quinta-feira, 22 de maio de 2008

O protagonista de A Mão que Cria, por J. J. Marreiro

O quadrinista e ilustrador J. J. Marreiro gentilmente nos cedeu esta imagem, representando Lours McKenzie, do romance A Mão que Cria, publicado pela Editora Mercuryo, em 2006.


Obrigado, Marreiro!

terça-feira, 20 de maio de 2008

Fast-forward: Reward? Um conto de Alexandre Mandarino

A lembrança mais antiga que tenho da minha infância é a visão do segundo pôr-do-sol da Prisão dos Homens que Nunca Existiram. A Prisão é agraciada com três sóis. Por volta das três da tarde o primeiro e menor deles se põe, causando a doce sensação de um candelabro que teve duas de suas velas apagadas; o dia fica mais suave e melancólico. Às sete da noite, o segundo deles - o maior do trio - se põe, deixando o lugar de certa forma parecido com a Terra em um fim de tarde de outono. Finalmente, o terceiro vai para seu lugar abaixo da linha do horizonte às oito e meia da noite, não sem antes oferecer seu espetáculo de luz avermelhada. Pode ser um sonho ou leve impressão, mas sempre achei que minha vida começou naquele momento, observando o segundo sol se pôr, através das janelas do Orfanato Casimiro de Abreu.

O orfanato fica a poucos quilômetros da Prisão, mas pouca gente sabe disso. Ninguém sabe os motivos desta localização. Há rumores, claro, mas é melhor não pensar nisso. Bem, o certo é que ter sido criado ali influiu no fato de que hoje sou um agente de campo nível 3, de uma estranha organização policial voltada para problemas temporais. Sim, tais problemas existem. O tempo, ao contrário do que pensam, é perfeitamente sondável.

Para a minha sorte - ou não.

Ter sido criado sob a supervisão mais ou menos próxima de oficiais da Intempol deixou bem claro para mim qual seria o meu futuro (estranho falar em futuro agora). Um policial temporal não devia ser tão ruim - ou ao menos eu assim pensava na época. Crianças realmente funcionam em outro nível de compreensão. De qualquer forma, fui parar em um orfanato por motivos óbvios: meus pais haviam morrido muito cedo. O curioso é que foi apenas aos trinta anos de idade, já com quase dez de carreira na Empresa, que percebi o óbvio.

Eu detestava o meu trabalho, odiava os colegas da Empresa e o que eu era obrigado a fazer “em nome do dever” (embora nunca tenha ficado claro a quem eram dirigidos tais deveres). Por isso, é curioso como somente após tanto tempo cheguei à conclusão mais lógica. Se eu era um agente graças à criação em um orfanato supervisionado pela Intempol, então eu deveria fechar o ciclo. Deveria voltar no tempo e salvar minha mãe.

Não foi difícil convencer “amigos” do Departamento G a me entregar a ficha completa de Maria Silvana de Souza. Nascida no Rio de Janeiro, no Humaitá, em 1954; morta em 1974, durante o parto. Meu parto. Asmática, debilitada, dona de uma saúde frágil devido a um coração deficiente, ela não resistiu aos rigores necessários para que eu viesse a existir. Era uma mãe solteira. Nem mesmo o Departamento G me informou coisa alguma sobre meu pai. Talvez ele fosse um dos prisioneiros que nunca existiram, o que confirmaria alguns dos inúmeros boatos a respeito da existência do orfanato.

Também não descobri muita coisa sobre ela própria, o que não é de espantar. O Departamento G mantém apenas bancos de dados genéticos, não biografias. Foi quando percebi que tudo dependeria do Departamento %. Se a Empresa era lenta e burocrática, então os funcionários do % eram os reis da burocracia. Eram estatísticos, advogados, matemáticos e físicos, responsáveis por calcular o número mais aproximado ou indicado a respeito de qualquer possibilidade temporal. Verdadeiros reis da probabilidade e, entre eles, para minha sorte, um antigo colega de quarto do Casimiro de Abreu. Foi ele quem me deu a informação definitiva: os problemas cardíacos de Maria Silvana de Souza, ao que tudo indica, não eram congênitos; haviam sido resultado de uma cirurgia de sopro no coração conduzida de forma displicente e irresponsável por um médico da saúde pública estadual. Malditos anos 50.

