?
Ela soltou os cabelos loiros e olhou no espelho, mirando-se em seus olhos azuis. Lá embaixo a neve que atrapalhava o trânsito alavancava o chamado "espírito natalino", fosse isso mero pretexto para o consumo desenfreado ou data de reflexão religiosa, o importante era que a maioria das pessoas estava feliz.
Ela que tantas vezes foi mãe e mais ainda foi mulher, estava só. Muitos de seus filhos foram-lhe arrancados pela estupidez e cupidez de homens cruéis, em meio a tanta violência que ela testemunhou com seus olhos cansados de tantos horrores.
Ela apanhou uma boneca que havia comprado numa loja de brinquedos e ficou carinhosamente alisando cachos loiros de mentirinha. Então seus olhos ficaram rasos d'água e lembranças tristes voltaram. Ela colocou a boneca sentada sobre o sofá tão carinhosamente quanto o faria com uma filha. A filha que ela não tem.
Seu último filho ela foi obrigada a enviar para um orfanato, pois estava prestes a ser descoberta e sabe-se lá o que fariam com ela ou com sua descendência. Todos os seus filhos eram incrivelmente normais, nenhum como ela. Nenhum fadado a ser um errante.
O bebê que ela foi obrigada a abandonar, para proteger-se e protegê-lo, era um lindo menino "parrudo" e sorridente, com olhos azuis como os dela e ainda inocente demais para supor que Papai Noel era uma farsa. Onde ele estaria? Teria uma família? Será que foi adotado? Será que tem filhos? Ele é feliz?
Ela tomou uma decisão: não teria mais filhos. Uma decisão triste, mas ela pensava evitar maiores tristezas pelas quais se julgava culpada. Aquele bebê sorridente e lindo foi o seu último fruto.
De repente ela ouviu passos na sala. Saiu do banheiro e lembrou-se de procurar pelo revólver dentro de sua bolsa que havia deixado na sala. Ao chegar não encontrou a bolsa e olhou para porta, que ainda estava trancada. Cadê a bolsa?
Ela correu para a cozinha e foi segura pelos braços por dois homens fortes e mal-encarados, que anunciaram em inglês:
- A senhorita está detida pela Intempol!
Ela nem tentou perguntar. Com um forte tranco derrubou-os e correu até a sala, onde se deparou com um homem negro de terno preto que apontava-lhe uma estranha pistola. De onde eles vieram?
- Resistir é inútil, senhorita.
Nem sempre. Com um chute acertou a mão dele, jogando a pistola longe. O homem ficou tão surpreso que antes que pudesse reagir, foi nocauteado com um cruzado de direita para peso-pesado nenhum botar defeito. Em seguida ela jogou seu corpo aparentemente frágil contra a porta da sala que colocou abaixo e correu na direção do elevador. Lá havia uma mulher morena segurando uma arma igual à do negro.
- Desista! Não tem para onde ir!
A morena levou um chute no joelho tão forte que fez barulho ao ser esmagado. Tentou atirar mas sentia dor demais para se concentrar e fazer mira. A loira esqueceu o elevador e desceu pelas escadas.
Ela desceu sempre pulando quando faltavam cinco ou seis degraus para passar ao próximo lance de escadas. No último estavam os mesmos homens que a seguraram pelo braço na cozinha. O primeiro tentou agarra-la e o segundo borrifou uma substância em seu rosto que parecia queimar, mas novamente ela encontrou forças para reagir: com surpreendente rapidez quebrou o antebraço daquele que segurava o spray e depois acertou uma cotovelada no queixo do que tentava agarra-la. Ela correu para rua, mas começou a ver tudo girando.
Claire caiu na calçada parcialmente coberta pela neve e tornou a se levantar, tonta e sem sentir os pés. Caiu mais uma vez e novamente levantou, apoiada numa árvore. Atrás dela vinham homens e mulheres segurando armas que cercaram-na, assustando os civis que por ali passavam, inclusive uma garotinha e uma mulher que devia ser a mãe dela.
A garotinha usava um gorro que cobria parcialmente seus cabelos loiros e estava agarrada à perna da mulher, olhando para Claire com curiosidade e assustada com a confusão. Claire largou a árvore e caiu. Antes de perder os sentidos, olhou mais uma vez para a garotinha e murmurou num idioma incompreensível:
- Eu já tive uma filha - e desmaiou.
De repente, homens saíram de carros escuros e identificaram-se aos transeuntes:
- Somos do FBI! A situação está sob controle! - E abriram caminho para os agentes da Intempol chegarem até o corpo caído no chão.
O povo pareceu tranqüilizar-se e os agentes da Intempol se aproximaram da mulher desacordada. Um deles comentou:
- Incrível! Essa mulher recebeu uma borrifada que faria um touro dormir e ainda derrubou dois homens! Quem é ela, afinal?
Longe das vistas dos civis e acobertados pelo FBI, os agentes da Intempol levaram a prisioneira e os feridos.
Depois que partiram, uma loira vestida de preto apareceu no apartamento onde antes morava a outra. Ela caminhou até o sofá e apanhou a boneca. Maternalmente ela acariciou os cachinhos loiros de mentirinha e apertou-a contra o peito, depois desapareceu.

* * *

Queiroz foi interrompido por Rangel que disse:
- Você precisa saber de uma coisa!
- Pô, cara! Logo agora que achei a LT palmarina!
- Capturaram a mulher.
Queiroz levantou-se e indagou:
- O cara de preto apareceu?
Rangel fez que não com a cabeça.
- Onde ela está?
- Por enquanto sendo interrogada pelos Comissários.
- Posso assistir?
- Difícil! Nunca dão acesso a quem é de fora.
- Entendo. Se eu fosse vocês ficaria alerta.
Rangel franziu a testa e disse:
- Não se preocupe, estamos sempre alertas.
Queiroz sorriu e pensou: "Esses escoteiros temporais."

* * *

A mulher estava sentada na cabeceira de uma grande mesa oval, ladeada por duas dezenas de homens. O que havia se identificado como Valladão, insistia:
- Claire Von Bauer certamente não é o seu nome verdadeiro. Qual é e de onde você vem?
Ela socou a mesa. O soco foi tão forte que assustou alguns dos presentes.
- Eu quero o meu Advogado!
Valladão adiantou-se, inclinando o torso sobre a mesa, dizendo:
- Escute aqui: você não está na polícia de Nova York! Ou fala ou...
- Ou o quê? Me prendem? Me seqüestram?
- Você é uma viajante do tempo, não é?
Claire olhou para Valladão com curiosidade. Estava surpresa e não estendeu a pergunta. Continuou olhando e ele insistiu:
- Você viu um homem de preto no aeroporto do Rio de Janeiro e o reconheceu. Esse homem apareceu em outras épocas assim como você, que conseguiu escapar de uma equipe inteira em 1494.
Ela ouvia a tudo estarrecida. Não conseguia acreditar. Valladão prosseguiu:
- ...e em 2000 você quebra o joelho de uma Agente, o braço de um e o maxilar de outro. Um belo estrago! Sem contar que resistiu a uma substância capaz de fazer um touro desmaiar em segundos. Quem é você?
A mulher gargalhou. Os Comissários nada entenderam e ficaram esperando uma explicação. Ela sacudiu a cabeça, incrédula com o que estava lhe acontecendo. E foi só. Ela logo retornou ao silêncio.
- Senhorita 'Seja-Lá-Quem-For', não estamos brincando! Podemos conseguir 'soros da verdade' de outras épocas - na Alemanha Nazista ou na URSS stalinista. Também podemos enfiar uma sonda neural em sua cabeça com direito a lobotomia. A escolha é sua. Vai por bem ou por mal!
A mulher olhou-o com desprezo e disse:
- Meu nome? Quer o meu nome? Aquele que nossos pais nos dão no dia em que nascemos? Desse eu não me lembro, pois já faz muito tempo. Também não me lembro dos meus pais nem do local onde nasci, porque também já faz muito, muito tempo.
Os Comissários ficaram em silêncio. Havia uma probabilidade de ser algo inteiramente novo, jamais confrontado.
De repente soou a campainha do holograma e surgiu a imagem de uma agente da segurança, que dizia:
- Tem quatro homens aqui na recepção querendo falar com os senhores. Eles dizem que estão com algo que não lhes pertence.
Valladão levantou-se, ajeitou a calça e disse:
- Vou lá! Quero alerta geral!
E saiu. A mulher recostou-se na cadeira e pediu:
- Alguém aí tem charutos?

* * *

Valladão chegou com vinte agentes no salão sem mobílias, onde os quatro homens o aguardavam. Nenhum deles era o que surgiu no aeroporto, em Jerusalém ou em Florença, mas estavam todos de preto e usando óculos escuros, embora a roupa variasse quanto ao estilo. Um de cabelos brancos, que parecia ser o líder, vestia uma espécie de pulôver, adiantou-se e disse:
- Comissário Valladão, deve soltar imediatamente a senhorita Claire Von Bauer a fim de evitar problemas futuros, presentes e passados.
Valladão arregalou os olhos e sacou logo sua Terminator, sendo imitado pelos demais.
- Como sabe quem sou eu? Quem são vocês e quem é ela?
O líder cruzou ao braços e retrucou:
- Respondendo a um quesito de cada vez: sabemos de tudo, somos agentes do que vocês chamam de Anos Interditos e ela é muito importante para toda Existência. Agora que satisfizemos sua curiosidade, soltem-na e evitaremos um confronto.
- Anos Interditos? Pois saibam que a mulher em questão foi detida em época sob a jurisdição da Intempol e vocês estão violando as normas do acordo tácito que há entre nós.
- Disse muito bem, Comissário Valladão: acordo tácito. Nada foi formalizado - replicou o velho - e isso não é uma vantagem para vocês.
Valladão rangeu os dentes de raiva. Aquele velho prepotente tinha a ousadia de ir direto à Intempol só para desafia-los, só por serem dos Anos Interditos, aqueles anos (e séculos) do futuro onde a Intempol não havia estendido a sua jurisdição. Épocas totalmente desconhecidas e impenetráveis.
Os demais quando ouviram o velho dizer que vieram dos Anos Interditos, sentiram-se como se estivessem diante de um punhado de Ets, ou de seres fantásticos que povoam o "folclore" temporal. Por vezes os sociólogos debatiam como algo tão técnico (e tecnocrata) como a Intempol poderia desenvolver tantas crendices e superstições. Havia o "Homem da Meggido", as "Intempols Alternativas", os "Deuses do Nível Seis" e os "Anos Interditos". Havia também regulamentos mal explicados e tabus que alimentavam ainda mais as "fantasias temporais".
- Sinto muito - disse Valladão sem abaixar a arma - mas quem decide se devemos libera-la ou não é o Nível Seis e deve-se fazer por petição e não simples requerimento verbal.
O velho ergueu a mão e disse:
- Entendi. Sua resposta é não.
Valladão abriu os braços e explicou-se:
- Sabe como é, temos regras, procedimentos e hierarquia. Ou seguimos corretamente ou viramos a casa da mãe joana, com cada um fazendo das suas.
- Foi a sua escolha, Comissário Valladão. Agora temos que ir.
- Ei! - Valladão novamente apontou-lhe a arma. Os demais recuaram um passo e prepararam-se para o pior. - Vocês não podem vir aqui, tirar onda de maiorais e sair na maior. Vocês estão detidos e danem-se se são dos Anos Interditos ou dos escancarados.
Os homens dos Anos Interditos sorriram como se o subestimassem e sumiram diante dos seus olhos. Valladão e os demais espalharam-se pelo recinto pensando que tivessem ficado invisíveis, mas tinham ido. Um dos agentes disse:
- Não se brinca com esse pessoal dos Anos Interditos!
- Por quê?
- Porque eles são capazes de impedir a nossa entrada na época deles mas entram na nossa quando bem entendem!
Valladão sentiu-se um burocrata menor, pois só os burocratas menores podem ter tamanha dificuldade em discernir sobre coisas óbvias.
- Mande um ofício para o Nível Seis - por fim ordenou. - Aí vem encrenca das grandes!


11 - ESPERANDO O PASSADO


Morton caminhava pelo calçadão de Copacabana, vestindo roupas brancas leves e bebendo água de coco. Para onde quer que olhasse, apenas via o seu passado, que negava-se a deixar para trás e sabia que poderia traze-lo de volta. Bastava cumprir a sua missão.
Ele parou diante do Copacabana Palace, do outro lado da rua, com os olhos em outra época.
- Patrick - chamou uma mulher morena, sua finada esposa.
Assustado, Morton largou o coco ali mesmo e virou-se em todas as direções, chamando a atenção dos que por ali passavam.
- Márcia! - Gritou o nome dela. Duas prostitutas que por ali passavam fingiram atender e abraçaram aquele gringo bem-apessoado, mas ele se esquivou do assédio e correu pelo calçadão até chegar num quiosque.
- Márcia! Where are you? - E girava o corpo, perdido, como se estivesse sob o efeito do canto das sereias num mar de ilusão.
Um garoto, que catava latinhas de refrigerante pelo chão, debochou:
- Olha lá! O gringo tá ligadão!
Morton fechou os olhos e escutou a voz dela com clareza:
- Patrick, se eu disser "I love you" você dirá "eu te amo"?
Ele manteve os olhos fechados. Balançou a cabeça e disse num sorriso triste:
- O que você quiser, meu amor.
Foi então que ele desapareceu diante de transeuntes e banhistas.
Morton reapareceu no quarto do hotel barato na Praça Tiradentes. Os homens que lhe prometeram devolver a felicidade chamaram-lhe.
- Deve ir a 853.
Morton tirou a camisa, exibindo seu tórax musculoso. Pressentia que algo maior estava a caminho, mas não conseguia discernir o quê.
- Do que está por vir saberá em breve.
E a promessa? Será que cumpririam? Será que se esqueceriam?
- Não se preocupe. Trato é trato. Apenas faça a sua parte.
Ele foi tomar um banho. Precisava relaxar.
Ao sair do banho, ainda sem roupa, Morton foi transportado para Europa em 853. Ao reaparecer, ele já estava vestido de preto, com o sobretudo e seus óculos escuros, sem esquecer seu AR-15.
Ele estava próximo de um mosteiro às margens do Reno, mas seu objetivo era mais adiante, numa pequena fazenda de onde via-se fumaça cinza subindo ao céu. Ele correu e ao fazer a curva, viu navios de madeira com uma espécie de dragão esculpido na proa e vela quadrada, que estava ancorado próximo da margem e guarnecido por uns homens fortes e barbudos que usavam capacetes de metal, sem armaduras e traziam compridas espadas na cinta.
- Vikings! - Morton gritou e ouviu gritos de dor e horror saídos de seu objetivo - a fazenda.
Ele correu. Subiu uma pequena colina e os gritos iam se tornando cada vez mais próximos. Os sentinelas o viram e subiram em seu encalço, gritando palavras que seu tradutor mal assimilava.
Morton virou-se. Eram três vikings que não faziam a menor idéia do que era um AR-15. Talvez por isso ele tenha poupado-os, jogando apenas uma bomba de gás lacrimogênio, que os fez recuar.
Livre deles, Morton continuou a subir a pequena colina até finalmente deparar-se com o seu objetivo. Ele leu muitas coisas sobre os vikings, algumas boas e outras ruins, mas sempre deu ouvidos aos historiadores que, desprovidos de censo humanitário, descreviam todas as atitudes como mero reflexo de uma época de mudanças traumáticas, fatores secundários dentro do dinâmico contexto histórico. Antes de ver o que viu, ele também pensava assim.
Em duas lanças fincadas no chão com as pontas para o alto, duas crianças jaziam, transpassadas e uma mulher despida da cintura para cima era segurada por vikings sorridentes enquanto dois outros seguravam uma menina que não devia ter mais do que quatro anos pelas pernas e pelos braços. Os dois vikings arremessaram a menina para o alto com tanta força que ela subiu alguns metros e girou no ar, enquanto um terceiro aparou-a com a ponta de uma lança, que atravessou-lhe o ventre.
A mulher teve uma crise histérica. Gritou tanto que irritou os que a seguravam, que jogaram-na no chão com violência. A menina ainda vivia, agonizando enquanto deslizava pela lança transpassada em sua barriga. O viking que segurava a lança fincou-a no chão e gargalhou apontando para a menina que pouco depois morreu.
Morton assistiu a tudo incrédulo. Estava paralisado por tamanho horror e hedionda covardia. Para quê aquela violência gratuita?
Finalmente ele pareceu recuperar-se do choque e deu um grito. Os viking calaram-se e viraram-se para a colina, de onde viram um estranho homem todo de preto segurando um estranho objeto. Eles apanharam suas armas e caminharam lentamente em sua direção. Devia haver duas dezenas deles ali e outros tantos no barco.
Morton destravou o AR-15 e fez mira enquanto os vikings subiam a colina. Quando se aproximaram, ele disse:
- Gostam de matar? Preparem-se para morrer lentamente!
Graças ao tradutor implantado, os vikings entenderam perfeitamente o que ele disse. A maioria riu, afinal ele era somente um. Um deles gritou de volta que quem morreria seria ele e os outros riram.
Morton puxou o gatilho e acertou a todos na altura das coxas. Caíram surpresos e gritaram de dor e espanto, sem entender o que os atingiu e repararam no sangue que escorria de seus ferimentos.
Ele desceu calmamente a colina e apontou a arma para os nórdicos, ainda com raiva e pensando num jeito de faze-los sofrer ainda mais. Em seguida, mirou na barriga de cada um e fez disparos certeiros, pois como soldado sabia que tiro na barriga é uma morte mais lenta e dolorosa.
Os vikings nada podiam fazer. Enquanto agonizavam, Morton correu na direção da mulher que já havia notado a sua presença, porém pouco se importava indo, desesperada, de encontro às crianças mortas, traspassadas por lanças. Ela caiu de joelhos diante dos cadáveres e soltou um grito de dor e revolta.
Morton aproximou-se devagar e sentindo náuseas. Ele foi pai e sabe o que é a perda dos filhos, mas nunca pensou em deparar-se com quadro de tamanho horror. Por maior que fosse a contribuição dos vikings à civilização, com suas façanhas e coragem, nada justificava aquilo. Nada.
A mulher continuou ajoelhada diante dos cadáveres. Chorando, ela alisava os cabelos loiros cacheados da menina como se viva ela estivesse e parecia murmurar uma prece. Morton tocou-lhe o ombro e ela virou-se bruscamente, dizendo em meio ao choro:
- Eu pedi a Deus que enviasse um anjo para salvar meus filhos e você salva só a mim? Por que não salvou os meus filhos?
Ele não sabia o quê responder. Mentalizou essa pergunta e a resposta foi tão categórica quanto fria: "você não pode fazer nada porque as crianças não foram salvas".
Morton olhou para o céu como se confrontasse seus aliados e esbravejou:
- Eu poderia ter salvo as crianças!
A resposta veio apenas para ele, dentro de sua mente: "Não poderia porque elas não foram salvas. Você não poderia fazer o que não foi feito."
A mulher não ouviu a resposta, mas graças ao tradutor de Morton ela entendeu perfeitamente o que ele disse ao olhar para o céu.
- Está falando com Deus?
Ele olhou para mulher e fitou-a em seus olhos azuis. Ela insistiu:
- Deus fala com os anjos!
Ele agachou-se, tocou-lhe a face avermelhada pelo choro e pela raiva e tentou consola-la:
- Deus quer que você viva. - Ele ouviu gritos de homens que pareciam feras vindo do outro lado da colina. Mais vikings.
- Escute-me - ele disse - fuja! Ninguém irá machuca-la. Fuja!
E levantou-se. Ela ficou de pé e puxou-o pelo braço, suplicando:
- Por favor, anjo, peça a Deus para trazer os meus filhos de volta!
- Vá embora que eu a protegerei.
A mulher atirou-se de joelhos, segurando suas pernas e chorando.
- Eu te imploro, anjo! Peça a Deus para trazer meus filhos de volta!
Morton teve que entender aquela época: Alta Idade Média. O Império Romano acabou e no vácuo deixado no Ocidente, Carlos Magno tentou recriar a ordem, mas uma sucessão de reis fracos novamente pôs tudo a perder e os vikings aproveitaram esse caos para saquear à vontade. Ao povo europeu restava a fé que regeria todos os seus dias e é nesse fiapo de esperança que o europeu medievo se agarrava para seguir a vida.
- Deus já os transformou em anjos - Morton só podia dizer isso. - Eles olharão por você no céu e a protegerão sempre. Agora fuja, porque é isso que os seus anjinhos querem. Nesse momento eles estão dizendo "fuja mamãe!"
Ela se levantou. Convencida ou conformada, olhou pela última vez para os corpos de seus filhos e correu na direção oposta à colina.
Morton esperou que ela sumisse do alcance de sua vista para destravar o AR-15 e subir a colina. Ainda havia alguns vikings para matar.
Segundos depois, a loira de preto surgiu de costas para os cadáveres das crianças assim que Morton alcançou o topo da colina. Ela tentou olhar para trás mas não conseguiu. Ficou ali até ouvir os disparos da arma de Morton e os gritos de dor e terror dos vikings. Depois desapareceu.

