sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

O Senhor da Luz: resenha por Ernesto Nakamura

Começamos aqui a republicar a série de depoimentos pessoais dos autores/fãs da FCB a respeito de seus autores preferidos. Para começo de conversa, Ernesto Nakamura e Roger Zelazny.

***


Eis uma daquelas obras que encontram seu leitor.

Minha relação com este livro começou em 1985, quando estudava na Unicamp. Eu não seria o aluno mais vagabundo da Universidade porque a concorrência era brava. Mas não era como meus colegas mais hedonistas, uma vez que para se passar o periodo universitário no esquema sexo, drogas e festas radicais, requer-se bastante dinheiro, beleza ou isso que hoje chamam inteligência emocional, coisas que jamais tive.

Sem dinheiro, não podia comprar livros interessantes, mas o dono da livraria era generoso e eu passava as tardes lendo os livros lá mesmo. Por várias vezes tive O Senhor da Luz em mãos mas nunca li realmente o livro, pois numa pré-leitura, a classificava como ficção científica ao estilo Daniken.

Certa noite, apos mais uma vez comprovar minha incompetência social, fiquei só, sem companhia, nem amigos e sentindo-me mais frustrado que o habitual. Então passei na livraria buscando algum romance leve. Nada achei de interessante e abri mais uma vez o livro, que permanecera na prateleira por dois anos e finalmente virara saldo, já amarelado. Então compreendi o enredo básico: o herói finge-se Buda, imitando a parábola do falso iluminado, luta contra os deuses. Seus aliados são o Diabo, a Morte e a Noite. Achei muito adequado ao meu estado emocional. Comprei o livro, para surpresa do dono.

Fui ler o romance no bar que freqüentava, um ponto de encontro para estudantes em busca de parceiros para uma noite. Pelas qualidades já citadas, para mim este local era extremamente sossegado, uma vez que ninguém costumava sequer me dirigir a palavra. Após quatro horas e algumas cervejas (sim, era assim que lia meus livros), estava encantado.

Pela primeira vez meus lados místico e racional ficaram satisfeitos simultaneamente. Toda a carga budista que carregava sem saber apareceu-me, nua e tremente, ridicularizada. Para quem não sabe, o budismo tal-como-conhecia era quase lovecraftiano em suas fantasmagorias de punição, inferno e mistificação.

Um romance que ao mesmo tempo usa o estilo da hard-fiction, mas também escreve um conto mistico, usando mesmo alegorias e parábolas realmente encantadoras. Fiz algo raro: reli o romance, agora analisando sua estrutura e construção. Achei curioso: parecia mal escrito! Por isso, jamais me interessei nos dois anos em que folheava o livro na estante: sua beleza só aparece após a leitura, quando a história fez sentido, uma vez que é contada em flashback. Mais que um romance coeso, era uma coleção de pérolas, pequenas frases geniais, poemas e piadas infames e filosóficas.

Havia encontrado um novo patamar de qualidade, provando que era possível reunir aspectos como religião, filosofia oriental, ficção científica e humor sem vrar uma música tropicalista. Hoje, quando analiso meu próprio estilo de escrever, místico-humorístico, percebo que imito, ou gostaria de imitar, o estilo de Zelazny, deste livro. Não li nada mais do autor, talvez por medo de me decepcionar. Pelo que falam de Amber, creio ser correto minha distância respeitosa.

Finalmente, se hoje me considero um pouco melhor do que naquela época, um pouco disso se deve ao senhor da luz, a partir do qual refiz minhas leituras sobre filosofia oriental, budismo, hinduísmo, tomados de uma perspectiva lúdica e acho que me libertei deste karma.

Neste sentido, para mim, O Senhor da Luz foi um texto religioso, de libertação pessoal.

3 comentários:

Lúcio Manfredi disse...

O Senhor da Luz também foi um livro fundamental pra mim - ainda tenho arrepios quando leio a frase de abertura, que sei praticamente de cor: "Seus seguidores chamavam-no de Mahasamatman e diziam que era um deus. Ele, porém, preferia deixar de lado 'Maha' e 'atman', e intitulava-se apenas de 'Sam'. Nunca afirmou ser um deus. Mas também nunca negou."

Outro dia mesmo, conversando com um amigo sobre o livro (que já li umas quatro ou cinco vezes), cheguei à conclusão de que está na hora de relê-lo. Mas desta vez, vou tentar ler no original.

Ivo disse...

Eu também fui ler sem muita expectativa, e me surpreendi.

Denis Moura disse...

Hum! Então tenho chances de ganhar algum leitor com o mau escrito "Retorno ao Big Bang Microcósmico"?

Pra garantir, vou ler "O senhor da Luz" e estimar se consigo o feito do autor sobre os Octas que vagam nos sebos. Isto ao menos antes que as traças tornem ilegíveis as bolorentas páginas ou o enredo se torne realidade inadvertidamente (que pretenções, hein?).

Abraços microcósmicos!

Dênis Moura
http://bigbangmicrocosmico.blogspot.com/

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