Era terminantemente proibido a qualquer agente alterar para ganhos individuais e sem permissão oficial de seus superiores qualquer detalhe de sua vida pregressa ou de seus antepassados. Mas não me importei com isso: se tudo desse certo, eu não seria mais um agente, porque não teria crescido entre as escuras paredes de forro de carvalho do Casimiro de Abreu. Eu teria uma mãe, viva até mais tarde, e provavelmente seria um médico, um engenheiro, quem sabe um pintor. Muitas possibilidades.

Não havia de quem me despedir e, certa noite, reuni minhas poucas roupas em uma bagagem de mão, meu cartão cronal, minha caixa registradora e olhei pela última vez para as paredes metálicas do meu dormitório na sede da Empresa. Não havia motivos para um adeus final. Digitei uma certa data de 1958 e parti.

Através de um delicado processo de eliminação de pessoas e papéis, fiz com que o incompetente médico do Hospital dos Servidores, perto de uma estranhamente imunda Praça Mauá, fosse substituído por um especialista mais velho, mais competente e confiável. Claro, fiz tudo secretamente, sem que me deixasse revelar. Estive no hospital no dia da cirurgia e não consigo descrever o que senti ao encontrar minha mãe, finalmente minha mãe, aos quatro anos de idade. Uma menina linda, extremamente magra e macilenta. E minha avó materna, que a acompanhava, deveria ter a minha idade. Maravilhas e maravilhas, acompanhadas por uma leve tensão. Em pouco mais de uma hora, os rumos da vida de minha mãe seriam outros e, dali a alguns anos, ela não morreria no parto. Eu não seria um órfão, não seria criado em meio às ondulações de três sóis e, o melhor de tudo, não seria mais um agente. Seria um médico; um pintor.

Meia-hora depois, minha mãe de quatro anos estava morta.

Não me lembro do que aconteceu nos dias seguintes, mas perambulei como um fantasma pelas ruas do Rio de Janeiro. E com certeza eu deveria ser menos que um fantasma: com Maria Silvana de Souza morta ainda criança, eu jamais existiria. Eu seria um dos homens que jamais existiram, prisioneiro de minha própria arrogância e estupidez. E então percebi o quanto eu era destreinado nestes assuntos: quanto tempo demorava para uma linha temporal se desfazer? Alguém da Empresa já teria detectado esta mudança? A morte de uma criança, mesmo sendo minha mãe, era fútil e insignificante demais para ser percebida por eles? Mas certamente seria percebida pelo mestre final, o Tempo.

Meu cartão cronal não mais funcionava. Havia travado no dia e hora exatos em que minha futura não-mãe havia morrido. Com o passar dos anos, fui perdendo pelas ruas estes objetos. O cartão cronal foi trocado por algumas notas de cinco cruzeiros. Meus poucos pertences se perderam ao longo das décadas pelas ruas do Rio de Janeiro, que mudava a olhos vistos, me ensinando, afinal, o que é o tempo. Uma vida passada em um estranhamente lento fast-forward. Guardei apenas a caixa registradora, como uma lembrança de uma época breve em que várias coisas foram possíveis.

Não se é médico ou pintor quando não se sabe se sua existência é real. A minha certamente não poderia ser. Como era possível? Eu já morri, ou melhor: deixei de existir. O que esta carcaça carrega em mendicância é apenas um espectro recheado de culpa, paradoxo, inexistência e destruído pelo casamento entre infanticídio e matricídio. Estamos em 2005 agora. Quem iria imaginar que eu iria completar meus 77 anos de vida em um passado tão distante? Não lembro meu nome de batismo, nem meu número na Empresa. Lembro apenas dos piolhos em minha barba e do nome de uma criança. Para minha surpresa, após tantas décadas, a caixa registradora voltou a “andar”. Não consigo digitar nada nela, mas ela indica uma contagem regressiva. Faltam três dias para... o quê?