* * *

Alguma coisa está prestes a acontecer. Ao menos foi isso que o Nível Seis comunicou. Mas o quê? Ninguém sabe.
De repente o alerta!
Estranhas flutuações no CET fizeram disparar os alarmes temporais e todos os agentes foram convocados. No edifício na Avenida Rio Branco, o acesso foi interditado. A situação piorou quando o alerta foi se estendendo aos anos passados e vindouros.
...1910, 1911, 1912, 1913, 1914, 1915, ...2000, 2001, 2002, 2003...
E continuou numa incrível sucessão de um ano por segundo. Se seus temores estiverem corretos, terão uma nova LT para cada ano, numa proporção até então improvável e com conseqüências inimagináveis.
Fraga estava com olhar fixo no Mostrador Quântico. Aquelas flutuações eram tão incomuns que por vezes o computador desconsiderava. Para um Comissário que se julgava experiente, estar diante de um fato novo era um incômodo indesejável.
De repente um comunicado do chefe da segurança com a voz desesperada e respiração ofegante:
- Comissário, está acontecendo!
O que está acontecendo? Um frio na barriga foi o que Fraga sentiu, pois sabia que estaria frente a frente com o desconhecido.
...1880, 1881, 1882, 1883, 1884, 1885, ...2050, 2051, 2052, 2053...
O mesmo evento foi se repetindo em cada um dos anos atingidos, mesmo quando em lugares diferentes.
...1600, 1601, 1602, 1603, 1604, 1605, ...2200, 2201, 2202, 2203...
Que tipo de tragédia poderá ocorrer? Qual será a represália intentada pelos homens dos Anos Interditos? Dizem as lendas (novamente lendas!) que as mudanças no CET não afetam os Anos Interditos, uma suposição matematicamente impossível, mas costumeiramente aceita. Talvez devessem soltar aquela mulher.
Rio de Janeiro 2001, 2000, 1999, 1998, 1997...
Roma 1715, 1716, 1717, 1718, 1719, 1720...
Berlim 1940, 1941, 1942, 1943, 1944, 1945...
Atenas 1820, 1821, 1822, 1823, 1824, 1825...
Nova York 1910, 1911, 1912, 1913, 1914, 1915...
Tóquio 2020, 2021, 2013, 2024, 2025, 2026...
Constantinopla 1001, 1002, 1003, 1004, 1005...
Samarcanda 1400, 1401, 1402, 1403, 1404...
O caos instalou-se no CET. O computador quase entrou em pane, pois não tinha um programa capaz de assimilar tantas novas LTs. Fraga, que acompanhava pelo monitor o caos que se disseminava, solicitou uma reunião de emergência com o Nível Seis, mas eles já estavam reunidos e cabia a ele tomar a decisão.
Fraga sentiu contrações no estômago e lembrou-se de Dualai, o neandertal que quase mudou para sempre o CET, ao tentar ajudar seu povo a sobreviver ao massacre perpetrado pelos antepassados do homem moderno. Aquilo era bem pior:
A Invencível Armada foi transportada para o ano 600 e desembarcou numa frágil e dividida Inglaterra que sequer tinha esse nome; Napoleão e seu exército foram removidos de Waterloo e jogados em meio à batalha de Crècy durante a Guerra dos Cem Anos; O Exército Romano de Júlio César estava se defrontando com os macedônios de Alexandre Magno; os exércitos russos do Czar Alexandre III tentavam barrar o avanço nazista; San Martin cruzou os Andes e precisou defrontar-se com tropas do exército Inca; e assim por diante.
Fraga tomou uma decisão. Aquilo tudo era mais do que a Intempol com seus computadores e burocratas poderia suportar, portanto uma ação enérgica fazia-se mister. Ele correu até a sala de interrogatório onde a mulher continuava a ser inquirida e ordenou:
- Soltem-na! É uma ordem!
Hesitaram. A mulher sorriu e disse:
- Puxa! Logo agora que eu estava começando a gostar de vocês!

* * *

Queiroz e Rangel ouviram o alarme e saíram pelos corredores.
- Para onde vamos? - Queiroz perguntou, correndo sem saber para onde. Rangel respondeu enquanto corria.
- Vou tira-lo daqui! Parece que o CET enlouqueceu de vez.
Correram até um cruzamento de corredores. Lá o aparelho de Rangel pareceu disparar, emitindo um zumbido e piscando uma luz vermelha. Ele tirou-o da cintura e conferiu, dizendo:
- Temos um problema bem aqui!
Ficaram parados olhando ao redor. Foi quando surgiu diante deles um homem alto, de sobretudo preto, óculos escuros e portando um fuzil. Ao vê-lo, Rangel tentou sacar sua Terminator, mas o homem acertou um chute no estômago, fazendo-o dobrar o torso. Em seguida, golpeou com a mão esquerda na nuca, derrubando-o no chão. Queiroz estava desarmado, mas conseguiu lançar-se sobre o homem e segurar o fuzil. Então eles começaram a lutar pela posse da arma, girando e arremessando ora um, ora outro contra as paredes do corredor.
Queiroz sabia que logo seu oponente dominaria a situação, pois além de mais jovem era mais forte. Restava-lhe a astúcia.
- Patrick! - Queiroz gritou, o que o fez parar de lutar. - Eu sei quem é você e o que quer. Precisamos conversar.
Morton nada disse, apenas assentiu e os dois desapareceram. Rangel, que se recuperava da surra, apanhou seu aparelho e tentava localiza-los.


12 - FUTURO INCERTO

Queiroz caiu sobre o asfalto quente da Avenida Rio Branco. Sentiu náuseas e levantou-se devagar, deparando-se com Morton, já de pé e segurando seu AR-15.
- O que você sabe? - Morton perguntou, olhando através das lentes escuras. Queiroz reparou que a Rio Branco estava deserta, o que era um fato estranho.
- Sei que você quer mudar o passado para salvar a sua família - disse.
Morton tirou os óculos e guardou-os no bolso do sobretudo. Sabia que ele não era um Agente da Intempol pois seus amigos dos Anos Interditos lhe falaram dele, mas não lhe disseram que poderia ser um aliado.
- O governo britânico está procurando por você. Sabem de tudo.
- Que se danem! Eu tenho amigos que podem mudar a História e trabalho para eles. Tudo que eu tenho que fazer é deixar o ciclo se fechar para ter a minha justa recompensa.
Queiroz sacudiu a cabeça. Ele sabia que o pior inimigo era aquele que julgava nada ter a perder.
- Seus amigos estão usando a mim, a você, a Intempol, nossos governos e a História para conseguirem o que querem.
Morton franziu o cenho e disse com os dentes cerrados:
- Eu vou mudar o passado e ninguém vai me impedir. Nem a Intempol, nem governos, nem Deus!
De repente, surgido do nada - ou melhor, de outro tempo - Rangel apareceu e se precipitou sobre Morton, que foi surpreendido e levou um potente soco no queixo, cambaleando e soltando o AR-15. Começaram a brigar. Queiroz viu que numa extremidade da Avenida Rio Branco surgiram cavalariços da Polícia do Exército que tomavam posição.
Rangel investiu mais uma vez contra Morton, que estava parado. Quando desferiu o soco, Morton interceptou-o, segurando sua mão fechada e acertando-lhe uma cabeçada bem no nariz.
Na outra extremidade, surgiu uma multidão portando cartazes e gritando palavras de ordem do tipo: "O POVO UNIDO JAMAIS SERÁ VENCIDO". Os cavalariços iniciavam seu avanço a passo de marcha.
- Essa não! - Lamentou Queiroz enquanto Rangel apanhava mais uma vez de Morton.
Bem do meio da confusão (e da História), restou a Queiroz apelar ao bom senso:
- Ei, Patrick! Se quiser conversar comigo terá que nos tirar daqui.
Aceleraram o galope. A multidão não recuou um só centímetro, pelo contrário, continuava resoluta em avançar.
Morton podia ter nocauteado Rangel, mas preferiu deixa-lo ali, com o nariz sangrando. Ele segurou Queiroz pelo braço e desapareceram, assim como a arma que estava caída no chão. Vendo-se no meio do confronto, Rangel desistiu de limpar o sangue que escorria do nariz e, apressado, digitou números e passou seu cartão cronal, saindo dali segundos antes do choque de uma das muitas passeatas de 1968.

