sexta-feira, 14 de novembro de 2008

O Olho do Cavalo Morto: um conto a dez mãos

Parte um: Ascensão e Queda
Octavio Aragão, 20/01/2002.

"A coisa mais digna é a que satisfaz ao melhor sentido"
"Ocorre que, quando a razão falta, certamente tomam o seu lugar os gritos"

Leonardo DaVinci

Tudo escuro, mas o cheiro de fumaça vem por baixo, junto com o vento quente. Os gritos estão ali também, indistintos. A única voz pertence ao Boca, o sujeito com o estoque - colher com cabo afiado até se tornar uma navalha - espetando minha costela.

- Esse corno vai morrer também, tô falando! Ou deixam a gente sair ou ele morre agora!

A penitenciária de segurança máxima Bangu II estava em todas as TVs. Helicópteros sobrevoavam e eu era o ovo em cima do muro, a vinte metros de me tornar um borrão.

Antes de mim, duas irmãs foram jogadas daqui de cima. Eu vi. Agora não vejo nada. Enfiaram uma camisa suja em minha cabeça. Não sei bem por quê. Qual a diferença para eles se enxergo ou não? Acho que é mais uma questão de cumprir os clichês da mídia do que misericórdia com a vítima. Na TV fica mais estético executar as pessoas quando estão vendadas. O público não gosta de ver o rosto dos mortos. É mais fácil matar bonecos. Se a audiência não perceber que ali está uma pessoa, um rosto com boca-nariz-olho-pendurado-da-cabeça-esmagada, fica pressionando para que a situação se resolva de forma rápida. É o que dizem. Eu só queria saber se os caras que arquitetaram esta rebelião pensam nessas bobagens. Eu penso, claro. Porque não tenho mais nada o que fazer aqui, no topo de um muro que de um lado pega fogo, e do outro abre a boca para me engolir.

Espetam minha costela mais uma vez. O Boca está nervoso. Já havia dito que não queria me matar, mas que ia acabar tendo de fazer, que essas negociações eram foda e que ninguém ali tinha nada a perder, que ele mesmo estava com AIDS e não duraria mais um ano naquele inferno. Perdido por um, perdido por mil. Eu disse que compreendia, que não precisariam matar ninguém, que tudo daria certo. Menti descaradamente. Não sabia de nada, sou apenas um padre. Um padre burro, daqueles que acreditam em tudo, até em Deus, e que estava ali numa missão de conforto no momento em que a rebelião explodiu.

Meu sapato resvala, vou cair agora. Não. Boca me segura pelo braço e, ao mesmo tempo, perfura minhas costas uma terceira vez. Nunca saberei se foi de propósito. Posso ouvir a multidão transformando o burburinho num "oooooooohhhhh...!", misto de antecipação e euforia diante do número do trapezista. O equilíbrio restante se vai. Rodopio e caio de costas, pernas abertas, mãos amarradas, a venda se desprende de meu rosto o suficiente para que veja por entre as dobras do pano os olhos arregalados do Boca, num reflexo, tentando ainda me segurar, desajeitado.

Atravesso a fumaça.

O impacto foi mais suave que eu esperava. O calor é substituído por uma brisa de ar condicionado. Demoro para abrir os olhos. Esperava qualquer coisa, do Deus de Michaelângelo apontando o dedo acusador e discursando sobre as vezes em me masturbei pensando em minha irmã até uma formiga gigante, com antenas em forma de garfo. Tudo, menos um beijo na boca.

De um homem.

Engasgo e empurro o rosto. O gosto de tabaco e a barba mal feita do sujeito de seus trinta e poucos anos causam repulsa imediata. Então é o inferno, sem dúvida, porque grito e minha voz não é a que conheço.

- Desculpe por isso, - diz o indivíduo com um sorriso - é que não pude resistir.

A sala é escura e não enxergo paredes ou qualquer outra coisa. Caio da maca onde estou deitado e carrego uma floresta de fios, tubos e sondas. Não consigo levantar, desabo de cara no chão e machuco o queixo, quase mordendo a língua. Levo a mão ao maxilar e, num primeiro momento, não estranho a ausência de barba. Grito outra vez.

- Calma aí - Diz o homem - Você ainda se machuca seriamente. Vamos esclarecer algumas coisinhas agora - e puxa uma cadeira estofada de curvim preto onde senta com o encosto virado para frente.

- É, padre, eu lhe dei uma segunda chance. Infelizmente, algumas coisas nunca mais serão as mesmas para você - e dizendo isso, tira um estojo compacto de maquiagem de dentro de uma bolsa feminina que está a seu lado, abre e vira o espelho para mim.

Os cabelos em duas cores, castanhos nas raízes e louros nas pontas, emolduram o rosto oval, pequeno - com olhos grandes, castanhos, de cílios longos e boca pequena que, não fosse o hematoma começando a ficar rôxo próximo ao queixo, seria sensual - que está ali no espelho, olhando perplexo para mim.

O corpo, pequeno, mas bem proporcionado, veste um tailler preto-azulado e, na altura do peito esquerdo, um crachá diz:

INTEMPOL
Nível 3
Mariete Reis


Parte dois: Ad Mortem Festinamus
Ernesto Nakamura, 23/01/2002.

Graças a Deus, já fui leitor de Ficção Científica.

Assim, o oficial Carlos "Vira-Lata" Martins economizou horas de explicações. Eles eram policiais do tempo. E eu não deveria ter morrido. E Graças a Deus, eles pretendiam corrigir este terrível erro.

E trocaram minha mente com a da agente. Eu estava tão calmo com tantas revelações inacreditáveis que comecei a desconfiar de mim. E o agente tinha a mania de adivinhar meus pensamentos...

– Não, Padre, você não deveria ter morrido lá, pelo contrário, você deveria ter sido um dos heróis que teriam impedido um massacre.

– Massacre?

– Sim, padre: veja o que não deveria ter acontecido, mas aconteceu, após sua “morte”. A parede se encheu de imagens. Noticiários.

O corpo despedaçado no cimento. Horror. Levei cinco segundos até compreender que via meu próprio corpo, a cena de minha morte. Embora quem morria agora fosse a tal supervisora. Compreendi também que estava drogado para atenuar emoções. Minha mente racional registrava, mecanicamente:

As tropas de choque invadindo o presídio. Mais três reféns arremessados no caos. Fogo.

Os helicópteros registrando o massacre. Execuções em massa.
Cenas de horror exploradas à exaustão pelos abutres televisivos.
Interrupção.

Avanço do noticiário em alguns dias. 1.400 mortos.

– Sim, padre. Mas tem mais: O secretário de segurança, J. R. Flores, assumindo orgulhosamente a responsabilidade pelas mortes. Sua demissão. Sua candidatura a Presidente. Sua ascensão espetacular nas intenções de voto das classes aterrorizadas.

Eleição. Multidões em êxtase marchando com seu nome em bandeiras e cartazes, após anunciar o fechamento do congresso e a prisão e humilhação de todos os políticos opositores" Eu reconheci o padrão.

– Fascismo?

– Muito esperto, padre. Ah, desculpe, vocês da igreja conhecem tudo de totalitarismo, né? Fascismo em tudo, menos no nome. Sim, nas próximas eleições, Flores será eleito. Por seis anos, seu governo assegurará paz e prosperidade, eliminando os descontentes. Depois será derrubado e se descobrirá que seu governo exterminou 22 milhões de pessoas.

– Como Hitler...

– Ah, Hitler não tinha o corpo de publicitários do Brasil! É exatamente isso que iremos impedir!

– Como?

– Bem, alguém que não deveria estar lá estava e empurrou o senhor. Temos que capturá-lo e para isso trocaremos o senhor pelo senhor mesmo, antes do evento, com as informações que estamos lhe passando, para que olhe diretamente quem o matou, assim saberemos também quem foi/será/seria o pretenso assassino e impediremos que tudo isso ocorra. Assim, o senhor será salvo, e, em conseqüência, poupamos o mundo do horror que acabou de testemunhar.

– Olhar? Só isso?

– Sim, padre: instalamos no senhor nosso kit de agentes de campo. Um transmissor de imagens em seus olhos, de sons nas orelhas. Muito, muito pequeno mesmo. O que o senhor vê e ouve, nós também vemos e ouvimos.

– Vocês podem ler meus pensamentos, também?

– Ah, não, padre: esse equipamento é muito caro. Somente pros maiorais...

– Mas..

– Não, padre: Eu não leio pensamentos. Se fosse assim, era só ir lá na prisão e prender o cara, né? É mais simples: sou treinado em metodologia de interrogação do século XXII. Ficamos muito bons em adivinhar o que as pessoas pensam, como reparou..

– Então, é só voltar lá, olhar pra atrás e salvamos o mundo. "E seu emprego também, suponho” pensei comigo. O sorriso cínico do oficial denunciou porque o chamavam de "Vira-Lata"

– Sim, padre, todos se salvam, até os vira-latas.

Nesse mato tinha gato. Parecia fácil demais. O agente era prestativo demais. Pensei no fato da organização ser secreta e ele estar me contando todos os segredos, tão tranqüilamente. Ele percebeu.

– Ora, isso é simples: Primeiro, o senhor é padre e faz séculos que não confesso... Segundo, a partir do momento da correção, tudo que fizemos e falamos se auto-anulará como se nada tivesse ocorrido. Acha mesmo que mandaríamos a supervisora Mariete pra morte? Claro que não! A partir da correção, ela também volta. E sem memórias, pois isso jamais terá acontecido!

– As minhas memórias também somem, quer dizer.

– Exatamente!

Agora fazia mais sentido. Perguntei:

– Bem, se esquecerei tudo, posso ver o que deveria ter acontecido? Queria ver o final feliz...

– Claro! Quem não quer?

A parede iluminou-se outra vez.

O padre refém de novo, momentos antes de cair. Mas não cai. Mais momentos de angústia. Chega o senador do PT, juntamente com outras lideranças dos direitos humanos. Horas de negociação tensa. A rendição dos amotinados. Uma entrevista coletiva com o padre, o senador, o bispo e vários advogados. De repente três sujeitos mascarados aparecem e atiram contra os negociadores.

Tumulto. As cenas do senador com o cadáver do padre em seus braços, tão semelhante às pietás, Maria chorando sobre o corpo de Cristo. São repetidas em todos os canais. As imagens são interrompidas subitamente. O rosto do agente fica pálido, lívido e pálido de novo.

– Ei! Isso... não... Isso também não deveria ter acontecido!

Mesmo drogado, estou chocado demais para compreender tudo que vi. Morri de novo. Vira-Latas aciona algum tipo de alarme. Imediatamente aparecem mais seis oficiais. Registrei: 'apareceram', não vieram. "Alteração cronal em curso! Intervenção imediata!" Eles se entreolham e após alguns momentos de silêncio, desaparecem, um por um, até restar Vira-Lata, que parece estar se esforçando para manter a calma. Percebi que os oficiais se comunicavam sem falar. Obviamente o agente não me contou toda a história sobre a leitura de pensamentos. Sorri, de maneira forçada.

– É, seu padre, como eu disse, somente pros maiorais. Acho que fomos limpar uma cagada e caímos na fossa...

Parte três: "E agora, José?!..."
Cláudio Figueiredo, em 26/01/2002.

Hospital Miguel Couto. Início de uma tarde.

Lembro de uma enfermeira setentona comentar que não entendia como a arquidiocese aceitava padres assim.

Pudera, nas longas semanas desde que acordei do coma a coisa mais suave que elas ouviram sair da minha boca foi um sonoro "merda".

Aos poucos a revolta foi passando e retomei a razão, mas o fato de sentir bagos entre minhas pernas era algo que sabia que nunca ia me acostumar nem esquecer.

Lembrei, amaldiçoando, as últimas palavras do cachorro do "Vira-Lata":

- Esquenta não, você não vai lembrar de nada. Pra garantir já vou deixar teu crachá Nível 5 aqui... Bem perto desse coraçãozinho.

E sem poder reagir, já sob os efeitos dos psicronotrópicos, senti o filho da puta apalpar aquilo que um dia tive de mais bonito.

Felizmente meu coma era desculpa suficiente para eu não lembrar de bispo, arcebispo ou qualquer um dos padrecos com quem "eu" estudei em uma porra da igrejinha de interior...

Embora tudo aquilo me enchesse o saco (sem alusão à minha atual condição biológica), o que mais me intrigava era a pergunta que eu não queria realmente fazer mas na minha atual situação era inevitável:

- Por quê eu não morri?

Segundo o viado do Carlos "eu" deveria morrer e então voltar. Nem lembraria de nada sobre esta merda toda.

Mas nada disso havia acontecido.

O que a gente não faz para subir na vida, pensei.

A situação apavorava a maioria dos agentes, mas para alguém com um pouco mais de visão transtemporal isso não seria empecilho. Embora o fato deles pedirem um voluntário soasse muito estranho a todos ali, a chance de entrar para o time do Nível 5 era algo que eu não poderia deixar escapar, ainda mais já entrando como supervisora. Me livrar daqueles otários... ser uma "manda-chuva", afinal!

Ambiciosa... como me chamava, com um sorriso malicioso, o tarado professor Torres no colegial.

Vagabunda... como diria, com o ódio do álcool no olhar, meu finado pai.

Além do mais não era todo dia que alguém, mesmo no nosso ramo, tinha a chance de morrer e voltar.

Concordando com todos e esperando me livrar daquela situação o mais rápido possível, consegui convence-los de que meu estado era ótimo graças a todas as orações de todos os irmãos e tudo o mais que eu pude lembrar que se associasse a um padre.

Senti um certo arrependimento em matar as aulas de catecismo para dar "umas" com um dos coroinhas, mas fazer o quê?

Agora era tarde demais. E mesmo não falando lé com cré, creio que eles acharam que o melhor mesmo era me tirar dali.

A primeira coisa que pensei ao deixar o hospital foi:

– Sempre quis virar popstar, mas nunca assim!"

A multidão de jornalistas que se acumulou nos instantes seguintes dava para cobrir uma copa do mundo.

Soltei um grito agudo (ou ao menos deveria ser), que fez que muitos duvidassem se o pobre padre não seria uma freira.
Mas depois de tanto tempo em cima de uma cama e com meu futuro/passado fodido nada mais importava a não ser dar um jeito de voltar.

Já no carro puxei uma conversa leve, dizendo que queria saber o que havia acontecido durante meu tempo de coma. Seis meses!

Aqueles beatos devem ter se assustado com o veemente "putaqueopariu", mas creio que foram tolerantes o bastante para alguém que havia ficado tanto tempo entre a vida e a morte.