Não me deixe descobrir sozinho. Se me encontrar pelas ruas - estou na Avenida Atlântica, na Cinelândia, no Humaitá, mas nunca, nunca na Praça Mauá -, fale comigo. Diga qualquer coisa. Dois dias e meio agora. Eu preciso saber antes de descobrir.


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domingo, 18 de maio de 2008

Vida de estagiária: conto de Ana Cristina Rodrigues

Com um suspiro cansado - e aliviado - arrancou os sapatos. Sabia que era teimosia ir de salto fino, mas as pessoas já a olhavam por cima mesmo com os dez centímetros a mais. Imagina de sandalinha rasteira...

Os pés na água quente com sal grosso, a TV ligada em algum programa genérico só para disfarçar a solidão. Pendurou-se no telefone.

-Oi, querida! Como estão as coisas? Ah, por aqui tudo na mesma. Sim, ainda estou naquele maldito estágio que você me arrumou na Empresa. Isso. Não tenho te visto por lá... Entendo. Como? Se eu estou gostando de lá? Como posso gostar? Você já foi estagiária na Intempol? Claro que não, começou direto como secretária, né?

Fez uma pequena pausa, mexendo os pés na água, agora já morna.

- Para você ter uma idéia, vou contar como foi meu dia. Começou normal, comigo correndo que nem uma louca desesperada. Eu sei, eu sei... Mas não adianta... Estou há dois meses na Empresa e não estou acostumada a chegar na hora, mesmo atrasada. Enfim...Claro que nem bem cheguei, já tinha agente gritando comigo. "Cadê o café, Ana?", "Trouxe o relatório Z-4567?", "Ana, vai ao crono-arquivo e pega a pasta MMM 453?", "Liga pro Comissário urgente!". Cara, assim, tudo bem que eles lidam com o tempo e tal. Eu sou uma só! E esses relatórios são de amargar! Você acha o quê? A estagiária fica com a rebarba! As missões interessantes, misteriosas, que envolvem artefatos poderosos, dessas que são a alma da Empresa, eu não sinto nem o CHEIRO! Depois de fazer café - três garrafas térmicas, porque um gosta forte, o outro fraco e tem sempre alguém no meio termo - comecei a rever as fitas de uma missão para começar lá o tal relatório. Você não vai acreditar, a Empresa mandou um agente à Pré História porque uns idiotas fizeram um safári... e pisaram em uma borboleta! Acredita nisso? Eles mataram um tiranossauro rex, e o agente teve que salvar a BORBOLETA! Sentiu o nível? Tem coisas piores... Esse foi o do dia.

Tirou o pé esquerdo da água. Continuou a falar no telefone, apoiando o bocal no ombro, enquanto massageava os dedos doloridos.

- O quê? O ruivo bonitão? Claaaaaaaro que ele falou comigo. Duas frases. "O relatório Z 4567 está incompleto" e "Eu prefiro meu café amargo, por favor". Você acha que um homão daquele, agente nÌvel 4, vai olhar pra mim? Não tenho cacife pra tudo aquilo, é areia demais pra minha caçamba. E nem adianta pensar em fazer duas viagens. Pois então, depois desse diálogo amoroso, eu achei que poderia parar e comer a minha marmita. Estava eu indo calmamente pro meu cubículo, o de número 254, e o que aconteceu? Uma neandertal brotou do nada! Simplesmente surgiu! Eu não consegui desviar a tempo, e lá fomos nós; eu, a macaca e minha marmita, pro chão! Alguém começou a gritar "Vejam se ela está bem". Eu fiquei até comovida, ia me levantar quando percebi que a preocupação deles era com a coisinha, fugida de algum lugar, sei lá. Quer dizer, eu sou atropelada por Conga, a mulher-gorila, e todo mundo quer saber se ELA está bem? Típico, eu diria. Ah, adivinha quem limpou a sujeira? Claro, eu. Perdi minha hora de almoço nisso. E não, quando se é estagiária, tempo não é algo relativo. Eu não tenho acesso a caixas temporais e coisas do tipo.

