quinta-feira, 26 de maio de 2011

SpaceBlooks: Toinho Castro entrevista Robert Shearman

Como todos sabem, e esperam ansiosamente, o SpaceBlooks acontece nos próximos dias 30 e 31 de maio e 1 de junho, às 19h, na Blooks, com a participação do autor ingês, roteirista da série de TV Doctor Who e os escritores brasileiros Lúcio Manfredi e Pedro Vieira. Para começar nossa contagem regressiva trazemos hoje uma entrevista (feita por email) com Robert Shearman, que fala de Doctor Who e dos seus contos. Com vocês, Mr. Robert Shearman!


Hoje em dia temos muitas séries de ficção científica na tv. Série americasn como Lost, Fringe, Flashfoward ou inglesas, como Doctor Who e Outcasts. O que você pensa da relação entre a cultura sci-fi e a televisão?
Eu acho essencial. A ficção científica na literatura tem algo de gueto, porque sua natureza especulativa é questionadora e intelectual, portanto não muito popular. A maior parte da ficção, eu diria, existe para reassegurar e entreter – a ficção científica deve sempre entreter, mas é melhor quando quer desafiar e apresentar novas ideias. O que a TV faz com a ficção científica é transformá-la em algo que uma pessoa média pode esbarrar enquanto pula de canal em canal – pessoas que dispensariam esse gênero na forma de um livro podem se sentir envolvidos quando isso é oferecido visualmente. Eu suponho que isso mude a natureza do é ficção científica – que ela também se torna algo  que reassegura. Mas se isso é feito de uma maneira inteligente, eu acho que encoraja o telespectador passivo a começar a questionar a natureza da realidade de um jeito que ele nunca esperou. Lost foi vendido como um programa de mistério numa ilha deserta e no final estava lidando com viagens no temp e múltiplas realidades; Doctor Who se vendeu como um programa leve para crianças, mas brinca com conceitos cada vez mais amplos e ousados.

Como uma série como Doctor Who, tão desafiadora, consegue ficar no ar tanto tempo e sempre nos surpreendendo?!
Doctor Who é um programa extraordinário porque não pertence a um único escritor. Começou em 1963, e foi concebido como algo para divertido e educativo para crianças – mas como não havia tentativas iniciais de explicar quem era o Doutor ou de onde ele veio, a série pode crescer e se desenvolver no seu próprio ritmo. Não foi antes de 1969 que veio a ideia de que ele era um Senhor do Tempo – numa história escrita muito depois que os escritores originais já haviam deixado a série! O prazer de Doctor Who, nesses 48 anos, é que nunca, de ano para ano, é o mesmo programa – diferentes pessoas o dirigem e o conduzem a novas direções, guiados por sua própria imaginação. Nenhum estilo é definitivo – foi um programa de horror em 1975, comédia em 1979, uma fantasia para crianças em 1978, romance em 2006. Agora, em 2011, é um grande quebra cabeças com um enorme arco de história, como Lost. E mudará novamente!

Fale-nos um pouco do seu trabalho de literatura, como seus contos.
Eu comecei no teatro; escrevia peças para público dos feriados de verão. Mas havia uma estranheza que rasteja dentro delas – podiam ser sobre um casal que criava um amigo imaginário, ou sobre pessoas encontrando com suas versões mais jovens num hotel deserto. Havia sempre um elemento de ficção ou fantasia no que eu estava fazendo, mesmo que eu não percebesse isso naquela época. Após trabalhar em Doctor Who eu comecei a receber  (inesperadamente) convites para escrever contos e me apaixonei. Eu acho que minhas histórias tem uma grande natureza cômica, mas elas começam com estranhas especulações. Minha primeira coletânea, Tiny Deaths, ganhou o World Fantasy Award e isso só me empolgou mais. Meu livro mais recente, Love Songs for the Shy and Cynical, que ganhou o Shirley Jackson Award e o British Fantasy Award, é uma coletânea de história sobre amor, mas um amor muito estranho – o Demônio escrevendo ficção romântica, um porco no Jardim do Paraíso compondo a primeira canção de amor, uma espeosa voltando para o seu marido com o coração dentro de uma caixa.  Eles são muito peculiares e um pouco horríveis e, espero, tocantes. Minha nova coletânea, Everything’s Just So Special, será publicada em julho, e são estranhos contos sobre história e memória e de como somos definidos por ambos. Estou muito animado com isso.

Você já esteve no Brasil? Qual a sua expectativa em relação a esses encontros no Rio e São Paulo?
É minha primeira vez no Brasil e estou muito ansioso. Cada país, claro, tem sua própria cultura, e tem o prazer de viajar é descobrir como um lugar pode ser diferente de sua casa. Mas a coisa engraçada da ficção científica é como ela nos une a todos. É algo muito poderoso. Então, assim como espero aprender o quanto um país pode ser diferente, espero também encontrar outros escritores e pessoas influenciada pela ficção científica com quem eu tenho tanto em comum, sem importar que a gente viva milhares de quilômetros separados!

sábado, 21 de maio de 2011

Evento Space Blooks 2011: A Ficção Científica em Órbita do Rio





Agora é para valer, pessoal. Eis o release oficial do SpaceBlooks2011:


Com curadoria de Octavio Aragão, doutor em Artes Visuais (UFRJ) e professor da Escola de Comunicação da UFRJ, a segunda edição do encontro traz a cidade, de novo, para o centro do universo de alienígenas, mundos paralelos e fenômenos inexplicáveis que conquista uma crescente legião de fãs.


Este ano, o SpaceBlooks ganhou mais uma noite e um convidado internacional: Rob Shearman, escritor britânico vencedor do World Fantasy Awards, finalista do prestigiado prêmio Hugo, e um dos roteiristas da série cult britânica Doctor Who.

"A maior parte dos seriados tem seu pé bem plantado em conceitos de Sci-Fi, vide os fenômenos Lost, Heroes, Fringe e The 4400... Ter um roteirista do gênero e escritor premiado falando sobre seu processo de trabalho na TV inglesa será um presente para todos nós", comemora Aragão.