No meio da minha perplexidade comecei a indagar o que havia saído de errado. Por que ninguém tinha vindo me buscar.
Para alguém acostumado a pensar de maneira atemporal como uma agente nível 4 (ou 5 se eu voltasse e aquele safado do Carlos não tivesse me jogado num engodo), isso era inadmissível.

Ou algo tinha saído muito errado ou eu tinha me metido em uma fria homérica.

Qualquer uma das opções agora não era mais tão importante quanto ha alguns segundos.

O baque pareceu ter surtido efeito. Recobrei a clareza e comecei a colocar os pensamentos em ordem. Sem um cartão e uma caixa eu estava presa (ou preso) e sem nenhuma maneira de voltar... ou não?!

De súbito pedi que me levassem à Candelária pois queria rezar para uma santa que escolhi ao acaso.

– Santa Ana – disse.

– Sant'anna!? – retrucaram como que intrigados.

– Isso! – reafirmei.

Mesmo contrariados, meus companheiros de celibato (isso soaria muito engraçado aos ouvidos de quem me conhecesse) me encaminharam até a igreja.

Não conhecia nenhuma mais perto da Av. Rio Branco, meu real objetivo.

Após termos começado a orar agradecendo as graças da minha cura (essa ao menos foi sincera), aleguei uma indisposição e saí porta afora. Era início da segunda década do século 21.

Já sabia da fachada que a Empresa mantinha em um edifício no centro do Rio, e era óbvio que nesse período essa fachada já estava operacional. A questão era, como acionar a Empresa ao chegar lá? Entrando no prédio, pomposo para os padrões da época, me deparei com á dúvida.

E num misto de sem saber o que fazer e desespero me apresentei ao recepcionista.

– Supervisora nível 5 Mariete Reis, eu gostaria de entrar em contato com escritório da Empresa.

Para minha surpresa o senhor de aproximadamente sessenta anos de idade, não achou nada estranho a minha afirmação, principalmente vindo de um padre barbado.

– Pois não senhora Mariete, alguém já estava a sua espera.

Após um telefonema e alguns minutos, nova surpresa: apesar de ser mais do que óbvio que essa seria a situação, não acreditava que aquele puto tivesse a cara de pau de aparecer na minha frente.

– Carlos, seu desgraçado, não acr...

Antes que pudesse completar qualquer que fosse a frase, a imagem que veio a seguir me emudeceu.

Caminhando atrás do Vira-Lata estava uma bela mulher dentro de um tailler preto-azulado.

Antes que eu pudesse recobrar os sentidos fomos apresentados:

– Mariete, padre Pedro; padre Pedro, inspetora Mariete.

E senhores, ou devo dizer senhoras, como podem perceber estamos com grandes problemas.


Parte quatro. "Não Estamos Sós"

Artur Vecchi, em 30/01/2002

O efeito das drogas que injetaram em meu novo corpo já estava indo embora e isso me permitia começar a pensar no que me havia acontecido. Tudo muito estranho. Pensei em orar ao Pai pedindo forças para vencer essa situação terrível, mas logo desisti. Se Ele me deixou cair nesse tipo de desgraça era porque já não havia salvação para minha alma e este era meu inferno particular.

Fazia sentido, então, estar preso em corpo de mulher. Muitos sentidos.

Visão, audição e, principalmente, tato.

Foi quando percebi um peso no peito e ao mesmo tempo uma sensação de contrição. Olhei pra baixo e vi meus seios apertados por um sutiã. Passei a mão neles. Senti algo que não devia.

- Minha santíssima Nossa Senhora, protegei-me, não me deixe pecar! Olhei para baixo para onde sentia um vazio...

Recapitulando: há alguns minutos, eu era um padre dando extrema-unção em um presídio de segurança máxima, até ser pego como refém e morto por uma rebelião. Fui salvo por um agente de uma tal Intempol, que disse ter trocado minha alma com uma supervisora Mariete. Também comentou algo sobre policia do tempo e aquilo não ser o meu futuro e, então, pedi para saber qual seria meu destino e vi que seria morto novamente.

Seguiu-se uma confusão que não compreendi totalmente apesar das pilhas de livros de ficção científica que li. O agente Carlos pediu licença, falou em algo como esgoto, fossa, digitou alguns números no que lembrava uma pequena caixa, passou um cartão e seu corpo pareceu piscar no espaço. Num momento ele está presente, no outro não está mais, e, por fim, está novamente, mas sua aparência é ligeiramente diferente de segundos antes. Algo descabelado, amarfanhado.

Sem entender direito o que aconteceu, ouço o Agente Carlos perguntar.

- Olá outra vez, padre Pedro. Demorei muito? Tive de dar um pulinho ontem para me certificar daquilo que assistimos na projeção. Nem sempre as coisas são o que parecem. Aliás, aqui, nunca são! Vamos precisar adiantar nossos planos e você me acompanha na reunião que teremos agora.

- N-n-não... gaguejei ainda desconfiado de minha nova voz aguda.

- Espero que esteja confortável aí na Mariete, porque vamos partir imediatamente. Uma das coisas que me incomodam em trabalhar para a Empresa é que a gente nunca tem tempo pra nada - exibiu um sorriso amarelo, como se o que disse tivesse alguma graça. Empurrou-me por uma porta até um corredor branco e imenso, cheio de pessoas vestidas como ele, com ternos pretos ou azuis muito escuros - Gostaria explicar algo que não falei anteriormente: além da Empresa aqui existem alguns grupos que também possuem tecnologia de viagem no tempo. Alguns optam por versões de nosso maquinário, mas tem uns sujeitos... ah... tem uns caras que usam coisas realmente do outro mundo!

- E o que eu tenho a ver com isso? - perguntei, esperando que a resposta fosse "nada", enquanto era empurrado no meio daquela multidão em vai-e-vem descontrolado.

- É que eu lancei mão de tecnologia ilegal para te transportar para o corpo da Mariete e parece que os caras de quem peguei emprestado esse equipamento estão meio aborrecidos.

- Mas por que você está me contando isso?

- Bem, é que o agente Carlos caiu numa armadilha e não resistiu. Morreu depois de passar os seus últimos anos no corpo de um tetráplegico surdo-mudo - Carlos apertou meu braço com força redobrada, enquanto acelerava os passos, quase correndo em direção a uma das inúmeras portas existentes no corredor.

Começo a ficar assustado e tento resistir à força do homem que disse se chamar Carlos. Mas faço isso ainda tendo em mente meu corpo original. O resultado é nulo e continuo sendo empurrado até entrarmos em uma outra sala, desta vez, branca e cheia de pessoas vestindo macacões amarelos, aparentemente muito pesados. Todos me encaram sem surpresa assim que adentro a sala. Carlos fecha a porta atrás de mim e fala:

- Padre Pedro, bem vindo à nossa célula infiltrada! Aqui a gente resolve todas as cagadas históricas - de um jeito ou de outro. E o melhor é que os donos da casa nem sabem que estamos aqui!

Os homens de macacão amarelo dão uma gargalhada em uníssono e meu companheiro continua a falar, com um tom sibilante.

- Para um "cavalo morto", até que você é bem esperto padre. Na verdade o meu codinome é Companheiro Falcon e você saltará comigo. Os companheiros Bob e Ken ficarão nesses corpos, esses "cavalos", em nossos lugares e darão prosseguimento ao plano.

O agente Carlos que não é o agente Carlos, muda o foco de sua atenção para o próprio pulso e fala algo em seu relógio:

- Barbie dois para saltar...

E então percebo que não estou mais na sala branca.

Avenida Rio Branco, nº1. Centro, Rio de Janeiro, RJ.

No meio do corredor branco, entre dezenas de agentes da Intempol, um casal se encontra frente a frente.

- Vamos, Ken? - pergunta o homem - Temos um encontro com a verdadeira Mariete no corpo do padre Pedro. Toma ai o seu cartão - e passa furtivamente, mas com certa violência, um cartão cronal para a mulher.

- Calma aí, porra! Num apressa, não! Você sempre fica com a melhor parte. Por que sou sempre eu que pego esses corpos de mulher? Eu odeio ter que mijar sentado. Não é você que está tendo que andar de saia e salto alto. - e apontando para a perna, completa - Viu só? A meia calça está desfiando!

O homem ignora os resmungos femininos e saca seu próprio pedaço de plástico prateado.

Os cartões cronais são passados em suas respectivas caixas e os dois companheiros desaparecem apenas para ressurgir na segunda década do séc. XXI, prontos para o encontro com a supervisora Mariete, presa dentro padre Pedro.


Parte 5 - Mercúrio e Vênus
Alexandre Mandarino, em 07/02/2002

O silêncio tomava todo o cômodo. Carlão adorava aquele lugar. Podia ler, escrever, pesquisar, jogar e desenhar em paz. Isso quando não estava tentando arruinar os planos da polícia temporal. Mal veio à sua mente a brevidade de seu descanso e o telefone tocou.

- Sim, a-gente Carlos Silva falando. O que é agora, Henrieta?

Uma voz aguda - transformada em algo ainda mais estranho pela péssima qualidade da linha telefônica - respondeu do outro lado:

- O que mais pode ser, Carlão? Mariete e o padre Pedro, claro.

- De novo? Isso já está ficando ridículo.

Carlos fechou o livro que estava lendo (um dicionário ilustrado de mitologia grega - droga, e logo agora que ele estava lendo sobre o filho de Mercúrio e Vênus), vestiu o casaco e caminhou até a porta. Minutos depois, estava na sala do Assíncrono. Respeitosamente, entrou e sentou-se em frente à mesa do ancião.

- O que aconteceu, senhor?

- Mariete e o padre Pedro ainda estão vivos. O que mais poderia ser? - respondeu o velho, com um sotaque carregado. Avi Alamed era o Assíncrono há tanto tempo que nem mais se lembrava de como havia começado. E, para ele, era uma perversa ironia sofrer a passagem do tempo.

- Mas... como? - espantou-se Carlão. - Senhor, eu fiz o possível, fiz de tudo para que os planos dos agentes temporais fossem por água abaixo.

- Eu sei. E até arrisco afirmar que a Intempol nem precisaria de nossa "ajuda" para fracassar. Mas, como sempre, a empresa está acertando, mesmo que por razões completamente fora de seu controle.

- É sempre assim com eles, senhor. São corruptos, ignorantes e trapalhões, mas acertam. Sei lá como, conseguem ser bem-sucedidos em algumas missões.

- Caos. - respondeu Alamed. - Eles dão sorte com o Caos. Mas isso não pode durar, sabemos que não. O padre Pedro deveria ter morrido. A Intempol afirma que sua morte foi um engano, mas isso é ridículo. Não existe o tempo. Logo, não existem enganos.

- Tentarei novamente, senhor. Fiz tudo ao meu alcance para que as tentativas anteriores de "consertar" a trajetória temporal do padre dessem errado. Ainda assim, ele continua vivo. Como eu disse, a Intempol acerta mesmo quando erra.

- Já ouvi, a-gente. - disse Alamed, irritado com o elogio involuntário à organização rival. - Mas, como disse, sorte e acaso são facilmente revertidos. Você é um dos nossos melhores a-gentes, Carlos. Faça o que sabe fazer. O padre Pedro deveria ter morrido. E a meretriz barata que trocou de corpo com ele deve ser despachada também. É um bom recado para a Intempol. Parta, Carlos, e volte com boas notícias. Tente de outras maneiras, mude a abordagem, sei lá. Mas tenha sucesso. Tempus Fugit.

- Tempus Fugit.

O agente temporal Weber Souza olhou para o rosto do padre Pedro. Quer dizer, olhou para os olhos da superintendente Mariete. E suspirou.

- Bom, não sei por quê tive que herdar essa trapalhada final do Vira-Latas, mas vamos lá. Mariete, você deveria morrer - em cronossimulação, claro - no lugar do padre. E continua viva, no corpo dele. Padre Pedro, o senhor deve permanecer vivo. Mas, por mais que tentemos, tudo dá errado e o senhor embarca em uma realidade onde sempre morre. Chega. Não adianta manter esse padrão de ação. Me chamaram para resolver essa situação de vez.

- Graças ao Senhor, agente Souza. - disse o padre Pedro. - Não sei se suportaria me ver "morrer" mais uma vez.

- Porra, tá reclamando de quê, padre? Quem tá morrendo sou eu - corrigiu Mariete.

- Sim, madame, mas no meu corpo.

- OK, chega - interviu Weber. - Não adianta ficarem discutindo. Vou resumir os novos planos: voltaremos para a realidade principal (se é que podemos chamar aquela zona assim) e tentaremos resolver tudo por lá. Padre, o senhor continuará no corpo de Mariete, enquanto ela "morre" no seu lugar. Depois de tudo resolvido, vamos esperar a poeira baixar e depois destrocamos os corpos.

- Graças a Deus! - exclamou Pedro.

- Ué, tá reclamando de quê, padre? Eu sou nova, o senhor pode se divertir muito aí nessas carninhas. Pior sou eu, que tô aqui nessa carcaça. Já pensei em tudo, até em mulher, pra vocês terem uma idéia do meu desespero, mas não consigo fazer esse negócio subir. Padre, o senhor...

- Chega, Mariete! - gritou o agente Weber - Chega! Isso não tem realmente a menor importância!

O silêncio voltou à sala. Afinal, Weber Souza era um Nível 5. Mariete achou melhor ficar quieta. Era Weber quem iria fazer a morte do padre Pedro, quer dizer, a sua morte no corpo do padre Pedro, "desacontecer" - se tudo desse certo dessa vez. Weber limpou a garganta e disse:

- Bom, voltando aos planos. Mariete, você "morre". E vai morrer, porra, nem que nós tenhamos que subir pessoalmente naquele maldito muro daquela prisão de merda, amarrar uma bigorna nos seus pés e jogar você lá de cima. Essa missão simplesmente não pode sofrer mais nenhuma falha! Não pode, entendeu?

- Tá, eu tento morrer dessa vez, ué. - Mariete deu de ombros.

- Continuando: depois disso, damos um tempo pras ondas se acalmarem e destrocamos os corpos. Aí o padre Pedro pode voltar à sua vida normal, na realidade de onde veio, só que em um momento acrítico.

- Ahhh... - interrompeu o padre, gemendo. Seu rosto estava pálido como uma vela. - Acho.. acho que fui atingido na última tentativa. Vejam... estou sangrando. - Mal terminou de falar, padre Pedro levantou a mão direita. Seus dedos estavam cobertos de sangue escuro, quase negro. Mariete levou às mãos ao rosto e disse:

- Padre, o senhor me surpreende. Que dia é hoje?

- Eu não sei, mal posso dizer em que ano estamos após toda essa balbúrdia que me fizeram passar, como posso saber que dia é hoje? - respondeu padre Pedro.