* * *

Queiroz abriu seus olhos e viu que estava no topo de uma montanha. De lá avistou uma floresta e do outro lado o mar.
O mar!
Mas o que lhe chamou mais a atenção foi uma gigantesca nave, ao menos parecia um nave, imensa, com cerca de dez quilômetros de diâmetro e três de altura, com torres na parte superior, flutuando a mais ou menos um quilômetro acima do mar. Queiroz nunca pensou que um dia veria algo tão fantástico quanto aquilo.
- É uma cidade. - Morton disse, como se fosse parte daquilo.
- Uma cidade? - Queiroz espantou-se. - Quem mora em cidades flutuantes?
Morton sacudiu a cabeça, abriu os braços e respondeu:
- Os homens dos Anos Interditos, onde você está agora!
Queiroz olhou mais uma vez, incrédulo. Nem o cinema mostrou algo tão grandioso, nem ele um dia julgou que tamanha obra de engenharia seria possível.
- Por que eles vivem em cidades assim? - Queiroz perguntou.
- Eu pouco sei, afinal não sou daqui. Mas o que você quer falar comigo?
Queiroz ajeitou o corpo, cruzou os braços e começou a falar:
- Eu sei quem é a mulher que você está protegendo e porque os seus amigos a querem tanto. Para ser sincero, quanto à segunda eu apenas posso especular. - Ele parou de falar, olhou ao redor e indagou: - Tem certeza de que ninguém da Intempol vem aqui?
- Certeza absoluta! - Morton já transparecia impaciência. - Meus amigos conseguem segura-los no passado. Agora fale sobre o que você acha daquela mulher.
- Aquela mulher é uma imortal, inserida na História pelos agentes dos Anos Interditos - São eles, não são? - por algum motivo ela é importante para eles, mas como ela viveu durante muito tempo em Eras sob jurisdição da Intempol, eles precisam de alguém como você para intervir sempre que ela corresse grande perigo. Não é isso?
Morton olhava-o surpreso. Era a resposta ao enigma "O QUE É QUE VENCE O TEMPO?". A imortalidade vence o tempo porque não está sujeita à fatalidade.
- Muito bem, policial Queiroz! - Disse uma voz feminina vindo de trás, chamando a atenção de ambos.
Era ela!
A mulher vestida de preto e de óculos escuros. Ela tirou os óculos, dissipando qualquer dúvida quanto à sua identidade.
- Senhorita Claire von Bauer! - Queiroz disse, deixando claro que reconheceu-a. Ela sorriu e disse:
- Tudo bem. Serei Claire para você, mas antes devo resolver um problema que me acomete em 2000. - Ela se virou para Morton e ordenou:
- Volte para 2000! Estou precisando de você lá!
Morton estava surpreso. Já sabia que ela era uma imortal, mas não supôs que fosse tão longe a ponto de tornar-se influente numa época tão importante quanto misteriosa. Claire ergueu a mão e ordenou:
- Vá! - E ele sumiu. Claire e Queiroz ficaram a sós. Então, sem precisar toca-lo, ele sentiu uma leve vertigem e viu-se num lugar familiar.
Estava em seu próprio apartamento. E sem a mulher. Ele olhou ao redor e pensou em ligar para a Delegacia, mas soou a campainha. Surpreso, ele foi até a porta e viu pelo olho mágico que Claire. Ele abriu a porta.
- Não tem mais truques, moça?
A mulher respondeu tirando os óculos escuros e exibindo belos olhos azuis. Ela pediu debochadamente:
- Posso entrar? - O 'R' foi fortemente pronunciado.
Ele abriu mais a porta. Ela caminhou e sentou-se no sofá cruzando as pernas. Ele ficou estudando-a e quando ia começar a perguntar, ela disse:
- Não vai me oferecer um cafezinho? - O sotaque era acentuado, mas soava diferente, meio francês e meio alemão, sensual e gutural ao mesmo tempo. Ele soltou um muxoxo e foi fazer o café. A qualquer momento, se ela quisesse, poderia sumir dali e deixa-lo sem as respostas que tanto queria.
Certamente Claire sabia que ele é um solteirão convicto, por isso seu apartamento estaria vazio e eles poderiam conversar. Diferente de seus irmãos, Queiroz nunca casou. Preferiu uma vida de trabalho árduo, gastando todas suas energias e aplicando toda sua inteligência com o objetivo de tornar-se o melhor agente da Polícia Federal brasileira. O problema é que aos cinqüenta anos e sozinho, começava a se questionar se fez a escolha correta. Seus irmãos noivaram, casaram, tiveram filhos, separaram-se, foram condenados a pagar pensões alimentícias, foram presos por falta do pagamento de tais pensões, tornaram a se casar, tiveram mais filhos, novamente se separaram, foram condenados a pagarem mais pensões alimentícias, foram novamente presos por deixarem de pagar tais pensões e seguiram vivendo, arrumando novos problemas.
A vida dele seria necessariamente melhor? Um Delegado estressante no pé, regulamentos ridículos, criminosos presos e nunca condenados, colegas que tombaram defendendo a sociedade, colegas que se corromperam e mudaram de lado, missões arriscadas e por vezes infrutíferas, relatórios, papeladas mil, juízes indiferentes e promotores inexperientes pondo todo trabalho policial a perder.
Decididamente, melhor do que tudo isso era a vida simples e feliz de Morton antes do acidente. Quem em seu lugar não aceitaria a proposta de trazer seus entes queridos de volta? Quem poderia recrimina-lo? Talvez Morton fosse o único a ter uma causa justa nesta batalha insana pelo controle da História.
A pequena máquina de café expresso não fez feio. Ele voltou à sala com duas xícaras - já havia adoçado.
- Você é imortal. Não adianta negar. Mas o que te leva a querer um confronto aberto com a Intempol?
Ela bebeu um gole do café e respondeu:
- Preciso sobreviver. Eu não morro - de causas naturais - mas são sou invulnerável, portanto posso morrer e teria morrido por causa das intervenções da Intempol no CET com o intuito de evitar novas LTs.
Queiroz também bebeu um gole - o café estava ótimo - e inquiriu:
- Acha mesmo que a Intempol pretende te matar?
- Eu não disse isso. A Intempol não quer me matar "intencionalmente". Num momento, antes das viagens pelo tempo e da manipulação do Campo Quântico, minha vida seguiu normalmente - se é que uma imortal pode se considerar "normal" - mas vieram as viagens pelo tempo e as novas LTs, criando bifurcações temporais a partir de determinados pontos de divergência. Isso não deveria afetar meu destino, pois uma nova LT é um universo novo e à parte, não uma nova realidade, mas a criação da Intempol e a adoção do princípio de que novas LTs devem ser evitadas a todo custo afetaram o futuro desta LT, alterando o estado da realidade. Isso sim é muito perigoso.
Queiroz temia a Intempol porque sabia do imenso poder que tinham nas mãos mas ela os temia porque acreditava que devia sobreviver pelo bem do futuro. Isso ela mesma confirmou:
- De certa forma, eu ajudei a humanidade a sobreviver num futuro tão inóspito quanto incerto. Não cabe dizer aqui porque tomaria muito tempo e está longe demais da sua época, mas acredite quando digo que tive uma importante participação.
- Quero ouvir!
A intervenção de Queiroz surpreendeu Claire. Ela terminou o café, pôs a xícara sobre a mesinha de centro e explicou:
- Se você acha que ser imortal é uma aventura, esqueça! Eu demorei muito para entender quem e o quê eu sou. Não tive "mentores" nem fui criada por alguma Ordem Iniciática. Aprendi com a vida e poucas vezes tive pessoas ao meu lado que me abrigaram e me protegeram. Num mundo de medos e superstições, não é seguro dizer que não morre, que nunca fica doente e que fica mais forte com os séculos.
Ela fez uma pausa. Passou a língua nos lábios e prosseguiu:
- Eu fui mãe, fui mulher, fui feliz e fui triste. Testemunhei a História, vi civilizações desaparecerem e surgirem outras que se julgavam eternas e corri o mundo sem saber ao certo o que procurar. Fui escrava em Roma, mulher de um guerreiro bárbaro, meretriz em Constantinopla, camponesa na Europa Medieval, mercadora em Bagdá e tantas outras coisas que muitas nem me lembro. Alguns dos meus filhos morreram jovens e outros sobreviveram para semear descendência. Isso é ser imortal. Pior: a única de toda humanidade.
Queiroz ficou estudando a fisionomia dela por algum tempo. Na Academia de Polícia Federal ensinaram-lhe a ler as expressões, tanto faciais quanto corporais, mas ela fugia a todas as regras. Nada que dissesse ou fizesse denunciava verdade ou mentira. Melhor só ouvir.
- Claire, eu quero saber por quê você é tão importante no futuro.
Ela respirou fundo e respondeu:
- À partir de 2000 eu comecei a fazer o que não fiz antes por medo de ser descoberta e tratada como curiosidade científica - em outras épocas eu poderia ter sido queimada ou enterrada viva. Passei a juntar dinheiro e a preparar "herdeiras" falsas para me sucederem.
- Essas "herdeiras falsas" eram você mesma - interveio Queiroz.
- Sim. Em 2100 eu detinha a maior fortuna pessoal de todo planeta e me protegia com a clausura e o suborno das autoridades, sempre mudando de país para manter minha identidade a salvo e minha fortuna em constante crescimento. Em 2200 eu comecei a investir na exploração espacial e quando a Terceira Guerra Mundial estourou no século 25, mantive meu império a salvo no espaço. Com o fim do conflito, ajudei a humanidade a se reerguer através da expansão pela galáxia, onde encontramos os primeiros inimigos raciais desde os neandertais.
Ela fez uma pausa e acrescentou triunfante:
- Sou eu quem lidera a Humanidade!
- Tem uma coisa que não entendi - Queiroz disse. - Tivemos duas guerras mundiais no século 20 e por quê só no século 25 a terceira depois de cinco séculos de paz?
- Paz? Que paz? - Claire sorriu debochadamente - Nunca houve efetivamente uma "paz". O mundo foi se dividindo em megablocos econômicos, alianças militares, comunidades religiosas supranacionais e muito mais. Isso é um mundo em paz? O que havia era um barril de pólvora que só não explodiu antes porque ainda havia mais espaço para guardar mais. Quando não houve espaço para mais pólvora, eles acenderam o pavio e por pouco não destruíram tudo. O século 25 foi o século da Terceira Guerra Mundial.
Queiroz estava confuso com todas aquelas informações. Se não tivesse visto tanta coisa nos últimos dias, diria que um dos dois está louco.
- Por que escolheram você como a líder da Humanidade no futuro?
Ela sorriu e respondeu:
- Por muitos motivos. Um deles é que meu dinheiro financiou pesquisas de Física Quântica que fizeram o improvável: transportar matéria através do tempo. Quando o fizemos, nos deparamos com a Intempol e com as Linhas Temporais Alternativas, todas criadas à partir de flutuações no Campo Quântico. Isso é complicado, mas as LTAs são parte da realidade. Ao contrário do que se pensava anteriormente, não há somente uma Linha Temporal passível de diversas realidades, mas sim uma só realidade que engloba muitas Linhas Temporais. Posso dar um exemplo: dois mais dois são quatro, isso é uma realidade, independente de quem ganhou a Segunda Guerra Mundial ou se os persas venceram os gregos; a Física Quântica é uma realidade, independente da Intempol ou dos Anos Interditos. O problema é quando alguém quer manipular a Realidade negando-se a entender que as LTs são parte da natureza e não da intervenção do homem. Quando um louco viaja ao passado e mata seu avô, ele não deixa de existir, apenas cria uma LT onde ele jamais existirá. O problema está no fato de que houve deslocamento de matéria no tempo e que foi responsável por este acontecimento, daí o paradoxo, pois quando alguém "volta" no tempo, o faz em sua própria LT, mas cria outra LT e altera o equilíbrio da sua, afetando o chamado CET.
Queiroz ia substituindo o espanto pela admiração. Aquela mulher sabia o que dizia e dominava a discussão. Era agradável ouvi-la, mesmo quando sentia alguma dificuldade em acompanhar o seu raciocínio e seu estranho sotaque.
- O problema está na Intempol. - Ela prosseguiu. - Quando eles impedem que algum cronocriminoso crie uma nova LT, eles também acabam colaborando para uma pequena e quase imperceptível mudança no CET. É nesse mínimo que se desencadeiam fatos que, somados, causam grandes mudanças. Eu corri riscos verdadeiros em 376, 853, 1099, 1494 e 2000 devido às tais mudanças. Se eu tivesse morrido nestas ocasiões, o CET teria se mantido inalterado, mas a longo prazo os resultados seriam desastrosos, por isso decidimos intervir uma só vez diretamente nos pontos de divergência criados pela própria Intempol de forma não intencional. Se nada disso funcionar, seremos obrigados a destruir a Intempol.
Queiroz sentiu um incômodo frio na barriga. Isso poderia se traduzir em mortes.
- Ninguém precisa morrer.
- Sim, Queiroz - ela sabia o nome dele - Mas pode se fazer necessário. Destruir a Intempol não afetará a realidade, pois há LTs onde a Intempol não existe, inclusive uma muito interessante onde ela é apenas um inofensivo projeto literário de um escritor louco que pensa que é Deus.
- Essa é a mais fácil - Queiroz sorriu - é só matarem o tal escritor louco.
- Vamos considerar isso também. No momento está sendo resolvido um contratempo em 2000 e faremos a última transição, em 376.
Queiroz sacudiu a cabeça e objetou:
- Se não buscarem cooperação, fracassarão. A Intempol está disposta a tudo para deter Morton.
- Se tentarem impedir Morton provocarão uma nova crise.
Queiroz aproximou-se de Claire e disse:
- Por que vocês escolheram Morton?
- Porque foi ele quem voltou no passado e salvou-me. Eu nunca me esqueci do "Anjo Negro" que surgia nos meus piores momentos.
- Só por isso, Claire? Morton é um homem desesperado que perdeu toda família num acidente de carro por causa de sua falta de precaução. Para um homem que cresceu num orfanato a família era tudo, quase um milagre.
- Eu sei a história dele, Queiroz - ela cortou o assunto. - Patrick Morton era oficial do Exército Britânico e esteve no Golfo e nos Bálcãs. Sabemos tudo.
- Então me diga por que o escolheram! Fizeram um trato com ele: se ajudasse você voltariam no tempo e salvariam sua família. Poderiam fazer tratos melhores com muita gente melhor qualificada e da maneira como ele se veste, poderia ser qualquer um. Não é, Claire?
Claire ficou em silêncio. Franziu a testa e aguardou por uma revelação.
Queiroz inclinou sobre ela e disparou:
- Patrick Morton é seu filho, Claire. O filho que você abandonou na África do Sul com medo de ser descoberta.
Ela ficou claramente desconfortável. Não devia ter subestimado o policial brasileiro. Dessa vez seu olhar a traiu.
- Acertei, não foi? Claro que sim! E cometeu erros crassos, talvez na pressa de fugir. Você mudou seu nome de Claire Morton para Claire von Bauer, deu o menino para adoção numa ordem religiosa anglicana e desapareceu. Os missionários anglicanos sabiam apenas o seu sobrenome e lhe deram o nome do padroeiro da Irlanda, São Patrick, e ele acabou sendo enviado para um orfanato na Inglaterra de onde só saiu para o Serviço Militar.
Claire ficou de pé. Queiroz também. Eles se encararam e ela disse:
- Ele era um lindo bebê: gordinho, sorridente e com belos olhos azuis. Eu sofri muito ao envia-lo para um orfanato, mas esperava que fosse rapidamente adotado e tivesse aquilo que eu nunca poderia lhe dar: uma família. Ele era (é) normal. Nenhum dos meus filhos tornou-se imortal, mas o governo africânder começou a me investigar, pois eu estava lá desde 1910, portanto deveria ser uma idosa em 1966 quando Marcelus - é o nome que dei a ele - nasceu. Surgiram especulações sobre imortais e comprei uma identidade nova, depois fugi para os EUA, mas só regularizei minha situação em 1990. Tenho que cuidar desses pormenores, pois desde os 20 anos não envelheci mais.
Realmente uma mulher em ótima forma, pensou Queiroz. Ela recolocou os óculos escuros e disse:
- Tenho que ir embora! Te vejo em 376, mas lembre-se: há muita coisa em jogo lá.
E desapareceu. Queiroz jogou-se no sofá e tentou coordenar seus pensamentos, mas foi interrompido por Rangel, que surgiu bem na sua frente. Queiroz levou aquele susto.
- Pessoas educadas batem na porta quando querem entrar na casa dos outros - esbravejou Queiroz, em tom de reprovação.
- Ela esteve aqui, não esteve? O alarme soou bem aqui!
- Isso não te interessa! Nunca mais confio em você!
- Por favor, Queiroz - Rangel pediu, - meus superiores já concordaram em não me enviarem para prisão e devo isso a você. Agora tem o problema em 376, seguindo o roteiro deixado pelo agente Assis.
- O tal Assis estava procurando falhas no maldito CET para subir na Intempol às custas dos erros dos outros e acabou esbarrando na Imortal. Não faça essa cara de bobo porque você sabe que ela é imortal e não uma viajante do tempo. Quando Assis tentou deter a Imortal foi morto.
Rangel estava surpreso. Escolheu o parceiro certo e invejava-o tanto quanto aprendia a admira-lo.
- Eu ouvi quando você chamou o sujeito de preto de "Patrick" lá na Intempol. Esse é o nome verdadeiro dele? Foi por isso que ele não o matou?
- Ele não é um assassino, mas sim um homem transtornado que recebeu uma missão que pode mudar-lhe a vida.
- Ele matou o Agente Assis.
- Talvez não. Vocês ainda não têm provas contra ele.
- Errado, Queiroz. Lembra da arma que ele sempre carrega? Um AR-15. Assis foi morto por tiros de AR-15 e a perícia brasileira constatou isso. Se quer mais provas eu te darei: uma equipe de arqueólogos encontrou uma cova coletiva de vikings numa região próxima ao rio Reno e eles apresentavam perfurações à bala - balas de AR-15.
Queiroz sacudiu a cabeça e objetou:
- Não é uma arma difícil de se comprar.
Rangel aproximou-se, encarou-o e indagou:
- Nem mesmo no século nove?
- Pode ter sido usada por outro viajante do tempo.
- Você é o quê? Advogado dele? - Rangel se irritou. - Vamos caçar e prender o cretino, é assim que funciona.
Queiroz sorriu e ironizou:
- Só por curiosidade, vocês prendem e acabou? Não há uma Justiça, um Tribunal, o direito à ampla defesa nem uma instância recursal? Pela tua cara de pastel já vi que não. Vocês são o sonho de toda ditadura: uma superpolícia que aplica, executa e faz as suas próprias leis.
Rangel passou a língua nos lábios e parecia pensar a respeito, talvez até fizesse uma reflexão, mas essa esperança dissipou-se quando ele disse:
- Respeito suas objeções, Queiroz, mas saiba que funcionamos assim há muito mais tempo do que se imagina - e bem. Não queremos dominar o mundo, apenas torna-lo seguro.
Queiroz sorriu e rebateu:
- Na prática vocês já dominam o mundo. As nações os temem, ninguém os enfrenta, a não ser aquele pessoal dos Anos Interditos, mas não creio que tenham boas intenções. O que entendi é que o tempo se divide em duas jurisdições, uma abaixo do século 25 que são vocês e outra acima que são os Interditos. Por mim vocês podem explodir que não ligo, mas me preocupo com as mortes de inocentes que nada têm a ver com isso.
Rangel ficou olhando para Queiroz. Sabia que não devia confiar nele porque seja lá o que for que estiver planejando, não será do interesse da Intempol, mas teve que considerar que estava diante do primeiro homem que lhe era sincero - quase um amigo.
- Ok, parceiro! Vamos para 376?
Queiroz abriu os braços e foi trocar de roupa. Depois seguiram viajem. Ano: 376.


13 - CONCHAVOS


2000...

O Agente Assis sabia que estava diante de algo grande, um peixão que escapava de todas as observações da Intempol. Depois dessa ele seria um Comissário, Nível Cinco, talvez Nível Seis, pois livraria o CET da maior encrenca da história.
Assis esperava por ela no Teleporto, próximo da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, pois as dúvidas se dissipavam a cada instante. Ele apanhou seu aparelho (uma espécie de agenda eletrônica) e reviu os dados. Lá estavam as datas: 376, 853, 1099, 1494 e 2000.
Nessas datas, agentes dos Anos Interditos invadiram à vontade área sob jurisdição da Intempol. Numa linguagem militar isso significaria uma declaração de guerra.
Lá estava ela!
Ela saiu do Teleporto e caminhava calmamente até a Estação do Metrô do Estácio, sem notar que Assis seguia seus passos a poucos metros. Ao chegar na estação, ela parou, abriu a bolsa e tirou um bilhete, pois viera ao Brasil muitas vezes, portanto conhecia bem a língua e os procedimentos do dia a dia. Quando ela ia passar pela catraca eletrônica, surgiu do outro lado da entrada um homem alto, de cabelos loiros desgrenhados e carregando um fuzil de assalto. As pessoas que o viram correram.
O alarme de Assis soou quando o homem apareceu. A mulher ficou paralisada de medo, depois deu meia-volta e correu para fora das dependências do metrô. O loiro foi atrás dela. Assis foi atrás dele.
No lado de fora, surgiu diante do loiro um homem de sobretudo preto e óculos escuros e também trazia à mão um AR-15.
- Lembra de mim? - O loiro desgrenhado esbravejou ao reconhecer Morton. - Sou o cara lá de Jerusalém que você não conseguiu apagar!
E deu uma rajada sobre o Morton, que desapareceu e reapareceu detrás do atirador, mas este se virou com rapidez impressionante e desarmou-o com um chute, mas também foi desarmado quando o de preto acertou-lhe uma cabeçada e fez soltar a arma.
O loiro caiu no chão e passou a mão no rosto, vendo que quebrara o nariz e o sangue escorria. Ele sorriu, levantou-se num pulo e lambeu a mão ensangüentada, antes de tentar apanhar de volta a arma caída no chão.
Morton pulou junto com ele. Os dois rolaram no chão e só a mulher e Assis permaneceram ali, assistindo a tudo. Era uma boa oportunidade para detê-la, mas na calçada dois loucos rolavam numa luta desesperada. Ele ia precisar intervir.
O loiro ficou de pé, mas Morton acertou-lhe um chute na virilha e ficou de pé, correndo na direção da mulher, que em momento algum parecia temer a aproximação dele. Pelo contrário, manifestou confiança quando ele a abraçou e disse que ia tira-la dali. O loiro, recuperando-se do chute, pegou seu fuzil que estava caído no chão e fez mira. Impossível errar.
Errou. Levou um tiro na coxa e caiu, mas sem soltar a arma. Surpreso, virou-se para o lado e viu Assis apontando sua Teminator 9mm em sua direção e dizendo:
- Parado aí, moço! Trate de soltar a arma! Agora! - Em seguida virou-se para Morton e Claire para ordenar: - Vocês também parados e nada de truques. Ouviram?
Assis se aproximou sem tirar a mira do loiro. Ao chegar bem perto, Morton e Claire desapareceram, assim como a arma dele. O loiro ficou furioso:
- Satisfeito? Eles escaparam!
Assis franziu o cenho e inquiriu:
- Quem você pensa que é para falar assim, palhaço?
O loiro riu doentiamente e respondeu com os dentes cerrados:
- Meggido Mars.
Assis parecia ter levado um choque. Sem saber o que fazer, manteve a arma apontada para o loiro, mas num instante de distração, este apontou seu AR-15 para ele e disparou.
Foi tudo muito rápido. Assis sentiu como se fosse golpeado em vários lugares diferentes e caiu para trás, depois sentiu uma queimação por todo corpo e muita dor. Aquele maluco acertou-lhe uma rajada. Ia morrer em breve.
O loiro aproximou-se de Assis agonizante com o AR-15 empunhado. Apontou para o Agente e desferiu uma rajada no automático, até descarregar. Em seguida, remuniciou a arma e disparou novamente, desfigurando o cadáver.
O sangue escorria pela calçada indo até a rua. O loiro ainda teve estômago para se abaixar e retirou do cadáver a semi-destruída Caixa Registradora, os pedaços do cartão cronal, a Terminator, uma carteira e o relógio. Depois sorriu e desapareceu.

* * *

Morton e Claire reapareceram próximo a um shopping center na Barra da Tijuca sem chamar a atenção de ninguém. Eles se soltaram e olharam ao redor para terem certeza de que não havia ninguém por perto. Sentindo que ele ia sumir novamente, Claire segurou Morton pelo braço e perguntou:
- Quem é você?
Ele não tentou se desvencilhar. Olhou nos olhos azuis dela e respondeu lacônicamente:
- Só um amigo.
- Isso eu já imaginava - ela disse, segurando-o com mais força ainda e ele notou que aquela mulher aparentemente frágil era muito mais forte do que ele. - Quero saber quem é você e por que sempre me ajuda.
Morton sacudiu a cabeça e respondeu:
- Sei que você tem muitas perguntas para fazer, mas tudo que posso te dizer é que tem muita gente boa que se preocupa de verdade contigo e quer o seu bem. Pessoas que serão seus amigos quando chegar a hora de se conhecerem e então você terá assumido seu verdadeiro papel.
- Eu não sabia que interpretava um falso papel.
- O futuro a aguarda e lá estão todas as respostas. Agora, por favor, solte o meu braço.
Ela soltou. Ele sorriu e desapareceu. Claire pensou: Que lindo homem ele deve ser!

* * *

Numa sala localizada em algum lugar da Existência, um jovem negro com argolas no pescoço, uma velha, uma mulata de corpo escultural e um homem negro de meia-idade estavam reunidos ao redor de uma mesa ovalada com dois homens (um branco e um negro) e duas mulheres (uma ruiva e uma oriental), os quatro vestidos de preto. A ruiva sorriu, cruzou os braços e disse:
- Vocês não têm escolha, por isso tomarão a decisão certa.
- Vocês também não - disse o jovem - por isso nos darão a alternativa mais aceitável e encerrarão essa guerra.
- Assim que lhes dermos a alternativa mais aceitável e encerrarmos essa guerra, vocês precisarão arrumar o CET. Por isso nos proporão um novo acordo - expôs o homem branco e calvo.
- E o acordo que proporemos será suficiente para uma cooperação entre a Intempol e os Anos Interditos, mas acredito que preferiremos juntar todas as intervenções temporais numa só LT. - A mulata escultural disse.
- Enfim, - disse a oriental - teremos um "cessar-fogo" e criaremos uma LT com o objetivo de jogarmos o "lixo" desta LT.
- Depois tudo volta a ser como antes - instituiu a velha.
- Lá no nunca nem o nada será como o antes - disse o branco como se estivesse filosofando.
- Respeite os nossos conceitos que respeitaremos os seus - pediu o negro de meia-idade.
Os representantes dos Anos Interditos se entreolharam e sorriram enquanto os deuses permaneceram sérios. Afinal, eles assentiram:
- O que tiver que acontecer em 376 é porque realmente aconteceu. Façamos todos o que tiver que ser feito.
Assim finalizou a ruiva, que obteve como resposta um silêncio aquiescente.


