quinta-feira, 5 de junho de 2008

Bons tempos aqueles: conto de Alexandre Soares

- Serjão?
- Fala, Botelho.
- Tô com um problema aqui...
- Diz logo qual é.
- Temos um recorrente aqui.
- É só prender o sujeito fora do tempo.
- Não podemos fazer isso.
- Porque não, droga?
- Olhe para ele.
Sérgio Petraglia segurou a foto. Era um rapaz de seus dezesseis, dezessete anos. Classe média. Parecia o tipo cujas roupas são escolhidas pela mãe.
- Não tem cara de cronoterrorista.
- E não é.
Serjão levantou a sombrancelha grisalha.
- Explica isso melhor.
Botelho estendeu a Serjão outra foto. Era uma moça bonitinha, com sardas claras, quase da cor da pele. Cabelos cor-de-cobre, ondulados, curtos. Olhos verde-acinzentados. Uns quinze, dezesseis anos.
- Uau.
- Uma graça, não é?
- O que tem ela?
- É a namorada dele.
- Com uma namorada dessas ele fica brincando de viajar no tempo?
- Na verdade essa foto foi tirada por um dos nossos agentes. É de 1924.
Serjão estancou.
- Posso culpar o moleque?
- E daí? A gente até entende mas não pode fazer nada. Vai que surge uma nova pessoa dessa brincadeira aí.
- Na verdade essa é a terceira vez que o detemos. Mas ele já foi para o passado MUITO mais vezes.
- E não criou uma nova LT?
- Ainda não. Ele levou tempo conquistando a confiança da família da moça. Não deu tempo de surgir nenhuma consequência grave, por isso demoramos a detectar o infeliz. Mas ele volta. SEMPRE volta.
- Conheço esse filme...
- Fui escalado para passar uma descompostura nele. O moleque chorou. E não foi de medo. Para ele parecia muito pior nunca mais ver a menina.
- Ih...
- "Ih" mesmo. Porque TODO MUNDO sabe que ele vai voltar. E vai chegar uma hora que não vamos poder fazer nada. Ninguém quer meter esse moleque no xilindró para sempre só porque calhou de gostar de uma menina que não devia! Sabe aquela secretária do terceiro andar, aquela que lê Sabrina e Júlia? Chora só de ver a gente puxando a figurinha para a cela.
- O garoto é do tipo romântico, não é? Vai levar muita patada da vida...
- E PORQUE ACHA QUE ELE FOI BUSCAR MULHER NO PASSADO? Eu perguntei a ele se não tinha mulher hoje em dia para ele ser obrigado a ir buscar no passado. Ele perguntou se eu tinha certeza que isso era uma boa escolha. Fiquei sem saber o que dizer, acredita?
Fazia sentido.
Serjão foi adolescente na virada do século vinte para o vinte e um. Não era um bom tempo para ser adolescente: das meninas bonitinhas mais acessíveis, boa parte escutava uma barulheira monocórdica com letras vulgares, tingiam o cabelo de um louro oxigenado tão falso que pareciam mais espantalhos, mesmo se fossem morenas ou negras, e em casos extremos gostavam de ser chamadas de "cachorras" ou coisa pior. Ao menos assim era como ele se lembrava. Ele odiava isso. Mas as garotas que fugiam desse maldito padrão, se não eram nerds gordinhas de óculos, ou eram malucas que se vestiam de preto e posavam de góticas de butique, ou - e esse era o caso mais doloroso - eram as patricinhas lindas que jamais dariam mole para ele.
Quando ele passou sete meses no ano de 1948, ele começou a considerar se o momento em que a mulher passou a poder usar calças compridas não foi o momento em que a humanidade passou da civilização para a barbárie. "Se era uma merda em meu tempo, imagine hoje..." pensou Serjão com seus botões.
- A gente tá tratando o caso com luva de pelica, mas daqui a pouco os cabeças vão se meter no meio. Com eles não tem papo. Se garfarem o garoto, já era.
- O que você pretende fazer?
- Pensei em deixar ele passar uma noite lá na prisão fora do tempo para ver se ele cria juízo.
- TÁ MALUCO? Se esse garoto entrar lá, NÃO SAI MAIS VIVO!
- E o que você quer que eu faça?
Serjão levou a mão direita ao rosto e começou a pensar. De repente, surgiu um sorriso no canto de sua boca.
- Eu tenho uma solução, mas é bastante irregular. E vai dar trabalho.
- Vai bagunçar a linha do tempo?
- Não. Pelo contrário, tudo vai ficar como se ele nunca tivesse posto os pés em 24.
- O que você pretende afinal de contas?
- Resolver dois coelhos de uma só cajadada.
- Como assim?
- Lembra do caso Delmiro?
Botelho arregalou os olhos.