- É dia 21 - respondeu Weber - O que isso tem a ver?

- Tem a ver que é melhor levarmos o padre até a enfermaria. - disse Mariete - Com certeza eles têm O.B. por lá.

Carlão caminhou pensativo pelos corredores. Estava começando a se irritar com essa missão. Dessa vez, o padre e a tal agente morreriam. Ponto. Não haveria erro. Voltou ao quarto e pegou a maleta. Abriu-a e conferiu. Estava tudo lá: a cópia clonada do cartão cronal, a máquina registradora de engenharia reversa criada pelo Assíncrono, tudo. Mas resolveu utilizar outra abordagem, como Alamed havia aconselhado. Afinal, se queria se firmar como uma organização atemporal, a Tempus Fugit precisava de mais algumas intervenções bem-sucedidas. Foi quando Carlão olhou para a capa do livro sobre a sua mesinha de cabeceira.

- Bom, o negócio é o seguinte - disse Weber - Estamos tentando lidar com isso em linhas paralelas de tempo. Por isso está dando errado. Tive uma idéia, que já deu certo anos atrás, no caso do Coala de Cristal. Vamos usar linhas perpendiculares. É difícil, mas já pedi aos homens de branco e o Geômetro em pessoa vai cuidar de tudo. Ele desenhou as novas linhas e já alimentou o banco de dados central com elas. É só passarem seus cartões cronais nos alimentadores e eles serão reprogramados com o novo trabalho do Geômetro. Mole. Tudo foi checado e rechecado, visto e revisto. Não tem como dar errado dessa vez.

- Só não vão esquecer de me "desmatar", hein? Já basta morrer antes da hora, ainda mais morrer nesse... ah, esquece - disse Mariete.

- Mariete, minha querida - disse Weber. - Entenda: não vou esquecer de trazer uma mulher tão adorável de volta à vida. Fique tranquila.

- É, diz isso pro Jonas. - emendou Mariete. - O cara entrou nessa naquela confusão toda do Moriarty e agora ninguém na Intempol nem sabe se o cara morreu mesmo ou não. Nem tem como trazer o cara de volta. A merda foi tanta que nem sabem se algum dia ele chegou a existir.

- Aquilo foi uma exceção, Mariete. Vamos, o Geômetro está nos esperando.

Enquanto caminhavam, padre Pedro fez o sinal da cruz. Que aquele Calvário terminasse, enfim.

Mal entraram na sala e o Geômetro pediu que se sentassem.

- Bem, creio que este imbroglio terrível se conclui aqui - disse o cientista. - Mariete, Weber me disse que tem dúvidas quanto à eficácia desta missão. Dê uma olhada no cronomapa digital: as linhas perpendiculares são você e o padre Pedro. Você voltará para a prisão, mas já em pleno ar. Cairá no chão e "morrerá". Padre Pedro, desta vez o senhor ficará bem longe. Enquanto Mariete morre, Weber e eu o enviaremos para o mesmo momento, só que em uma linha temporal perpendicular. Não tem como dar errado.

- E como é essa linha perpendicular? - perguntou o padre Pedro.

- Bem... - pensou o Geômetro. - Não podemos afirmar com certeza. Mas é uma realidade na qual o senhor e Mariete não existem. Tudo foi planejado nos mínimos detalhes. Somente após a morte de Mariete o senhor voltará para a nossa realidade, mas longe da prisão. Seu cartão cronal já está pré-programado para isso. O máximo que sofrerá será uma leve amnésia. Talvez não se lembre das últimas seis horas, mas isso é tudo.

- Bem, - o padre respirou fundo. - que Deus nos abençoe desta vez.

Estalando, o cartão cronal clonado de Carlão Silva deixou o a-gente na sala do Geômetro. Em uma frequência ligeiramente mais atrasada que a vigente na base da Intempol, Carlão não podia ser visto. Mas seus aparelhos funcionavam. As palavras do Geômetro chegavam como ruído branco aos seus ouvidos:

- Bm, cr q st mbrgl trrvl s cncl q. Mt, Wbr m dss q tm dvds qnt fcc dst mss. D ld n crnmp dgtl: s lns prpndclrs s vc o pdr Pdr. Vc vltr pr prs, ms j m pln r. Cr n c "mrrr". Pdr Pdr, dst vz snr fcr bm lng. nqnt Mrt mrr, Wbr nvrms pr msm mmnt, s q m m ln tmprl prpndclr. N tm cm dr rrd.

Carlão abriu a maleta e pegou seu Verme Rearranjador. Mais uma das criações do Assíncrono. Posicionou a pequena caixa de metal embaixo do servidor que mostrava as linhas perpendiculares. Girando o dial lentamente, Carlão moveu as duas linhas até que se tornassem curvas. Então, fez a linha da direita girar alguns graus e, voilá: uma perfeita interseção. Guardou o Verme em uma maleta e, enxugando o suor da testa, saiu da sala.

Sob as ordens do Geômetro, a equipe de viagens enviou Mariete e o Padre Pedro para seus destinos. Weber olhava toda a operação, com um ar sério. Geômetro, com um ar tranquilo, abriu a boca para falar algo, mas a Cartógrafa-Assistente Marta começou a gritar:

- Não é possível! Senhor, veja isso. As câmaras de recepção estão brilhando. Eles estão voltando para cá!

- Não pode ser - espantou-se o Geômetro, enquanto Weber arregalava os olhos - Isso está errado. Eles só voltariam para cá se suas realidades de destino não existissem, mas elas existem. Checaram os cronolábios?

- Sim, senhor - disse outro assistente - Está tudo certo.

- Senhor - interrompeu a assistente Marta. - Está terminado. Eles voltaram.

Abram as câmaras - ordenou o Geômetro.

Marta correu para a câmara 614. Rodou a fechadura, abriu a porta e... nada.

A câmara estava vazia.

- Meu Deus, Geômetro - berrou Weber. - Não vai me dizer que o padre Pedro morreu.

O outro assistente abriu a câmara 615. Lá estavam eles. Quer dizer, lá estava ele.

Ou ela.

Uma figura magra e alta, de cabelos compridos, saiu da câmara. Vestia o avental branco que se ajustava automaticamente a quem retornava das missões. Mas foi quando ela falou que todos se arrepiaram:

- O que aconteceu comigo? - disse uma voz que alternava entre o agudo e o áspero - Puta que pariu / Meu Deus, o que vocês fizeram?

Os cabelos compridos e grisalhos balançavam enquanto a figura, em desespero, se movia. Weber estava paralisado, de boca e olhos arreganhados.

Geômetro finalmente disse:

- Não... acredito...

- Senhor, os dois foram reescritos. - Disse a assistente Marta. - Pelas leituras cronais, o padre Pedro nunca existiu, tampouco a superintendente Mariete. Somente esse ser existiu, em todas as realidades.

- Senhor/Caralho, vocês juntaram a gente/nos juntaram em um só ser/na mesma merda. Cristo/Não tô crendo, eu não consigo parar de pensar nessas obscenidades/merdas de cristão cagão.

Quando Weber começava a pensar no que fazer, a porta se escancarou com força. Tiros de Uzi varreram a sala. Os últimos pensamentos do agente Souza foram para a sua filha. Geômetro ainda tentou calcular a trajetória da bala que explodiu na sua testa. Marta e o outro assistente caíram ao chão, cobertos de buracos. Padre Pedro/Mariete abriu/abriram a boca de espanto e se abaixaram com medo.

- Pelos Milagres do Senhor / Merda, agora fodeu de vez, quem é você? Você matou todos eles / todo mundo.

- Sou um a-gente. Tempus Fugit! E vocês agora são o filho de Mercúrio e Vênus, o rebento de Hermes e Afrodite. E vão morrer com um teco na cabeça. Repitam comigo: o peito do pé do Padre Pedro é preto.

Parte 6 - Boca
Octavio Aragão, em 14/11/2008

Meio-dia no pátio da penitenciária Bangu 2. Sol a pino.

O Boca está sozinho num canto esperando o contato. Um dos guardas se aproxima e estende o pacote. Boca tenta pegar, mas o guarda afasta a mão antes do bandido relar o dedo no papel amarrado com barbante.

Depois, lentamente, o guarda aproxima o pacote mais ou menos do tamanho de uma caneta até as mãos ávidas do detento.

- Tá aqui. Vê lá o que vai fazer, seu merda - disse enquanto disfarçava, olhando por cima do ombro.

- Não fode, babaca - respondeu Boca - Já recebeu a tua, né, não? Então não se mete e some daqui antes que eu dê um jeito com os home e tu acabe com a boca cheia de formiga.

O guarda arreganhou os dentes e ameaçou puxar o cassetete.

- Vai, - desafiou o Boca - tenta me acertar aqui, eu com essa parada na mão, vai! - e, diante da desistência do adversário, completou sussurando entredentes:

- Cagão. Tu é um merda, mermo.

- Dia desses a gente se acerta, Boca - disse o guarda enquanto se afastava.

- O que é teu tá guardado.

Boca riu. Um riso reto, parecido com a lâmina que tinha agora em mãos, escondida dentro das calças e ainda embrulhada no papel.

- E o que é teu tá guardado aqui, ó - e apontou para a própia virilha.

***

A mensagem no papel era simples e direta.

Pega o padre. Quando chegar a hora, mata duas freiras, mas segura o sujeito. Leva pro muro, mas não deixa ele cair de jeito nenhum

Não tinha assinatura, mas era como se tivesse. Quem escreveu aquilo usou batom vermelho em papel jornal. Foi a mulher loura com quem falou no dia anterior, prevenindo-o a respeito da rebelião que aconteceria na manhã do dia seguinte, quem mandou a mensagem. Ela era bonitona, a vadia. Ele não imaginava quais os motivos para a rebelião, mas sabia que iria entrar numa grana preta, além de assumir o comando das operações internas do presídio, já que o Gordo e o Dedé - atuais chefes do morro de São Carlos - partiriam desta pra melhor, segundo o combinado. Parece que "poderes maiores" estavam de olho na estrutura interna de Bangu 2, e, principalmente, na grana gerada pelos "empresários internos". A rebelião seria a desculpa perfeita para trocar os atuais chefes internos pelos "agentes" dos graúdos, que pareciam ser gente da alta, engravatados e tudo mais. A mulher foi bastante clara... garantiu que ele não se arrependeria de ajudar e que os caras da... como era mesmo? Mendigo? Mastigo? Maguito? Sei lá, uma porra dessas... não esqueciam de quem colaborava direito.

À noite, as coisas começariam a seguir seu rumo.

Os celulares tocaram anunciando a explosão que matou o Gordo e a execução de Dedé,, em plena Avenida Sapucaí, durante o desfile da Estácio. O Boca era o líder da rebelião no presídio a partir daquele momento.

Foi quando um dos guardas botou a mão em seu ombro e disse num tom que apenas ele pôde ouvir:

-Te cuida, moleque. Até agora foi fácil, mas o caldo vai engrossar pro teu lado.

Antes que Boca pudesse responder alguma coisa, o cara sumiu. Desapareceu mesmo. Boca sentiu que seu intestino se rebelava, mas conseguiu controlar. A rebelião estourou conforme o combinado, mas o novo rei não estava mais tão certo se queria o trono.

***

No dia seguinte foi um alvoroço.

Tudo correu como esperado: os religiosos chegaram, foram feitos prisioneiros e começou o incêndio. Até o fim daquele dia, os chefes do crime organizado que se encontravam presos nas penitenciárias do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais obedeceriam a um comando central unificado, presidido pela Meggido Incorporações. Era o começo de um novo futuro. Terrível, mas novo.

Para o Boca, porém, havia um detalhe que parecia fora do lugar.

Todos os reféns eram freiras.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Um Cara Decente: um conto de Osmarco Valladão

PHOENIX, ARIZONA
DEZEMBRO DE 1960

A entrada era um buraco de meio metro, espremido entre as lojas e o restaurante que ocupavam o térreo do prédio. A escada começava praticamente na calçada. Num quadro de avisos colocado à esquerda, além dos rabiscos habituais informando sobre os hábitos sexuais dos ocupantes, um cartão confirmava o endereço que eu procurava. Mas desta vez eu não precisei olhar.

A escada ensebada me deixou num corredor comprido, paralelo à rua lá embaixo. Caminhando para a esquerda, a porta que eu queria era a terceira, a que fica em frente a uma barata morta e tem um vidro fosco onde pode se ler, em letras que um dia foram douradas, "MILTON ARBOGAST - DETETIVE PARTICULAR".

O telefone do Sr. Arbogast, lá dentro do escritório, começou a tocar. Bem na hora. Eu sabia que o Sr. Arbogast não estava lá para atender. Eu tinha visto ele sair uns minutos antes para tomar uns drinques com um velho conhecido, um certo Sr. O'Malley, de Los Angeles. Eu era o sujeito do outro lado da rua, atrás de um jornal.

Do outro lado da linha, esperando o Sr. Arbogast atender, estava um texano rico e arrogante chamado Cassidy. Ele não era do tipo que esperaria muito por ninguém, muito menos por um detetive de segunda como Arbogast.

Saquei a pistola e atirei duas vezes na fechadura. Talvez isso atraísse algum curioso, mas um prédio daqueles habitualmente tem mais surdos do que curiosos. Atravessei a salinha de espera, abri a porta interna e alcancei o aparelho.

- Arbogast falando.

Segundo as informações que eu tinha conseguido, o tal Cassidy nunca tinha falado antes com Arbogast, mas eu não confiava inteiramente nas minhas fontes. Só podia esperar e torcer.

- Meu nome é Cassidy, Senhor Arbogast. Lowery me falou do senhor.

Peguei minhas anotações para poder dizer alguma coisa sobre o tal de Lowery que confirmasse que eu o conhecia. Era o que o tal Cassidy esperava, e pareceu ficar satisfeito.

- O senhor estaria disponível este final de semana para um trabalho fora da cidade? É um assunto urgente.

Eu havia acabado de salvar a vida de Arbogast.



Um camarada de branco apareceu na porta do escritório no momento em que eu limpava o telefone com meu lenço.

- T... Tudo bem? Eu pensei ter ouvido um tiro.

Levantei e dei uma olhada me volta. Tudo parecia no lugar. Me aproximei do sujeito de branco e mandei meu Sussurro Ameaçador Especial.

- E ouviu mesmo. Quer ouvir outro?

O homem ficou quase da cor da roupa. Moveu a boca, mas não conseguiu que nada saísse por ela. Passei por ele a caminho da porta, parando um instante para murmurar no seu ouvido.

- Isso não aconteceu.