14 - O PRIMEIRO ANO DO RESTO DA NOSSA HISTÓRIA


Ano 376

Queiroz estava metido numa roupa larga, coberta por muitos panos e com um estranho turbante. Faria o papel de um mercador egípcio e deveria seguir calado as especificações dos comissários, passadas por Rangel. Ele havia chegado ao Império Romano há uma hora e ainda não teve permissão para sair do maldito cubículo onde se encontrava. No lado de fora escutava-se passos e vozes, deixando claro que eles não estavam sozinhos.
Finalmente a porta de madeira e ferro foi aberta, por onde entrou um velho com vestes coloridas e um militar com elmo e peitoral de ferro.
- Eles já cruzaram o Danúbio - o velho disse a Rangel, que consultou mais uma vez seu Rastreador, que parecia uma mini-TV.
- Ainda há uma anomalia no CET, mas o sinal está fraco.
- Então o problema não é aqui - disse o militar.
- É aqui sim - rebateu Rangel - mas ainda não aconteceu.
Queiroz estava confuso e queria saber sobre o quê falavam, mas mal lhe olhavam. Aqueles eram romanos e a Roma Antiga sempre fora um dos seus assuntos favoritos, por isso ele ansiava por sair dali e respirar o ar romano. Todavia, ele reparou no soldado que entrou ali e entregou um papel dobrado ao general não trajava armadura, mas tão-somente um elmo de metal e uma espada comprida que pendia da cintura, no lado esquerdo - a Roma de 376 não era a mesma Roma de antes, de Augusto, Trajano e Marco Aurélio.
Em 376 não era o Império Romano que agonizava, mas sim a Idade Antiga, com seus valores e cosmopolitismo. Há quase cinqüenta anos que Constantino, o Grande, mudou a capital imperial de Roma para Constantinopla e o Cristianismo já é a religião predominante no Império.
Queiroz comparou que há menos tempo Juscelino mudou a capital brasileira do Rio de Janeiro para Brasília e os brasileiros já se acostumaram.
Foram conduzidos para fora do recinto. Queiroz constatou que estavam numa espécie de palácio com colunas de mármore e mosaicos nas paredes e no chão. As sentinelas usavam roupas de algodão e vestiam-se da cabeça aos pés, sem partes desnudas e sem sandálias, mas sim botas e portavam lanças e escudos ovalados com uma protuberância de metal no centro. A cor predominante das capas era o azul-escuro e traziam espadas compridas na cintura.
- O imperador Valente vê conspiradores em toda parte - disse o romano civil - por isso mesmo ele teme a Intempol, pois pensa que vocês pretendem voltar no tempo e destrona-lo.
Passaram por uma porta de bronze e adentraram um amplo recinto com mesas, cadeiras e muitos rolos de papiro. Um jovem vestido com uma roupa enfeitada por fios dourados e alto-relevos abstratos examinava um rolo de papiro. O militar apresentou Rangel e Queiroz, ressaltando que não poderiam entendê-lo porque ele estava sem o tradutor vocal. O jovem parecia familiarizado com aquele linguajar e apresentou-se:
- Eu sou o Agente Especial Márcio Publius Eusébio e fui designado pelo Nível 5 para acompanha-los, mas antes preciso ver a identificação.
Rangel espantou-se e perguntou:
- Que identificação é essa?
O jovem sacou um cartão plástico de dentro do seu bolso e mostrou a Rangel, com um sarcástico sorriso:
- O cartão de identificação, que não é o cartão cronal. Admira-me um burocrata tão exigente não saber a diferença.
Rangel engoliu seco. Queiroz sabia o quanto os romanos são presos a regulamentos e deliberações, afinal foram eles os inventores da burocracia.
- Mas que diabos? Nunca ninguém usou esse cartão em missão, bastando o cartão cronal que traz a identificação também.
O jovem sacudiu a cabeça. Aquilo tinha ares de vingança pessoal.
- Sinto muito, agente Rangel, mas você conhece as regras. Além do mais há uma circular expedida pelo Nível 5 tornando obrigatório o uso do cartão de identificação para se ter alguma ascendência sobre os Agentes Especiais, no caso nós.
Queiroz deu um tapinha no ombro de Rangel e sugeriu:
- Por que não manda ele ler a circular para você?
Rangel deu de ombros mas fez o sugerido. O romano leu:

"Por esta circular ficam cientes de que, à partir desta data, os Agentes abaixo do Nível Cinco em missão só poderão requisitar auxílio aos Agentes Especiais mediante apresentação do Cartão de Identificação.
Rio de Janeiro, 09 de agosto de 2010"

- Agora argumente com ele que se a circular é de 2010 e estamos em 376, ela ainda não entrou em vigor. - Queiroz explanou. Tinha prática em lidar com burocratas.
Rangel disse isso ao romano, que franziu a testa e coçou o queixo com o indicador. Novamente leu a circular e disse:
- Pensei que a aplicação das normas da Intempol fossem condicionas ao recebimento dos documentos.
- Desde que não venham datados - Rangel emendou. O romano por fim assentiu e colocou-se às ordens dele.
Rangel aproximou-se da mesa no centro do recinto e tirou um laptop de dentro da mochila, bem como uma Terminator 9 mm. Os romanos ficaram curiosos com o primeiro mas demonstraram familiaridade com o segundo. Ele ligou o laptop, surgindo na tela uma série de gráficos que soavam incompreensíveis tanto para Queiroz como para os romanos.
- É aqui perto - disse Rangel, sem tirar os olhos da tela.
De repente surgiram ondas sobre os gráficos, de amplitude cada vez maior até quase atingir o topo da tela. Rangel começou a digitar e parava, voltando a digitar, agindo como se estivesse esperando uma resposta.
Depois de alguns minutos, Rangel perguntou aos romanos:
- Onde estão os visigodos?

* * *

Rangel, Queiroz e o romano Eusébio surgiram sobre uma colina próxima de uma barraca militar romana. Fazia frio e erguiam-se rolos de fumaça, talvez provenientes de pequenas fogueiras.
Queiroz deixou o grupo por um segundo e ficou admirando o enorme acampamento visigodo, cheio de carroças e com algumas tendas feitas de couro ou palha. Lá havia uma milhares de homens, mulheres e crianças, além de alguns animais - dos quais predominavam os cavalos. Ao redor do imenso acampamento, aqui e ali, viam-se grupos de militares romanos que deviam vigiar os bárbaros.
De repente Rangel disse:
- É ali - apontou para o acampamento - seja lá o que for, acontecerá entre os visigodos.
Visigodos! - Os Godos Ocidentais, futuro flagelo de Roma, ainda mais devastadores do que pretendem que seja Átila, o huno. No momento estão calmos, pois precisam do Império, mas não será assim por muito tempo. A um sinal de Rangel, Queiroz seguiu-o até a barraca.
Lá dentro era bastante confortável, com uma mesa, cadeiras dobráveis e óleos aromáticos queimando nas lamparinas. Lá estavam dois militares que olharam com curiosidade para Queiroz, pois não estavam acostumados a verem negros. Rangel abriu seu laptop sobre a mesa e expôs:
- Estamos aqui para determinarmos um ponto de divergência que causou muita confusão no CET. Acreditamos que surgirá um homem vindo do futuro portando armas daquela época e com o objetivo de proteger uma mulher que, presumo, esteja entre os visigodos. Precisamos detê-lo para que nada ponha em risco a harmonia desta LT.
Queiroz ouvia a tudo e constatava que os romanos compreendiam perfeitamente o que Rangel dizia, deixando claro que a cooperação entre eles e a Intempol era mais antiga do que se supunha.
Um dos romanos, impaciente, disse:
- Vou requisitar mais agentes especiais para cercar o acampamento, mas preciso ter certeza de que ele virá.
- Decerto que ele virá - afirmou Rangel. - Precisamos estar a postos e...
O mesmo romano ergueu a mão e disse:
- Deixe a ação conosco, Agente. Só nos diga quando ele chegar.
Queiroz percebeu que Rangel não era querido entre os romanos. Um dos militares foi até um baú ali perto e tirou uma Terminator 9mm, que prendeu junto ao cinto, dizendo:
- Vamos logo!
Então ele reparou que todos os romanos traziam uma Terminator 9mm na cintura, parcialmente cobertas pelas capas. Eles pareciam familiarizados com as armas.
Saíram da barraca e começaram a descer a colina em direção ao acampamento visigodo.
Queiroz notou que do acampamento vinha um odor horrível. Lá dentro, ao cruzar uma cerca guarnecida por soldados romanos e alguns visigodos desarmados, ele sentiu náuseas, cobrindo o rosto com parte da sua capa. Eles caminharam em meio a uma gente maltrapilha, apesar de orgulhosa e bela, apesar do fedor e da sujeira. Os carroções formavam um círculo e fogueiras eram acesas diante das barracas e de pequenos grupos familiares ao relento. A situação pareceu complicar-se quando Queiroz e Rangel cruzaram com dois guerreiros visigodos com seus corpos poderosos e porte imponente.
- Mas que fedor! - Rangel disse, com concordância dos romanos, mas o Agente Especial Eusébio explicou:
- Está vendo que seus cabelos longos são cacheados? Ficam assim, sem sair do lugar, porque eles passam manteiga rançosa e quase nunca os lavam. Eles também usam as roupas até apodrecerem ou conseguirem uma nova. Apenas alguns membros da nobreza têm hábitos higiênicos.
Outros tempos, outros hábitos, pensou Queiroz.
Observando ao redor, pareciam um bando de fugitivos, acotovelando-se em meio a toda aquela sujeira. Rangel consultava seu aparelho a toda hora e os romanos olhavam ao redor, numa atitude vigilante e arrogante ao mesmo tempo. Queiroz puxou Rangel pelo braço e perguntou:
- Sabe como o Agente romano foi morto?
Rangel, fez que não com a cabeça e parecia pouco à vontade.
- Então pergunte a eles, seu burocrata burro! Pode ser uma pista!
- Ficou maluco! - Rangel objetou. - Eu fui o culpado!
- Mas está aqui tentando se redimir.
- Outra hora! Não quero ser linchado.
Queiroz passou a língua nos lábios, olhou para os romanos e murmurou algumas palavras em latim, seu paupérrimo latim. Um dos romanos riu e comentou:
- Ele fala esquisito!
Rangel, sem tirar os olhos do aparelho, disse:
- Precisa estudar História, Queiroz. Os romanos daqui dos Bálcãs falam grego e não latim.
O Agente Eusébio fez um muxoxo e virou-se para Queiroz.
- Nem todos. Pode me perguntar pois eu tenho um tradutor auricular igual ao teu.
Queiroz fez uma careta para um surpreendido Rangel e perguntou:
- Como foi morto o Agente...
- Septimio Verus - completou Eusébio, dando uma olhadela de soslaio para Rangel.
- Poderia me contar? - Queiroz insistiu.
- Claro! Por que não? Ele foi morto por uma flecha que atravessou-lhe a cabeça de orelha a orelha.
- Uma flecha? - Queiroz e Rangel se entreolharam. Que tipo de flecha? Como foi disparada? Quem disparou?
- Foi uma flecha romana - explicou Eusébio.
- Sabe quanto tempo? - Queiroz indagou.
- Pô, Queiroz, o cara tá morto e o ponto de divergência é daqui a pouco e não há um mês. - Rangel interveio, em parte para retomar o controle da situação.
- O policial aqui sou eu - disse Queiroz, voltando-se para Eusébio - Sabe o dia exato em que ele foi morto?
- Sei sim - respondeu o romano.
- Ótimo! - Queiroz comemorou. Rangel ficou muito preocupado.

* * *

Constantinopla...

A cidade que o imperador Constantino, o Grande, ergueu sobre o sítio da antiga Bizâncio era quase um museu ao ar livre. Seu fundador mandou vir de todas as partes do mundo romano as mais preciosas esculturas e obras de arte para adornar a cidade, que atraiu para si tudo que ainda estava vivo na agonizante Idade Antiga. Com esta medida, cidades foram despojadas de seus tesouros mais preciosos e de suas obras de arte, como se Constantino soubesse que sua Era havia chegado ao fim e que precisaria reunir e resguardar tudo que fosse testemunho do passado antes que os ventos da mudança as reduzisse a pó. Assim, pelo menos esses monumentos do passado manteriam vivas em espírito toda glória do helenismo.
Ali havia um dinamismo que não mais se via no Império, com operários levantando prédios, reforçando o calçamento, Igrejas ocupando o lugar que em tempos não tão remotos seriam de templos pagãos, o vai e vem de navios no porto, a agitação nos mercados e o burburinho de gente de todas as cores e nacionalidades que se deslocavam em meio a diversidade cultural que já foi a marca de uma Roma em irreversível decadência. Enquanto cidades ficavam despovoadas e decadentes, Constantinopla recebia novos moradores e crescia a cada dia.
Era nessa cidade dinâmica que reinava um homem muito aquém das expectativas nessa época de transformações. Valente, o imperador que governa a parte oriental do Império Romano desde a ascensão de seu irmão Valentiniano, que julgou por bem associa-lo ao trono como regente do Oriente Romano para melhor defender e administrar o mais rico império que já existiu sobre a Terra. Todavia, Valentiniano morreu em 375 e desde então Valente divide o governo romano com seu jovem sobrinho Graciano, que reina no Ocidente Romano.
Um homem medíocre reinando absoluto sobre a parte mais rica do Império. Isso não podia acabar bem.
No Palácio Imperial de Constantinopla, uma loira, de preto, mexia com a libido dos Guardas Escolarianos e Senadores que se acotovelavam para vê-la. Ela vestia um provocante colant que cobria todo o seu corpo, deixando de fora somente a cabeça e as mãos. A diferença é que a roupa de tão justa parecia ter sido pintada e não vestida, marcando com detalhes o contorno de seu corpo belo e juvenil.
Ela seguiu o cerimonial, organizado meticulosamente pelos eunucos e que consiste numa série de gestos, perguntas e respostas pré-determinadas, por vezes longo e cansativo, mas cheio de representações e encenações que visavam enaltecer a figura do soberano e ao mesmo tempo mostrar o quanto o ser humano é limitado.
Claire logo estava perto do trono e mal podia esperar para toda aquela lenga-lenga terminar, embora já tivesse visto aquilo em outras ocasiões de sua longa vida - e até desejado tomar parte. Ela já foi uma prostituta em Constantinopla, num tempo ainda à frente e quando o trono imperial for ocupado por um imperador "que nunca dorme".
Depois de tudo aquilo, o imperador se retirou para uma sala reservada e fortemente guardada, com apenas uma entrada, onde iria recebê-la. Minutos depois ela entrou no recinto e Valente olhava-a e acintosamente passava a língua nos lábios. Aquela beleza erótica e esbelta era mais do que pensou em ver um dia. Claire estudou calmamente a expressão do imperador: um homem já parcialmente calvo, de dentes escuros e rosto suarento. Parecia estar sujo apesar da riqueza do manto vermelho-escarlate e das roupas bordadas com fios de ouro.
- Acho bom que seja importante, mulher, ou...
Antes que completasse a ameaça, Claire desapareceu e reapareceu segundos depois ao lado de Valente, segurando uma faca e sua roupa estava tão vermelha quanto o manto imperial.
- Escute uma coisa, Senhor do Mundo - ela disse, inclinando o corpo para frente e olhando-o nos olhos - o único que corre algum risco aqui é o senhor, Augusto.
Valente tentou manter a calma, mas ela estava certa. Se quisesse já o teria matado. Se a Intempol quisesse já o teria matado também. Além da vida de um soberano ser tão frágil, ele engoliria a arrogância dela.
- O que você quer, mulher?
- Quero que fique neutro e em troca salvaremos a sua vida, Augusto.
Valente era um imperador muito limitado. Não entendia sutilezas e quase sempre, ao findar uma reunião, perguntava a um eunuco instruído o que queria dizer essa ou aquela palavra. Claire sabia disso e foi direto ao assunto:
- A Intempol tem poder demais nesta época e pode destrona-lo a hora que bem entender. Eles podem até voltar ao passado, matar sua mãe quando ela ainda for criança e nem o senhor nem seu falecido irmão, Valentiniano Augusto, nascerão. Contudo, se outra força capaz de se opor a Intempol mantiver o equilíbrio, o senhor poderá ser o fiel da balança e sairá fortalecido.
Claire sorriu lindamente com dentes tão brancos que encantaram ainda mais o Augusto e concluiu:
- Nós somos essa força, Agusto. Os únicos capazes de se oporem a Intempol.
Valente passou o indicador e o polegar no queixo e ficou pensativo, mas tão pensativo que levou uns dez minutos para decidir perguntar:
- O que vocês dos... como é mesmo o nome?
- A Intempol nos chama de Anos Interditos.
- Anos Interditos. Por que deveria confiar em vocês?
Claire aproximou seus lábios do ouvido imperial e respondeu num sussurro:
- Por que sei do foco da conspiração. Lembra quando Procópio tentou usurpar seu trono anos atrás? Que ajuda a Intempol te deu? Pois nesse momento, próximo do acampamento visigodo, um Tribuno chamado Septímio Verus está no centro de uma conspiração contra o senhor e pretende envolver a Intempol. Se acha que minto, mande um de seus muitos agentes secretos checar direitinho se ele não apoiou Procópio.
Valente entendeu rápido, ou melhor, assimilou rápido pois sempre que o assunto era "conspiração", o desconfiado Valente preferia agir e só depois conferir a verdade.
- O quê devo fazer? - Ela se surpreendeu com a pergunta do imperador. Foi tão fácil assim convencê-lo?
- Eliminar o problema antes que chegue até o Augusto.
Valente sorriu. Apanhou uma jarra, encheu duas taças de ouro com vinho e propôs:
- Vamos brindar à nossa aliança, bela mulher!
Claire sorriu, apanhou a taça e bebeu todo conteúdo. Valente bebeu meia taça e em seguida disse, olhando lascivamente para o corpo dela:
- Eu te concedo a graça de deitar-se comigo, assim como Cleópatra deitou-se com Julio Cesar.
Claire largou a taça sobre a mesa, aproximou-se ainda mais de Valente e sussurrou em seu augusto ouvido:
- Esqueça!
E se afastou, mas não sem antes dizer:
- Lembre-se, Augusto: seja o pêndulo da balança! - E desapareceu.
Valente estava frustrado. Imaginou-se percorrendo as curvas daquele corpo de rara beleza, em vez disso tinha um dilema para resolver. Um dilema perigoso: devia ou não confrontar a poderosa Intempol?
Para um imperador marcado pela desconfiança, todos eram inimigos potenciais, principalmente homens que detinham um poder que, em sua sincera convicção cristã, somente deveria pertencer a Deus. Mas não. Havia homens impuros, pecadores e talvez profanos que manipulavam tudo e não ele, o Augusto, Senhor do Mundo, imperador romano.
Por que eles e não eu? Pensava Valente pouco antes de tomar sua decisão: Melhor ser o pêndulo.