A programação inclui Lúcio Manfredi, de Dom Casmurro e Os Discos Voadores (Leya), e Pedro Vieira, de Memórias Desmortas de Brás Cubas (Tarja Editorial) - autores de mashups que ousaram lançar mão de obras do "bruxo do Cosme Velho" em romances polêmicos, que mexeram com o panorama literário no final do ano passado. Além deles, Gerson Lodi-Ribeiro faz a noite de autógrafos do seu A Guardiã da Memória (Draco), no terceiro e último dia do evento. A Draco aproveita e lança, também, Space Opera, antologia com textos de diversos autores brasileiros sobre naves espaciais, alienígenas e armas futuristas.

Data: 30 e 31/05 e 01/06, às 19h. Local: Blooks Livraria - Praia de Botafogo 316, Botafogo (Unibanco Arteplex) - (21) 2559-8776 / Grátis.

facebook.com/blookslivraria & twitter.com/Blooks 

Não tem desculpa! Todo mundo lá, que será melhor que no ano passado. 

sexta-feira, 20 de maio de 2011

A Guerra dos Imoles, 7ª parte - uma noveleta de Roberval Barcelos

A primeira batalha

Adebisi não se sentia à vontade com a escolha. Desde que começaram seus sonhos estranhos que a aldeia inteira o trata como se não fosse gente, mas sim algo a ser temido ou adorado. No momento, ele começava a ser evitado. Só o Babalaô lhe dirigia palavras de conforto e esse tal de Ferreiro se esforçava em ser simpático. Tirando eles, nem Iawana.

De repente, um grupo de guerreiros de sua tribo agitou-se e correu para o centro da aldeia empunhando
lanças de madeira. Pouco depois, um grupo pequeno de outra tribo chegou liderados por um homem grande e forte – “no auge” – , chamado Afisi, que logo solicitou uma reunião com os anciãos. Adebisi ficou por perto para escutar.

Reuniram-se na maior cabana e, sem cerimônias, o tal Afisi foi logo ao assunto:

– Sabemos sobre o “élégun” – disse. – E isso é muito perigoso.

– Nossa tribo foi abençoada pelos deuses – disse um dos anciãos – O primeiro entre nós nos ligará aos
deuses para sempre.

Afisi inclinou o torso e rebateu:
– Fomos ao Babalaô da montanha e ele perguntou a Orunmilá sobre o nosso destino. O que ele viu não foi nada bom.

Os anciãos trocaram olhares. Havia muitos Babalaôs – talvez uma dúzia – espalhados pelos cantos daquele pedaço da África e todos eram igualmente respeitados.

– O que lhe disse Orunmilá? – indagou um dos anciãos.

– Que o fim de tudo se aproxima – fez uma pausa. – Os deuses se dividiram entre “irún-imolés” (deuses da direita) e “igbá-imolés” (deuses da esquerda) e os segundos querem destruir o mundo só para que nunca haja um “élégun”.

Os anciãos iniciaram um murmúrio. Havia entre eles um minoria que era contrária ao “élégun” por julgálo uma blasfêmia aos imolés e um grupo ainda menor que tinha medo – muito medo.

– E você, Afisi? O que teme?

– Temo apenas os deuses.

– Teme os “irún-imolés” ou os “igbá-imolés”?

Afisi não respondeu. Franziu o cenho e passou a língua nos lábios.

– Teme os homens? – a pergunta do ancião foi em tom de desafio.

– Temo o que não posso enfrentar mesmo com a força de mil guerreiros. Temo estar impotente para ajudar os meus.

O ancião pegou um pote de barro. Retirou dele uma ponta de bala de fuzil um pouco arranhada e
chamuscada. Atirando-a entre as pernas de Afisi, disse:

– É a isto que você teme, Afisi. Os homens maus que destruíram a aldeia da curva do rio. O que mostro
foi tirado de dentro do peito de um guerreiro jovem – que estava morto. Essa coisa pequenina mata mais do que uma lança grande e é por isso que você está com medo.

Afisi respirou fundo, apanhou a bala e devolveu-a ao ancião.

– Aqueles homens não querem o “élégun” entre nós e pediram que lhe fosse entregue. Se não obedecermos eles nos castigarão.

– Viu Afisi? É o medo dos homens e não dos deuses que te trouxe aqui. Que homens são eles para tentarem
se sobrepor aos deuses?

– Devem ser mensageiros dos “igbá-imolés”. Eles usam armas que não podemos compreender e têm muitas aldeias aliadas que usarão contra nós.

– Nós?

– Sim. Contra a minha aldeia e a de vocês. Se lhes entregarmos o “élégun”, a guerra acaba, os homens maus vão embora, os “igbá-imolés” serão aplacados e salvaremos o mundo da destruição.

Os anciãos ficaram em silêncio. Procuravam nos olhos de Afisi respostas ou brechas para novas perguntas.

Do lado de fora, atento à conversa, Adebisi sentia seu coração querendo sair pela boca.

– O único que pode salvar o mundo é o “élégun” – sentenciou um dos anciãos, fazendo jus aos anos de
experiência.

Afisi sentiu-se frustrado. Olhou para cada um dos anciãos e, por fim, disse:

– Vocês estão cometendo um grave engano ao verem o “élégun” como um deus. Depois do primeiro, vocês continuarão a fazer novos deuses? Arrogar-se-ão em criar deuses todos os dias? Adorarão homens que se dirão portadores da essência dos deuses? No final esquecerão que fazemos homens e não deuses?

– Não, Afisi. Apenas sabemos que os deuses nos deram uma oportunidade de, juntos, criarmos uma grande Era. E acredite que sabemos a diferença entre homens e deuses.

Afisi encerrou a conversa. Respeitosamente, se retirou e ao sair deparou-se com Adebisi, que olhava
assustado para seu porte majestoso.