Trocou o pé pelo direito. Suspirou.

- De tarde, continuei no mesmo ritmo. Revisar um relatório imbecil de outra missão idiota, envolvendo uma superpopulação de coelhos, fazer MAIS café, ser novamente ignorada pelo ruivo bonitão... Ah, desculpe. Ele falou comigo. Reclamou que o café estava amargo demais. Tive que arrumar três salas de reuniões. Esse pessoal faz mais bagunça do que um monte de crianças. Largam arquivos em cima da mesa, cinzeiros transbordando... E claro, apesar de ter me parecido que passei dias lá dentro, foram exatas oito horas. Nem um nano-segundo mais. E aqui estou. Vou descongelar a comida, jantar e colocar leite pro gato. Beijo, até amanhã.

Na sede da Intempol, no cubículo 254, a secretária eletrônica dava um bip, indicando o fim da gravação.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Casting a play: Interview with Kim Newman

He turned the world upside down creating a reality where Dracula conquered all Britain. Now, Kim Newman talks to us about Alternate Fiction, movies, creative rights, the differences between pop and classical culture and... Brazil!

***

OCTAVIO ARAGÃO – The amount of known copyrighted characters you use in your fantastic ANNO DRACULA series is astounding, and I know that some of them - such as Fu Manchu and James Bond - are seriously “protected” by their creators and or their legal representatives. How did you manage to deal with them? Have you ever had to face any problem like this?

After all, even Philip José Farmer created new names for Tarzan and Doc Savage when he wanted to write some stories he knew the Burroughs State and Lester Dent’s representatives wouldn’t approve.


KIM NEWMAN – My assumption is that characters are fair game so long as the book doesn't represent itself as cashing in on any franchise – in the case of Anno Dracula, there are several distancing devices like satiric intent, a storyline taking place in another universe (ah, but don't they all?) and the fact that lots of them crowd together and blot each other out. I was aware of some copyright issues, but I only changed one name - James Bond to Hamish Bond - to dodge accusations, and that was because I wanted my version of him to be a major viewpoint character in the book, Dracula Cha Cha Cha; I always planned that a lot of the cameo characters wouldn't be identified by name, to let the reader have some fun working out who they are but that also means the names aren't used. I was also reticent about making much use of characters who are still 'in play' as it were, so as not to tread on any living author's toes - a few writers (F. Paul Wilson, Les Daniels) have been pleased that their characters appear, and no one has seriously complained.


OA – You are the creator and owner of the ANNO DRACULA protagonists Geneviève and Charles Beauregard. You would like to see another author using one of them in his own novel, game or even a fanfic? And since we are at this subject, is there any chance that we ever see AD in other media like movies, games or comics?

KN – This is going to sound hypocritical, but no I wouldn't. I'm not finished with them yet (there's a new story about Charles called 'The Gypsies in the Wood' in an anthology called The Fair Folk, edited by Marvin Kaye, due out soon), and so wouldn't want to let them go. I don't really mind leasing them for tiny cameos (Charles appears briefly in Andy Lane's Doctor Who novel All-Consuming Fire) but wouldn't want to see them used any more extensively. I did come across a poem on the internet called 'Charles Beauregard' which I thought was rather sweet.

The film rights to AD have been optioned a couple of times, and I've even done a script -- it is in option at the moment, but I don't know if there's much movement on it. Other rights tend to go with the film options, so they're tied up now. Over the years, I've had a few comics people say they'd be interested and even an occasional game nibble, but no one has ever come up with a solid deal.


OA – You are a fan of Alternate Reality stories that deal with the invasion of England such as SS-GB, by Len Deighton, and that you see Bram Stoker’s Dracula as a story set in an alternate universe where technology was a little ahead when compared with ours. I agree because I use to think that DRACULA’s ethos is a “warning sign” to a decadent aristocracy in the turn of the XIX Century, a snapshot of the eternal war of religious mysticism against technocracy, where the later is the winner. The concept of a successful Dracula wouldn’t compromise the intentions of the original?