15 - COISAS PARA FAZER NO IMPÉRIO ROMANO QUANDO VOCÊ ESTÁ MORTO


Septímio Verus estava indignado. Sem qualquer apoio da base de operações em algum futuro tão louco quanto distante, ele descobriu estranhas flutuações no CET que podem comprometer toda Realidade e nem assim lhe deram os créditos que julga serem merecidos. Até o momento ele não recebeu instruções do Resgate de Informações, mas aquele tal de Rangel queria um verdadeiro cerimonial para repassar-lhe as instruções.
Verus riu ao se lembrar da cara dele quando disse que aquilo era coisa de eunuco. O sujeitinho ficou irado que se retirou, exigindo retratação ou suspenderá o repasse de informações até segunda ordem.
Como pode aquele burocrata pretender ser mais importante do que um Agente Especial? Será que a mediocridade imperará em todas as Eras?
Verus tirou o capacete e ficou observando daquela colina a multidão de visigodos que seguia rumo à Trácia, com seus carroções. Ele passou a mão em sua barba grisalha e voltou seus pensamentos para quando era um jovem Tribuno em 363, marchando ao lado dos últimos heróis romanos sob o comando do imperador Juliano, penetrando fundo na Mesopotâmia e adentrando a Pérsia, no que parecia ser uma viajem de volta aos tempos gloriosos da Roma pagã, com as legiões invictas submetendo todo o mundo a ferro e fogo.
Havia tanta esperança em Juliano. Suas convicções não-cristãs, seu amor pelos deuses (os verdadeiros deuses), a alegria do culto helenista, os mistérios de Elêusis, a glória e a pompa dos sacrifícios e dos presságios. E as legiões penetrando decididas na poderosa Pérsia. Aquilo sim valeu a pena. Mas tudo acabou rápido demais. Juliano foi morto em combate e o exército romano voltou para casa traumatizado com o desastre militar e a perda da grande cidade de Nisibis, bastião de Roma na Mesopotâmia. Sem Juliano, o helenismo foi-se apagando e Verus, devoto sincero do Deus Marte, viveu para ver os cristãos se multiplicarem numa velocidade que causaria espanto ao próprio Pedro. Os tempos e templos dos "verdadeiros deuses" nunca mais retornariam. O galileu venceu.
Talvez por causa desse saudosismo ele nunca entendeu (nem nunca entenderá) por quê a Intempol o recrutou dentre tantos oficiais. Ele era um forte candidato a cronoterrorista e chegou a cogitar voltar no tempo e impedir a derrota de Juliano, mas a vida lhe ensinou que todas as coisas têm o seu propósito. Se para ele o cristianismo era a marca da decadência, isso não era uma verdade absoluta e a história é uma conseqüência direta dos atos dos homens em sua constante evolução. Foi a esse conceito que ele se agarrou para suportar a queda dos seus valores.
Agora era a Realidade que estava em jogo. Mudanças drásticas no CET desde a passagem dos visigodos rumo à Trácia. Que mudanças eram essas e por quê os visigodos?
Será que os bárbaros não deveriam adentrar as fronteiras do Império? Teria sido um erro drástico do imperador Valente permitir inimigos em potencial dentro dos limes romanos? Que tipo de desgraça esses bárbaros traziam para o Império?
Verus sentiu um incômodo frio na barriga. Uma sensação de impotência e ao mesmo tempo um desespero crescente, quase pânico. Os Agentes que vinham de Eras futuras, chamavam a isso de estresse.
Seus pensamentos foram interrompidos pelo som de galopes. Eram dois cavaleiros vestidos com cotas de malha e capas verdes que se aproximavam dele.
Escolarianos!
Verus nem se importou em estar sem capacete e displicente. Esperou que chegassem mais perto. Quando estavam a menos de três metros dele, apearam seus cavalos e se separaram. Um ficou a sua esquerda e outro a direita. O que estava à esquerda mostrou-lhe uma bolsa de couro e disse:
- Tenho ordens diretas do Augusto Valente para entregar isso ao Tribuno Septímio Verus.
Verus quase pulou. O Augusto quer lhe falar? Ele confirmou:
- Eu sou Septímio Verus.
O escolariano entregou-lhe a bolsa. Ele a recebeu com as mãos trêmulas e sofregamente abriu-a, mas só havia um pedaço de tecido amarelado que ele segurou sem entender.
- É isso que o Augusto quer me dar?
O escolariano sorriu maliciosamente. O que estava acontecendo?
Foi o seu último pensamento. O outro escolariano usou o arco com tanta destreza que a flecha atravessou a cabeça, na altura da têmpora. A morte veio-lhe rápida, mas sentiu um espasmo de dor. Caiu bruscamente e estava de olhos esbugalhados e boca retorcida. Os escolarianos apearam novamente seus cavalos e saíram dali a galope. Missão cumprida.


30 dias após...

Queiroz andava em meio ao acampamento visigodo em companhia de Rangel e dos agentes especiais. O que via era história viva, momentos que ficaram perdidos no passado e que agora desfilavam diante dos seus olhos.
O policial brasileiro parou. Puxou Eusébio pelo braço e apontou para uma cena deprimente.
- Olhe para aquilo!
Apontou para um grupo de romanos que traziam consigo alguns cachorros enquanto uns visigodos discutiam com eles apontando para um grupo de crianças esquálidas. Queiroz entendia parte da conversa:
- Tem que ser assim - dizia um romano - ou não tem negócio!
- Muito caro! - reclamava um atarracado visigodo.
- É um por um. Vocês sabem - insistia o romano.
Os visigodos grunhiam, socavam o ar e sacudiam a cabeça. Mas não havia argumentos. Os romanos sorriam triunfantes. Houve negócio.
Eles deram aos romanos quatro crianças e receberam quatro cachorros em troca. Os romanos amarraram as crianças pelas mãos e saíram puxando-as com menos delicadeza do que fariam com os cachorros.
- Viu aquilo? - Queiroz estava indignado - Trocaram uma criança por um cachorro e vocês, autoridades romanas, nada fazem para impedir?
Eusébio mostrava surpresa:
- Ninguém foi obrigado a aceitar a troca. Os visigodos o fizeram livremente e eram os filhos deles.
- E vocês não farão nada?
- Fazer o quê? - Eusébio indagou - Os godos estão passando fome, querem comida e não têm como alimentar seus filhos, por isso trocam os que estão sobrando por comida. Carne de cachorro não é tão ruim quando se tem fome.
- Por que não trazem comida para eles? - Queiroz teimava - Não são refugiados?
Eusébio sorriu. Sacudiu a cabeça e desdenhou:
- Comida de verdade? Pode ser. Valente mandou distribuir trigo e cevada para os godos, mas nunca chegará até aqui. Os oficiais encarregados vendem a comida no mercado negro e só liberam para cá quando estraga por excesso de estocagem. Os godos só recebem o que não podemos vender.
Queiroz teria rido se tivesse lido isso num livro de história, mas diante da cena ficou chocado.
Daqui a alguns anos os romanos pagariam um alto preço pela sua ganância e arrogância.
- Tem algo muito errado aqui - disse Rangel sem tirar os olhos do aparelho, que emitia um ruído intenso.
Queiroz olhou ao redor e reparou que os godos olhavam para eles, estranhas figuras numa época estranha. Eram olhares curiosos, mas não de olhos inocentes. Tratava-se de um povo com uma cultura brutal, sem preceitos morais ou um indelével caráter. São sobreviventes e, até então, meros párias da história.
Debaixo de um dos carroções, uma pequena multidão formava um círculo e murmurava algo tão incompreensível que nem o tradutor arriscava-se em denominar. Homens e mulheres riam e gritos de dor de mulher saíam do que parecia ser o centro do círculo.
- Preparem-se! Vamos ter ação! - Rangel advertiu e sua expressão nada trazia de otimista. Queiroz, com sua vasta experiência, fez ecoar um nome dentro de sua cabeça: Patrick.

* * *

Patrick Morton surgiu diante de um templo pagão em ruínas. Deveria se apressar para encontrar sua protegida antes dos seus inimigos e garantir a sua recompensa. Era seu último serviço e estava disposto a tudo para cumpri-lo.
Ele caminhou por entre colunas e um piso parcialmente cobertos pela vegetação. O telhado já havia desabado e ali fedia a excrementos enquanto uma poça d'água formava-se diante do que certamente já foi um altar.
Ele conferiu a munição e mentalizou seus amigos. Nada. Estava só, conforme lhe orientaram no último encontro. Quando chegasse em 376 não conseguiria mais contata-los, nem numa emergência. Por isso levou faca, munição de reserva e uma pistola, além de bússola e bombas de fumaça. Ele estava pronto para a sua última batalha, ou pelo menos assim pensava.
De resto, seus implantes neurais o levariam ao local exato da divergência, onde tudo realmente começou.

* * *

Rangel estava reunido com Queiroz, Eusébio e mais dez Agentes Especiais. Estavam tensos e careciam de um plano melhor elaborado, enquanto o aparelho de Rangel acusava um intruso naquela época.
- É ele! Só pode ser ele! - Rangel repetia-se, tenso.
De repente ouviram galopes e viram a poeira sendo levantada numa nuvem cada vez mais próxima. Os visigodos saíam da frente e olhavam assustados para os cavaleiros que ali chegavam. Queiroz viu que eram algumas dezenas de homens montados sem cela, fortemente armados e vestindo cotas de malha e capas verdes, avançando resolutos contra eles.
- Não estou gostando nada disso - resmungou Eusébio, passando a mão em sua Terminator.
- Quem são eles? - Queiroz perguntou.
- Escolarianos! - Eusébio respondeu.
Assim que os viram, os escolarianos desembainharam suas espadas e prepararam seus arcos, emitindo gritos hostis.
- Protejam-se! - Eusébio gritou.
Rangel e Queiroz Jogaram-se para perto de um dos carroções, debaixo dos quais uma família se abrigava, enquanto os Agentes Especiais sacavam suas Terminators e faziam disparos. Alguns cavaleiros tombaram, fazendo os cavalos que vinham atrás tropeçarem e derrubarem seus cavaleiros. Mas os escolarianos eram muitos.
Eusébio ainda teve tempo de se jogar debaixo do mesmo carroção onde estavam abrigados Queiroz e Rangel. De lá ele viu um Agente ser transpassado por uma lança, outro teve sua cabeça decepada por um golpe certeiro de espada e um terceiro espetado por flechas. Os demais se dispersaram e continuaram atirando, matando ou ferindo alguns escolarianos. Os visigodos ao perceberem que o problema não era com eles, afastaram-se dali às carreiras e não se envolveram.
- Acho que o Augusto Valente cansou de vocês - concluiu Queiroz diante dos olhares assustados de Rangel e Eusébio.
Com o corre-corre, o círculo de visigodos que Queiroz vira antes dissipou-se, revelando o que era o centro das atenções: uma mulher estava prestes a dar à luz. Ela gritava de dor, sendo amparada por duas velhas que deviam ser as parteiras. Isso lá são horas de ter um filho? Isso lá são horas de lembrar que é um policial?
Rangel olhou novamente em seu aparelho, que disparava. Ele sacou sua Terminator, virou-se para Eusébio e Queiroz e ordenou:
- Fiquem por aqui e tentem se manter vivos. O tal Morton chegou.
E saiu pelo outro lado, sem ser visto pelos escolarianos. Eusébio riu e comentou com Queiroz:
- O cretino quer se safar de qualquer jeito, nem que para isso tenha que fingir ser um herói.
Queiroz ouviu tudo, mas sua atenção estava voltada para mulher em trabalho de parto. Era horrível precisar se manter indiferente e não conseguir.

16 - VIVER E MORRER NO IMPÉRIO ROMANO


Morton estava no topo de uma colina de onde tinha uma visão geral do acampamento visigodo. Apesar da distância, o mau cheiro chegava até sua narinas e o aspecto deplorável daquelas pessoas famintas e desesperadas lhe traziam lembranças tão tristes quanto amargas.
Havia um paralelo em seu próprio tempo para todo aquele sofrimento do passado: Kossovo! Os albaneses fugidos do extermínio promovido pelos sérvios viviam em condições insalubres num grande acampamento montado por soldados vindos de lugares distantes. Lá ele viu mulheres carregando crianças que choravam de fome, doenças de pele e piolhos, comida escassa e rostos tristes de quem deixou a vida inteira para trás.
Será que o que une os tempos é o sofrimento? Será essa a síntese da História do Homem: o sofrimento?
Ele sacudiu a cabeça com força, mas era impossível barrar as lembranças mais dolorosas: Ele se via dirigindo a quase cem quilômetros por hora, no Rio de Janeiro, ao lado de sua esposa e seus filhos no banco de trás. De repente precisou do freio, mas não conseguiu. Bateu na traseira de um caminhão, rodou na pista e capotou diversas vezes até parar de cabeça para baixo num descampado. Só ele sobreviveu. Acordou no hospital apenas para saber que toda sua família havia morrido no acidente.
Acidente?
Morton passou noites em claro repetindo que sua negligência assassinou as únicas pessoas que realmente amou. Amou e foi amado intensamente durante sete anos apenas para perder tudo (e todos) em alguns minutos.
Assassino!
Era assim que dizia quando se olhava no espelho, quando revia as fotos da família, quando lia seu nome na certidão de casamento e de nascimento de seus filhos, quando revia os vídeos das festas da família. Assim ele se repetia, até que um dia o impossível ganhou forma.
Pensou se estaria louco. Muitos lhe disseram que depressão profunda conduzia à loucura e ao suicídio, mas era tudo real.
Homens trajando roupas escuras lhe propuseram um acordo: voltaria em diferentes épocas da nossa história e salvaria um mulher que seria alguém muito importante no futuro: a única imortal a caminhar sobre a Terra. Se tiver êxito - prometeram - trariam sua família de volta. Eles provaram que podiam fazer isso e ele aceitou a missão. Agora estava no estágio final. Só mais esse serviço e já podia sentir seus lábios serem beijados pela mulher mais importante de toda sua vida, o calor dos corpos de seus filhos ao pega-los no colo, sentir suas mãozinhas quando fosse leva-los para passear, ouvir suas vozes, sentir seus cheiros. Tudo ao seu alcance, apenas basta que cumpra sua missão.
E ele vai cumprir.
Conferiu o colete protetor sob o sobretudo negro, conferiu as balas do seu AR-15 e desceu a colina rumo ao acampamento visigodo.

* * *

Eusébio estava quase perdendo a paciência com Queiroz. Apesar dos ensinamentos cristãos que prezavam a caridade, ele estava pouco se lixando para aqueles bárbaros fétidos e selvagens. Queria voltar o mais rápido possível para Constantinopla e passar um dia inteiro num dos famosos banhos, mas por causa de seu vínculo com a Intempol estava ali, ao lado daquele estranho viajante do tempo que teimava em ser mais cristão do que ele. Pior: sob ataque dos escolarianos.
Saíram debaixo do carroção e foram até onde estava a mulher. Queiroz pediu que dissesse aos visigodos que ele era uma espécie de médico - ou curandeiro, o que fosse mais aceitável - e o deixassem examinar a mulher. Os bárbaros levaram um susto quando Queiroz tirou o turbante e descobriu por completo o seu rosto. Nunca viram alguém daquela cor, mas estranhamente confiaram e o deixaram examinar a mulher.
Quando se abaixou, percebeu porquê deixaram examina-la: havia uma poça de sangue debaixo das pernas dela e do seu quadril. A mulher estava tendo uma hemorragia e se não fosse transferida a tempo para um hospital e recebesse os cuidados necessários, morreria.
- Nem pensar! - Eusébio esbravejou. - Eu não tenho a caixa registradora nem permissão para viajar pelo tempo!
- Mas ela vai morrer! Perdeu muito sangue e talvez perca o bebê também! Não podemos ficar aqui parados sem fazer nada!
- Se fazer alguma coisa quer dizer mexer no CET, esqueça!
Queiroz segurou o palavrão. Desistiu de argumentar com Eusébio e começou a apalpar a barriga da mulher. Todos o olhavam com curiosidade, em especial um guerreiro visigodo de barba longa, coberto de peles e com uma espada comprida presa à cintura - e com aquele terrível cheiro de suor e manteiga rançosa que exalava de seus cabelos vermelhos. Logo compreendeu que era o marido.
Queiroz apalpou e constatou: o bebê estava de lado, impossível de sair, a menos que se fizesse uma cesariana, mas com os recursos desta época, certamente a mãe morrerá e com muita dor.
Ele nunca pensou que ficasse tão agradecido pelas aulas que teve com o pessoal médico do Corpo de Bombeiros. Ele logo iniciou uma massagem com o objetivo de colocar a criança em posição de parto, sem perder as esperanças de salvar a mãe. Eusébio olhava para ele espantado, menos por sua humanidade e mais pela sua determinação em salvar a mulher e o bebê.
Queiroz transpirava muito. Os visigodos certamente davam a mulher e o bebê como perdidos para deixarem um estranho agir com tanta liberdade. Todavia, o sangramento não cessava. A mulher gritava de dor e parecia prestes a desfalecer. O tempo para eles estava terminando.