Ele deve ter balançado a cabeça um milímetro, se tanto, mas por enquanto servia.
Saí do prédio e virei a primeira esquina que encontrei. Não podia me arriscar a encontrar Arbogast e O'Malley. Parei um táxi e pedi que me levasse ao endereço que Cassidy me deu. Julgando ter contratado Arbogast, ele não mandaria mais ninguém. Inventei um compromisso qualquer para convencê-lo a deixar o envelope, com as fotografias, na portaria do edifício onde sua companhia de petróleo ocupava um andar inteiro. Isso encerraria meus assuntos em Phoenix.

A tal de Crane parecia uma artista de cinema, e eu sei do que estou falando. Trabalhei em Hollywood por algum tempo. Devolvi as fotografias ao envelope e o envelope ao meu bolso. Tinha mais o que fazer no momento.

O próximo lance era em Fairvale, daqui a alguns dias. Pedi ao motorista do táxi que parasse assim que avistei um beco que me pareceu deserto o suficiente.

Assim que o táxi sumiu de vista, entrei no beco e me encolhi no vão de uma porta, de um jeito que eu não poderia ser visto nem da rua, nem das janelas acima. Peguei a caixa e o cartão.




Eu sabia que Fairvale era um buraco daqueles que na placa de entrada deveria estar escrito "desculpe" e não "bem-vindo". Alguns anos atrás tinha visto seus dias de glória, parasitando uma rodovia com postos de gasolina e motéis. Mas agora havia uma nova inter-estadual que passava longe da cidade, que assim havia perdido sua fonte habitual de renda, constituída de caminhoneiros e turistas de passagem. Provavelmente se tornaria rota de contrabando, com os postos de gasolina se associando a bordéis e os motéis se tornando esconderijos, se não acabasse antes. Mas ainda faltavam alguns anos para isso.

Por enquanto Fairvale simplesmente fazia de conta que nada estava acontecendo, e faria isso enquanto pudesse. As cidades são como as pessoas.

Eu não podia simplesmente aparecer num lugar desses sem um carro. Sentado numa pedra no deserto, longe da estrada, verifiquei um mapa e descobri uma revenda de carros usados algumas milhas antes da cidade.




Frank não tirava da cabeça a garota loura. Ela estava fugindo de alguma coisa, isso era certo. E não era nenhuma profissional, uma criminosa calejada não iria estar tão amendrontada daquele jeito. A garota estava tão angustiada que Frank teve medo dela ter um ataque bem ali na sua frente. Mas isso não era problema de Frank. Era para isso que os policiais recebiam seu salário, não os mecânicos. Os mecânicos recebiam para consertar automóveis ou, como no caso de Frank, examinar os carros que Charlie queria comprar. Como bom vendedor, Charlie farejou logo, no desespero e na ingenuidade da moça, a oportunidade de um bom negócio. Conseguiu uns trezentos dólares a mais na troca do carro dela por um dos seus.

Para ficar tudo perfeito, era só Charlie pôr uns números diferentes nos livros e eles poderiam ficar com algum e Charlie ainda receberia uns elogios do patrão pelo excelente negócio.

Só que aquele policial apareceu perguntando sobre a moça, e não gostou nem um pouco quando soube que Charlie não tinha verificado seus documentos. O filho da puta tinha chegado a insinuar que o alto valor do negócio era um tipo de suborno. E recolheu o dinheiro para verificar os números de série com o FBI. Claro que ele assinou um recibo e tudo mais, mas agora Charlie não poderia modificar o valor e teria sorte se não fosse demitido.

Isso tinha estragado toda a sua semana, e Charlie tinha descontado seu mau-humor em Frank. Toda noite Frank olhava com alívio o carro de Charlie se afastando, trancava tudo e voltava para a garrafa que o esperava no quarto, nos fundos da oficina, onde vivia em troca de também fazer o papel de vigia noturno. Normalmente ele se embebedava até dormir.

E foi essa a história que Frank contou para Charlie, no dia seguinte, e depois para o patrão e depois ainda para a polícia. Ela não explicava porque Charlie tinha encontrado Frank amarrado em seu quarto, trancado pelo lado de fora, e nem como um carro havia desaparecido.

Aliás, o carro sumido era o da moça loura.





FAIRVALE, ARIZONA
ALGUNS DIAS DEPOIS

O sujeito que eu procurava trabalhava num daqueles armazéns nos limites da cidade que tem de tudo para propriedades rurais, menos vacas.
Cercado de ferramentas e sacos de ração, suando no meu terno escuro e sentindo a serragem entrar pelas minhas narinas, pedi uma cerveja gelada para o garoto de macacão que me atendeu.

- Cerveja não tem.

- Então me dá qualquer coisa. Pode ser soro para veneno de cascavel, se estiver gelado.

Ele teve a audácia de perguntar se eu tinha sido mordido. A pequena Mary, a filha do pastor, ia ter que arrumar outro débil mental para passar as tardes de domingo tentando pegar nos seus peitos.

A entrada da moça salvou a vida dele. Como eu, ela estava vestida para a cidade, e não para aquele fim de mundo. Tinha mais gosto do que dinheiro, mas o conjunto funcionava. Mas não foi sua aparência que me fez prender a respiração, embora ela bem que merecesse. Tirando os cabelos, que tocavam os ombros, era moça da fotografia no meu bolso. A tal Crane.

O garoto olhava para ela indeciso entre um estupro e uma experiência mística. Fiquei imaginando o que é que eles chamavam de mulher por ali.

Ela sorriu para ele e perguntou por Sam Loomis. Achei que ele fosse desmaiar, mas se refez a tempo e gritou lá para dentro, para o Sam, que tinha uma dona procurando por ele.

O sujeito que saiu lá de dentro tinha a altura e os ombros de um jogador de futebol profissional. Usava jeans e botas de cowboy. Devia ser o sonho dourado das meninas locais. Fez uma expressão estranha quando olhou para a moça, mas só por um segundo, e depois sorriu.

- Pois não?

A moça suspirou e assumiu uma expressão decidida.

- Eu sou a irmã de Marion.

- É claro! Lila!

O sorriso de Sam ficou do tamanho de uma porta de garagem dupla. Parecia autêntico, mas a moça não estava disposta a amenidades sociais.

- Marion está aqui?

- É claro que não! Alguma coisa errada?

- Ela saiu de Phoenix na sexta-feira. Sem avisar a ninguém.Eu estava em Tucson para o final de semana, e ela não me deu nem um telefonema.

A moça juntou a coragem que ainda tinha e despejou, a voz ficando mais aguda à medida que falava.

- Sam, se vocês estão juntos nisso, não é da minha conta. Mas, por favor, me deixe perguntar a ela se está tudo bem ! Só isso, depois eu vou...

O garoto acompanhava os dois balançando a cabeça de lá para cá, como se estivesse assistindo uma partida de tênis. Sam notou e mandou que ele fosse almoçar.

- Não estou com fome, Sam.

- Bob?

- Sim?

- Almoço. Agora.

Sam me viu no canto do balcão, enquanto olhava o garoto sair. E não pareceu gostar. Lila enxugava os olhos com um lencinho.

- Desculpe... é que...

- Esqueça. Agora me diga o que aconteceu com Marion.

Hora de entrar em cena. Caminhei para os dois.

- Podemos todos falar de Marion?

Sam olhou para mim. Era o olhar que os romancistas costumam chamar de ameaçador. Não que fizesse alguma diferença.

- E você quem é, amigo?

- O'Malley. Mas todo mundo me chama de Lace. E não sou seu amigo.


Sam não gostou muito de minha intromissão, mas isso era problema dele. O meu era conseguir as informações que Lila Crane pudesse ter sobre a irmã. Não era muito. Marion tinha desaparecido com quarenta mil dólares que seu chefe, Lowery, tinha acabado de receber de Cassidy por uma casa. Ela deveria ter depositado o dinheiro no banco, mas simplesmente sumiu. Lowery telefonou para Lila, a única parente de Marion que ele conhecia. Lila, claro, não sabia de nada. Preocupada, resolveu procurar Sam.
Cassidy não acredita em Lila. Acha que Marion vai procurar a irmã. Contrata Arbogast para vigiar Lila.

Arbogast seguiu Marion até Fairvale e, provavelmente, foi assassinado aqui. Eu já havia conseguido impedir que ele viesse. Agora, faltava pegar o assassino.

Eu não precisei, como Arbogast teria feito, seguir Lila Crane. Já sabia que ela viria para cá, assim como também sabia que Marion veio antes dela. Mas preferi fingir que chegava à essa conclusão jnto com Lila e Sam.

- Marion deve ter vindo para cá, procurar Sam.

- Mas porque ela não chegou ainda?

- Ou aconteceu alguma coisa no caminho, ou ela está por aqui, num desses motéis da
estrada velha.

Sam não se convencia.

- Escondida? Mas por quê?

- Vamos encontrar ela primeiro. Depois nós perguntamos.

Dei a sugestão de percorrer os motéis, perguntando e mostrando a fotografia. Lila e Sam deviam ficar ali, para o caso de Marion aparecer. Lila queria avisar à polícia.

- O homem que me contratou quer apenas o dinheiro. Se eu levá-lo de volta, ele esquece o assunto. Mas se a polícia for envolvida, Marion vai para a cadeia por roubo. É melhor vocês me deixarem resolver isso do meu jeito. Eu prometo manter vocês informados.

Lila parecia alguém que teve que escolher entre morrer ou cortar a própria perna, mas ficou quieta. Sam insistiu em vir junto comigo, em dividir os motéis para ir mais rápido, etc. Chegou a ir ao escritório pegar uma foto de Marion.

De volta do escritório, com a foto na mão, Sam parou de repente e franziu as sombrancelhas. Acompanhei o seu olhar, que saía pela janela. Não vi nada de extraordinário além da cidade e do carro que eu tinha roubado. Perguntei a ele o que estava havendo.

Sam olhou para mim e, num gesto bem rápido e fluido, tirou das costas um revólver 45.

- É melhor você contar sua história de novo, amigo. E dessa vez explique o que é que você está fazendo no carro de Marion.

Lila levantou, olhou, e também virou-se para mim com uma expressão diferente. Bem diferente. Sam apontou para o telefone com a mão que segurava a foto. A outra, a da arma, mantinha-se firme na direçao da minha barriga.

- Lila. Peça à telefonista para chamar Al Chambers.

Al Chambers é o xerife, mas isso era outra coisa que eles não precisavam saber que eu já sabia. Enfiei a mão no paletó e, imediatamente, ouvi a arma de Sam ser engatilhada.

- É só um maço de cigarros, Roy Rogers. Se estivesse pegando minha arma, você já estaria caído no chão.

- Ah, é? E porque você não tenta?

Pois eu ia mesmo fazer isso, mas a porta abriu-se e dois homens entraram, um grande e um pequeno. Quer dizer, o pequeno não era pequeno, era um cara de altura normal. Parecia pequeno por estar ao lado do outro, que era gigantesco.
Se tinham visto a arma na mão de Sam, não demonstraram. O menor, moreno como um índio, parou a uns poucos passos da porta, e ficou por ali. O gigante, que tinha uns olhos bovinos, de pálpebras pesadas, caminhou até perto de nós. Olhou para mim, para Lila, para Sam e para a arma na mão dele. Por fim abriu a boca, mas dirigindo-se ao moreno lá atrás.

- Ei, não é que o Billy the Kid pegou ele para nós?

- Lace deve estar ficando velho.

Sam estava meio vermelho, acho que de raiva.

- E quem são vocês dois?

- Agentes federais. Deixe eu mostrar meu distintivo.

Meteu calamamente a mão no paletó e retirou uma enorme pistola preto-azulada, que apontou para o espaço entre os olhos arregalados de Sam.
Marion deu um gritinho. O moreno sacou uma pistola igual e fez, encostando o cano nos lábios, o sinal de silêncio. Sam engasgou um pouco até achar as palavras. É normal. Se um dia você tiver uma Terminator apontada para seu rosto, sua reação será a mesma. Os rapazes que a desenharam tinham isso em mente.

- O que... que é que vocês querem?

- A sua arma, para começar.



Uns dez minutos depois, uma radio-patrulha encostou em frente ao armazém. Al Chambers desembarcou seus quase cem quilos, ajeitou o chapéu e entrou.
Sam estava no balcão, folheando uns catálogos. Suava um bocado, mas Al não deu muita atenção a isso.

- E então, Sam, qual é o problema?

- Oh... Olá, Al. Eu estava distraído. Problema? De que problema você está falando?

- Uma mulher ligou pedindo que eu viesse para cá. O que está havendo?
Sam deu um sorriso.

- Acho que alguém fez uma brincadeira com você, Al. A telefonista não rconheceu a voz?

- Não... pelo menos ela não me disse. Vou perguntar a ela. Por aqui está tudo bem, então?

- Tudo normal, que eu saiba.

- Tem certeza, Sam?

- Claro que tenho, Al, por quê? Algo parece errado para você?

- Bom, para falar francamente, Sam, você parece meio nervoso.

- É esse maldito calor. E os negócios não vão muito bem...

- É, eu sei. É essa estrada nova. Bem, eu já vou indo. Vou ver se descubro quem foi o engraçadinho. A telefonista disse que foi uma moça que ligou. Aposto que foi aquela garota Sanders. Até logo, Sam.

- Até logo, Al.



Ouvi tudo com o ouvido colado na porta do escritório de Sam, bem atrás daonde ele estava. Dali podia atravessar a porta, as costas de Sam e o peito do xerife com um tiro só. E deixei isso bem claro para Sam antes de entrar no escritório com Reno, Thaler e Lila Crane.

Livres de Chambers, pelo menos por enquanto, mandei Sam fechar a porta do armazém e pendurar o aviso de almoço. Depois amarramos os dois e saímos do escritório. Reno procurou e achou uma garrafa de whiskey. De centeio, mas tudo bem. Bebemos passando a garrafa de mão em mão.

- E então, o que é que vocês estão fazendo aqui?

Reno e Thaler se entreolharam. O assunto devia ser difícil, embora eu já fizesse uma boa idéia do que seria. Thaler ficou com o problema.

- Mandaram a gente levar você de volta, Lace.

- Só isso?

- Se você está perguntando se eles acrescentaram o "vivo ou morto", você sabe que sim. Mesmo quando não dizem claramente.

- E daí?

- E daí que, como sempre, não é para fazer perguntas, mas eu e Reno decidimos saber o que é que está acontecendo antes de agir. Agora é com você.
Me acomodei melhor e acendi um cigarro.


Um dia, muito tempo atrás, eu conheci um cara decente. Daquele tipo que você não sabe o que está fazendo num trabalho como o de detetive particular, já que não pega divórcios, não faz o papel de achacador e nem de guarda-costas. O nome do cara era Milton Arbogast. Ele tinha uma salinha em Phoenix, e eu tive que procurá-lo uma vez para me ajudar com um probleminha de um dos clientes de Rudy. Resolvemos o problema, bebemos juntos, fomos com a cara um do outro e só.