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Mais uma vez André prometeu nunca mais viajar pelo tempo. Estava tranquilo. Porque ele sabia que o tempo só corre de forma paralela na cabeça de quem pensa assim. Ele poderia perfeitamente prometer à sua doce Anabel que voltaria no dia seguinte e esperaria pacientemente até a vigilância cochilar de novo. Ela sempre cochila, cedo ou tarde. E a cada reencontro, ele retornava mais apaixonado.
E três meses depois ele retornou - para o dia seguinte. A cada intervalo de meses para ele, cumpria o ritual de um encontro que para ela era diário. Às escondidas do pai, que era um homem bem conservador, ela costumava cobrir os lábios de um discreto carmim. Filha de seu Menezes casava virgem, e não agradavam a ele as novidades de comportamento e vestuário que os anos loucos trouxeram. Deixar Anabel cortar o cabelo curto já foi um grande ato de tolerância da sua parte.
Quando a viu, André procurou conter emoções exageradas. Ela cedo ou tarde teria que saber de onde ele veio. "Mas não hoje", pensou. Ela se vestiu de forma mais casual dessa vez, se emperiquitou menos. Ele respirou fundo - não queria deixar a emoção provocar nenhum deslize de sua parte - e se dirigiu para ela, feliz da vida. Atravessou a rua de paralelepípedos e gritou "Anabel?", interrompendo a caminhada da moça.
Ela estancou e perguntou: "Eu conheço você?"
Nesse momento André entrou em pane.
- Como assim, "eu conheço você?"
- Eu deveria reconhecer?
O coração de André disparava. Ele não entendia nada.
- Que história é essa? Sou eu, o André, isso é algum tipo de brincadeira?
- Sou eu quem deveria perguntar isso.
- Eu sou seu namorado, já esqueceu?
- Namorado? Você é maluco ou algo assim?
- Olha, eu quero saber o que está acontecendo - e nesse ato ele segurou o pulso da menina. Não deveria ter feito isso. Ela respondeu aos berros com um "me larga" e rapidamente ela estava dando gritos de socorro.
Aquele era um bairro familiar e rapidamente as poucas luzes que ainda não estavam acesas naquele final de tarde começaram a brilhar. André não conseguia processar mentalmente o que estava acontecendo, mas ele não era tão burro a ponto de não saber que seria linchado pela vizinhança em peso se não saísse correndo do local. Imediatamente largou o pulso de Anabel e saiu em desembestada carreira, procurando alguma viela onde pudesse se esconder. Isso não era fácil.
Quando ele se deu por seguro, atrás de um monturo de lixo num beco, se deu conta que estava enganado. À distância, podia ver muita gente à sua procura. O seu Manoel do açougue, andando com o facão de corte na mão. Dona Jurema, a viúva do general, que manejava tão bem a carabina quanto o falecido - e metia mais medo à primeira vista do que todos os demais presentes. Gustavão, o mulato quarentão da oficina. Todos gente com quem ele se dava, gente de quem ele gostava. E agora isso.
E de repente, ainda oculto pelo lixo, ele viu a polícia chegar. E com eles, o agente Botelho da Intempol, acompanhado por outro agente que ele não conhecia. E ficou claro para André: apagaram suas visitas à 1924 do tempo. E lhe veio a mente que poderiam ter apagado até a sua PRÓPRIA existência do tempo. Quando ele voltasse, seus pais não o reconheceriam. Jamais teriam tido um filho. A idéia lhe encheu de calafrios.
Subitamente, uma mão pesada repousou em sua mão. André se sobressaltou.
- Calma, rapaz, ou essa gente vai te pegar. Não pense que é esse lixo que vai te esconder.
O dono da mão era um homem barbudo, de cabelos compridos, na casa dos quarenta ou cinquenta, cheio de rugas de expressão. Ele sorria e tinha um ar de imensa calma.
- Vamos logo antes que eles venham para cá?