* * *

Rangel corria com sua terminator em punho por entre barracas e carroções, tentando fugir do ataque surpresa dos escolarianos. Quando parecia prestes a deixar o acampamento visigodo, deparou-se com centenas deles, a maioria desmontado, indo em sua direção.
Só teve tempo de jogar-se no chão, próximo de uma barraca com algumas crianças sujas que olhavam curiosas para ele. Os escolarianos foram se dividindo em grupos de vinte e se espalhando pelo acampamento, sem encontrar qualquer resistência por parte dos visigodos. Rangel reparou que as crianças que continuavam olhando para ele, só que exibindo olhares assustados. Foi quando uma sombra cobriu-lhe.
Escolarianos!
Três deles estavam diante de Rangel com as espadas em punho. Ele só teve tempo de atirar no do meio e tentar a fuga, mas outro derrubou-o e o terceiro tentou golpea-lo com a espada. Rangel só escapou porque caiu numa pequena inclinação e rolou involuntariamente para o lado. Conseguiu fazer mira e atirar nos dois escolarianos, que caíram feridos e gritando. Em breve todos estariam ali.
Só então conseguiu tempo (sempre tempo) para pegar a caixa registradora e o cartão, mas temia largar a terminator. Quando ia passar o cartão pela fenda apareceu um grupo de escolarianos a cavalo e do outro lado um grupo ainda maior a pé. Com a investida à cavalo sobre ele, acabou deixando a caixa, o cartão e a terminator caírem no chão. Tinha que decidir qual pegar de volta.
Com os escolarianos com espadas e lanças empunhadas quase em cima dele, Rangel apanhou a terminator, fez quantos disparos pode e abriu caminho à bala entre os escolarianos a pé. Ele correu o mais rápido que pode, até pareceu estar livre deles. Parou para tomar fôlego e voltou correndo para o carroção onde havia deixado Queiroz e Eusébio.

* * *

Queiroz começou a se animar. Sentia que estava conseguindo colocar o bebê no lugar e a mulher gritava menos - fosse pela diminuição da dor ou da vida que se esvaia. Até Eusébio parecia torcer por um final feliz.
Infelizmente era impossível estancar a hemorragia. Aos poucos a cabecinha do bebê foi saindo, em seguida todo corpo e Queiroz parecia agonizar junto com a mulher. Segundos depois, o bebê finalmente veio ao mundo e já nasceu chorando. O problema foi encontrar algo esterelizado para cortar o cordão umbilical. Nada.
Então, rápido demais, uma velha que devia ser uma espécie de parteira, se aproximou com uma faca e cortou o cordão, arrancou o bebê das mãos de Queiroz e mostrou-o ao guerreiro de cabelos vermelhos que fez uma cara de desgosto e virou as costas, indo embora. Então a velha devolveu a criança a Queiroz e se afastou. Ele olhou sem entender para Eusébio, que explicou:
- Acho que eles queriam um menino.
A mãe gemia e esboçava um leve sorriso. Então Queiroz mostrou o bebê que chorava sem parar e o aproximou do rosto da mãe. Ela ergueu o braço com dificuldade e acariciou a criança. Ao redor, o caos da batalha contra os escolarianos.
Repentinamente Rangel apareceu, suado e ofegante, com a terminator em punho e ao ver Queiroz e Eusébio com um bebê e uma moribunda, perguntou:
- Mas que droga vocês fizeram aqui?
- Um parto! - Queiroz foi incisivo na resposta. - Agora deixe de ser cretino e peça ajuda a algum médico no futuro, ou essa mulher - apontou para a mãe - morrerá.
Rangel sacudiu a cabeça e disse:
- Deixe de ser cretino você! Mesmo que pudesse eu não o faria, já te falei sobre as mudanças no CET!
Queiroz engoliu essa. De nada adiantaria discutir, afinal eles seguiam regulamentos assim como ele seguia a Lei. De repente, o aparelho de Rangel deu zumbido tão alto que ele esqueceu de Queiroz por alguns instantes e o tirou de dentro do bolso para monitorar em volta e descobrir o foco da anomalia.
Queiroz o deixou de lado e voltou-se para mulher, amparada por Eusébio que, pasmem, segurava piedosamente a mão dela.
- Como ela está? - Queiroz perguntou. A mulher fechou os olhos e não mais gemia. Eusébio colocou a mão dela sobre o ventre e respondeu:
- Acabou de morrer.
Indiferente a tudo, Rangel se aproximou deles com o irritante aparelho zumbindo sem parar. Quando Queiroz pegou o bebê no colo, o zumbido intensificou ainda mais e disparou quando foi apontado para o recém-nascido. Rangel não tinha mais dúvidas e o olhar de Queiroz era o terror estampado.
- Oh, meu Deus! - Rangel exclamou. Quase ao mesmo tempo, Queiroz colocou a mão dentro da roupa e de lá tirou a magnum e Rangel apontou-lhe a terminator.
- Deixa de ser escroto! - Rangel esbravejou. - Dê-me a criança!
- Nem pensar! - Queiroz desafiou, segurando a arma com uma mão e a criança com a outra. - Eu deixei um bebê morrer em Jerusalém e não pude salvar aquela mulher, mas este vocês não matam!
- Nós não matamos ninguém! - Rangel disse, transpirando bastante e sem tirar os olhos de Queiroz. - Essa criança não deveria ter nascido e por sua causa aqui está. Nós chamamos a isso de Nova Pessoa, um sujeito que nasce quando não deveria ter nascido e foi o que você fez aqui: por sua causa uma Nova Pessoa aconteceu.
Queiroz estava num dilema: não queria matar Rangel nem deixa-lo tocar no bebê, mas não podia correr riscos. Na dúvida ele atiraria, mesmo sabendo que poderia morrer também.
- Se ele é uma "Nova Pessoa" - começou Queiroz - então ele não faz parte dessa época - acho que era isso que você queria dizer - portanto, posso leva-lo comigo para 2000.
Rangel sacudiu a cabeça. Não queria matar Queiroz mas devia cumprir com o seu dever e, quem sabe, apressar seu perdão na Intempol.
- Ninguém vai morrer. A empre... a Intempol saberá como agir, por isso me entregue o bebê e vamos retomar a missão.
Eusébio deu um grito e apontou para trás, fazendo os dois se virarem. O tradutor demorou um segundo para traduzir: - Escolarianos!
A galope, dezenas de escolarianos irromperam pelos carroções e estavam quase em cima deles. Queiroz sentiu a morte de perto. Ele já havia sentido isso antes, quando certa vez viu-se cercado por traficantes fortemente armados no Polígono da Seca e só se salvou porque embrenhou-se na caatinga e correu em pânico até ser resgatado por outros policiais. Mas ele não estava no Brasil e sim no Império Romano, longe por séculos e quilômetros de sua casa, em meio ao paradoxo de morrer muito antes da data de seu nascimento.
De repente o silêncio.
Quando os escolarianos estavam prestes a desferir golpes de lança e espada, tudo parou. Seria isso a morte? A eternidade em seus momentos finais?
Não.
Tudo estava congelado, inerte, imóvel. O tempo havia parado. Quem fez isso? A Intempol? Certamente não, pois até Rangel e Eusébio estavam imóveis, com suas expressões de medo e surpresa estampadas no segundo eterno.
De repente uma mão pousou suavemente sobre o ombro de Queiroz, que se virou para ver quem se movia além dele. Era Claire, vestindo uma roupa preta que parecia de borracha e sem os óculos escuros. Ela olhou para o bebê e disse, num sorriso esclarecedor:
- Parabéns! Eu sou uma menina!
Agora estava tudo claro: Foi pelas mãos de Queiroz que ela veio ao mundo, por isso ele foi envolvido nesta crise.
- Deve sair daqui - disse ela.
- Isso é óbvio - disse ele apontando para os escolarianos congelados - que tal irmos para outra época? Nas atuais circunstâncias essa é a melhor opção.
Claire olhou para o lado, onde estava o cadáver da mulher que a trouxera à luz. Ela ignorou Queiroz por alguns instantes, apanhou uma pedaço de pele deixado ali perto e se agachou ao lado da mulher morta. Ela colocou a pele dobrada debaixo da cabeça e lhe fez um carinho na testa.
- Sabe, Antonio Queiroz, eu nunca havia visto a minha mãe.
Ela ficou de pé e devotou alguns segundos de silêncio a morta, como se a reverenciasse, depois ordenou:
- Pegue a estrada rumo ao sul. Você tem pouco tempo.
- Ei, moça! Não é mais fácil nos tirar daqui?
Claire sacudiu a cabeça e respondeu:
- Não posso porque não foi isso que aconteceu. Nem sei dizer ao certo se você sobreviverá. Apenas pegue a estrada e vá para o sul.
Queiroz estava incrédulo, se bem que depois de tudo que presenciou nesses dias dificilmente voltaria a duvidar de algo.
- Ao menos me diga para que lado fica o sul!
Ela apontou e em seguida desapareceu. Queiroz amparou o bebê e antes de sair parou diante do imóvel Rangel e troçou:
- Não vai tentar me impedir, burocrata?
E saiu dali correndo.


17 - ERA UMA VEZ NO IMPÉRIO ROMANO


A brisa desta época remota tocava o rosto de um homem que voltava a acreditar em milagres. Para ele tudo era milagre, mas nada comparado com aquilo e menos ainda se comparado à felicidade. Bastava Morton não cometer erros, principalmente agora que estava tão perto e teria seu tão merecido milagre.
E ele não iria errar.

* * *

Rangel viu Queiroz desaparecer diante de seus olhos. Coisa dos Anos Interditos, só podia ser. Ele só teve tempo de acertar o cavalo do escolariano mais próximo. Com sua queda, outros que vinham atrás tropeçaram a caíram. Eusébio ainda atirou em alguns e os dois correram para a direção oposta, aproveitando-se da confusão.
Correram o mais rápido que puderam, mas outros escolarianos surgiram, tentando barrar-lhes o caminho. Teriam conseguido se Eusébio não tivesse descarregado sua terminator matando ou ferindo tantos quanto foi possível. Quando já estavam fora do acampamento, uma lança cruzou a ar e furou o ventre de Eusébio e o fez cair. Rangel voltou para socorre-lo, mas outra lança foi arremessada e quase o acertou. Eram dois escolarianos a pé que vinham correndo em sua direção enquanto desembainhavam suas espadas.
Rangel fez mira com cuidado e atirou, acertando em cheio os dois escolarianos e se perguntando que tipo de mudança ele estaria produzindo no CET com aquela atitude.
Ele deixou de lado as divagações e foi ajudar Eusébio, que sangrava. Ajudou-o a remover a lança e um líquido escuro saiu junto com muito sangue. Estava morrendo.
- Me diga como é lá - pediu Eusébio, com um fiapo de voz.
- Lá onde? - Rangel perguntou, nervoso por nada poder fazer.
- Lá... - Eusébio teimou em saber. - No Dia do Juízo Final, quando Jesus voltará e julgará os vivos e os mortos... diga-me!
Como os romanos mudaram neste século quatro, pensou Rangel enquanto lamentava ter perdido a caixa e o cartão cronal. Parecia que Eusébio só se deixaria morrer quando soubesse.
- Você sabe! - Teimou o romano. - Você esteve em todas as épocas, sabe os segredos do futuro!
- Sim, eu sei - começou, pensando na melhor maneira de mentir - o fim dos dias. Jesus voltou para reinar sobre a Terra, acima de todos os reis, então os mortos ressuscitarão para serem julgados e os justos serão recompensados. - Ao menos essa devia ser a expectativa dele.
Devia ter sido, pois ele morreu sorrindo. Rangel estava sozinho, perdido no século quatro, sem lenço, sem documentos, sem a caixa e sem esquecer os escolarianos furiosos atrás dele. Para desmentir de vez o velho ditado "pior do que está não pode ficar", ele constatou que só lhe restava um tiro na Terminator.

* * *

Morton descia pela colina rumo ao acampamento quando sentiu algo estranho. Seu objetivo não estava mais no acampamento e sim ali perto.
O que estaria acontecendo?
Ele segurou o AR-15 com atenção redobrada e ficou olhando ao redor como se esperasse por algo. Era como se um alarme disparasse dentro de sua cabeça.
Alguma coisa muito ruim estava prestes a acontecer.
Mas logo agora?

* * *

Rangel estava exausto. Ele era um burocrata menor - finalmente reconheceu-se assim - e não estava preparado para toda aquela ginástica que tem feito nos últimos dias.
Foi difícil encarar os fatos: sua arrogância provocou a morte de um Agente Especial, gerou mudanças no CET, quase desencadeou uma guerra com os Anos Interditos, envolveu um sem-número de pessoas, que levou-os ao ano 376, onde nasceu uma "nova pessoa", que ele perdeu de vista e, para piorar, perdeu a maldita caixa!
Morrer talvez não seja tão ruim assim.
Quando tomou uma decisão, vultos conhecidos surgiram bem à sua frente, mas nem assim o deixaram mais feliz.
- Agente Temporário Ivan Rangel? Eu sou o Agente Sobrinho.
Conseguiram acha-lo mesmo sem a caixa! Havia pelo menos dez homens bem armados com o Sobrinho o que significava que a Intempol estava muito interessada a ponto de enviar uma força-tarefa. Rangel ainda reconheceu dois entre eles: o Agente Anderson - aparentemente recuperado do ferimento - e o loiro que encontrou quase morto em Jerusalém.
- Cadê o federal? - Sobrinho referia-se a Queiroz.
- Pensei que vocês soubessem - disse Rangel.
- Se soubéssemos você acha que estaríamos te perguntando?
Rangel nada respondeu. Preferiu ficar calado afinal, estava frito mesmo.
- Acho que ele não quer falar - disse Anderson - por bem.
Sobrinho franziu as sobrancelhas e ficou pensando se espancaria Rangel ali mesmo ou se deixaria para depois.
- Vamos prosseguir com o plano - por fim disse Sobrinho, decidindo-se por espancar Rangel depois.
- O tal do Morton já apareceu por aqui? - insistiu Anderson.
- Ainda não o vi, mas o rastreador acusou a presença de alguém fora deste tempo aqui. Provavelmente Morton - respondeu Rangel.
O loiro olhava à sua volta com certa impaciência. Rangel aproximou-se dele e tentou puxar conversa:
- Lembra de mim? Creio que não, pois estava inconsciente quando o resgatei em Jerusalém.
O loiro sequer deu-se ao trabalho de responder, para deleite dos agentes ali presentes. Todavia, o ex-burocrata não ia deixar sua arrogância inerte diante do orgulho ferido e sussurrou no ouvido do loiro:
- Vá se foder, babaca! Tomara que o Morton te mate desta vez!
O loiro encarou Rangel e estudou sua fisionomia durante breves segundos. Depois voltou a ignora-lo.
- Temos informes seguros de que os Anos Interditos enviaram um grupo de ataque para este ano e que dizimou nossos Agentes Especiais.
Rangel riu, sacudiu a cabeça e revelou:
- Seus informes seguros são bastante inseguros, Agente Sobrinho - ele enfatizou a palavra "Agente" para lembra-lo de que não estava tão acima dele assim - o tal grupo de ataque é composto pelos Guardas Escolarianos e não por uma força-tarefa dos Anos Interditos.
Sobrinho e Anderson se entreolharam. Por esta eles não esperavam.
- Mas o que deu nos romanos em nos atacar?
- Pergunte ao imperador Valente quando tiver um tempo, Agente Sobrinho. Eu tenho um palpite.
Rangel disse e calou-se. Se quiserem saber a opinião dele, que tratem de perguntar. Como Sobrinho e Anderson permaneceram em silêncio e com os braços cruzados, Rangel manteve o silêncio.
- Tá certo! - Rendeu-se Sobrinho - Qual é o palpite?
- Elementar, meu caro Agente: Valente fez um pacto com os Anos Interditos; ou você acha que alguém seria louco o bastante de nos confrontar sem estar com as costas quentes?
Sobrinho olhou para Anderson que balançou a cabeça. Fazia sentido.
- Só pode haver um motivo para os Anos Interditos estarem aqui: a tal Imortal que os incompetentes do Nível 5 capturaram e pensaram que fosse uma viajante do tempo.
De repente um lampejo na mente de Rangel. Como não deduziu uma coisa antes? Agora tudo fazia sentido. Tudo. E ele gargalhou.
- Qual é a graça desta vez, escroto? - Sobrinho disse, irritado.
- Estou rindo de todos nós.
- Então me conta a piada para eu rir também - pediu Anderson.
- Ela está aqui! Aquela mulher é muito mais esperta do que pensávamos e nos manipulou ao seu bel-prazer. - Rangel respondeu.
- Ela está aqui aonde? - Sobrinho perguntou.
- Aonde não sei, mas que está aqui, está.
De repente ouviram um som terrivelmente familiar: tiros!
Tiros dados na direção deles!
Dois agentes tombaram feridos e os demais jogaram-se no chão. Um pouco mais ao alto, atrás de uma pedra, Morton mandava balas para cima deles. Os agentes da Intempol revidaram e só Rangel e o loiro permaneceram no chão sem atirar.
- É o desgraçado do Morton! - Gritou Anderson. - Ele nos achou primeiro! Vamos pega-lo!
Por sorte, eles estavam numa colina pedregosa e havia onde se abrigarem das balas de Morton. Os feridos foram arrastados para se protegerem também.
- Cerquem o cretino! - Sobrinho ordenava.
Duas coisas estavam erradas, pensava Rangel. A primeira é que um militar como Morton jamais erraria tiros de fuzil automático num grupo grande e totalmente desprotegido a uma distância relativamente curta; a segunda é que seria mais fácil para Sobrinho voltar alguns minutos no tempo e estar prevenido deste ataque.
Os agentes feridos o foram nas coxas e não parecia ser grave. Outra coisa: se Morton estivesse usando uma arma com silenciador mataria muitos e não revelaria sua posição, ao contrário do barulhento AR-15.
A exceção era o loiro. Rangel viu quando ele acionou um estranho aparelho colado em seu pulso e uma blindagem cobriu-lhe o tronco, parte das coxas e a cabeça. Ele sorriu, sacou duas pistolas e correu reto na direção de Morton. Os agentes ao vê-lo sair correndo em direção ao atirador, suspenderam fogo e julgaram que tivesse perdido de vez o juízo.
Morton acertou três tiros no peitoral do loiro, que foi jogado para trás e demorou um pouco para se levantar e continuar seu avanço decidido. Dessa vez ele foi correndo em zigue-zague e fazendo alguns disparos em direção a Morton, que também não cessava de atirar.
Quando o loiro estava a poucos metros, acabaram as balas de Morton, que mal teve tempo para trocar o pente de munição. O loiro já estava em cima dele.
Os agentes correram na direção deles. A loucura do loiro havia dado certo e em breve Morton estaria preso - e o CET a salvo.
Quando estavam a poucos metros, o loiro e Morton simplesmente desapareceram.
- Merda! - Sobrinho gritou, socando o ar. - Para onde eles foram?
Rangel, que chegou por último, sequer conseguia especular.