KN – I'm not entirely sure Bram Stoker was aware of all the possible interpretations of his work, which is not to denigrate him as a writer. One of the reasons DRACULA is such an interesting novel is that it's open to all manner of interpretations. Actually, that thing about technology being ahead of ours is just because when Stoker was writing there was no pressure for novelists to give an exact year in which their fiction is set. When the book came out in 1897, he accidentally created an impossible world which has to be before 1890 (because the assembling and presumed publication of the book is part of the plot and there's a seven-years-later epilogue after the bulk of the action) but with many details which don't square with that dating. I just used that as an excuse for altering the timeline a bit more.

Though your reading of the ending of the book is valid, it could also be argued that Dracula, who loves train time-tables and seems eager to embrace modernity, represents a kind of philistine progress and the heroes stand behind their raised crucifixes for spirituality and traditional values. Though Dracula is a Count, he is not British and therefore isn't recognised as a social superior by the English characters, though they do accept a Dutchman and an American into their ranks even as they poke fun at the amusing way they speak English. Stoker was an Anglicised Irishman, so he may have the convert's zeal in celebrating supposed national virtues.



OA – We saw what happened to England, America and Italy in your three ANNO DRACULA books. How would be the AD scenario in the rest of the world? Any ideas about it? How a modern vampire community would survive in a tropical country like, for instance, Brazil?

KN – Well, one token Brazilian character appears in Dracula Cha Cha Cha. I've never been to South America so I'd not thought about it much. I assume there'd be wrestling vampires in Mexico. And I've seen vampire movies from Brazil, Chile, Argentina, etc, so tropical vampires are at least conceivable. Plus vampire bats come from South America. So there might be something there.


OA – Seems that today your post-modern concept of AD is turning into a template for a lot of different productions - comes to mind Alan Moore’s LEAGUE OF EXTRAORDINARY GENTLEMEN, the VAN HELSING movie and even the anthology SHADOWS OVER BAKER STREET, where different authors write crossover stories about Sherlock Holmes and the lovecraftian Cthulhu Mythos.

How do you feel about that? Do you think this style of pop fiction that recombine old novels, concepts and ideas in new ones will became a relevant way to produce strong literature (or even a new kind of literary mythology that deals with archetipical characters) or is it just a great unpretentious fun?


KN – I make no claims to have invented this style – Philip José Farmer did it in the 1970s, Howard Waldrop has done a ton of stories and I can think of many, many other precedents from Henry Fielding through Nicholas Meyer to a 1960s Doctor Who serial (The Mind Robber). It may even be getting a bit tired - I worry that we can concentrate too much on the reference-spotting side of the stories while missing the actual point. I always thought it wasn't enough just to have a famous fictional character walk on, take a bow, and leave: there had to be some other reason for invoking him or her, to cast new light on someone we thought we knew or poke fun at them.

Sometimes, it's been almost like casting a play: I've needed, say, a Victorian policeman or a 1950s gigolo and looked around for the possible pre-existing characters, especially if they have an earlier connection with vampire fiction, to take the part. I've done the same thing with real-life people, of whom there are almost as many as borrowed fictional people in the series. I make no great claims for myself about a lasting contribution to literature, but I can cite a few precedents where 'answer' novels and stories are at least worthy of comparison with their inspirations – Henry Fielding's Joseph Andrews is a sequel to and an attack on Samuel Richardson's Pamela (and was so successful that the latter is now somewhat underrated), and I'm a great admirer of Jean Rhys's Wide Sargasso Sea (a spin on Jane Eyre) and Valerie Martin's Mary Reilly (a take on Dr Jekyll and Mr Hyde). I don't mind unpretentious fun either, though I guess what I tend to do would probably get labeled pretentious fun.