Sem dizer uma palavra, ele partiu com sua escolta de guerreiros. Adebisi esperou que ele sumisse de vista e entrou na cabana, onde os anciãos ainda conversavam.

– Falavam sobre mim?

Silêncio.

– Ele – apontou para fora, referindo-se a Afisi – queria me matar, não queria?

Silêncio.

– E vocês? Estão decidindo o quê fazer comigo?

– Não. – respondeu o mais velho de todos com firmeza – Só confirmamos que temos fé nos deuses e que de tanto amá-los os queremos bem próximos de nós. Para isso precisamos do “élégun”, ou seja: de você.

Adebisi sorriu de alívio e satisfação. Saiu dali saltitando pela aldeia, feliz em ver-se novamente um ente querido.

terça-feira, 17 de maio de 2011

A Victorian Mindset: Interview with Rick Geary

He is the owner of a very distinctive drawing style and a peculiar taste for Victorian settings. A fan of the Gothic literature from the XIX century, his books are a intriguing fusion of sweet, fluffy character designs and heavy, dramatic plots. With a variety of works that include comics adaptations of Poe, Dickens, Brönte or Doyle and the illustrated covers of mainstream magazines, Rick Geary is one of the most talented illustrators of North America.


***
Octavio Aragão: You have a career in the Comics Industry and as editorial illustrator. Which is your favorite and which one is the "harder" to accomplish?

Rick Geary:
I enjoy doing both comics and editorial art about equally because each presents its own set of challenges. I'd say that editorial is harder in the conceptual stage and easier in the execution, while comics are just the opposite.

OA: You have produced a lot of comics works related to the Victorian era, such as adaptations of literary works of Dickens, Arthur Conan Doyle and Edgar Alan Poe, or versions of the "famous crimes" of the period. What is so appealing in the XIX century pieces that inspires you so much?

RG: I've always been fascinated by the Victorian mindset, which hid its roiling passions beneath a cloak of propriety and reserve. It was really very kinky. During that time, the sensational press was just getting started, and people couldn't get enough of the grisly details of murder cases. In addition, I just enjoy the trappings of the period, the railroads and carriages, the clothing, furniture and nicknacks.


OA: The interaction of your drawing style and the gothic subjects are very unusual, transcending the traditional "gore" illustrations we are used to see in this kind of books (just came to mind the Berni Wrightson's version of Frankenstein as opposed to your rendition of Poe's stories). What assured you that your style was perfect for this kind of story - instead of a more juvenile narrative - and how was the acceptance of your first work proposal in this area?

 RG: I tend to avoid the direct representations of gore and violence. Not that I'm squeamish about such stuff, but my sense of the humor has always leaned toward the indirect and incidental. Plus the Victorian era was long enough ago to provide the detachment that makes a whimsical approach possible. The first stories I did in this vein were looked upon with doubt by some publishers. I'm not sure that my style was "perfect" for them, but it's that kind of narrative I was drawn to.

OA: You have an Art degree but also on Film too. How does it influence your work as illustrator?

RG: I originally wanted to be a filmmaker, but eventually realized that I'm not a collaborative person. I'm much more comfortable as a solitary worker at my drawing board, and the graphic story medium gives me the ultimate control of the material. Still, I count certain film-makers as important influences on my work: Bunuel, Kurosawa, Welles, Hitchcock.


OA: Last question: There are a lot of writers today that - in a way or another - fits with the "gothic" feeling, like Umberto Eco (The Name of The Rose), José Saramago (Memorial do Convento) or Arturo Pérez-Reverte (The Dumas Club). Any future plans to deal with contemporary literature?


RG: I think that the detached and whimsical approach of my Victorian stories would probably not work for the adaptation of present-day authors. Still, there are certain 20th century writers I'd like to adapt (like Nathaniel West), but with them you run into copyright problems.

Thanks and best regards,
Rick

terça-feira, 26 de abril de 2011

A Guerra dos Imoles, 6ª parte - uma noveleta de Roberval Barcelos

Pelos deuses

Graças a Ferreiro, os agentes da Intempol foram bem recebidos na aldeia. Tratados como hóspedes bemvindos, eram motivo de curiosidade para todos, principalmente para as crianças. Mas tratava-se de um acontecimento especial porque um dos mais importantes “Babalossains” do Candomblé estava frente a frente com um dos mais antigos Babalaôs da história.

– Você nem imagina o quanto me sinto honrado em estar diante do Babalaô – disse Ferreiro como se fosse um veterano da Empresa e não um marinheiro de primeira viajem. Mas o tradutor era uma complicação: teimava em verter ‘Babalaô’ para ‘pai dos segredos’.

O Babalaô não parecia surpreso, apesar de Ferreiro dizer que vieram do futuro. Agia com naturalidade
irritante. Talvez simplesmente não acreditasse ou não compreendeu o que Ferreiro lhe dizia.

– Meu nome é ainda lembrado no futuro? – Indagou o sacerdote, deixando escapar uma ponta de orgulho narcisista.

– Infelizmente não – respondeu Ferreiro, demonstrando um constrangimento que não passou despercebido.

– Então muito se perdeu, não?

– Sim, Babalaô. E temo que muito ainda se perderá. Em minha época já não se conhece o nome de muitos Orixás e talvez saibam menos sobre um número ainda menor.

– Orixás? – O Babalaô indagava como se quisesse uma confirmação.

– Como serão conhecidos os “Irún-imóles” quando a guerra acabar.

– Serão? Ainda tem tanta certeza sobre o incerto?

– Para ser sincero – Ferreiro estava triste e suas palavras eram pausadas e embargadas – estou com medo. Quero acreditar que Orunmilá e Olodumare não abandonarão os homens e deixarão o futuro existir. Quando penso que posso ter vindo de lugar nenhum, sinto-me como uma farsa diante da divindade.

– Acha que podemos fazer algo? – As palavras do Babalaô tinham o tom do desafio.

Ferreiro ergueu a cabeça e retomou o porte altivo que tinha ao chegar na aldeia. Olhou nos olhos do velho e disse como se aceitasse o desafio:

– Faremos o que sabemos fazer – depois apontou para Franco, ainda deitado na esteira – com ou sem ele.