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- Não ligue para o tamanho desse sobrado, rapaz. Ele é nanico mas é discreto, limpo e os vizinhos não enchem o saco. Todo dia vou à padaria de manhã e como um pão de primeira. Estou mal acostumado. Depois que se come o pão de 1924, a comida de nosso tempo parece alguma coisa reprocessada.
- Eu sei - respondeu, sorrindo, André. "Qual é o seu nome?"
- João Delmiro. Você não me conhece, não é?
André coçou a cabeça.
- E deveria?
- Não, não, não deveria. Agora estou notando. De que década você é, 1990, 2000, 2010?
- E você, de que década é? - retrucou, pouco confortável.
- Tudo bem. Não precisa responder. Se um estranho me levasse para sua casa sabendo que você é um viajante do tempo, eu também desconfiaria que pudesse ser um agente da Intempol.
- E você acha que eu poderia ser um?
- Você é um garoto - disse Delmiro sem deixar de seguir seu caminho para a cozinha. O café estava quase pronto. O cheiro era muito bom.
André não respondeu. Sentou num dos caixotes que se amontoavam na sala desorganizada - até porque não havia nenhum sofá. O mobiliário era parco. Delmiro voltou com duas xícaras de um café excelente e quando o rapaz estendeu sua mão, o peso do caixote de madeira cedeu sob suas nádegas, rachando o tampo.
- Melhor eu sair daqui de cima...
André estancou ao ouvir o barulho da madeira quebrada atingir o metal de dentro da caixa. De repente lhe veio à mente o que aquilo deveria ser. Trêmulo, pegou a xícara. Delmiro ficou sério.
- Porque você veio ao passado, rapaz?
André não soube responder.
- E o que aquela moça que você agarrou tem a ver com isso?
André silenciou e Delmiro respirou fundo. Parecia ser um homem paciente. Ele se dirigiu para a caixa e puxou uma metralhadora.
- AK-8870. Coisa da década de 2060. Já era artigo velho quando peguei, nem traficante de morro usa mais essa coisa. Ia ser enviado para fundição, acredita? Obsoleto - e nesse ato ele engatilhou a arma - mas bem conservado. Muito bem conservado.
- P-porque você tr-trouxe essas armas... essas armas para... ahn...
- Vocês moleques não tem nenhuma noção de história, não é? - Sorriu Delmiro. "Você sabe o que é uma revolução liberal?"
- Acho que isso aconteceu na Europa do século dezenove... acho...
- Então você estudou em cursinho pré-vestibular. Melhor do que nada. Bem... Sabe que estamos em Estado de Sítio neste país, não sabe? Bom... dia cinco de junho vai haver um levante. O general Isidoro Dias Lopes e o Major Miguel Costa vão levantar suas tropas nesta cidade, e pretendem marchar até o Rio de Janeiro para depôr o presidente. O levante vai ser conjunto e contar com participação de quartéis no Rio Grande do Sul. Infelizmente o Artur Bernardes...
- O presidente...
- Sim, o presidente... ele e as forças leais a ele vão ser avisadas. Vai começar aqui a história da Coluna Prestes. E eles tinham um ideário liberal, entende? Fazer no Brasil o que toda nação decente fez a partir da Revolução Francesa, cortar seus ranços feudais e pôr a burguesia industrial no poder.
André ouvia silenciosamente. Respirou fundo e perguntou:
- Vai armar a Coluna Prestes?
- Não. Eles tiveram contato com o socialismo justamente em campanha, percebe? Haveria o risco deles quererem implementar uma revolução socialista no Brasil. E todo mundo sabe para onde isso leva. Enquanto isso a burguesia industrial subiu ao poder com o golpe de 1930, mas o Vargas cometeu o erro de NÃO VARRER os velhos coronéis do mapa. No final estivemos sempre sob as mãos deles.
"Cronoterrorista", pensou ele enquanto ouvira Delmiro. "Meu Deus, eu tô no passado sendo perseguido pela Intempol e falando com um CRONOTERRORISTA!"
- Por outro lado imagine a idéia dos levantes nos quartéis do sul do país NÃO terem sido esmagados. Artur Bernardes seria derrubado e qualquer mudança de cunho ideológico seria implementada imediatamente. Duvido que Vargas não emerja como liderança após aquele ano de depressão internacional...
André terminou seu café. Mal sentiu o gosto. Se ajeitou para sair o mais educadamente possível.
- ... e você ainda não me disse PORQUE está aqui no passado.
De repente, três batidas secas foram dadas com violência na porta.
- Abram logo, POLÍCIA!
A porta foi arrombada em segundos e André foi rendido com facilidade: encostaram o rapaz na parede e rapidamente o algemaram. Delmiro deu mais trabalho. O homem correu, descalço, para a porta dos fundos e pulou a murada de trás, parando no quintal do vizinho. Não se deteve com o lamaçal, com galos, galinhas, nem, claro, com o cocô de galinha. Mas não pôde com o vira-lata enorme que protegia a casa. Antes de atingir o portão da casa do vizinho, algo arrancou com força um pedaço de sua coxa. Delmiro caiu no chão com um grito, e quando se deu conta, um bando de homens apontava suas armas para ele.
Enquanto isso, a polícia não perdeu tempo em enfiar André num camburão, cutucando seu corpo com o cassetete da mesma forma que se enfia uma roupa apertada dentro de uma gaveta cheia.