OA – Thank you very much, Mr. Newman. And let’s hope that some of your books do appears in Brazil sooner or later.

terça-feira, 13 de maio de 2008

A identidade secreta do quadrinho nacional: entrevista com Emir Ribeiro


Batalhador dos quadrinhos nacionais há décadas, Emir Ribeiro e sua personagem de maior destaque, a super-forte loura Velta, já mereceram diversas publicações e álbuns, sempre com a mistura de ação e sensualidade. Agora, às vésperas de mais um lançamento, ele fala à Intempol a respeito de suas idéias sobre o estado crítico dos quadrinhos nacionais e de como seria um projeto de HQs verdadeiramente brasileiro.

***

Octavio Aragão – O senhor é conhecido por batalhar há anos por um quadrinho claramente reconhecível como brasileiro, uma orientação da qual compartilho. Quais seriam suas diretrizes básicas para a constituição definitiva, em termos de códigos linguístico e imagéticos, de uma HQ nacional?

ER - Sendo escrito em língua nacional, abordando temas que tenham alguma identificação com o Brasil, usando cenários Brasileiros como pano de fundo, personagens Brasileiros (e com nomes de Brasileiros), e sempre utilizando algumas pitadas de informação histórica e cultural do nosso país, a meu ver, já será uma HQ que pode se caracterizar como Brasileira. 

OA – O estabelecimento de um *traço* nacional não seria um caminho? Pergunto porque diversos artistas levantam essa questão, afirmando que uma *escola de traço* reconhecível ajudaria a implementar um mercado para HQs nacionais.

ER - Mas o que seria o traço nacional? Como seria esse traço nacional? O que caracterizaria esse traço nacional? São perguntas para as quais duvido que alguém tenha uma resposta concreta e objetiva. 

Penso que existe o traço pessoal, de cada autor. Por exemplo, o traço do Colonnese é reconhecível por qualquer leitor de HQ nacional. O traço do saudoso Flávio Colin, idem. O traço do Mozart Couto é identificável á primeira vista.

Não penso que formar uma "escola" com "regras" a serem seguidas para que se caracterize um traço como "brasileiro" tem tanto sentido como aplicar as "regras" do "Comics Code" a quadrinhos Brasileiros. Não creio que seja esse o caminho.


OA – Sua personagem Velta já se tornou um clássico das HQs nacionais, mesclando o clima erótico à ação superheroística de inspiração, creio, norte-americana (se eu estiver errado, por favor, perdôe-me).  Quais foram as inspirações para Velta e quais as diretrizes para sua criação? Quais as origens da loura?

ER - A forma física da Velta se inspirou na fusão de dois elementos: um real - uma loura que conheci no passado, numa praia, e outra fictícia - a personagem belga Pravda, de onde tirei o detalhe de Velta ser motoqueira.

Já os temas das histórias, também não são segredo para ninguém. Comecei sob influência forte das HQs de super-heróis norte-americanos. Nunca neguei e nem tentei camuflar essa origem, porém, de uns anos para cá, tenho me afastado dessa linha.


OA – Direto ao ponto: há possibilidades de uma mitologia superheroística nacional? Caso sim, isso não correria o risco de cair num nacionalismo parecido com aquele postulado nos anos 50? Ou seja, precisamos de super-heróis no Brasil?

ER - Com tanto bandido, ladrão, corrupto e gente sem caráter nesse nosso Brasil, precisaríamos de um exército de super-heróis para colocar toda essa turma na cadeia ou ao menos aplicar-lhes uma boa surra. Porém, uma mitologia super-heroística nos moldes da norte-americana, ATUALMENTE, não funciona aqui. Até os anos 70 do século passado, que ainda era uma época de inocência, poderia até fazer parte de revistas nacionais. Hoje, não tem sentido. 

Entenda-se bem que os moldes tradicionais, do herói escoteiro que salva até a vida de bandidos ("faz o bem sem olhar a quem" e sem ganhar um centavo), que não questiona as autoridades sob hipótese alguma , que defende o patrimônio de banqueiros e bilionários (sem nem pensar em recompensa por isso), que tem como "identidade secreta" uma pessoa tímida e diametralmente oposta da outra que se fantasia de malha colante colorida e sai brigando com marginais, não encaixa no Brasil.