Alguns dias atrás eu estava procurando alguma coisa nos arquivos da Intempol de 1960, quando passei por uma notícia que falava de Arbogast. Ele aparentemente era uma das vítimas de um assassino serial que tinha sido apanhado numa cidade chamada Fairvale.

A história era a seguinte: uma certa Marion Crane tinha fugido com quarenta mil dólares de seu chefe. Alguém imaginou que Marion talvez procurasse a irmã, Lila Crane, e puseram Arbogast na cola dela. Só que a tal Marion tinha um amante, um certo Sam Loomis, gerente de um armazém em Fairvale. Lila imaginou que Marion pudesse ter ido se encontrar com ele e foi procurá-lo, com Arbogast atrás.

Em Fairvale, Arbogast se apresentou a Lila e Sam, e sugeriu percorrer os motéis da região. Lila e Sam esperariam no armazém, para o caso de Marion aparecer. Arbogast ligou umas horas depois, contando que havia encontrado uma pista. Segundo o depoimento de Lila, parece que o dono do hotel teria confirmado para Arbogast que Marion passara a noite lá, mas no dia seguinte, logo cedo, voltara para Phoenix.
Arbogast também disse que esse sujeito tinha uma mãe idosa e paralítica, que ele viu numa janela da casa, atrás do hotel. O sujeito do hotel não deixou que Arbogast falasse com a velha, mas ele iria tentar falar com ela assim mesmo.

E essa foi a última vez que se ouviu falar de Milton Arbogast.
Investigando por conta própria, Lila e Sam resolveram se hospedar nesse motel como marido e mulher. Enquanto Sam distraía o proprietário, Lila foi até a casa tentar falar com a velha.

É aí é que a história fica divertida. Lila encontra a velha no porão, só que morta e embalsamada. Nesse instante surge o filho, o dono do motel, vestido com roupas da velha e com uma faca na mão. Por sorte, Sam surgiu logo atrás e conseguiu agarrá-lo.

A investigação mostrou que o sujeito era o responsável por um respeitável número de desaparecimentes na região, principalmente de mulheres. O sujeito era uma espécie de Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Parece que quando ele se sentia atraído por alguma moça, a personalidade de sua mãe morta assumia o controle e, num acesso de ciúmes, matava a coitada. Os corpos e os pertences das vítimas ele colocava em seus carros e jogava num pântano atrás da casa.



Thaler deu um assovio curto.

- Que história! Já pensou em vender para o cinema? Mas onde é que você entra nisso?

- Milton Arbogast. Acho que um cara decente como ele não merece morrer desse jeito. Um assassino de vestido e peruca, pelo amor de Deus!

- E você tem certeza de que ele foi morto mesmo? Ele não poderia ter encontrado o dinheiro e sumido?

- Até aonde eu descobri, não tinham encontrado seu carro ou seu corpo no pântano, mas era dado como certo que ele era uma das vítimas.
Thaler deu sua risada baixa, sinistra nos momentos apropriados.

- Lealdade a um cara praticamente desconhecido, só porque resolveu que ele é um sujeito decente. Eu acho que você perdeu o juízo de vez, Lace, se é que um dia teve algum. O que é que você acha, Reno?
Reno balançou os ombros.

- Ajudamos Lace a terminar com isso, e depois resolvemos. Ou então atiramos nele agora mesmo.

- Concordo. E qual é o próximo passo, Lace?

- O complexo, como sempre, não é o trabalho em si, mas causar o mínimo de danos à linha temporal. Por isso vim até aqui no lugar de Arbogast e tentei evitar queLila ou Sam fizessem algo precipitado ou chamassem a polícia antes da hora.

- Mas se você já salvou Arbogast, porque continuar?

- Arbogast foi o último que ele matou. Não podemos deixar que ele mate mais ninguém. Você sabe como é, se ele matar a pessoa errada... pelo mesmo motivo, infelizmente, não podemos salvar ninguém que ele matou antes.

- Mas você salvou o tal de Arbogast!

- Já verifiquei as consequências disso.

- Você é quem sabe.E os dois ali dentro?

- Eles vêm com a gente. Vocês trouxeram algemas, não?


Assim que nos afastamos da cidade, fiz sinal para Thaler, que vinha em outro carro, e parei. Virei-me para Sam e Lila no banco de trás.

- Muito bem. Provavelmente Marion está morta, é melhor que vocês saibam logo. Lamento. O assassino também matou um amigo meu, e nós estamos indo pegá-lo. Quanto a quem somos e coisas assim, esqueçam. Sam, essa é para você. Essa pistola pode arrancar a perna de um homem a cinquenta metros, e uma pancada com a coronha pode mandar seus dentes da frente garganta abaixo. Fui claro? Lila, eu não teria a coragem de ameaçar você, mas arranco os dentes dele se eu ouvir um grito, OK? Alguma pergunta?

Lila tinha os olhos cheios de lágrimas, mas me encarava com firmeza. Grande menina.

- Para onde nós estamos indo?

- Para o lugar onde sua irmã se hospedou e provavelmente foi assassinada.

- E que lugar é esse?

- Um motel na estrada velha. Bates Motel.

Liguei o carro e continuamos. Andamos mais uns cinco minutos antes de Sam falar.

- Você está dizendo que aquele pobre coitado do Norman Bates...

- Você o conhece?

- Pessoalmente, não. Só o que eu ouvi falar...

- E o que foi que você ouviu falar?

- Bom, a mãe dele não era exatamente a nora que nossa mãe gostaria...

- Tudo bem, em respeito a Lilia, vamos dizer apenas que ela gostava de se divertir. E daí?

- Parece que um de seus namorados convenceu-a a abrir o motel, e depois sumiu. Ela criou o garoto sozinha, mas de vez em quando aparecia nos bares, bêbada, e sempre saía com alguém.

- Que ambiente familiar! E o que mais?

- Ninguém gostava muito dela. Dizem que tinha um temperamento horrível. Alguns dizem que ela era louca, e até que, bem, quando ela não conseguia arranjar ninguém...
Lila virou a cabeça para estrada.

- Que horror!

Eu já não tenho esses pudores há muito tempo.

- Sobrava para o garoto. Já ouvi essa história antes. Não costuma ter um final feliz.

- E não teve mesmo. Apareceu um sujeito que acabou indo morar lá. Quero dizer, como se fosse marido de verdade. Mas ela soube depois que ele era casado. Uma certa manhã os dois apareceram envenenados. Cianeto, eu acho.

Fiz uma careta. Veneno é a maneira de morrer que mais me assusta.

- E o pequeno Norman?

- Ele que encontrou os corpos. Acho que o mandaram para um orfanato, sei lá. Sumiu por muitos anos. Um dia voltou e reabriu o motel, mas com a estrada nova ...

- Quarenta mil dólares podiam ajudar um bocado...

Sam não respondeu. Acho que foi em consideração a Lila. Bom garoto, um verdadeiro cavalheiro, como todos os bons gigolôs. Marion teria muito a contar sobre você, garoto, mas isso não é da minha conta.


O Bates Motel era constituído de duas fileiras de chalés pré-fabricados, fazendo um "L", igual à milhares de outros por aí. O que realmente se destacava era a enorme casa vitoriana atrás do escritório. Além de alta, ainda ficava sobre uma colina, dominando toda a paisagem ao redor.

Não sou do tipo que crê em lugares amaldiçoados ou assombrados. Para mim, essa sensação é o resultado, sobre espíritos impressionáveis, da feiúra e da decadência. E aquele lugar tinha bastante dos dois.

Virei para o banco de trás e olhei mais uma vez para os rostos de Lila e Sam.

- Agora é com vocês, crianças.



Sam era fisicamente bem maior que Norman Bates, mas mesmo assim estava assustado. Não há homem são que não tenha medo da loucura, e a loucura de Norman se tornava mais nítida a cada frase, no tom de sua voz e na expressão de seus olhos.

- Cale a boca!

Sam continuava recostado no batente da porta do escritório, impedindo a saída. Tentava manter a voz controlada, mas era difícil. Cada vez que pensava em Marion...

- Quarenta mil dólares é um monte de dinheiro... eu acho que sua mãe sabe aonde ele está e o que você fez para consegui-lo. E eu acho que ela vai nos contar.
Norman olhou em volta, apavorado.

- A garota! Onde está a garota que veio com você?

Sam viu que Norman estava inteiramente descontrolado. A qualquer momento atacaria. Deslizou a mão disfarçadamente até às costas, onde o revólver metia-se no cós das calças jeans.

Mas antes mesmo de fechar os dedos na coronha, Norman saltou sobre ele.

- Aonde está ela?

Norman atacava às cegas, arranhando, golpeando sem olhar aonde, como uma crança. Rolaram no chão. Por reflexo, Sam cruzou os antebraços na frente do rosto, defendendo os olhos. Também às cegas, golpeou para frente. O peso de Norman saiu de cima dele.

Sam tentou sacar a arma, mas algo explodiu na sua cabeça, como um flash de fotografia espocando atrás dos globos oculares.
Sem sentidos, Sam rolou pelo piso do escritório. Norman, ofegante, largou resto do vaso de cerâmica que ainda estava na sua mão e pegou o revólver nas costas de Sam.


Na quase escuridão do porão, Lila deu alguns passos até que suas mãos encontrassem a outra porta, a da dispensa. Segundo O'Malley, era ali que estaria a velha. Lila respirou fundo e abriu a porta.

Uma lâmpada empoeirada pendia de um fio, iluminando um círculo de caixotes e um chão de tábuas sujas. Quase no limite do círculo, Lila viu uma cadeira de rodas e as costas de um vestido.

O silêncio era absoluto. Lila pensou se não deveria estar ouvindo a respiração da velha. Avançou mais um passo, começando a estender a mão. Talvez a senhora estivesse dormindo, era melhor não assustá-la. Um toque de leve no ombro, uma palavra sussurrada...

- Senhora Bates?

A mão, surgindo de repente sobre os lábios de Lila, abafou o grito e puxou-a para trás. O sussurro, bem perto de seu ouvido, cheirava a bebida.

- Calma... sou eu, Thaler. Ele já está vindo para cá.

- Q...quem?

- Bates.


A porta escancarou-se de repente, e alguém avançou para o interior da dispensa. Uma figura patética, tropeçando num longo vestido, com uma peruca grisalha mal colocada sobre a cabeça. Saí do meu canto, com a arma ainda no coldre. Posso cuidar de uma faca, se o sujeito não for um virtuose como Thaler.

- Acabou, Norman.

Aí algumas coisas aconteceram simultâneamente. Ouvi Thaler gritando algo sobre uma arma. Senti alguma coisa me empurrar, e se não foi um rinoceronte, foi Reno Stalker. Bati contra a parede ouvindo tiros. Sentado no chão, rodei e saquei a minha arma.
Alguém, provavelmente eu mesmo, tinha batido na lâmpada, que balançava para lá e para cá, as sombras dançando. Vi de relance a luz iluminar o rosto da velha na cadeira de rodas, os dentes expostos e os buracos das órbitas.

- Thaler! Reno!

- Lace!

- Thaler! E a garota?

- Tudo bem, cadê Reno?

- Sei lá! Fique aqui com a garota!

Saí do porão. A passagem por baixo da escada levava à sala. Onde o filho da puta arrumou um revólver? Do imbecil do Sam, no mínimo. A porta da sala estava fechada. Comecei a andar para o meio da sala, de costas, mantendo a escada e o segundo andar na linha de tiro.

Reno estava quase no alto da escada, colado na parde. Sangrava de algum lugar entre o ombro e o lado direito do peito. Apontou para o alto da escada e subiu mais um degrau.

Fiz mira na porta no alto da escada e esperei. Reno subiu mais um degrau.
E mais um. Agora já estava com um pé no corredor do segundo andar. O próximo passo iria deixá-lo de costas para mim, tapando a visão do corredor.

Arriscado demais.

- Reno!

Reno virou-se para mim. Um vulto surgiu no corredor, bem atrás dele. Abri fogo. As balas passaram num espaço de uns dez centímetros entre a cabeça de Reno e o batente da porta. Reno se jogou no chão, apontando a arma. Eu subi correndo as escadas.
A peruca grisalha tinha rolado para o lado. Bates estava deitado no corredor, tremendo.

Chutei a faca para longe. O revólver encontramos depois, descarregado.



Recolhi as minhas credenciais da Agência de Segurança Nacional (falsas, claro) da mesa de Al Chambers. O xerife coçou a cabeça loura, de cabelos à escovinha.

- E o que é que eu faço com essa confusão toda?

Acendi o terceiro ou quarto cigarro. Estava fazendo o possível para sair de lá sem ter que matar ninguém, mas estava ficando sem paciência.

- Fique com os créditos, ponha no relatório que Sam agarrou Bates e segurou-o até que você chegasse, qualquer coisa! O importante é que você entenda que, em nenhuma hipótese, eu ou meus homens podemos aparecer. Nem nos seus relatórios, nem para a imprensa.

- Mas isto não está certo.

- Chambers, eu estou tentando salvar a sua vida, acredite. Nós somos os homens de preto, aqueles que somem com pessoas, que as levam para salas com luzes fortes. Já ouviu falar no arquivo X?

- Ok, eu topo. Farei como você diz.
Levantei da cadeira e ajeitei meus óculos escuros. Estava com eles desde que Chambers chegara no motel.

- E a segunda parte?

Chambers concordou com a cabeça. Virei-me a saí, acompanhado de Thaler e Reno, que já tinha sido liberado pelo médico. A bala de Bates tinha atravessado o ombro, mas sem afetar nenhuma artéria.

Do lado de fora da delegacia, Sam e Lila me esperavam.

- Bem, é hora do adeus. Lamento por Marion, e obrigado pela ajuda de vocês. E não se esqueçam do nosso acordo.

Sam se adiantou a apertou minha mão.

- Pode deixar. Vocês nunca estiveram aqui.


PHOENIX, ARIZONA
DEZEMBRO DE 1960


Milton Arbogast lia a página de esportes, quando ouviu a campainha que anunciava a porta da frente sendo aberta. Tirou os pés do tampo da escrivaninha e estava abrindo a gaveta para esconder o jornal e o copo de whiskey, quando a voz gritou da saleta de espera.

- Não precisa fingir que é um detetive sério, eu conheço o canalha que você é, Milt.
Arbogast abriu a porta e olhou para a figura de terno escuro que ocupava sua saleta.

- Lace O'Malley!

Abraçaram-se com genuína satisfação. Arbogast abriu a porta do escritório e fez sinal para O'Malley entrar.