– Será que poderemos salvar o futuro?

– Nós? Talvez. A palavra final será dos deuses, mas não creio que se interessarão em ajudar quem nada faz por si.

– Então vamos lutar? – O Babalaô falava com o entusiasmo dos jovens antes da primeira caçada.

– Com as armas que temos: nossos conhecimentos. Tenho o saber das plantas sagradas ensinado aos homens pelo Orixá Ossãin e vou usar o que sei para ajudar o “élégun”, quer gostem os “Igbá-imóles” ou não.

– Orunmilá me mostra o futuro, – disse o Babalaô – mas também desvenda o passado e o presente. Por Ifá se conhece os segredos e nenhum pode ser maior do que o que ainda não aconteceu.

– Mas vai acontecer! – Chico Ferreiro teimou, cada vez com menos convicção e parecia prestes a desistir, afinal, o homem que antes lhes parecia tão poderoso estava prostrado na esteira. – Se não desistirmos em entregar nosso destino aos deuses e escolhermos o nosso caminho, eles nos honrarão com seu respeito por nós e uma Era fantástica começará.

– Então vamos começar a fazer o que tem que ser feito, afinal Ifá não previu o fim do mundo, apenas disse que nada estava definido.

Havia muito o que conversar e num canto, em silêncio, Franco se recuperava e tentava entender o que vira. Temia que Babalaô, sem a supertecnologia da Intempol, pudesse ser o único com possibilidades de ganhar a barganha.


* * *

Julian Akim preferia contemplar a planície logo abaixo a supervisionar o trabalho. Seus homens e máquinas seguiam num ritmo frenético. Somente deixou de lado a visão panorâmica quando Linterbaun se aproximou:

– General, trouxemos todas as folhas, grãos e bebidas que o senhor mandou, mas teremos dificuldade e conseguir o tal cachorro.

– Não, não terão. – Akim sentenciou. – Há cães em outra aldeia.

Linterbaun sorriu e indagou: – Então temos carta branca para agir?

– Sim, desde que fiquem bem longe daquela aldeia onde fomos. É lá que está o que procuro.

Linterbaun prestou continência, selecionou três homens e partiu. Akim voltou a admirar a planície que se estendia abaixo.

* * *

Em uma aldeia próxima de uma pequena cachoeira, dois guerreiros poliam suas lanças de madeira e sorriam apontando para o grupo de caçadores que esfolava um leopardo. O animal, muito arisco, deu um trabalho danado àqueles jovens caçadores, mas no fim triunfaram e a pele do animal serviria de adorno ao líder da caçada.

De repente, quatro homens trajando estranhas vestes que se apropriavam da cor dos objetos próximos,
surgiram como se saídos do nada, portando estranhas armas e separados uns dos outros por cerca de dois metros. Os guerreiros logo os reconheceram: eram os tais homens que traziam presentes em troca da submissão da aldeia. Eles se lembraram que seus anciãos não aceitaram a submissão e os mandaram embora – agora, sem serem convidados, estavam ali com olhares ameaçadores.

Linterbaun fez um sinal com o braço esquerdo e o grupo se aproximou da aldeia. Logo, os guerreiros deram um grito de alarme e surgiram mais uns trinta homens portando lanças de madeira, aos quais se juntaram os jovens caçadores. Antes que pudessem dizer qualquer coisa, viram riscos luminosos saírem das armas dos homens estranhos e muitos caíram em dor e agonia, morrerendo em seguida.

O líder da caçada, bravo como se esperava que fosse, ergueu o braço e arremessou a lança em direção a Linterbaun. A lança teria perfurado o ventre se o invasor não estivesse bem protegido pela a roupa especial que aparou a lança. Linterbaun fitou o agressor e sorriu, principalmente quando o caçador, longe de se dar por vencido, abaixou-se a apanhou uma pedra. Quando levantou, um disparo arrancou-lhe o braço. Ele gritou de dor e espanto, mas abaixou-se novamente para, com o braço restante, apanhar outra pedra. Linterbaun mirou e despedaçou-lhe a cabeça.

Os homens de Akim foram abrindo caminho pisando sobre os corpos despedaçados de homens, mulheres e crianças. Apenas algumas sobreviventes se agarraram aos filhos que lhes sobraram e adentraram pela mata, fugindo da morte. Fora elas, mais ninguém escapou.

Num canto, presos por cordas, estavam dois cachorros que latiam desesperados diante da destruição que se abateu sobre seus falecidos donos. Um dos soldados sorriu e apontou para os animais, depois todos ajustaram as armas e dispararam bombas incendiárias sobre as cabanas. Em breve restavam apenas cinzas.


* * *

Os anciãos chegaram esbaforidos na cabana do Babalaô e relataram que uma aldeia próxima dali foi
destruída. Seus habitantes foram mortos pelos homens estranhos que lhes haviam dado presentes com exceção de algumas mulheres que fugiram pela mata agarradas aos seus filhos pequenos e que narraram a história. Segundo elas, apenas quatro homens exterminaram quase trezentas pessoas com armas que reproduziam o som do trovão, provocando fogo e morte. Pareciam interessados somente nos cães e levaram dois com eles.

– Serão esses os verdadeiros deuses? – Indagaram os anciãos que acorreram ao Babalaô – Orunmilá respondeu que não – disse o Babalaô.

– Então quem mais realizaria tais proezas? – teimou um velho.

– São só homens como nós, mas homens maus. Nossos convidados vieram até aqui para nos proteger deles – o Babalaô apontou para Franco e os anciãos não pareciam convencidos.

– Foi você quem nos disse que Orunmilá previu a fúria dos deuses que se sentem ameaçados e que eles têm um poder de destruição nunca visto, como aqueles homens que destruíram a aldeia.

O Babalaô consultou Ifá e repetiu:

– Não são deuses, são homens maus.

– E de onde vem aquele poder?