* * *

Queiroz ainda caminhava, exausto, pela estrada com o bebê no colo. Ele se lembrou do bebê que deixou para morrer em Jerusalém e nem se importou que naquele momento trouxesse em seus braços a Imortal, futura líder da humanidade e criadora dos Anos Interditos. No momento era outro bebê indefeso e ele um policial.
Caminhou por mais uma hora, até que se deparou com uma casa de pedra, com pessoas na frente que olhavam-no com curiosidade, afinal ele era um negro e muitos ali nem acreditavam que pessoas assim existissem.
Ele parou, sentou numa pedra e conferiu que o bebê estava dormindo. Então, um homem de cabelos castanhos e olhos cinzentos, trajando roupas simples, se aproximou dele e indagou:
- Vieste do Egito, meu bom homem? - Ele entendia graças ao tradutor auricular, mas como responder? Arriscou seu parco grego:
- Consegue me entender? - Pela cara do homem, soube que seu grego estava péssimo. Por que diabos não tomou aula de grego como fizeram os estudantes de filosofia mais aplicados?
- Já estive no Egito - o homem insistia - onde vi muitos como tu. Também és mercador? Ouvi dizer que os visigodos estão vendendo suas crianças por qualquer preço. Decerto um bom negócio, não é?
Agora Queiroz entendeu: ele era um traficante de escravos e estava a caminho do acampamento visigodo para fazer negócios. Para tanto, ele estava acompanhado de algumas carroças cheias de cães.
- É verdade, não é? Os visigodos estão aceitando trocar uma criança por cão? - Ele olhou para o bebê. - Quanto te custou esta criança? Decerto que não é filho teu, pois é branquinha. A menos que tu a tenhas seqüestrado. Seqüestraste?
Queiroz riu daquele negociante de gente. Estava ávido por escravos baratos e estava ansioso para comprar escravos por uma pechincha.
- Enquanto os visigodos estiverem famintos poderemos fazer bons negócios. - Ele prosseguiu. - Estou pensando até em trocar duas crianças por um cão. Será o maior negócio de todos os tempos! Crianças são fáceis de negociar para revender, mas um bebê? Até ele crescer e estar em condições de trabalhar não compensará o que for gasto. Nem os grandes senhores, que têm milhares de escravos, estão se dispondo a comprar bebês.
Enquanto Queiroz tentava traduzir as palavras certas para dizer que aquela criança não estava à venda, novamente tudo parou. O homem ficou imóvel, bem como tudo mais.
Queiroz olhou ao redor e chamou:
- Claire! Apareça! Isso é coisa sua!
A voz dela parecia sair de toda parte:
- Entregue-me ao homem. Diga que ele tem razão e que você fez um mau negócio comprando um bebê visigodo.
- Nem pensar! - Queiroz ficou indignado. - Ele é um nojento traficante de escravos!
Então Claire surgiu diante de Queiroz e replicou:
- Estamos no século quatro, quando traficante de escravos é um trabalho honesto e compensador. Agora faça o que te mandei.
- Ele vai te tratar bem? Venderá você para uma família sem filhos?
- Nada disso - Claire franziu o cenho. - Serei vendida em Roma para uma família abastada. Aos oito anos serei violentada pelo filho de um Senador e em 410 quando os visigodos estiverem saqueando a cidade, serei tomada como esposa de um guerreiro bárbaro. Acho curioso porque foi o meu próprio povo que me tirou do cativeiro quando eu mesma sequer fazia idéia de que nasci visigoda.
Queiroz ouviu seu relato em respeitoso silêncio. Ele sacudiu a cabeça de leve e tentou pela última vez:
- Claire, você não precisa sofrer de novo. Mude tudo!
A loira sorriu. Em seguida cruzou os braços e disse zombando:
- Antonio Queiroz, decididamente você é uma ameaça muito maior do que a Intempol poderia supor - de repente ela parou de falar e olhou ao redor, como se espreitasse algo. - Rápido! Entregue-me ao traficante de escravos porque a Intempol está a caminho.
Queiroz assentiu. Contrariado, mas restou-lhe concordar, afinal era a vida dela e mais uma série de conceitos que ele até conseguia entender - mas não conseguia aceitar.
- Preciso ir - disse Claire - meu filho precisa de mim!
E desapareceu.
Tudo voltou ao normal. O traficante continuava a falar, mas Queiroz não lhe prestava atenção, esperando os agentes da Intempol para, talvez, um confronto final.
- Tome! - Queiroz disse, pegando o traficante de surpresa, que não entendeu o que ele disse, mas compreendeu o que queria quando estendeu-lhe os braços com o bebê.
- Anda, seu desgraçado! Pegue antes que eu mude de idéia!
Surpreso e sem entender uma só palavra, o traficante tomou o bebê em seus braços e perguntou quanto queria. Queiroz balbuciou um mau grego para dizer que nada queria. Ele agradeceu, levou o bebê para uma das carroças onde foi entregue a uma mulher. O traficante subiu numa carroça e ofereceu uma carona a Queiroz, que recusou. Sorridente, o traficante de escravos despediu-se dele e seguiu com sua caravana rumo ao acampamento visigodo.
- Meu Deus! - Lamentava-se Queiroz. - O que foi que eu fiz?
Antes que perdesse a caravana de vista, surgiu diante dele um grupo de agentes da Intempol juntamente com Rangel. Ele reconheceu Anderson que lhe acenou, mas um que se identificou como Agente Sobrinho foi logo interrogando:
- Vamos logo que hoje estou sem paciência! Cadê o tal bebê que não deveria ter nascido?
Queiroz permaneceu em silêncio. Sobrinho falou em tom ameaçador:
- Escute aqui: tenho dois agentes feridos, perdi o cara de Meggido juntamente com Morton, esse babaca do Rangel perdeu a caixa e você fabrica uma "nova pessoa"! Quer falar ou prefere ir para o pau-de-arara?
Pau-de-arara? Queiroz preferiu acreditar que não ouviu isso.
- Procure! - disse, por fim - esqueça seus métodos convencionais e tente a tecnologia.
Sobrinho e os demais agentes sacaram seus rastreadores, que piscavam e soavam intensamente.
- Há uma grande anomalia aqui - disse Anderson.
A caravana do traficante fazia a curva na estrada e começava a sair do campo de visão de Queiroz. Quando os agentes viraram seus aparelhos naquela direção, eles simplesmente pararam. Não mais zumbiam ou piscavam.
- Ué? - surpreendeu-se Sobrinho dando tapas no aparelho - essa droga pifou!
- Foi assim com todo mundo - observou Rangel, que ouviu de volta um "Eu não te perguntei nada!".
- O CET está normal - disse Anderson.
- Seja lá o que estivesse acontecendo de anormal aqui, cessou - disse Sobrinho, transtornado. - Abortar missão. Vamos voltar.
Ao longe a caravana prosseguia e o bebê, no colo da mulher, começava a chorar.


18 - CONSTANTINOPLA, CIDADE PROIBIDA


Morton caiu em outro lugar - e noutro tempo - rolando com o loiro pelo chão. Mesmo assim conseguiu livrar-se dele e ficar de pé.
O Homem da Meggido também ficou de pé e empunhou uma faca, partindo decidido para cima de Morton. Ou estava diante de um psicopata sem noção de perigo ou de um profissional que se garantisse por estar protegido pela blindagem. Ou, na pior da hipóteses, ambos.
Morton remuniciou o AR-15 e começou a atirar. O Homem da Meggido foi atingido no peito e arremessado com violência para trás, chocando-se contra uma parede de pedra. Segundos depois, quando Morton já disparava a segunda rajada, o loiro reuniu forças para arremessar a faca que cravou no antebraço esquerdo do oponente, fazendo-o soltar o fuzil.
Mesmo com a faca cravada em seu antebraço, Morton ainda conseguiu esquivar-se de uma investida do loiro e derruba-lo por conta de uma rasteira. O choque não era aquela faca, mas a possibilidade de não cumprir a sua missão. O loiro era por demais rápido, levantou-se de um só impulso e voltou a investir contra Morton, que tentava extrair a faca. O Homem da Meggido acertou-lhe uma seqüência de socos no peito e na barriga, em seguida girou o corpo com a perna direita suspensa e chutou-lhe o rosto, fazendo-o tombar.
Morton olhou ao redor e viu que estava num grande recinto de paredes de pedra e sem telhado, exibindo um céu estranho, carregado de estrelas que clareavam mais do que uma noite de lua cheia. Talvez alguma construção abandonada (ou inacabada) perdida no tempo. Sua última missão tinha sido abrir fogo contra os agentes da Intempol antes que descessem aquela colina e seguissem pela estrada e alcançassem a Imortal. Ela precisava de alguns minutos que só ele poderia conseguir para colocar-se a salvo da Intempol e fechar o ciclo. Será que ele conseguiu? Será que o ciclo foi fechado? E agora? Morreria pelas mãos de um estranho sem saber se receberia ou não sua recompensa?
Morton ficou de pé e tentou transportar-se para outro tempo. Não conseguiu. Tentou novamente. Novamente não conseguiu.
- Tentando fugir? - Troçou o loiro. - Desista! Nós estamos nos alicerces em construção da Prisão dos Homens Que Nunca Existiram. Eu sei que é um nome escroto, mas aqui só sai ou entra quem a Intempol quer!
Sem chances de fuga? Desde que toda essa loucura começou que Morton deixou de acreditar em impossibilidades. Tão logo se livrasse daquele maníaco blindado ele daria um jeito de escapar dali.
O loiro saltou sobre Morton e teria lhe acertado o pé bem no rosto se este não tivesse se abaixado a tempo. Todavia, nem todo corpo do seu oponente estava blindado e Morton acertou-lhe um chute na canela, que o fez cair.
O loiro ficou de pé rapidamente e arrancou a blindagem que lhe protegia a cabeça. Em seguida, num sorriso doentio, ele golpeou Morton nas costelas, no rosto e na cabeça. Antes que se recompusesse, o loiro ainda acertou-lhe um soco na barriga que o fez dobrar, tornando-o um alvo fácil para o soco na nuca, que o derrubou quase desacordado.
Desde que perdeu sua família, Morton se perguntava como seria a morte. Seria uma dama de negro ou um simples fim? Seria um recomeço ou o início de um novo ciclo? Fosse o que fosse, estava mais próxima do que naquele maldito dia em que perdeu tudo.
O loiro arrancou a faca cravada no antebraço de Morton e girou-a, mostrando destreza no manuseio. Depois, ele agarrou Morton pelos cabelos e ergueu a cabeça até a garganta estar totalmente exposta. Há muito que não matava alguém assim, tão perto.
De repente uma mão forte agarrou-lhe o pulso, afastando a faca da garganta de Morton e puxou-o para cima. Foi tudo tão rápido e brusco que ele mal ouviu a voz feminina que disse:
- Larga o meu filho!
Era ela, a Imortal!
Claire acertou-lhe um soco nas costelas, que amassou a blindagem e o arremessou longe. A situação incômoda da blindagem pressionando suas costelas só foi amenizada quando ele se livrou da proteção, mesmo ficando exposto contra uma adversária muito mais forte.
A faca! Ele ainda tinha a faca!
O Homem da Meggido segurou-a pela lâmina com a destreza dos assassinos profissionais e arremessou-a contra Claire. Deveria acertar-lhe o peito e cravar em seu coração, mas algo deu errado.
Claire, com uma das mãos, aparou a faca a poucos centímetros de seu tórax. Isso só podia ser um truque - pensou. Ela deveria estar vibrando em outra escala do tempo ou voltou ao passado para aparar a faca antes de ser atingida. Teria ele a mesma habilidade?
Não! Não tinha!
Claire arremessou a faca de volta, acertando-lhe no ombro direito, cravando-a fundo. Ele gritou de dor mas arrancou a faca de uma só vez.
Ela sorriu, apesar dele não se dar por vencido.
- Não desista de mim, maníaco! - Ela disse.
Ignorando totalmente a dor que certamente estava sentindo, ele deu um salto, tocando o chão com as mãos, como num exercício de solo, dando cambalhotas no ar. Claire ficou surpresa com tamanha agilidade, desconfiando se ele estaria sob efeito de alguma droga.
O loiro acertou o rosto dela com um chute em pleno ar. Ela caiu, mas logo se levantou sem um só arranhão. Até sorriu.
- Foi o seu melhor golpe? - Ela perguntou. - Aprendeu onde? Num circo?
Ela franziu o cenho e a Graça transformou-se em Fúria. Com os dentes cerrados, ela arremeteu-se sobre o loiro e acertou um, dois, três, quatro socos no rosto, seguidos de socos no peito, na barriga e nas costas. Onde quer que estivesse a mercê de seus golpes.
Morton aos poucos ia se recuperando e viu Claire espancando o loiro. Ele quis ajuda-la, mas estava muito ferido e seu antebraço ainda sangrava.
Ela já havia colocado o loiro fora de combate. Então, com um gesto fez surgir uma espécie de portal, flutuando diante deles a menos de um metro do solo.
Claire segurou o loiro pela cinta e pela gola, ergueu-o no ar e disse ironicamente:
- Lamento informar, meu caro psicótico, mas acho que você será despedido! - E o arremessou pelo portal, que desapareceu em seguida.
Claire foi até Morton, que estava ajoelhado, tentando estancar o ferimento e com a respiração cansada. Ela se ajoelhou diante dele e alisou seus cabelos enquanto duas lágrimas escorriam pela sua face. Sem entender tais lágrimas, Morton perguntou:
- Por que eu? Por que me escolheu?
Ela sorriu, embora algumas lágrimas teimassem em rolar pelo seu rosto e fitou-o em seus olhos azuis - azuis como os dela.
- Porque eu sou a sua mãe. Eu sabia que o homem de preto que me salvou tantas vezes cumpriria sua missão, por isso te chamei para ser o meu salvador e assim receber o prêmio merecido. Era o mínimo que eu poderia fazer por ti, visto que nunca fiz nada.
Morton ficou em silêncio. Deveria duvidar, perguntar que brincadeira era aquela e se ele tinha cara de palhaço, mas os olhos de Claire continham todas as respostas. Um só olhar e as dúvidas haviam se dissipado.
- Mãe?
- Sim, meu filho?
Ele segurou-se para não chorar quando disse:
- Eu perdi tudo... minha família...
Ela levou o indicador aos lábios e disse:
- Sua família, minha família. Meus netos e minha nora. Não se preocupe, pois você os terá de volta. Eu prometo!
E abraçou-o. Dessa vez Morton correspondeu. Claire sorriu sobre o ombro de seu filho e ambos desapareceram.

* * *

O Homem da Meggido foi atirado para o outro lado do portal e caiu bruscamente no solo. Ainda sentindo os golpes da Imortal e com o desejo de desforra queimando no peito, tateou e sentiu que estava em solo conhecido: asfalto. Certamente em seu tempo. Não foi tão ruim assim, pensou.
Ele ficou de pé lentamente e a luz do sol ofuscava-lhe a vista ferida pelos socos nos olhos. Quando, ainda se levantando, viu que estava numa auto-estrada, percebeu que diante dele um imenso caminhão avançava a uma grande velocidade. Sem tempo para se desviar.
Seu último pensamento foi: "Isso vai ser muito ruim."
O choque foi terrível. O caminhão o arremessou para o outro lado da estrada, próximo da escadaria de uma passarela, para onde acorreram alguns populares que presenciaram a cena. Eles se horrorizaram com o estado do homem, até que um sujeito que se disse do Corpo de Bombeiros pediu passagem e abaixou-se para examinar o corpo. Depois de rápido exame, ele gritou:
- Rápido! Chamem uma ambulância! Ele ainda está vivo!
Certas lendas se recusam a morrer.

* * *

Um segundo depois de Claire e Morton deixarem os alicerces da prisão, apareceram no mesmo local Sobrinho, Anderson, Rangel, Queiroz e mais alguns agentes. Sobrinho checou o rastreador e lamentou:
- Diabos! Acabaram de sair! Chegamos tarde de novo!
Queiroz sacudiu a cabeça e deu uma leve cotovelada em Rangel.
- O que foi? - Rangel perguntou.
- Tudo isso está óbvio demais - disse num cochicho - seus superiores não querem mesmo resolver este caso.
- Por que diz isso?
Queiroz apontou para Sobrinho e respondeu:
- Porque mandaram um idiota para chefiar a operação.
Rangel segurou o quanto pode, mas acabou deixando escapar uma risada.

* * *

No Palácio Sagrado, em Constantinopla, Valente recebeu de um tribuno dos escolarianos um embrulho em seda. Ansiosamente, removeu o tecido e viu que se tratava da caixa registradora e do cartão cronal de Rangel, perdidos no acampamento visigodo conforme lhe predisse a bela mulher dos Anos Interditos.
Valente segurou ambos com as duas mãos e ergueu-os. Num momento de júbilo, bradou aos céus:
- O poder definitivo é meu!
A mulher deixou-lhe instruções sobre o funcionamento da caixa - apesar da dificuldade dele em aprender. Agora ele estava de posse da maior arma da História: a própria História.