- Venha, tem uma garrafa escondida aqui em algum lugar!

O irlandês sacudiu a cabeça.

- De jeito nenhum. Vamos sair e arranjar alguma coisa feita de malte, e não essa serragem destilada.

Apanhou um chapéu e meteu-o na cabeça de Arbogast.

- Espere aí, eu estou no meu horário de trabalho! E se o telefone tocar?

- Se tocar, será para ganhar uns poucos dólares sujos. A companhia de um irlandês vale mais do que isso. Vamos.

E praticamente empurrou Arbogast porta afora. Na calçada, O'Malley procurou disfarçadamente por um par de calças iguais ao que usava. Encontrou-o atrás de um jornal, encostado num poste. Cinco minutos depois já estavam confortavelmente instalados em frente a um malte quase puro. Arbogast notou a mala que Lace carregava.

- O que é isso?

O'Malley mudou de expressão. Virou o resto do copo e se aproximou de Arbogast.

- Lembra daquela história que nós resolvemos para Rudy?
Arbogast conhecia O'Malley o suficiente para saber que o assunto tinha se tornado sério. Mortalmente sério, talvez.

- Claro.

- Pois é. A coisa se complicou. Aquele cara que nós apagamos...

- Que você apagou. Eu nunca matei ninguém em toda a minha vida.

- OK, eu apaguei. Mas o pessoal do sindicato não está interessado nesses detalhes. Eles sabem que nós estávamos juntos, e só o que eles precisam.

- Sindicato, que sindicato?

- Aquele mesmo que você está pensando.

Foi a vez de Arbogast virar o copo.

- Merda! Aquele cara era do sindicato?

- Sobrinho ou afilhado de algum capo. E você sabe como esses caras são com essas coisas de família.

- E o que é que nós vamos fazer?

- Eu conversei com o Rudy e ele concordou que você é o menos culpado nessa história toda. Ele mandou isso para ajudar.

Arbogast sentiu a mala ser empurrada contra sua perna.

- E o que é isso?

- Quarenta mil pacotinhos. Para ajudar na sua aposentadoria precoce.

- Q...Qua...

- Agora, se eu fosse você, pensava em aproveitar esse dinheiro no México, ou no Rio de Janeiro...


No escritório fechado, o telefone de Arbogast começou a tocar.

Eagle in a pidgeon hole: Interview with Michael Bishop


A stylistic writer and an English scholar, Michael Bishop seems to be a man in search of an ideal: to produce more and more works with more and more literary quality in every possible genre or subgenre: from hightech hard science fiction to humanist social character based mainstream, passing through alternate history and even supernatural horror narratives. This is not an easy task, but thanks to us who had the pleasure to read his books, he have give his best in all his attempts.

Now, talking a little about his Literature classes, some of his favorite authors and how to transcend the genres limitations, Michael Bishop give us one of our best interviews to date.


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OCTAVIO ARAGÃO - It was a pleasure to know that you used O EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO (The Gospel According to Jesus Christ), by José Saramago, in your literature classes, side by side with other works by authors like Norman Mailer and Dostoievsky. In my own classes I used other Saramago novel, A HISTÓRIA DO CERCO DE LISBOA (The History of the Siege over Lisbon), and compared him stylistically to other modernists such as Proust and Borges.

As a stylist yourself, which Science Fiction authors could actually achieve such a high state-of-the-art status in literary terms?

MICHAEL BISHOP - I believe that any number of British and American sf writers have written to a high level of literary art already. I can't help mentioning Ursula K. Le Guin, Gene Wolfe, Thomas M. Disch, Gardner Dozois, Joanna Russ, Michael Swanwick, Kim Stanley Robinson, Karen Joy Fowler, as well as younger writers like Jeffrey Ford, Jeff VanderMeer, Kelly Link, and the superb young Canadian Holly Phillips. Of course, I've inevitably left out any number of other writers who have the ability to write beautifully efficient prose to high storytelling and stylistic standards.

Thanks for ranking me as a notable stylist myself, by the way.

OA - Kurt Vonnegut and Margareth Atwood, both great writers who have interests that involve SF themes in a way or another, usually disdain the genre and have the inconditional love of the critics. You, on the other side, do not curse your SF roots but claim to have some difficulty gaining recognition in the mainstream even writing sensitive novels like AN OWL AT THE CRUCIFIXION. Personally, I like your way of thinking, but don't you think that if you act like Vonnegut and Atwood you could have more chances outside de SF ranks?


MB - At this point in my career, the only way for me to emulate Vonnegut and Atwood would be to produce a fresh body of work under a pseudonym and to stand adamantly aside from everything that preceded this hypothetical new work. Further, the new work would have to find a readership, and I would have to keep my identity secret until no one could authoritatively assign this new material to a particular genre based on my earlier stories and novels. Maybe some writers would have the chutzpah and stamina for such a complicated ruse, but I don't see myself as one of them. Right now, however,I'm pigeonholed as an sf writer or a fantasist, and my unpublished novel, AN OWL AT THE CRUXIFIXION, may be unpublished in large measure because I didn't write it under a pseudonym and both publishers and editors could check my past sales records and determine that the novel was unlikely to sell well enough to justify putting it between covers and marketing it.


OA - You claim that one of your basic influences were the short stories by Ray Bradbury. Umberto Eco, in his book APOCALÍPTICOS E INTEGRADOS, claims that Bradbury is an example of *kitsch* literature, since he uses,- according to Eco -, *effects* trying to emulate an erudition that his text actually doesn't have. How could SF survive a that kind of critics? And more important: was Eco right in his criticism?

MB - Bradbury's best stories (some of those in A MEDICINE FOR MELANCHOLY, THE OCTOBER COUNTRY, and THE MARTIAN CHRONICLES) are definitely category stories, but they work on their own terms. And I don't think Bradbury ever seeks to "emulate an erudition" that he lacks himself, primarily because his stories celebrating other writers (whether Melville, Poe, Dickens, Whitman, Shaw, or Whomever) are so clearly enthusiastically boyish homages rather than bona fide attempts to ape the effects or the styles of his assumed betters. The texts lack erudition, yes, but they don't pretend to any erudition beyond Bradbury's fondness for the works of the writers who have inspired these particular stories.

Attacking Bradbury for lacking erudition is quite a bit like denigrating a whipped-cream-covered banana split for lacking the nutiritional value of a sixteen-ounce steak.



OA - You have written in nearly all subgenres inside SF (even Hard SF, which seems a little odd for a writer who is not a professional engeneer, but an English scholar...). Which one is your favorite and why? Which one is the most pleasure to write?

MB - I immensely enjoy writing in whichever category or subgenre I've decided to write in, at least while I'm working in that particular category or subgenre, and so I really don't know how to answer this question. Right now I find myself producing more mainstream work than otherwise, but I would be appalled if some self-appointed Authority were to say to me that I could no longer write anthropological sf, or hard sf, or pulpish horror, or humorous fantasy, or mystery, or hard-boiled detective stories, or satire, etc. One of the real perks of being a writer is that one can choose to write about something new every time one starts a fresh project, and I try to take full advantage of that prerogative. The only writing that isn't particularly pleasurable to me occurs on projects that resist coming together as I want them to and so also resist my bringing them to completion. And I've had this unfortunate situation arise writing in nearly every category or subgenre.


OA - How do you manage to feed your "Muse"? I mean, when do you feel the urge to write about something? You said that even now and then you attend to an editor's suggestion about a plot or a concept, but what about the *fresh* ones? How do they are born?

MB - Most writers feed their individual muses, I believe, by reading, traveling, and remaining open to experience. Imitation isn't a bad place to start a new story, although by "imitation," here, I don't mean crude plagiarism but rather an effort -- identifiably one's own -- to reproduce another writer's effects in one's own style and by one's own methods. I've done deliberate pastiches (of the work of R. A. Lafferty, of Philip K. Dick, and of Flannery O'Connor, among other writers), but I've also tried to infuse these pastiches with elements of my own writerly personality (whatever that may be) as a means of inscribing my own signature within the artificial autograph of the pastiche. And, as I've said elsewhere, another way to feed the muse is to find two or more dissimilar concepts and to strive to link them coherently in a single story or novel. The best example of this technique that I can give, off the top of my head, is my story "And Thus I Remember Carthage," in which I worked to integrate the astrophysical phenomenon of quasars with the life, philosophy, and ecclesiastical career of Augustine of Hippo. This technique is hardly original to me, however, and may be the chief method of all forms of genuine creativity.


OA - Thank you very much for your kind attention, sir!

MB - You're welcome. Forgive me for having taken so long to reply.

Yours sincerely,
Michael Bishop


Visit the Michael Bishop website.

Terra Prometida S/A: mini-conto de Luís Felipe Vasques

Cansado de terroristas?

Seu vizinho reza para algum outro deus pagão?

No seu trabalho aceitam pessoas diferentes do seu grupo étnico ou social?

A vizinhança do seu bairro não era mais a paz e segurança de quarenta anos antes?

Nós, da TERRA PROMETIDA, S/A, temos a sua solução!

Mude-se hoje mesmo para não apenas mais do mesmo: mas como deveria ser!

Participe na construção de seu próprio paraíso pessoal!

Uma Jerusalém somente para os judeus? Claro!

Quer um mundo onde só haja brancos habitando seu país? Agora você pode!

Ei, Kunta Kintê! Que tal uma África pura, livre dos europeus colonizadores, como na época de seus ancestrais!?

A TERRA PROMETIDA, S/A, dispõe de um banco de LTAs prontas para satisfazer suas necessidades ou opiniões! Entre em contato com nossos operadores no número abaixo, e em menos de uma semana, conheça seu bairro como era nos tempos de seu avô!

Nossas LTAs são garantidas contra a não-existência e catástrofes naturais ou artificiais nos tempos de venda.

TERRA PROMETIDA, S/A! O seu mundo... como deveria ser!

(terraprometidasaéumaempresafiliadaaogrupoIntempol)

***

O Comissário Fraga desligou a TV.

- Isto está passando até na época do rádio. Pode-se saber que esculhambação é esta?

Olhou para o restante da equipe, atordoada, boquiaberta. Apertou com a mão direita a base do nariz, junto aos olhos. Sentia a enxaqueca começar a martelar. Ia ser uma semana daquelas...

domingo, 9 de novembro de 2008

Worldbuilding: Interview with Jean-Marc Lofficier


The French writer Jean-Marc Lofficier built alongside his wife, Randy, a very successful career in comics dealing with a wide range of styles, since traditional superhero to Alternate History Science Fiction tales.

Here are some tips about his works and a strange world where all German movies of the 30’s were nothing but the truth..
.

OA – Ok, Jean-Marc, since this is – probably – your first interview to a Brazilian site, let’s get some personal data... full name, nationality and highlight points of your career.

JML – Actually, I think I gave an interview to another Brazilian site when Via Lettera published TONGUE*LASH a few years ago... Anyway, I'm French, moved to the US, met my wife, Randy, and we've been full-time pros for a while.
We've both have dual citizenship, US and French now. We've done a number of non-fiction books, The Doctor Who Programme Guide, our French SF Encyclopedia, etc., lots of comics, both in the U.S. and in France, and we even wrote some animated television episodes of Ghostbusters, Duck Tales...
We also sold a few movie scripts but nothing was ever produced. You can find a full resume / bibliography on our personal website at http://www.lofficier.com



OA – So, you and Randy are some kind of rarity, with a large amount of works done in the USA comics market and Europe also, breaking the tacit rule that postulate that European artists doesn't sell good in North-America. How did you manage to cross that bridge?

JML – I don't think the Americans think of us (or even me) as a foreigner. I'm just another Amrican with a funny accent! :-)
We live in Los Angeles, we're known in the business, we know the culture and write the language. So we compete on the same equal footing as any other Amerian writer, really. I never really found any discrimination for or against foreign product in America because it is foreign.



OA – Just like other comics related authors, like Neil Gaiman and Peter David, you're also a Science Fiction writer, with a solid work as researcher and some books written about French Steampunk - with a high influence by the work of Philip José Farmer - among other topics. How do you see the world SF market today? Is it suffering a renewal or is stagnant?

JML – Au contraire, I think SF is rather thriving, at leasrt creatively. I do book reviews of SF novels for STARLOG and I'm impressed by the quality of the new authors or first novels I get to read. I wouldn't call it a "renewal" per se, but I don't think science fiction is stagnant at all. At least not in the U.S. In France, it was doing great until about 2001 and then I've had the feeling (but maybe I'm mistaken?) that thinks have dipped somewhat...


OA – Comics artist and scholar Scott McCloud believes in a new Comics Renaissance, thanks to the growing use of the Internet. Do you agree? If so could the same happen to the "genre" literature, such as SF?

JML – Scott is a friend, but I'm afraid I do not agree with him on this topic; I do not see the internet as helping comics at all. Frankly, I don't see the internet helping at all the audio-visual fields (films, tv, music), do you? Even Stephen King tried to publish on the net and bombed. The net is great from promotion, research, discussion, marketing, and to that extent it makes it a lot easier to do things. But it remains the "tail", not the "dog".


OA – Your series TONGUE*LASH are - among other things - a tribute to the work of Moebius and you also wrote some pieces with a clear Jack Kirby flavor. Now you are launching the comic book "Wonder Woman: Blue Amazon", by DC Comics, that mesh the classic character by William Moulton Marston with the 1930's expressionist German movie "Blue Angel". Why so many tributes and citations? Do you believe that the reader of Wonder Woman would want to watch the Marlene Dietrich movie (I'm asking it because I'm a great fan of meshing concepts around... what is Intempol anyway :-))?

JML – To be fair, the homage to Moebius aspect of T*L was more a fact of the artist (Dave Taylor) than ourselves (as writers). Initially, my inspiration came from Tony Hillerman's novel about the Navajo Detective Jim Chee.
Another artist could have drawn T*L and it would owe nothing to Moebius. But you're right -- I do like "world building" -- I like Tolkien, Howard, Frank Herbert, P. J. Farmer, Roger Zelazny, Jack Vance (my favorite author), all great world builders... So our natural inspiration is to create worlds... the neo-Mayan universe of T*L... Transvilane, a concept created by Jack Kirby but never actually shown by him...

As to the German Cinema Elseworld Trilogy (SUPERMAN:METROPOLIS; BATMAN:NOSFERATU & WONDER WOMAN:BLUE ANGEL), it is in many respects interbred just as much to A. C. Clarke's City and the Stars or W. H. Hodgson's The Night Land that it is to German Cinema, although I was fascinated by the coherent world view of German Expressionism... Metropolis, The Cabinet of dr. Caligari, Nosferatu, The Blue Angel and Dr. Mabuse all taking place in the same universe (with a few more left untouched) is an appealing concept, don't you think so? We reread Thea Von Harbou's Metropolis novel and it contains much background information that helped crystallize our view of that future...
Like Alan Moore or Farmer, I think these are our modern myths, worth revisiting, exploring, embellishing, like troubadours used to do with Arthurian romances.