– Dos homens. Assim como um dia aprendemos a fazer fogo, construir nossas casas e conhecemos Ifá, eles só sabem o que lhes ensinaram outros homens que vieram antes.

Os anciãos não entenderam o que quis dizer o Babalaô. Nem poderiam, pois governavam uma aldeia de caçadores, que transmitiam sua experiência de vida aos mais moços. Não são eram sábios nem sacerdotes, tampouco devotaram suas vidas ao conhecimento ou a divagação. Esse tipo de governante ainda não surgiu naquelas paragens do mundo.

Eles se retiraram respeitosamente. Um Babalaô goza do mesmo prestígio entre os iorubás que gozaria um Bispo católico na Idade Média.

– Estão com medo – reparou Ferreiro.

– Quem não estaria?

– Orunmilá disse que só teremos chances de salvar o mundo se não tivermos medo e que a salvação não vem de fora – o Babalaô olhou para Franco – mas sim de nossas cabeças.

Adebisi notou que era para ele a quem o Babalaô dirigia aquelas palavras, mas em seguida sentiu-se
sonolento e fechou os olhos. Quando abriu, estava em algum lugar onde via o homem com o corpo todo coberto por palha da costa dançando. Por onde pisava caíam búzios que cobriam todo chão e faziam um trilha que Adebisi seguia, pois adorava ver todos aqueles búzios ao alcance das mãos. Ficou imaginando quantos adornos poderia fazer com eles.

Tentou pegá-los com as mãos, mas eram muitos e, a cada passada, caíam ainda mais búzios. Adebisi desistiu de pegar as contas caídas no chão e preferiu ir até o “imóle” – só podia ser um – e perguntar onde ele havia encontrado tantos. A divindade nada respondeu, apenas ergueu para Adebisi a mão cheia de búzios.

– Não quero os teus búzios, – disse Adebisi ao “imóle” – prefiro que me diga onde os conseguiu para que eu mesmo possa buscá-los.

Então o “imóle” largou algumas contas nas mãos de Adebisi e desapareceu. Voltando à trilha notou que os búzios que o “imóle” deixara cair não se viam mais no chão. Adebisi acordou na barraca e viu que o Babalaô, Ferreiro, Tadeu, Giácomo e Roberto olhavam para ele.

– Sonhei com aquele deus de novo, Babalaô – a voz dele era de euforia. – Sonhei que ele deixava cair búzios pelo chão, mas só consegui pegar os que ele me deu. O que isso quer dizer? Todos em silêncio. Adebisi insistiu:

– Pode perguntar isso a Orunmilá?

Ferreiro, ainda surpreso, disse quase num sussurro:

– Adebisi, olhe para suas mãos.

Só então ele reparou: nelas estavam os búzios que o “imóle” havia lhe dado no sonho.


* * *

Roberto e Giácomo checavam suas terminators sob o olhar aparvalhado de Tadeu, que ainda não havia se acostumado com a idéia de andar armado. As crianças da aldeia ficavam em volta deles, curiosos.

– Será que teremos algum tiroteio? – Tadeu perguntou.

– Pode ser – respondeu Roberto enquanto guardava a terminator de volta no coldre – Nós estamos aqui somente como seguranças, pois o que tiver que ser feito ficará por conta do Comissário Franco e do tal Ferreiro.

– Notou uma coisa, Roberto? – perguntou Giácomo – Eu nunca vi esse tal de Franco pelos corredores da Empresa. Nunca mesmo. Pela maneira de agir parece ser bem experiente e já era para ao menos termos ouvido falar dele.

– Deixe de ser presunçoso, Giácomo! – disse Roberto – A Empresa tem filiais em todo CET, exceto nos Anos Interditos, por isso ninguém jamais conhecerá todo mundo, até porquê nunca foi calculado o número exato de funcionários. Tadeu achava a conversa dos dois irritante e tentava se distrair com a idéia de que estava em outra época.

Mas nada de interessante via ali, nem mesmo um personagem histórico relevante para mais tarde contar na Empresa que viu fulano ou sicrano. Giácomo reparou nas mulheres de peitos caídos e cheias de cabelos nos sovacos, sem falar do mau hálito, dos dentes quebrados e do cheiro de urina que impregnava as cabanas. Apenas poucas adolescentes exibiam seios firmes e um bumbum não tão grande, mais parecidos com as mulheres de seu tempo. Ao menos dessa vez se comportaria.

Roberto sabia um pouco mais: não era difícil deduzir que estava diante de um grave Ponto de Divergência, do qual surgiriam diversas LTs, por isso a missão de deter Akim e manter o CET para, mais uma vez, salvar o futuro e evitar uma nova LT. De qualquer maneira, aquele esquisito do Franco deveria ter as respostas.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