* * *

Na sede da Intempol um grupo segurava Queiroz e outro continha Sobrinho para evitar uma briga.
- Vem cá, viado! - Queiroz desafiava. - Quero ver você dizer quem vai para o pau-de-arara agora!
- Viado é você! - devolveu Sobrinho. - Tá brincando com a sorte, babaca! Eu te ponho no pau-de-arara agora mesmo! Quer ver?
O impasse só foi resolvido quando Valladão chegou com um grupo de seguranças armados e dispersou-os aos gritos de "Circulando!".
Queiroz ficou ali e ainda irritado, perguntou a Rangel:
- Quero fazer uma representação contra aquele imbecil! Qual é o procedimento?
Rangel sorriu, sacudiu a cabeça e disse:
- Esqueça o Sobrinho. Ele é do tipo que age duas vezes antes de pensar. Além do mais, estes inquéritos nunca dão em nada.
- Nada?! ¾ Queiroz espantou-se, mais uma vez.
- Nada! ¾ Rangel reiterou. ¾ O correto seria procurar o Corregedor e fazer a representação, mas é quase impossível encontra-lo.
- Por quê? ¾ Queiroz insistiu. ¾ Por acaso ele vem aqui, assina o ponto e vai embora?
Rangel, encabulado, coçou a cabeça e respondeu:
- Quase isso! Acontece que o nosso Corregedor, valendo-se das viagens pelo tempo, já assinou todos os pontos até a data da sua aposentadoria. Nesse momento ele deve estar em alguma ilha tropical deserta ou numa casa de massagens.
Queiroz tinha certeza de que já vira isso antes. Ele achou melhor esquecer a picuinha com o tal Sobrinho e saber como ia ficar naquela lambança que os "timecops" subdesenvolvidos não souberam (e nem quiseram) resolver. Isso nem Rangel sabia.
- Sei lá, Queiroz. Acho que vou ser perdoado, mas eles ainda devem caçar o Morton pelas mortes dos agentes da empre... digo, Intempol.
Como se fosse uma resposta, um agente loiro, aparentando pouco mais de quarenta anos, algumas rugas, o nariz com aparência de quebrado e cara de detetive noir, apareceu diante deles e disse:
- Eu sou o Encarregado da Segurança e achei que vocês iam querer saber das conclusões das investigações sobre as mortes dos agentes Assis, Geraldo e Septímio Verus.
- Alto lá! ¾ Queiroz gritou, cansado desse jogo ¾ quem é você?
O homem sorriu, olhou para Rangel e respondeu a Queiroz:
- Meu nome é Lace O'Malley e fui designado pelo Nível Seis para conduzir as investigações das mortes que lhes falei, portanto, sei tudo sobre vocês e sobre o caso. Apenas gostaria que soubessem que o caso está encerrado, pois não foi Morton quem matou Assis, Geraldo ou Verus.
Rangel e Queiroz se entreolharam. O segundo perguntou:
- Quem foi, então?
O'Malley soltou um muxoxo e respondeu olhando para o alto:
- Infelizmente alguém em quem não podemos pôr as mãos, mas esperamos que Morton o mate dessa vez.
Rangel sorriu. Então foi aquele cretino da Meggido.
- E quanto a nós? ¾ Adiantou-se Queiroz.
O'Malley coçou o queixo e respondeu:
- Você retornará ao seu tempo e aguardará a transição, já o Rangel será submetido à uma reavaliação. De qualquer maneira, o caso está encerrado.
Disse e saiu. Queiroz virou-se para Rangel e indagou:
- O que ele quis dizer com "aguardará a transição"?
Sem jeito, Rangel disse:
- Quer mesmo saber? Eu conto: será apagada da lembrança de todos essa crise que envolveu a Intempol e os Anos Interditos.
Queiroz sorriu. Sacudiu a cabeça e disse:
- Você é mesmo uma piada! Não vê que houve um acordo entre a Intempol e os Anos Interditos?
Rangel meditou e começou a rir. Tudo soava engraçado, principalmente os segredos e mistérios que cercam a Intempol, perdida em meio aos labirintos burocráticos que um dia os farão esquecer qual a verdadeira função da Empresa. Nem o tempo estava livre de conflitos, com uma divisão arbitrária das Eras entre duas forças, que fizeram do século 25 a sua Tordesilhas.
- Pelo menos isso tudo vai acabar. - Rangel disse. - Eu já estou cheio dos Comissários, dos agentes, dos regulamentos, das portarias, dos memorandos e de toda Intempol. Se eu for condenado, que se dane! Não posso desfazer o que nem os deuses querem mudar.
Valladão voltou, dispensou Rangel e avisou a Queiroz:
- Você vai voltar para seu tempo agora!


19 - ENTROPIA


Queiroz estava de volta ao seu tempo e aguardava ansiosamente pela "transição", pois apesar das complexidades que aprendeu a assimilar no curso de filosofia, nunca esperou estar diante da manipulação do tempo. Ele já estava com saudades da linearidade.
O Delegado Serpa - cada vez mais estressante - ficou preocupado quando soube da "transição", mas adotou uma postura conformista. Afinal, quem pode com a poderosa Intempol?
Sem dúvida foram os dias mais loucos de sua carreira. Dias que o fizeram sentir-se frágil e vulnerável perante a genialidade (por vezes perversa) dos seres humanos. Ele viu cidades flutuantes, a tomada de Jerusalém pelos cruzados, bárbaros, romanos... Ufa! Muita coisa!
Queiroz estava novamente imerso na solidão de seu apartamento quando de repente Claire surgiu diante dele. Linda. Metida num vestido preto e calçando botas pretas. Ela disse a Queiroz:
- Em breve será como se nunca tivéssemos nos conhecido.
Ele suspirou e disse:
- O que será uma pena. Passamos por muitas coisas juntos.
Claire sorriu. Aproximou-se de Queiroz e sussurrou:
- Tolinho! Nós dos Anos Interditos e a Intempol conservaremos a lembrança. A "transição" valerá somente para pessoas comuns.
- Comuns?
Claire riu do espanto de Queiroz. Será que ele não se considerava "comum" ou estranhava que outros como ela se vissem como "diferentes"?
- Não adianta mais tentar entender, Queiroz. O tempo urge e eu precisarei de um favor teu - mais um.
O que seria? Ele ensaiou um sonoro não, mas a lembrança do frágil bebê que foi obrigado a entregar aos mercadores de escravos e aquela mulher disposta a repetir todo o seu sofrimento em nome da humanidade era muito mais do que estaria disposto a fazer se estivesse em seu lugar.
Ele deu de ombros. Fingiu conformismo, mas queria mesmo era ajuda-la quantas vezes fosse possível. Ela merecia, pensou.
- Preciso que você me ajude a salvar três vidas - ela pediu.
- Quem? - ao menos estaria salvando vidas.
- As da minha nora e dos meus netos.
Queiroz ficou pensativo por alguns segundos e por fim concluiu:
- A família de Morton!
- Sim - ela admitiu - preciso fazer isso pelo meu filho.
- Então faça você! Até porque isso foi há mais de um ano e acarretará mudanças no tal do CET, que chamará a atenção da Intempol, que virá atrás de mim e de Morton, que provocará tua intromissão, que envolverá os Anos Interditos e começará tudo de novo!
Claire sacudiu a cabeça e disse:
- Antonio Queiroz! Isso é nome de herói! É o nome do homem que permitiu que eu nascesse, que tentou aliviar o meu sofrimento e que salvará as vidas perdidas naquele fatídico acidente. Ah! Se você soubesse o quanto é importante para mim!
- Claire - disse Queiroz - nunca dependi de elogios para agir. Só quero que saiba que não posso envolver a todos numa nova crise.
Ela ficou séria, cruzou os braços e disse:
- Não haverá erros, falhas, crises, confrontos ou mortes. Apenas três vidas serão salvas e com elas a felicidade do meu filho - a quem covardemente abandonei.
- Não diga isso! - Queiroz objetou - Você pode ser muita coisa, menos covarde.
Ela soltou um muxoxo e ponderou:
- Desista de tentar me absolver porque sei que errei. Qualquer mãe daria um jeito de fugir levando seu filho junto, mas eu me achava especial demais e tinha medo demais.
Os dois ficaram se olhando em silêncio. Admiração mútua? Talvez. A verdade está por trás dos olhos azuis de Claire ou no coração de Queiroz, mas não em palavras. Ele se rendeu e perguntou:
- O que tenho que fazer?
Claire sorriu. Sentou no sofá ao lado dele e deu instruções detalhadas sobre o que fazer e mostrou-lhe que isso reduzia a zero as chances de erro. Coincidência ou não, a "transição" recuaria o tempo até pouco antes do instante do acidente que vitimou a família de Morton, dando-lhe o tempo necessário para agir. Quando terminou, ela lhe disse, sorridente:
- Eu gosto de você, Antonio Queiroz. Gostava antes de te conhecer e gosto ainda mais depois que o conheci. A ti só posso dizer obrigada. Obrigada por tudo!
Antes de desaparecer, ela ainda disse:
- Eu gosto mesmo de você, Antonio Queiroz. E quando gosto de alguém, é para sempre!
E desapareceu.
Mal partiu e Queiroz já começou a sentir saudades dela. De repente, surgiu Rangel, bem no meio de sua sala, dando-lhe um susto.
- Acho que eu deveria ter batido na porta.
- Agora que me assustei, deixa prá lá! O que você quer?
Queiroz parecia impaciente. Rangel olhou ao redor e indagou:
- Ela esteve aqui, não foi?
Queiroz não respondeu. Permaneceu de braços cruzados olhando sério para ele, que apressou-se em dizer:
- Queiroz, a "transição" será daqui a pouco e você não se lembrará de mim, por isso vim me despedir - ele fez uma pausa e continuou com a voz embargada - você foi o primeiro amigo que tive.
E não disse mais nada. Sumiu tão rapidamente quanto apareceu, deixando atrás de si um constrangido Queiroz que sequer pode retribuir a emocionante despedida. Pensando melhor, o saldo daqueles dias não foi tão ruim assim.
Queiroz respirou fundo, endireitou o corpo e foi fazer o que Claire lhe pediu. E ele gostava de fazer a coisa certa.

* * *

Batalha de Adrianopla, ano 378.

Os visigodos haviam se revoltado e espalhado terror nos Bálcãs.
O calor era de rachar, mesmo assim Valente deu ordens para o seu exército pôr-se em marcha pois queria derrotar os visigodos e conquistar toda glória para si, sem precisar do auxílio de seu sobrinho, o imperador romano do Ocidente Graciano.
Sessenta mil homens puseram-se em marcha sob o sol escaldante, sem que tivessem feito a refeição do meio-dia ou tivessem bebido água em quantidade suficiente para suportar o calor.
Valente pouco se importava. Carregava consigo uma arma que poderia lhe dar a vitória em todas as batalhas, faze-lo vencer todas as guerras e até mesmo conquistar o mundo portanto, a vitória era certa.
O exército romano estava sendo muito castigado pelo sol e pelo ritmo acelerado da marcha, enquanto seus oficiais sabiam - e temiam - encontrar os visigodos descansados e com mais disposição para o combate.
Por fim se encontraram.
Ao final de horas de marcha, romanos e visigodos deram-se de cara, frente a frente numa planície dominada pela relva seca. Ao fundo os carroções visigodos formaram um laager - um círculo de carroças que servia tanto para proteger os não-combatentes quanto de ponto focal para os guerreiros, que disporiam de uma base. Essa formação de defesa seria adotada mais tarde pelos colonos americanos do Oeste para protegerem as caravanas dos ataques dos índios.
Antes que as tropas romanas estivessem totalmente desdobradas para entrarem em formação de combate, receberam ordens de atacar. Os arqueiros romanos adiantaram-se demais e recuaram para trás das linhas de infantaria em desordem, confundindo ainda mais a confusa infantaria romana. Percebendo a confusão, os visigodos tocaram fogo na relva seca, agravando o mal-estar entre os romanos enquanto seus guerreiros montados apoiados pela infantaria leve pressionavam o flanco esquerdo dos romanos.
Valente permanecia calmo, a despeito do desespero de seus oficiais que viam nessa desordem o prenuncio de um desastre. Ele sabia que poderia mudar a qualquer momento o resultado da batalha, mas preferiu esperar para saber com detalhes o que os visigodos fariam para depois, aí sim, surpreende-los.
Precipitando-se, a cavalaria romana também avançou demais, criando um espaço perigoso entre esta e a infantaria leve que lhe dava cobertura, espaço este que os visigodos não hesitaram em ocupar, isolando a cavalaria do resto do exército. No flanco direito, a infantaria pesada romana resistia melhor, mas impedia os soldados do centro de se desdobrarem porque eram pressionados pela infantaria e os atiradores visigodos. O barulho e a poeira da batalha somados aos calor escaldante e à sede, criaram um tormento para os romanos, que começavam a se confundir.
Valente estava pouco atrás do centro romano, montado em seu cavalo e com uma paciência que irritava os demais oficiais que imploravam pela retirada enquanto ainda havia tempo.
Tempo? Isso Valente tinha de sobra.
Os visigodos conseguiram contornar a esquerda romana e agora pressionavam os romanos também pela retaguarda, que começava a ceder. A esquerda romana cedeu e o centro estava imóvel. A cavalaria romana foi massacrada e retaguarda cedeu.
Quando mais da metade dos soldados romanos já havia perecido e as tropas da direita e do centro iniciavam uma fuga desesperada, Valente resolveu agir. Desmontou, apanhou uma sacola e de dentro tirou a caixa registradora e o cartão cronal, sob os olhares curiosos dos guardas escolarianos que o protegiam. O imperador sorriu, digitou alguns números conforme instruções da loira dos Anos Interditos e escolheu voltar um dia no tempo, quando retardaria a marcha, esperaria os soldados fazerem a refeição do meio-dia, aguardaria os reforços do imperador do Ocidente e não ordenaria o ataque até suas tropas estarem totalmente desdobradas.
Ele sorria, apesar da matança, ainda um pouco distante de sua posição, mas que aproximava-se, tanto pelo ataque quanto pelos próprios romanos em fuga desesperada. Os oficiais já haviam desistido de sustentar o insustentável e deram ordem para retirada. Era o caos.
Valente sorriu, riu e gargalhou. Tão alto que os escolarianos julgaram que o imperador tivesse enlouquecido. Mas não era loucura e sim júbilo por saber que poderia mudar qualquer resultado e que não mais se veria diante do impossível ou do inevitável.
No instante em que ia passar o cartão cronal na fenda, Valente sentiu mãos fortes segurando seus braços e tomando-lhe a caixa e o cartão. Um deles anunciou:
- Somos os agentes Anderson e - apontou com o nariz para o outro - Rangel da Intempol. Você está preso por surrupiar equipamento da empresa para usar em proveito próprio.
Colocaram algemas no imperador, passaram o cartão e desapareceram dali, os três. Agiram tão rápido que os escolarianos, igualmente perplexos, não tiveram tempo de reagir.
A Batalha de Adrianopla terminou com a vitória dos visigodos e o massacre de dois terços do exército romano. O corpo do imperador Valente nunca foi encontrado.
Ele foi levado para a Prisão dos Homens Que Nunca Existiram.


EPÍLOGO

Manhã ensolarada na cidade maravilhosa. Patrick Morton dirigia calmamente pela estrada rumo à praia da Barra da Tijuca levando consigo seus dois filhos e sua esposa no carro usado que acabou de comprar para que não incomodasse o sogro pedindo seu carro emprestado sempre que quisesse levar a família para passear.
O vendedor alertou-lhe que o carro precisava de reparos nos freios, mas Morton não dera importância e resolveu adiar a revisão para amanhã.
- Querido - disse sua esposa, - acho que aquilo lá na frente é uma blitz!
E era. Veículos da Polícia Militar e da Polícia Rodoviária Federal bloqueavam o acesso à pista e paravam todos os automóveis, deixando passar somente ônibus e caminhões. Um policial-militar fez sinal para encostar e Morton obedeceu. Outro policial apareceu com uma prancheta na mão, verificou os ocupantes e a placa do veículo, em seguida chamou por um certo "Agente Federal Antonio Queiroz", um mulato alto, careca, usando bigode e cavanhaque, à paisana e expressão cordial, que colocou sua cara na janela e ordenou:
- Por favor, queiram descer do veículo.
Surpresos, eles obedeceram. Assim que saíram Queiroz fez um sinal e alguns homens que mais pareciam mecânicos começaram a examinar o carro. A morena, amparando as crianças, indagou ao marido:
- Patrick, será que eles acham que transportávamos drogas?
Ele, irritado, dirigiu-se a Queiroz e perguntou:
- Quem é você e o que pensa que está fazendo?
O sotaque era acentuado e Queiroz pareceu surpreso. Ele olhou para a família e quando ia responder um dos "mecânicos" disse:
- O freio já era! Esse cara é louco se pensa que pode dirigir com os freios neste estado.
Queiroz virou-se para Morton e disse:
- Sinto muito, mas seu automóvel será rebocado.
As crianças e a mulher começaram e resmungar, lamentando o passeio perdido. Rapidamente um guincho levou o carro de Morton, que recebeu uma multa.
- Se o senhor quiser, poderei mandar uma viatura leva-los de volta para casa - sugeriu Queiroz.
- Não precisa se preocupar - disse a morena rispidamente - temos dinheiro suficiente para tomarmos um táxi! Venham, crianças! Vamos, Patrick!
Morton virou-se para Queiroz e disse:
- Obrigado, policial! Obrigado por estragar o fim-de-semana da minha família.
E lá se foram os quatro. Uma família feliz, sem dúvida. Para todo homem solitário todas as famílias parecem felizes.
O PM que segurava a prancheta comentou com Queiroz:
- Viu só a morena com o gringo? Que pantera!
Queiroz ficou observando eles até tomarem um táxi. Assim que embarcaram num, o PM indagou:
- Como você sabia que o veículo deles ia passar por aqui e que estava com os freios seriamente avariados?
Queiroz sorriu e respondeu:
- Informações, meu caro. Informações.
O PM pareceu aceitar a resposta. Queiroz afastava-se enquanto tentava, mais uma vez, entender como conseguiram escrever uma carta com a letra e a assinatura dele próprio contando com detalhes sobre o automóvel sem freios, conduzido por um inglês que viajava em companhia de sua família - esposa e dois filhos - exatamente naquele local e naquela hora, exatamente daquele modelo, daquela cor e com aquela placa.
Tudo tão exato que ele nem sabia o que colocar no relatório, mas o exame grafotécnico comprovou que a letra era do próprio Antonio Queiroz, o papiloscopista encontrou impressões digitais suas e o papel havia sido arrancado de sua agenda.
Quando participou tudo aquilo ao Delegado Serpa, ele não acreditou, mas ao perceber uma pequena palavra, quase despercebida, de alguém que escreveu "Intempol" em vez de "Interpol" - só podia ser isso - ordenou que não se poupassem esforços para executar exatamente o que estava na carta. Conseguiu até a colaboração do governador do estado do Rio que designou a PM para ajudar.
Mesmo para Queiroz, um praticante do Candomblé que freqüenta até sessões espíritas e a Umbanda, aquilo era um mistério, talvez obra de alguma força oculta e desconhecida que caminha ao nosso lado sem nos darmos conta.
Queiroz entrou em seu carro e deu por encerrada a operação. Missão cumprida. Logo as viaturas da Polícia Militar e da Polícia Rodoviária Federal deixaram o local, liberando o trânsito.
Do outro lado da pista, uma mulher vestida de preto observava cada instante daqueles momentos com seus belos olhos azuis. Ela sorriu como uma fada, colocou seus óculos escuros e desapareceu.

4 comentários:

Lancaster disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lancaster disse...

Com todo o respeito a todos os envolvidos no projeto desde o começo, mas até hoje acho esse o ponto alto da Intempol. O meu favorito dentro do universo e o que definiu minha visão do cenário. E não diminuiu nada com a segunda leitura. :)

Ah, sim, o "comentário excluído" foi meu mesmo. Cometi um erro de digitação e o consertei rapidinho.

Cirilo Lemos disse...

Bom, ainda não li todos os contos da Intempol, mas este realmente é bom, como disse o Lancaster.

Octavio Aragão disse...

Acho ótim que esses comentários apareçam agora, tanto tempo depois da primeira publicação deste conto. Serve como boa resposta àqueles que reclamam da qualidade dos contos da série.

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