OA – What are your next projects?

JML – Whew -- more Semicverse series in France: PHENIX, DICK DEMON, KABUR...
Several graphic novels: KING KABUR, TIME BRIGADE and a few more in the process of being aproved... A line of books ith Black Coat Press in the US including DOCTOR OMEGA and SHADOWMEN... Next year THE MAN IN GREY, POE ON MARS... we keep busy...:-)


JM

Amor Verdadeiro: um conto de Ernesto Nakamura

Amor Verdadeiro (ou: Porque bons agentes temporais não bebem com estranhos)

“Vinde, ó crianças, sob as estrelas, & saciai-vos de amor.
Estou sobre vós e em vós. Meu êxtase está em vosso. Minha alegria é ver vossa alegria.”

Sabará bebia para esquecer. Esquecer de como sua vida era miserável.

Não que fosse, realmente. Tinha um emprego espetacular, além dos sonhos da maior parte dos
mortais de sua época. Bom salário, férias incríveis em qualquer lugar do mundo, à qualquer época, um
plano de saúde que cobria até despesas com ressurreição, mas nada disso substituía uma imensa
insatisfação em sua vida: Era sexualmente fracassado.

Não seria tão ruim, se não fosse colega justamente de Giacomo “Casanova”, o maior conquistador da Empresa. E como as estrelas, que mais brilham em oposição às trevas da noite, Giacomo fazia questão de destacar suas conquistas, ressaltando os fracassos de Sabará. Todas as sextas eram momentos de glória para Giacomo, de inveja para os colegas e inferno para Sabará, mas curiosamente, jamais faltava a estes encontros.

Certa sexta, já bastante bêbados, mais uma vez Giacomo se vangloriou de poder conseguir ganhar qualquer mulher do mundo. Sabará o desafiou, argumentando que nem o maior sedutor conseguiria - todas- as mulheres do mundo.
Giacomo respondeu de pronto, que pelo menos não era como Sabará, que não conseguiria nenhuma mulher do mundo. Todos riram. Mais uma vez, Sabará ficou arrasado.

É justo comentar que Sabará não era tão feio. Infelizmente, era algo de sua personalidade, que nem perfumes nem roupas de qualidade nem etiqueta conseguiam disfarçar. Era daqueles sujeitos "sem graça". Uma mulher, honestamente comentara: Sabará, você me faz pensar em minhocas mortas...

Quando Giacomo caiu em desgraça na empresa, Sabará sentiu certa satisfação, pois achou que era o castigo justo a alguém que pensava pelos testículos, mas breve surgiu uma lenda persistente, que Giacomo, pelos seus delitos, chegara a ser o que diziam ser, Casanova, o próprio, além de vários outros conquistadores famosos, que teria desvirtuado santas, engravidado deusas-mãe da humanidade, “conhecido” todas as figuras femininas famosas da história, de Marilyn a Maria, passando por Joana, causado tal confusão no tecido temporal que tornara-se impossível simplesmente deletá- lo, mas deixar a
historia tal como Giacomo a tornara.

Sabará era competente em seu ofício, e após alguma pesquisa, concluiu que esta lenda era basicamente verdadeira. Até derrotado, Giácomo era muito melhor que ele.

E certa noite, bebia em um muquifo, daqueles onde as putas encerram suas noites, em uma mesa solitária, acompanhado apenas de uma garrafa, de suas memórias e da vontade de morrer. Bebia até ficar inconsciente, como estava se habituando. Estava para desmaiar sobre a mesa, quando percebeu que um homem sentava à sua frente, ainda mais repulsivo que Sabará. Era realmente feio, um velho careca e acabado, mas tinha um olhar poderoso, como o de um hipnotizador, de um feiticeiro, ou de um demônio.

Que diabolicamente, passou a conversar com Sabará.

Apresentou-se como a Besta do Apocalipse, mas podia chamar de Aleister. Sabará, muito bêbado, não o identificou na lista dos 10 mais procurados da Empresa. Respondeu: “Se você é gay. Eu não sou...”

“Não, Agente Sabará, você não é, mas também não gosta de mulheres.”

“O que? Como não gosto?”

“Calma, estou aqui para ajuda- lo...”

“Ajudar, por que? Ninguém gosta de mim...”

“Ah, você é esperto. Eu estou aqui, porque tenho grandes vantagens em ajuda-lo. Melhorou?”

“Tá bom, diga aí, sua Besta, o que você quer...”

“Que beba comigo, de uma bebida especial, que eu preparei somente para esta noite”. E retirou de algum lugar, frascos e duas taças idênticas , e algo que Sabará, se estivesse sóbrio, reconheceria como O Cálice. E verteu uma poeira azulada do Cálice sobre uma taça, onde ajuntou uma calda verde e outra, amarela. Colocou outro copo sobre o primeiro, improvisando uma coqueteleira e sacudiu vigosoramente a mistura, que ficou com um tom esmeralda fluorescente. Com um movimento hábil, separou a mistura em duas porções iguais, uma para cada taça.

“Meu corpo é branco como o leite das estrelas; brilha com o azul do abismo de invisíveis estrelas! Graal, Psilocybin e Soma. Tomai e bebei, pois este é meu esperma”, disse o velho, sorrindo maldosamente. E bebeu de um gole sua parte.

E Sabará bebeu também. Que tinha ele a perder? Tinha gosto de um nada visguento. Podia ser mesmo a porra do velho ou...
Algo em sua mente gritou: "Drogas!"

Sabará tentou reagir, mas o efeito era instantâneo e todas suas percepções pareciam meio sonhadas, e ouviu a voz distante do velho, que sumia em névoa e luz.

"Que os chacais do Dia e da Noite uivem no deserto do Tempo! Que as Torres do Universo cambaleiem, e que correndo fujam os Guardiões! Divirta-se, agente, e encontre seu Verdadeiro Amor.”

Os olhos de Aleister pareciam azuis sobre azuis, depois tudo parecia azul rodopiante e Sabará desmaiou num caleidoscópio de cores e vagas formas esmeraldas sobre sua mesa.

Despertou, assustado. Estava só, de novo, naquele bar de fim-de-mundo e perguntou ao atendente se o vira conversando com alguém. Não tinha.

Apenas bebeu até dormir sobre a mesa, como sempre.

Concluiu que teria delirado aquele encontro.

Então ele entrou.

Era um homem, pelos 40 anos, meio calvo, mal vestido, nem forte, nem bonito, nem atraente. Mas se apaixonaram, assim que seus olhos se encontraram. Compreenderam-se. Eram dois fracassados no jogo da seleção sexual. Mas na profundidade de seus olhares compreenderam-se completamente, o quanto tinham para partilhar, como poderiam trocar felicidade...

Sua educação católica e latina horrorizou-se, mas seu corpo respondeu de maneira possante e constrangedora. Tentou disfarçar o tremor nas mãos, no rosto e os volumes denunciadores e percebeu que o outro também passava pela mesma situação. Constrangido, este sentou na mesa de Sabará, de pernas cruzadas e contorceu-se discretamente, tal como Sabará, para minimizar o desconforto causado pelos reflexos viris exaltados.

Olharam-se e sabiam. Sussurraram apenas, pois se compreendiam profundamente.

“Tu...”

“Não, não sou... Nunca... ”

“Nem eu...”

“Então...”

“Porque?”

“Preciso beber algo, forte”

“Precisamos...”

E beberam, até se esquecerem. Percebeu vagamente que chegaram a sua casa, onde largaram suas roupas e o resto de suas morais e se amaram, profundamente pelo resto da noite. E pelo sábado e domingo.

As semanas se seguiram, e depois, meses. Todas os fins de semana se encontravam, e descobriram muitas coisas a respeito de si-mesmos. Que eram perfeitas almas-gêmeas, torturadas pela incapacidade de relacionamento com as mulheres e humilhação dos colegas conquistadores. Que ambos se consideravam heterossexuais, não tinham nenhuma atração por outros homens, mas no fundo desprezavam as mulheres também, ao mesmo tempo que as desejavam. E enlouqueciam-se quanto juntos. E assim foram felizes, semana após semana.

Seus colegas logo perceberam primeiro sua nova alegria, e depois uma mudança mais profunda.

Mariete foi a primeira que percebeu que Sabará olhava as mulheres como poucos homens olhavam, e o experimentou. E gostou, pois ele tinha aquele algo inexplicável, da loucura dos predadores e dos amigos dos deuses. E como Mariete era discreta, somente após duas semanas todas as mulheres da Empresa sabiam do “novo Sabará”, e passaram a experimenta-lo também. Assim, Sabará tornou-se o sucessor de Giacomo, mas bem mais discreto. Mas Sabará tornou-se mais. Agora, quando falava, todos ouviam. E obedeciam. Sabará ficou impressionado quando descobriu que atraia mulheres, e homens também. Era o novo macho alfa na gaiola de macacos da Empresa.

Seu companheiro riu muito, comentando que o mesmo ocorria com ele, que após se conhecerem, sua relação com as mulheres mudara, e muito. E que muitos homens, quem diria, também. E ambos estavam para serem promovidos, por suas capacidades de liderança, recém-afloradas e reconhecidas.

E assim, por nove meses foram muito felizes. Mas, mesmos os agentes da Empresa, que são um tanto lentos para pensarem, passaram a desconfiar da mudança de Sabará, desconfiança movida por inveja, naturalmente. E alguns colegas seguiram o secretamente após o expediente, para tirarem a cisma.

E descobriram que ele tinha um amante. Riram bastante, como latinos que eram. Já imaginavam as maneiras de contar isso na Empresa, para destruir sua reputação de novo-Casanova, quando reconheceram o homem de Sabará.

Imediatamente, contataram seus superiores, pois era uma claro crime contra a história. Este tipo de contato era proibido, punido até com a Nunca- Existência. Especialmente a esse nível de perversão.

Receberam ordem de prende-los, imediatamente.

Assim, correram até o apartamento de Sabará, arrombaram a porta, entraram no quarto onde estavam se enroscando, e ao perceberem a invasão, gritaram:

“Parem!”

E os cinco agentes pararam, imobilizados, por duas vozes de comando em coro tão poderoso que se ordenassem que pulassem da janela, alguns pulariam, imediatamente.

“Que significa isso?”

O agente com vontade mais forte, conseguiu falar.

“S-Sabará! Você está abraçado com você-mesmo!”

E os Sabará se olharam, e com suas vontades fortalecidas, quebraram o encantamento/charme/hipnose de Alester. Se olharam como espelhos. Poderiam ter enlouquecido.

Poderiam ter fugido, gritando. Mas se compreenderam.

“Deveríamos saber, não é mesmo?”

“No fundo, sempre soubemos... "

"Eu sou você, amanhã..."

"E agora?”

“E agora” foi um festival de degolas, demissões e descomissionamentos na Empresa. A palavra “incompetentes!” foi utilizada tantas vezes que tornou-se parte do nome da divisão latina da Intempol século XX. Finalmente, os Sabarás foram chamados à diretoria.

O representante dos “Deuses”, do "Andar de Cima", francamente desconfortável, explicou a encrenca. Sabará fora vítima de um terrorista temporal incrivelmente astuto. E enquanto a Empresa punia seus incompetentes e gastava seus recursos materiais e humanos corrigindo nove meses de paradoxos temporais ilegais, gerados pela contradição da coexistência dos Sabarás, o criminoso temporal Aleister Crowley ficara livre para agir. E após mais demissões, o agente melhor qualificado para assumir a direção era Sabará, alias, dos Sabarás, que dividiriam o cargo, alternadamente. Foram promovidos por falta de opção.

Assim, Sabará tornou-se diretor. E feliz, pois aprendeu a se amar, a se respeitar e ser autosuficiente.

E dizem que Giacomo, quando soube, comentou:

“Eu sabia que um dia, o Sabará ia se foder...”

-fim-

Observação. Sou o primeiro a admitir que o tema deste conto é parecido com o conto “Paradoxo de Narciso”, de Ivanir Calado, publicado em Isaac Asimov Magazine, nr 16. Juro que não foi proposital...

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

O Rabo da Serpente: um conto de Alexandre Mandarino

Elijah entrou na câmara e sentiu um arrepio. Estranhamente, o ar enregelado parecia vir justamente dos incensos posicionados nos cantos do vasto cômodo. O físico bufou: "esse pessoal do Departamento M adora contrariar meus detalhes mais queridos". Como havia sido previamente combinado, ele retirou o sobretudo, acondicionou-o dobrado no seu antebraço direito e posicionou-se de pé na parte central da câmara, que estava praticamente vazia. À sua volta, além dos incensos (ele não conseguia distinguir sobre o que eles estavam posicionados), apenas um jarro de cerca de um metro de altura que, a distância, lhe parecia ser de cobre. "Agora é só esperar os efeitos especiais", pensou.

Mal começava a se cansar da espera e um baque surdo o fez dar uma volta de 90 graus sobre os próprios pés. Olhando para trás, viu que Miguel "Druída" Zelansky estava logo ali.

- Parabéns pela discrição, Miguel. Esperava mais pirotecnia desta vez.

- Só os tolos perdem tempo com gincanas para céticos, murmurou o "pesquisador" do Departamento M.

- Ele está aí?

- Sim, esperando por você. Mas tenha uma certa misericórdia: deixe-o continuar pensando que se trata de uma missão importante. Não mencione a palavra "custódia".

- Claro. Vocês, crowleyanos, teimam em confundir nossa lógica com frieza.

"Druída" apontou para uma porta imediatamente ao lado da que Elijah tinha usado para entrar na câmara. "Ele está ali, esperando por você".

Elijah olhou-o nos olhos por um breve momento, tornou a vestir o sobretudo e deu-lhe as costas, caminhando em direção a porta. Abriu-a e entrou em um pequeno closet, com um armário de roupas, uma mesa e uma cadeira. Sentado, lá estava ele.

- Você é Terêncio Smith, agente especial do Departamento M?

- Sim... Dr. Elijah Gucci, eu presumo? Prazer em conhecê-lo, doutor, suas pesquisas sobre as cadeias de DNA temporais auto-dobráveis é brilhante.

- ... material de anos atrás, replicou Elijah, um pouco surpreso por um desconhecido tratar tão abertamente do trabalho que quase o havia desacreditado totalmente, há anos atrás.

- O senhor conhece as runas de total aleatoriedade? Não? Conheci o homem que as criou, um aluno de Cagliostro, em minha última viagem. Trouxe algumas delas comigo, gostaria de vê-las?