A Guerra dos Imoles, 5ª parte - uma noveleta de Roberval Barcelos

Do homem

Akim fez outras visitas de cortesia a outras aldeias. Em todas foi bem recebido por conta dos presentes que distribuía generosamente e pela aparência imponente diante dos olhos ingênuos dos aldeões. Em poucos dias era visto como um amigo por pelo menos quinze aldeias. Os búzios também falavam com ele, mas de modo estranho, afinal não era uma consulta aos Orixás porque eles ainda são Imóles nesta época, mas quem respondia às suas indagações eram os “eguns”, ou seja: os espí ritos dos mortos que ainda vagavam pela Terra. Esses “eguns”, ainda carregando consigo as imperfeições da vida humana, tomaram Akim como um amigo, alguém que devessem proteger por ser um elo entre vivos e mortos, e passaram a acompanhá-lo e enviar-lhe mensagens através dos búzios. E os “eguns” contaram a ele que outros homens estavam na aldeia que ele primeiro visitara, que o Babalaô mentiu e que o primeiro “élégun”, o primogênito dos iniciados, estava naquela aldeia, aguardando o sinal dos “Irun-im óles” para trazer aos homens o primeiro dos Orixás. Também contaram que os deuses da esquerda, os “Igba-imóles”, discordavam em nivelar os inferiores humanos àqueles que foram abençoados com dons divinos pelo Deus Supremo e que viam na destruição dos homens o único meio de evitar tamanha blasfêmia.
– Exatamente como contam as lendas – exultava-se Akim.
A consulta terminou quando Linterbaun trouxe alguns homens idosos a sua presença. Num gesto teatral, Akim apanhou um pequeno cubo e o fez projetar um imagem holográfica de si mesmo. Os pobres africanos ao verem tal coisa aparecer e desaparecer ao comando daquele homem fantástico, não hesitaram em se atirar ao chão, prostrados em adoração.
– Fiquem de pé! – O iorubá de Akim era perfeitamente compreensível para eles, que obedeceram.
– Farão o que eu mandar?
Um dos idosos se fez de porta-voz:
– Estamos diante de um instrumento dos deuses?
Akim sorriu malicioso, apesar de saber que por mais ‘poderes’que exibisse, não o tomariam como uma divindade.
– Sim. Eu vim a mando dos deuses que estão irados e ameaçam destruir a tudo e todos se um terrível mal
não for evitado – seus anos como ditador o ensinaram a mentir de forma convincente.
– Ai daquele que ousar ser t ão grande como um deus sem ser um deus!
Começou um murmúrio. Outro idoso perguntou:
– Que mal é esse que tanto aflige os deuses? Não somos nós os culpados, ou somos?
– Não se trata de culpa – Akim falava em tom paternal – mas sim de devoção. Se você agrada aos deuses.
mas permite que outro os desagradem, então de nada valeu a sua devoção. Numa aldeia há um homem que desafia a vontade dos deuses. – Isso é blasfêmia!
Eles se horrorizaram.
– Claro que é. Portanto, fiquem prontos para atacarem aquela aldeia ao meu sinal e, assim, evitarem a ira dos deuses.
Os idosos murmuram mais um pouco e concordaram, com relutância, em dar um voto de confiança a Akim. No final, o ditador lhes deu mais presentes e os dispensou. Após saírem todos, Linterbaun perguntou:
– General, o senhor pretende usar aqueles pobres coitados para atacarem a aldeia? Mas nós podemos ir até lá e destruir tudo em minutos.
– Esses ‘pobres coitados’ são nossos antepassados, Linterbaun – disse após um muxoxo. – E eu sei muito bem que podemos destruir aquela aldeia em minutos, mas prefiro que eles mesmos o façam, pois que sua destruição certamente agradará ao meu pai – tocou o chão com as pontas dos dedos da mão direita e levou-os a testa – Ogum!
“Ogum-yiê”!
Linterbaun franziu o cenho, pois se julgava racional demais para acreditar em mitos – ao menos para ele eram mitos.
– A função de vocês é proteger a mim e a missão. Aliás, mudando de assunto, terminaram as buscas? – disse Akim.
Linterbaun retesou o corpo antes de responder, pois os anos de convivência não tiraram dele o
constrangimento de ter seu assunto abruptamente cortado por Akim.
– Sim, General. Apenas aguardamos instruções.
– Excelente! – Akim sorriu. – Tudo transcorre exatamente conforme planejei.
Linterbaun prestou continência e saiu dali a passos largos, deixando para trás um líder que voltava a sonhar com tempos de glória.

* * *

Franco soube dos homens de Akim e se preparava para um confronto iminente. Tudo que ele precisava fazer era aguardar o momento exato para desferir um golpe enquanto o ditador agisse e evitasse o contato com o deus Ogum ainda “Igbá-imóle”.
– Sabemos sobre o “élégun” – disse Ferreiro ao Babalaô – e das maravilhas que os Orixás nos reservam.
– O que vocês querem então? – O Babalaô indagou.
– Queremos que tudo dê certo. Queremos que seja feita a vontade dos “Irun-imóles”.
– Por quê? O que realmente o traz aqui?
Diante da réplica do Babalaô, Chico Ferreiro deu de ombros e disse:
– O futuro. – e, apontando para os outros, acrescentou – Todos nós viemos do futuro. Somos os nãonascidos.
O Babalaô sentiu um frio na barriga. Lendas falavam de homens que morreram mas cujos corpos vagavam pelo mundo sem alma, outras lendas falavam de espíritos que vinham ao mundo para conhecer o local onde nasceriam. Mais lendas vinham à sua mente: homens que viam o futuro, homens que já nasciam conhecendo o futuro e até de homens que iam e vinham do futuro. – Nós sabemos como tudo isso termina – continuou Chico Ferreiro. – Sabemos qual será o fim do que acontecerá aqui.
– O fim? – O Babalaô arregalou os olhos. – Então há mesmo o final de tudo? O fim de todas as coisas?
Chico Ferreiro ergueu a mão como se pedisse calma. O Babalaô ficou esperando e ele explicou, tendo o cuidado para não expor novamente o homem de 1800 a.C. a conceitos de sua época:
– Eu falava sobre o desfecho da iniciação do primeiro “élégun”. Tudo dará certo e os “Igbá-imóles” serão derrotados e destruídos por “Olodumare”.
– O deus-supremo intervirá em favor dos homens? – a voz do Babalaô não era de um crédulo. – Ifá não diz isso, mas sim que a guerra ainda nem começou. Como pode haver uma certeza sobre o desfecho da Iniciação se nem Ifá sabe? Querem ser maiores do que um deus?
– Acho que posso explicar – Franco intrometeu-se na conversa. – Ifá diz que o desfecho ainda é incerto porque neste instante há um guerra em andamento, mas nós viemos do futuro, portanto sabemos que esta guerra já terminou e como terminou. No futuro haverá muitos outros “éléguns”.
– Eu quero acreditar nas tuas palavras, mas não posso crer que até quem veio do futuro possa saber mais do que o Senhor dos Segredos – o Babalaô falava com convicção. – Ifá diz que o desfecho da guerra é incerto, portanto vocês não podem saber, mesmo que tenham vindo do futuro.
– Nós sabemos, Babalaô.
– Então por quê vieram?
– Porque aquele homem, Akim, está interessado em contatar um dos “Igbá-imóles” e leva-lo consigo para o futuro, onde acredita poder mudar o seu destino. Nós estamos aqui para garantir que nada sairá errado e que ele não se aproximará desta aldeia.
– Então, vocês não sabem se aquele homem conseguirá impedir a Iniciação ou mudar o seu destino.
Franco pensou se aquela conversa estaria virando um jogo de palavras. Respirou fundo e afirmou:
– Akim não vencerá. Os “Igbá-imóles” serão derrotados, o imóle não irá para o futuro com ele e sua guerra
estará definitivamente perdida. Ifá não errou, apenas não viu mais adiante. Pense bem, Babala ô: se os “Igbáimóles” tivessem vencido ou Akim conseguisse levar o imóle consigo para o futuro, nós não poderíamos estar aqui.
E deu as costas ao Babalaô. Por sua vez, o sacerdote de Ifá mantinha-se firme em sua fé e disse a Chico Ferreiro:
– Se já fosse certo o resultado disso tudo, Ifá teria me contado.
– Mas foi o que aconteceu... acontecerá aqui – Ferreiro deu de ombros. – Eu vim do futuro e sei que os deuses vieram até nós e que a nossa religião prosperou, foi para terras distantes e lá plantou raízes.