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O esporro que André ouviu dos agentes Serjão e Botelho não se comparava à sensação de abandono que ele sentia. Não havia sido apagado do tempo, mas poderia muito bem estar sujeito a isso. Foi posto para dormir na cela comum. Não conseguiu. Estava deprimido demais até para repousar. Mas de manhã até tomou o café da manhã com pão, manteiga e café-com-leite. Eram horríveis. Toda a comida lhe parecia horrível.
Após a refeição ele foi levado novamente ao gabinete dos dois agentes. Sentou-se, esperando por qualquer coisa. O mais velho, Serjão, foi o primeiro a falar.
- Você está enrascado, rapaz.
- Eu já falei tudo o que sabia.
- Sim, mas isso não muda o fato de que te pegaram na casa de um cronoterrorista cercado de armas de 2060.
André já não tinha mais esperanças. Estava com a resignação dos que sabiam que não há nada mais o que se fazer.
- Vão me apagar da história?
Botelho puxou um cigarro, acendeu, tragou e soltou uma baforada.
- Não, você teve sorte. Muita sorte. O Delmiro limpou tua cara. E mal ou bem você é culpado de contravenção, não de crime.
André respirou aliviado, pareceu encolher na poltrona. Mas Botelho o fuzilou com o olhar: "Mas não vai ficando aliviado não! Na próxima vez a gente não vai querer saber! Da próxima vez a gente revisa o caso Delmiro e te zera da história com uma cumplicidade nas costas! ACABOU! FECHOU! FINITO!!! E estou falando sério, FUI CLARO?"
- Agora se manda, rapaz. Não quero nunca mais te ver aqui na delegacia. E mais uma coisa...
Botelho puxou um envelope pardo e jogou nas mãos de André.
- Procura uma namorada mais nova.