- Talvez mais tarde.

- Ah... sim, a missão nos espera, não? Gostaria de agradecê-lo por essa oportunidade, doutor. O M se tornou um tanto quanto entediante ao longo destes últimos vinte e sete anos. É bom dar uma arejada. Sabe que tenho uma coleção de baralhos magnífica? Todos trazidos debaixo dos narizes dos sacerdotes-supervisores, claro. Eles fingem que não vêem nada, em troca de um ou outro código de invocação de sigilos, e eu posso retornar com algumas coisas. Estes baralhos, sabe, eles são capazes de abrir certos compartimentos temporais, aqueles bem pequenininhos, entende? Como borboletas de acrílico, móbiles sobre berços do século retrasado.

Elijah interrompeu o princípio de monólogo: "sou um físico, Smith, não se esqueça disso".

- ... Claro. Perdão.

- Aqui. Chegamos. Vou deixá-lo aos cuidados do cientista-chefe de nosso Departamento, Luciano Sequeira, bio-químico, sincro-cirurgião experimentado e agente de nível 4. Ele tratará de sua missão e lhe dará maiores detalhes. Adeus.

Com estas palavras, Elijah fechou a porta da sala onde haviam entrado e Terêncio Smith se viu frente a frente com uma equipe completa de pesquisadores-alfandegários, já completamente preparados para a partida.

Assustado, o membro do Departamento M perguntou ao que estava mais próximo:
"a viagem... ela acontece já?".

- Sim, senhor Smith. Receio que tenhamos que ser extremamente rápidos neste caso.

- Oh, sim, claro. Eu compreendo perfeitamente. É um caso típico de "search and delete", como vocês o chamam, estou certo?

- Sim, de certa forma.

- Oh. Obrigado. Como disse há pouco ao Dr. Elijah, é uma esplêndida chance a que os senhores estão me dando. Há tantos anos peço uma, digamos, merecida ausência do Departamento M e...

Ao dizer a letra M, Smith foi rodeado por olhares de surpresa e espanto, vindos do resto da equipe. Sequeira tratou de remendá-lo: "Senhor Smith, o senhor é do Departamento G, esqueceu?".

- G? ... Oh, sim, compreendo. Claro, G, foi exatamente o que eu disse. Mas como eu estava lhe contando é bom lidar com vocês, adoradores da lógica translúcida, nem que seja por uma única vez. Sabe que tenho tartarugas douradas, perfeitamente vivas e rastejantes, trazidas diretamente de uma das versões primitivas de Baghdad? E elas ainda são capazes de soletrar todo o alfabeto, como nos tempos em que foram criadas por Ali Al Aabud, o Sacro.

- Senhor Smith, a câmara alfandegária está pronta. Pode embarcar.

Aqui estão seu cartão cronal e sua caixa registradora.

- Oh! Que emocionante.

- Sabe o que deve fazer?

- Oh, sim, o "Druíd...", quero dizer, o chefe de meu Departamento já me explicou. São apenas algumas décadas atrás, certo? Aqui mesmo, na base. Devo evitar a passagem de uma formiga por um dos corredores, fato que anos depois tornaria factual a possibilidade de loucura e morte de um dos superiores de nível 5.

- Isso. Não há mistério. Apenas caminhe pelo corredor 56-F, tendo o cuidado de pisar exatamente nos locais correspondentes às pegadas marcadas no mapa que seu superior lhe deu. Feito isso, utilize seu cartão cronal e retorne para nós.

- Certo.


Segundos e uma leve dor de cabeça depois, Terence Smith estava no início do corredor 56-E, décadas antes, caminhando em direção ao 56-F.

"Dobro aquela esquina e, imediatamente, deverei passar a seguir à risca o mapa desenhado por 'Druída'. Se isso puder evitar a loucura de um nível 5, fico feliz", pensou.

Passo ante passo, Smith começou a caminhada pelo branco corredor de plexiglass que constituía a passagem 56-E da então base da polícia temporal. Uma estranha sensação de familiaridade ia tomando o seu ser enquanto avançava. "Estes corredores são todos iguais, mas... espere. Não pode ser. Será isso uma brincadeira?".


Enquanto isso, Elijah Gucci estava novamente em pé na parte central da câmara de transição para o Departamento M. Aos poucos, sentiu a presença de três pessoas ao seu redor. Reconhecia duas delas: "Druída" Zelansky e um ancião que já vira, anos atrás, quando ainda trabalhava como físico-assistente na alfândega cronal de Metoorea.

- Ele está a caminho?, perguntou "Druída".

- Sim. Já deve estar lá a essa altura. Em dez minutos, a missão chegará ao fim.

- Ótimo. O senhor deve conhecer meu amigo, o agente Carter (fez um movimento com a mão na direção do idoso). Este, ao lado dele, é o motivo primário desta missão, LeRoy Carmichael.

- O quê??, assustou-se Elijah, dando três passos para trás. - Vocês estão loucos de vez? Esta ameaça constará do relatório para o nível 5, não tenham dúvidas!

- Não seja ilógico, Elijah. Sua triste lógica é o que deixa vocês um pouco menos patéticos. Carmichael está sedado. Ele pode ver e entender o que está se passando, mas seus músculos não reagirão durante a próxima meia-hora. Dr. Carter é o médico de plantão da Prisão e é totalmente responsável pela presença de Carmichael aqui na câmara. Sossegue.

- Mas o que querem dizer com motivo "primário"? A razão da missão não é o próprio Terêncio Smith?

- Não, ele é o motivo secundário, disse Carter.


Smith continuou a caminhar pelo 56-E. As lágrimas vinham aos seus olhos. Finalmente reconhecia por completo aquele corredor, ainda que fosse idêntico aos demais. Sabia o que iria encontrar ao virar a esquina para o 56-F. Não era nenhuma formiga ou qualquer outro elemento Mandelbrot.

"Filhos de uma rameira. O que querem de mim?", pensou. Agarrado de vez à resignação, continuou a caminhar. A esquina estava agora a menos de 50 metros. "Já posso imaginar o que estão dizendo: 'pai, serei um agente como o senhor, quando crescer, ou um sacerdote M como meu avô?'. 'Você será um M, Terê. É mais seguro. E divertido, você vai ver'".

A cada passo, Terêncio relembrava as palavras. A cinco metros da esquina de plexiglass e mármore sintético brancos, as lembranças começaram a se misturar com sua própria audição. As pessoas do outro lado, no corredor contíguo, teimavam em confirmar sua própria memória, recitando uma conversa de anos atrás como um padre medieval recitava sua missa em latim (Smith havia conhecido tantos deles).

"'Mas, pai, eu quero levar uma vida normal'", lembrava Smith.

- Mas, pai, eu quero ter uma vida normal, disse a voz além da esquina.

Desesperado pela ansiedade, Terêncio correu os últimos três metros (não conseguia deixar de se sentir um ator atrasado para entrar no palco e despejar suas falas). Ao virar a esquina, tropeçou em um garoto de oito anos de idade, deixando cair o mapa com as pegadas que "Druída" havia desenhado. "Uma formiga", pensou Smith. "Mesmo no final, uma piada cretina".

Na sala de contrôle cronal, o chefe da equipe disse: "Ele está na posição e momento certos. Vai, agente K, mas permaneça incronicamente incólume".

Ao se abaixar para pegar o mapa inútil de um caminho que já havia trilhado e já conhecia, Smith olhou para dentro de seus olhos. Os olhos lhe responderam, com voz de criança: "Você... eu conheço você. Quando durmo, às vezes".

Terêncio respondeu: "Isso, criança, você me conhece. Estou aqui para que tudo acabe, ainda que só agora tenha me dado conta disso". Usando as palavras que décadas antes havia ouvido dele mesmo, completou: "mas não tenho medo; deixo agora para você a minha dádiva".

- Agora, agente K! Este é o momento!, gritou o líder operacional do controle cronal.

Ao terminar de dizer esta frase, Terêncio olhou para dentro dos olhos da criança a sua frente, sorvendo com a visão o brilho do que já

havia sido. E deixou transbordar de si, como havia aprendido com aquele velho russo barbudo, todo o seu conhecimento. A criança tremeu. O pai se aproximou.

Neste momento, o agente K imobilizou o velho senhor Thorquemada Smith. O pequeno Terêncio ouviu (e o velho Terêncio finalmente, depois de toda uma vida, o disse): "Só me resta fazer o que já está feito há anos".

As palavras, imagens e odores foram captados pelo sequencer cronal do agente K. "Atenção, contrôle cronal K-45739*576##4, a situação está sob controle. O momento único foi registrado no sequencer. Preparando os beats de caos e os compassos temporais para entrar no modo loop perpétuo".

- Está feito, disse "Druída", anos depois. "Eu posso sentir a mudança-confirmação-do-que-já-era na linha cronal".

Carregando um módulo do seu sequencer, o agente K se afastou da cena e daquele momentum, já devidamente em loop. Atrás dele, uma criança e um homem de meia idade se encontrariam eternamente. O novo sempre alimentando o velho, que por sua vez recriaria o novo e a si próprio.

*******************************************************************************

- Projeto Serpente Mordendo a Própria Cauda concluído com êxito, senhores, disse o agente K ao chegar ao contrôle cronal.

- Prefiro chamá-lo de loop downtempo, K. A palavra "tempo" aqui se aplica cronal e ritmicamente.

- Não entendo, senhor, mas, de qualquer forma, aqui está o módulo sequencer.

- Obrigado. Elaine, leve-o para o Dr. Elijah. Ele deve estar a esta hora na câmara de passagem.

- Senhor..., disse a médica cronal, com surpresa.

- Eu sei que você nunca esteve nela, Elaine. Está tudo bem. Nossos amigos a esperam.

Elijah ouviu uma batida na porta da câmara. "Druída" fez com a cabeça um sinal para que atendesse. Elijah caminhou até a entrada e abriu a porta. Elaine entregou-lhe o módulo sequencer, com um gesto involuntariamente engraçado, que demonstrava o quanto ela estava perturbada por vislumbrar os M's.

- Obrigado, Elaine. Pode ir agora.

Caminhou de volta até onde estava o trio e disse ao agente Carter:

- Aqui está, doutor. O módulo sequencer.

Observando o módulo nas mãos de Carter, contendo o momento final - e agora loop infinito - da vida de Terêncio Smith, "Druída" disse: - É uma pena que o próprio Terêncio tenha sido usado para sacrificar a si mesmo.Ele realmente foi ao passado para sanar um caso de loucura. Só não sabia que era o seu próprio.

- Nem que ele mesmo seria o causador de sua loucura, protestou Elijah. - Acho que a insanidade aqui pertence unicamente a vocês.

- Tudo já estava feito, doutor Gucci. Há anos. Somente utilizamos o que já estava escrito a nosso favor. Além do mais, todos havíamos concordado que os anos ininterruptos de viagens às mais impressionantes fossas da feitiçaria haviam tornado Smith um homem completamente insano. O que importa é o módulo sequencer e nosso querido Carmichael aqui.

Carter sentou Carmichael em uma poltrona e disse (tanto para o prisioneiro quanto para si mesmo): - Você é LeRoy Carmichael, terrorista temporal procurado em quatro linhas possíveis (e destruidor de todas elas, em linhas possíveis possíveis). O que tem a dizer em sua defesa?

- Isso é ridículo!, esbravejou Elijah. - O homem está sedado muscularmente!

- Ora, doutor... Bem-vindo a Intempol!, disse "Druída".

- Doutor José Carter O'Reilly registrando, disse o médico da Prisão em seu loborecorder. - Hoje é 14/06/plano 75-linha principal. À minha frente está LeRoy Carmichael, um dos prisioneiros mais perigosos do complexo penitenciário Henry Armstead-Gonzalez. Estirpado de seu tempo, ele tem aguardado em sua quanto-cela por tempo impossível de ser calculado, à espera de julgamento e sentença. O julgamento ocorreu no que poderíamos classificar como "ontem". Para efeitos médico-jurídicos, gravo agora seus momentos finais como ser humano dotado de raciocínio linear e progressivo.
Ao dizer estas palavras, Carter desencaixou dois pequenos cabos do módulo sequencer e, distendendo-os, colou suas pontas nos lobos frontais de Carmichael.

- Dando início à experiência de funcionamento do módulo sequencer.

Este módulo, protótipo número 3, foi utilizado pelo agente K para capturar em loop temporal imutável a vida do agente especial clinicamente condenado Terêncio Smith. Estou agora processando a vida de Smith em uma única série de bits orgânicos, contando um resumo de sua vida, repetida instantaneamente infinitas vezes sob a forma de loop provocado. Eu, agente-médico nível 4 Carter, estou agora assumindo a fase final da experiência-sentença.

Elijah olhou para o lado e viu "Druída" sorrir de uma forma que lhe pareceu tola e irritantemente ilógica.

Carter Continuou:

- Movendo estes buffers, transformo agora o módulo sequencer, já plenamente carregado com um loop vital, no nosso primeiro Gerador de Déja-Vu.

- O primeiro de uma série, com as graças de Samhain, disse "Druída".

O recém-convertido Gerador de Déja-Vu mugiu e começou a tremer.

Carmichael não esboçou reação, embora os conectores brilhassem com a transmissão de memórias induzidas.

- O prisioneiro LeRoy Carmichael demonstrou possuir um Q.I. de 270 pontos, continuou Carter. Aliado às suas idéias de unificação dos multiversos, isso faz dele um homem muito perigoso. Se o novo Gerador de Dèja-Vu der certo, Carmichael estará, em instantes, finalmente cumprindo sua sentença: preso em um micro-loop artificial. Não um loop temporal, o que seria muito caro de manter para um prisioneiro ainda vivo, mas um loop mental. Suas idéias deixarão, finalmente, de ser avançadas e ele se comportará como um inofensivo portador de amnésia aguda, lembrando-se somente dos últimos cinco segundos imediatamente anteriores. E sempre terá a impressão de já tê-los vivido. Essa sensação de Dèja-Vu o impedirá de desenvolver novas idéias e tampouco raciocinar sobre sua própria condição.

Minutos depois, o Gerador parou de tremer. Carter desconectou os cabos da cabeça de LeRoy.

- Está terminado.

"Druída" se aproximou.

- Se importa se verificarmos, doutor?

- Claro que não. Vá em frente, respondeu Carter.

"Druída" abaixou a cabeça em frente a LeRoy e desligou o inibidor muscular.

- LeRoy Carmichael. Quem é você?

O prisioneiro abriu a boca ressecada e balbuciou: - Está terminado.

Se importa se verificarmos, doutor? Claro que não, vá em frente.

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