Para eles existirem aqui teriam de se adaptar à realidade brasileira, da mesma forma que o estadunidense pegou a mitologia oriunda da Grécia antiga e adaptou aos padrões do seu país.


OA – Essa identidade não incorporaria algum posicinamento político ou religioso?

ER - Caso você fale da "identidade secreta" estadunidense, a princípio, e sem uma análise mais profunda, não vejo nenhum tipo de posicionamento político ou religioso. Em sendo a identidade do "herói", esta é cheia de detalhes que passam e incutem na cabeça do leitor aquela idéia de que a política dos EUA é a melhor e a mais correta, que seus costumes e seu modo de vida é o melhor, e chega ao cúmulo da arrogância de batizar uma revista com o título "Os melhores do mundo". E parece que nenhum leitor (inclusive quadrinhista nacionais aparentemente esclarecidos) vê ou se apercebe desse bombardeio ideológico, e também religioso, afinal muitos dos vilões das histórias norte-americanas são árabes muçulmanos, ou então latinos. Enquanto o herói deles é o cristão defensor da moral e costumes norte-americanos, que sempre se mostra bonzinho e escoteiro, nunca querendo se igualar ao bandido. Mas no final, ele acaba sempre apelando para a violência, e é ovacionado pelos leitores.

Parece que é muito difícil os leitores (e quadrinhistas naiconais, também) raciocinarem, em meio a um mar de mensagens subliminares e reeducação mental lenta, constante e gradual, que vem embutida nos quadrinhos dos supers dos EUA.


OA – O senhor já trabalhou para o mercado internacional, mais precisamente norte-americano. Como foi lidar com as grandes editoras? Alguma experiência marcante? E o retorno financiero compensou? Como vê a opção de diversos artistas nacionais pelo mercado estadunidense?

ER - Profissionalmente, um tormento, pois nunca foi um trabalho que me realizasse. Tudo que fiz para os EUA foi apenas por dinheiro, e por sinal um bom dinheiro, pois o pagamento era compensatório e geralmente, sem atrasos. Chato era aguentar a arrogância e a falta de objetividade dos editores, além de exigências de rapidez em prazos sempre apertados. Chegou a um ponto que não vi vantangens em continuar, mesmo com o régio pagamento.

Quem quiser apenas faturar, é uma boa opção (desde que ele seja também o rei da paciência), mas para alguém que pensa como eu, não passou de uma opção temporária.  



OA – O senhor não acha que o estereótipo brasileiro (sexo-exotismo-natureza exuberante) , muito explorados pelos ilustradores nacionais, mesmo em trabalhos independentes, pode ser considerado como uma visão reducionista do país? Como o senhor enxerga e representa o brasileiro em suas HQs?

ER - É uma visão reducionista, sem dúvida, e vem da idéia que os estrangeiros fazem de nós. O quadrinhista erra em replicar esse mesmo modelo, sem tirar e nem por. 

Nas minhas HQs, não uso modelos padronizados de personagens, pois transformaria a HQ naquela coisa dura e pasteurizada. Prefiro variar bastante na personalidade de cada um, a fim de caracterizá-lo bem e diferenciá-lo da massa de personagens.


OA – Uma questão que sempre ressalto quando entrevisto autores de aventura derivados dos mitos superheroísticos é aquela relacionada à posição política. O senhor não crê que HQs desse tipo caem, quase sem exceções, numa apologia da forca pela força ou da busca pelo poder?