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Anabel Menezes Garcia morreu lá pelos idos de 1981. Se casou aos dezoito anos, com um rapaz filho de portugueses, e foi a mãe de uma família grande, com vários filhos e filhas que também viriam a ter famílias igualmente grandes lá pelos anos quarenta e cinquenta. Aos trinta anos, ela já estava desgastada pela combinação de trabalho doméstico e várias gestações. Aos quarenta, ela parecia quase uma velha.
Mas ela foi muito querida pelos que a cercaram. Como esposa, como mãe, como avó. André não conseguia tirar os olhos de uma foto em especial, a que a mostrava velhinha cercada por toda a família. Tentou se imaginar velho, ao lado dessas crianças que não iriam nascer caso ele a levasse de seu tempo. Não conseguia.
Ele olhou para o jazigo da família do tal Garcia com quem ela se casou. Ela e o marido, lado a lado pela eternidade. Não era um pensamento ruim.
Assim que terminou de olhar para as fotos, as devolveu ao envelope de papel pardo que colocaria aos pés da lápide. Se sentia triste e solitário. Voltou-se em direção à saída. Era um fim de tarde ensolarado, mas as nuvens de chuva se aproximavam e eram anunciadas por uma brisa fria. Atravessou o portão do cemitério, que ficava numa rua de ladeira, e começou a descer.
Não percebia que dois agentes o observavam, de dentro de seu carro.
- Serjão?
- Hum?
- Já parou para pensar se isso fosse um filme?
- O que tem isso?
- Bom, ele foi visitar a lápide da velha e deixou o envelope lá pelo visto.
- E daí?
- Bom, nessas horas o normal seria que aparecesse uma neta ou bisneta dessa Anabel. Aí ela iria perguntar porque deixou aquelas fotos ali e como é que as achou. Aí ele iria achar ela bonitinha...
- E de repente a mesma atriz que fez a mocinha do passado poderia fazer o papel da "neta", apenas com um corte de cabelo diferente, certo?
- É, é por aí... e ele a convida para um café ou algo assim, ela não sabe porque aceita, e a câmera acompanha os dois se misturando à multidão enquanto se afasta.
- E todos vivem felizes para sempre.
- Seria um filminho vagabundo, não é?
- Se fosse um filme. E eu não pago para ver um filme com um final que a gente já sabe antes mesmo de começar. Já temos isso DEMAIS nesse ramo de trabalho.
Serjão puxou um maço de cigarros do bolso do terno. Respirou fundo.
- Foi um risco e tanto fazer o caminho dele cruzar com o Delmiro quando tudo estava já resolvido.
- Foi. Mas sabíamos que ele estava ali. Foi assim que ele foi pego na versão... hm, antiga da sua captura. E conhecemos o sujeito. Ele não ia matar o garoto.
- Poderia ter fugido e nos enrascado de vez.
- Mas deu tudo certo, não?
Ofereceu um cigarro a Botelho, e antes de acender o seu, usou sua extremidade para apontar para a direção de André, que esperava tranquilamente um ônibus em seu ponto. Duas meninas bonitinhas passaram por ele. Usavam bermudas de lycra. De longe podia se ver que uma tingira o cabelo de um vermelho que não existia na natureza. André estava cabisbaixo, mas não pôde deixar de olhar para as meninas enquanto elas se afastavam. Elas ainda eram bonitas de se ver. E ele não tirava os olhos delas.
Serjão sorriu com a cena.
- Vamos embora, Botelho, já fizemos o que a gente tinha que fazer - e com isso eles desceram a ladeira com o carro. "Tô a fim de te levar a uma padaria aqui perto. O pão dela não é como era há trinta anos, mas ainda tá muito bom."
- Não é melhor ir para trinta anos atrás e pegar o pão como era?
- Boa idéia. Acho que vou pegar leite na garrafa também.
E entraram numa rua deserta para voltarem ao passado mais uma vez. Botelho aproveitou, passou na quitanda e levou alguns tomates para sua mulher. Ela sempre se impressionava de como seu marido trazia tomates vermelhos e polpudos ao voltar do trabalho.

6 comentários:

milahashi disse...

Adorei!!! Que bom que tô aprendendo a ler blogs. Ótimo o diálogo metalingüístico e a quase HA. É uma sensação libertadora ver que as viagens podem também ser inofensivas, por isso: belo final!

Alexandre disse...

Obrigado, Milahashi. Fico feliz que tenha gostado. :)

Maranganha disse...

Olá! Descobri esse blog há pouco tempo, e vai demorar até eu ler tudo, mas os dois últimos posts estão beleza!

Octavio Aragão disse...

Valeu, Mila e Maranganha.

Espero que voltem e confiram as novidades.

PodEspecular disse...

Como já havia comentado na antiga lista da Intempol, gostei muito desse conto, Alexandre.

Como agora produzo podcasts sobre literatura especulativa, peço sua autorização e a do Octavio para transformar "Bons tempos aqueles" em áudio-conto.

Abraço (e aguardo seu retorno),
Paulo Elache (host do PodEspecular Podcast)
podespecular@gmail.com

Alexandre Lancaster disse...

A minha permissão você tem. O resto fica com o Octávio. :)

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