O Babalaô não se convenceu, mas achou melhor encerrar a conversa antes que ouvisse novamente questionamentos a Ifá. Para ele não fazia sentido o oráculo não dar o resultado da guerra se já o é conhecido no futuro. Por sua vez, Ferreiro encontrou lógica no que o Babalaô disse. Se é certo de que os “Irún-imóles” vencerão e Akim será derrotado, o que faziam ali, se há pleno conhecimento do ocorrido?
– Quem te disse isso? – Franco abordou Ferreiro abruptamente.
– Mas eu não falei nada – disse Ferreiro, pensando se Franco conseguia ler seus pensamentos.
– Não, Ferreiro. Não li seus pensamentos. Apenas sei o que você irá dizer porque já foi dito. Saiba que nossa presença aqui é necessária porque fomos nós quem impedimos Akim.
– E fomos nós que derrotamos os “Igbá-imóles”?
– Não. Mas estávamos aqui quando isso aconteceu. Agora fique tranqüilo, pois a nossa presença é prova física de que o nosso futuro é uma certeza e não uma possibilidade.
Ciente de sua divindade tecnológica, fitou seu anel e resolveu conferir o futuro, desaparecendo diante dos olhos de Ferreiro e do Babalaô, que não ficaram menos surpresos do que Giácomo e Alves que não o viram manipular a Caixa.
– Ele foi muito rápido – observou Giácomo. – Nem vi quando passou o cartão.
– Estranho – corou Roberto Alves. – Eu também não vi.
Segundos depois, Franco reapareceu. Nenhum sinal de Caixa ou Cartão, conforme haviam observado os dois agentes, apenas o homem com passo vacilante e olhos sonolentos. Mal chegou e caiu sem sentidos, sendo socorrido por Roberto e Giá como que o puseram numa esteira. Não havia palavras, só o espanto.

No momento em que Tadeu entrou na cabana e viu a confusão instalada, Franco recuperou os sentidos, segurou Giácomo pelo braço e disse:
– Não tentem se deslocar para o futuro... é perigoso...
E desmaiou novamente. Ferreiro olhou para o Babalaô, que balançou a cabeça como se quisesse dizer: ‘Eu não falei?
* * *
Roberto Alves já viu muita coisa em seus anos na Empresa, mas nunca pensou estar diante de uma lenda, como bem lembrou Giácomo:
– Cadê a Caixa e o Cartão?
Revistaram-no. Nada.
– Há uma droga – disse Tadeu – que possui efeitos ainda desconhecidos, mas que age no cérebro e pode deslocar o corpo no tempo.
– Que droga? – Giácomo exaltou-se. – Como uma substância química poderia agir no CET? – E eu sei?
– Tadeu mal se continha. – Tem coisas na Empresa que eu mal consigo aceitar, quanto mais entender.
Alheio a discussão, Roberto segurou a mão esquerda de Franco e ficou observando o anel em forma de uma cobra mordendo o próprio rabo.
Não podia ser!
Assustado, ele soltou a mão que caiu sobre a barriga.
– Giácomo, Tadeu – Roberto chamou-os. – Já ouviram falar em deuses do Nível 6?
Ambos cruzaram olhares.
– Que deuses? – Giácomo franzia a testa.
– Tá maluco? – Tadeu estranhou. – Não há deuses coisa nenhuma!
– Olha, se tem uma coisa da qual eu não duvido é a existência de superburocratas em níveis acima do Cinco – disse Giácomo. – Eles usam uma tecnologia tão ímpar que outros os chamam de ‘deuses ’.
Tadeu olhou mais uma vez para Franco e indagou: – Tá querendo me dizer que este cara aqui é um Nível 6?
– Ainda duvida?
– Sei não. Fraga disse que esse mané é do Nível 5.
– Fraga mentiu.
Tadeu enumerou as mentiras que já ouviu na Empresa. Eram muitas e envolviam o próprio tecido da Realidade, num emaranhado de procedimentos que atrapalhavam mais do que agilizavam a entidade que deveria zelar pelo melhor dos tempos.

E isso era outra mentira.

* * *

Franco despertou, mas permaneceu deitado e de olhos fechados durante um bom tempo. Somente quando sentiu que estava sozinho que abriu-os e fitou o anel em seu anular: agora um mero ornamento inútil.
O problema dos ‘deuses’ tecnológicos é quando passam a acreditar que são mesmo portadores de algum dom divino por terem se arrogado senhores do Tempo.
Há muito tempo (Quanto? Nem ele era capaz de precisar qualquer coisa) ele era só mais um homem – e sabia disso.
Em sua Linha Temporal, a Palmares independente nem esperou pelo fim da Grande Guerra no início do século 20 para iniciar ela mesma sua pregação imperialista, justificando seu expansionismo numa suposta guerra de libertação da ‘raça negra’. Ele, um dos muitos jovens entorpecidos pelos discursos inflamados dos populistas palmarinos, pegou em armas e aguardou ansiosamente para desembarcar em praias africanas com o sonho quixotesco de varrer os impé rios coloniais da face da Terra.