ER - Costumam cair, se o criador não se policiar para tentar fazer diferente. Mas outro grande problema é o leitor, que já é doutrinado por décadas e décadas a ver aqueels mesmíssimos elementos numa HQ. Só como exemplo, houve gente reclamando que na edição VELTA - NOVA IDENTIDADE PARAIBANA (2007) faltou ação, aventura e lutas corporais entre mocinha e bandida. Ora, mas isso é necessário sempre? Na referida edição, optei pelo drama dentro de uma aventura de ficção científica, e no meu entender, tornou desnecessários embates corporais.
Veja, portanto, como o leitor ficou bitolado a exigir aquelas regras das histórias tradicionais, a pontode estranhar uma que não se utiliza desses elementos sempre recorrentes.


OA – Em termos de design de página, quais os esquemas que o senhor prefere? Algo focado na grade de seis a oito quadros ou algo mais solto, sem muitas restrições? Pergunto porque já vi os dois tipos em seus trabalhos com Velta.

ER - Sem restrição alguma, sem regras. O que imagino que me agrade visualmente, ou que seja necessário e adequado ao desenrolar do roteiro, é o que adoto para cada página. Aliás, se o senhor observar outras HQs, vai ver que há muitos tipos diferentes de esquemas de páginas.


OA – Agora, para fechar: quais os próximos projetos?

ER - Pretendo concluir alguns que estão em andamento. Um deles, da série "Realidade alternativa", centra Velta e o Homem de Preto nos anos 30 do século XX (a primeira da série, escrita pelo R. F. Lucchetti, foi a Velta nos anos 60, na edição "35 anos de Velta", de 2008).

A próxima edição deverá desaguar trabalhos já prontos há anos, como a HQ "A Fofoqueira" (2003) e "Detetives" (2002), uma releitura da primeira aventura da loura em parceria com seu namorado Gilberto Gomes.

Em seguida, pretendo enfatizar mais outra personagem - a Nova. Esta, por sinal, não tem nada que lembre uma "heroína", pois é bastante politicamente incorreta, a começar de ser adepta da pena de morte para bandidos, além de ser uma atéia declarada. Mesmo ela tendo sido originária da mesma linha que Velta, tomou caminho diferente.

Por sinal, todos os meus personagens procuram, paulatinamente, se distanciar da influência inicial, e chegarão a um ponto que dificilmente um futuro leitor conseguirá enxergá-los ainda como "super-heróis". Nos dias de hoje, já nem podem ser considerados como tais. No futuro, então, espero que nem lembrem super-heróis.  

OA – Sem mais, encerro com meus parabéns pelo trabalho e pela resistência neste mercado tão fechado e difícil como o das HQs brasileiras.

E - Agradeço os parabéns, mas infelizmente, o quadrinho Brasileiro está caminhando para a irreversibilidade, para um beco sem saída. O mercado interno não existe, pois o próprio quadrinhista - com raras exceções - não quer mudanças, o leitor também não quer e prefere continuar seu culto aos personagens estrangeiros de sempre, e por fim as editoras também optam pelo que eles imaginam que dê lucro imediato (ou seja, traduzir os quadrinhos estrangeiros de sempre).

Portanto, não vejo saída alguma para o quadro melhorar. Continuo a fazer porque gosto do que faço, mas chegará o tempo em que será inviável arcar com os dispendiosos custos de impressão para um público que diminui a cada dia. 
Agradeço a você pela oportunidade de novamente me comunicar e esclarecer o público que ainda curte essa forma de arte.

Palestra no Fantasticon 2008


Estarei em julho participando do Segundo Simpósio de Literatura Fantástica, com a palestra A FICÇÃO COMO BASE PARA UMA NOVA REALIDADE: DE BAKER STREET AO SÍTIO DO PICAPAU AMARELO.

“Como a ficção literária estabelece ligações com a “vida real”, criando uma teia de relações entre os fatos históricos e as estruturas narrativas, fazendo com que a fronteira entre os fatos a a ficção se tornem difíceis de distinguir. Uma discussão sobre os trabalhos William Baring-Gould, Philip José Farmer, Márcia Camargos, Alan Moore, Monteiro Lobato, Arthur Conan Doyle, Edgar Rice Burroughs, Lester Dent, entre outros”

Detalhes e a programação completa aqui

Seria legal ver a galera que acompanha o Projeto Intempol por lá.

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