Antes de embarcar, olhou para os parentes que foram até o porto para se despedirem do herói da família.
Diante de seus olhares – e das moças bonitas – ele ergueu o punho cerrado e bradou:
– “Ogum yiê”!
Em 1917, a imensa frota palmarina surgiu nas praias do Benin e foi ruidosamente saudada pelos
intelectuais africanos que viram naquilo um novo tempo (tempo, de novo).

Mas a verdade não estava nos discursos populistas. Os impérios coloniais, mesmo economicamente arruinados pelo esforço da Grande Guerra, dispunham de imensos contigentes militares bem armados e treinados que foram desviados para enfrentarem os palmarinos e seus voluntários africanos. Em 1919, Palmares estava em guerra com as nações mais poderosas da Terra.

Franco via com seus olhos ainda ingênuos, os ‘reis’ africanos, antigos negociantes de escravos com os brancos, que mudavam de lado pelo pavor que a incrível máquina de guerra dos impérios coloniais despertava em seus ‘tronos’ frágeis. Um a um, nobres guerreiros da Mãe África mudavam de lado e caçavam os remanescentes do orgulhoso exército palmarino, que contava com o apoio de uns poucos idealistas que ainda sonhavam com uma África livre e poderosa.
Foram despertados de seu sonho. Em um ano os palmarinos recuaram para poucas praças fortes ao longo da Costa da Guiné, constantemente assediadas, enquanto os líderes de Palmares assinavam tratados com os senhores coloniais e ensaiavam discursos para convencerem o povo de que aquela derrota foi em verdade uma vitória dos princípios da unidade negra.

Era tudo mentira. Palmares sonhou com um império no além-mar, nem que para isso sacrificasse uma geração inteira de jovens. Mentiram para os africanos ao posarem de libertadores quando o que queriam era somente aproveitar-se do caos na Europa para edificar seu próprio império. Mentiram para o seu próprio povo quando disseram que seus filhos marchavam para a vitória certa sobre um inimigo debilitado.

Enquanto os líderes palmarinos mentiam, ele estava em patrulha com mais dois soldados quando foram surpreendidos por uma patrulha dos coloniais. Após intenso tiroteio, ele estava caído no chão, baleado, cercado pelos cadá veres de seus companheiros e dos atacantes, mas ainda estava vivo. Por quanto tempo? (sempre, sempre, sempre tempo) Ele, tão jovem, deveria morrer naquela luta inglória, a tornar-se mais um índice na estatística dos populistas palmarinos? De repente, sentiu algo poderoso próximo de si. Virou o rosto para o lado, na esperança de ver alguém. Ninguém foi visto, mas sentia a presença poderosa que parecia ampará-lo.
– Pai?
Será que Ogum sente orgulho de ver seu filho chegando ao fim de modo tão honroso?
– Pai! – Num gesto de desespero e permitindo que rolassem as primeiras lágrimas, ele suplicou:
– Por favor, pai! Não me deixe morrer!
Findo o apelo, a presença foi-se afastando até desaparecer. Teria Ogum se decepcionado com ele? Será que o deus veio só para levar consigo seu filho guerreiro mas viu-se diante de apenas um homem temente da morte?
Nunca saberá.
Somente sabe que reuniu forças para erguer seu braço ensangüentado na direção da energia do deus e suplicou por sua vida mais uma vez. Vozes se fizeram ouvir:
– Tenente! Tenente! – mas que não vinham do além.

Então, surgiram dois soldados palmarinos. – Ainda bem que o senhor ergueu o braço, Tenente – um deles disse como se tivesse presenciado um milagre – caso contrário íamos passar direto.
O deus não era mais sentido lá. Fizesse o que tivesse feito, fez pela última vez e foi embora – para sempre.

Foi levado para um forte litorâneo e embarcado de volta para casa, com medalhas cinzas e frias pregadas no peito e, nos ombros, as divisas de Capitão. No caminho de volta, soube que Palmares assinou a paz com os impérios coloniais e abandonou à própria sorte os poucos que ainda a apoiavam a fim de manter vantajosos contratos comerciais com seus ex-inimigos. Apesar das honrarias e dos prêmios, ele voltou para casa sem nada: sem causa, sem ideologia, sem vitória, sem fé – sem seu pai Ogum.

Desde aquele dia ele se sentiu vazio, fútil e sozinho. Ficava perambulando pelas ruas da cidade por conta da pensão de ex-combatente em busca de prazeres carnais e diversões banais, sentindo-se no direito de ser um parasita enquanto novos discursos dos mesmos líderes pareciam preparar o mundo para uma nova tragédia.

Porém, num dia perdido no tempo, seres vindos de sabe-se lá quando e onde levaram-no para conhecer a Realidade por trás daquela ilusão que o assimilara – e nunca mais foi o mesmo.
Sem um deus, sentiu-se vazio o bastante para preencher seu ser com conhecimentos de tecnologia e ficar transitando entre todas as Eras, acima dos homens. A causa pela libertação da África ficou para trás e conheceu o Contínuo Espaço-Temporal, com todo emaranhado de possibilidades que poderiam se desdobrar. Viu mundos possíveis e desfechos prováveis de Linhas Temporais que variavam entre si num dado momento do tempo – e eram esses momentos que deveria proteger. Ele não teria mais causa, ideologia, lutas ou fé, mas ainda sobreviveria com o objetivo de preservar o que convencionou-se chamar de Intempol – e só.

O problema era que não havia nada. Como um paradoxo da tecnologia que chegou a acreditar ser infalível, ele retornou do futuro encontrou o vazio.

Continua

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